Arquivo do mês: dezembro 2008

FELIZ TUDO SEMPRE

Esse blog agradece todas as visitas, todos os leitores, todos os diálogos e só volta o ano que vem.
Feliz Natal e Um Ano Novo excelente!

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QUERO VOLTAR A DANÇAR

Será que na nova desordem mundial poderemos dançar felizes? Sem precisar posar para o site de sub-celebridades? Sem substituir as amizades pelo hype? Sem medo.
Será que na nova desordem mundial os artistas deixarão a covardia de lado, os estilistas deixarão que “until the spirit new sensation takes hold, then you know, I’ve got the spirit”…
Tudo o que não quero é deixar de dançar, mesmo que cair no chão, eu quero voltar a dançar e nunca perder a sensibilidade.

Mesmo que isso seja cosmética:

MELHORES MOMENTOS DA VIADAGEM

Abaixo publico minha coluna na Folha. Já recebi inúmeras cartas dizendo que fui preconceituoso, que ofendi os são-paulinos – veja bem, eu tenho orgulho de ser bicha, então pra mim falar que algo é muito gay não é ofensa. Mesmo a piada – antiga das rixas de torcidas – sendo politicamente incorreta, eu sei, o fato de ser um gay que a está contando torna tudo mais complexo e paradoxal [sabe aquele lance que ninguém conta melhor piada de judeu que os próprios judeus]. Também reclamaram que eu defendo as quá quás em detrimento das não efeminadas, bom isso é verdade. E por fim, que fui cruel com Ronaldo Esper. Será?
Tirem suas próprias conclusões:

O ano acaba e sempre começa aquelas restropectivas de 2008. Para mim a política se realiza no dia-a-dia, na tentativa mais de sair do senso comum do que sair do armário. Por isso fiz uma lista pessoal do que considerei siginificativo para nós, viados, em 2008:
– O estilista Ronaldo Ésper, hoje gay assumido (êta termo cafona!) tira a roupa em duas festas da noite de São Paulo. Ao vivo é aplaudido, quando suas fotos se espalham pela internet ele é literalmente linchado pois além de cacura, digamos que ele não tem o shape apolínio. Numa época que a ditadura do corpo malhado impera, ele fez sua pequena revolução.
– O não-gay Caetano Veloso declarou ao apoiar Obama que prefere “negros a mulheres” (uma verdade para os gays no sentido sexual). Porém disse que a frase não tinha conotação de sexo. Mas a gente te entende, afinal já vimos você gritar: “Eu sou neguinha” muitas vezes.
– O ator Cláudio Heinrich interpreta um gay afetado em “Os Mutantes”, a nova mais trash e brasileira da tv. Seu personagem Danilo é belo mas quá quá de tudo. Um oásis nesse pântano de bichas normativas que assolam as nossas novelas. Eu digo: Digna, Danilinho!
– A pichadora Caroline Sustos continua presa e muita bicha disse que estava certo porque era a lei. Bom, então temos que concordar quando prendem homossexuais no Irã porque lá isso é crime. Lei e senso comum se discutem.
– O jogador Ronaldo foi pego com 3 travestis em motel e declarou que não era gay. Não é mesmo, quem já viu gay transar com travesti? Além do mais ele foi contratado pelo Corinthians e não pelo São Paulo.
Boas festas!

PENSAMENTO FRACO DE DOMINGO

Será que se eu fosse a Luona Piovanni do Quênia, eu seria uma girafa e poderia ver melhor o show da Mandonna?

LIBERDADE LIBERDADE

A pixadora Caroline Pivetta da Mota será solta hoje, sexta-feira, depois de uma ampla pressão do Ministro da Cultura, Juca Ferreira, do Ministro Paulo Vannuchi, da secretaria especial de Direitos Humanos, de artistas de diversas áreas e parte da sociedade civil que se mobilizou contra um certo obscurantismo que sempre se forma em nome da legalidade, da justiça e da ordem. Eu, particularmente fico muitíssimo feliz.
Ao mesmo tempo, me deixou inquieto esse nosso pequeníssimo caso Dreyfus [a acusação injusta de um militar judeu no século 19, defendida por anti-semitas e que provocou uma revolta de intelectuais e artistas a favor de Alfred Dreyfus pois sabiam que algo estava oculto nessa vontade de condenação: O ódio pelos judeus].
Pessoas amigas e desconhecidos se voltaram com certa violência contra a defesa da legalidade do ato da pixadora. Basta ler o comentários que ocorreram no rraurl ( logo após a pixação na bienal e depois comentando do abaixo-assinado), no 02 neurônio (com o texto chamado “Carol, a menina pixadora” no dia 07/11/2008), no Uol com os excelentes textos de Rodrigo Bertolotto e for fim, no Repique com minha entrevista a Paula Guedes para o post “Abaixo assinado pró-pichadora da Bienal” de 17/12/2008 e é claro veio respingar aqui no blog.
Comentários que a chamam de “vagabunda”, “pilantra”. “galinha”, “depredadora”, que “deve apodrecer na cadeia”, “merece levar um pau”, “no tempo da Rota isso não aconteceria”, “queria que pichassem o seu muro pra ver se você gosta” revelou a face monstruosa dessa mesma sociedade que silenciou-se perante a tortura e defendeu o golpe militar, que elegeu Collor porque Lula roubaria as suas casas e com certeza falta muito pouco pra achar corretíssimo a pena de morte. Não à toa artistas que passaram pelo regime militar como Zé Celso declararam em jornal o caso da pixadora como “coisa de AI-5” .
Muitas vezes esses comentários nefastos vieram de pessoas que têm uma certa formação escolar, tomam uma droguinha no final de semana, lêem livros, vão ao cinema, transam sem camisinha… Aí me pergunto, pra que tanto ódio, tanta violência desproporcional contra uma literalmente pobre pixadora? Que significado ela tem para todas essas pessoas que nem a conhecem e que mesmo que se consideram o pixo um crime, será ele tão mais grave do que dirigir alcoolizado? O quanto ela [a pixação] pode matar, destruir vidas, nos violentar?
Na realidade, Caroline e os pixadores têm o mesmo significado que tiveram os judeus no caso Dreyfus, ou a esquerda (os comunistas e anarquistas) em outro caso de injustiça – Sacco-Vanzetti: Bode expiatório!
Existe uma relação direta de classe e sexo pois no nosso país o espaço público ficou restrito aos pobres, os ricos e a classe média se fecharam em muralhas de todos os tipos. Existe uma guerra silenciosa sendo travado todos os dias. E numa sociedade que cultiva a culpa [nos outros, como exercício ruim de tranferência], alguém tem que tê-la. Então que os culpados sejam os pixadores, esses analfabetos que emporcalham a nossa vida, que escrevem errado tanto quando muitos universitários, mas tem a coragem de expor o erro nesse exercício de autoafirmação caligráfica. Alguém tem que levar a culpa! Que seja esses vândalos audaciosos que não se contentam em ficar vendo tv em sua vila de periferia. Alguém tem que levar a culpa!
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Nos momentos de crise é bom retornar aos clássicos e fui direto a uma das minhas teóricas políticas preferidas junto com Maquiavel, Hannah Arendt [estudiosa dos regimes totalitários e da banalidade do mal] que sempre nos alerta: No murmúrio da multidão, a consciência adormece. [frase de ensaio de Luciene Félix]
Sem a consciência alerta, a bárbarie revestida de palavras como patrimônio público, cidadania, lei tomam formas sinistras. O sono da razão é perigoso, por isso estar atento é fundamental. O mais engraçado que a defesa começou fora do mundo das artes plásticas. Começou na moda com a jornalista Vivian Whiteman prevendo o que seria essa Bienal: Bienal do Pixo e Bienal do Pixo parte 2 (os posts estão bem no fim da página) foi escrito dois dias depois do evento ocorrido. As artes ainda dormiam, até que AVAF abriu exposição da Triângulo e se declararam totalmente a favor da pixação. Aos poucos a Cinderela foi acordando de seu sonho e percebendo que algo estava em grave perigo: o próprio conceito de arte contemporânea [onde a vida e com ela o pixo podem ser abarcada] e muitos artistas preferiram a ética a vassalagem e colocaram a boca no trombone (Artur Matuck, Mauricio Dias…). Rolou abaixo-assinado instigado por Nina Lemos, Xico Sá e Kiki Mazzuchelli e o assunto foi ganhando dimensão entre artistas de todas as áreas já que também estava em jogo a chamada liberdade [de expressão]. Até que veio o texto primordial de um dos poucos curadores de arte contemporânea que eu respeito: Paulo Herkenhoff.
Seu texto preciso dizia: “Caroline Pivetta da Mota passou o dia de comemoração dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos numa cadeia. Isso não denigre a Bienal, nem São Paulo, nem o Brasil. Isso denigre a humanidade”. A razão está finalmente atenta.
E muitos textos sobre o caso como o da Carta Capital, do Fernando de Barros e Silva começaram a fazer voz dissonante em bom som aos que queria que “a pilantra mofasse na cadeia”.
O mais engraçado é que essas mesmas pessoas que proclamam a cidadania, o patrimônio, o respeito à obra do outro invadiram o abaixo assinado a favor da liberação da pixadora com as mesmas palavras de baixo calão, de desrepeito que eles tanto se sentem ofendidos ao ver uma pixação. Ora, eu não me importo que se expressem, mas se querem tanto a dignidade, a preservação do patrimônio do outro não é muito contraditório invadir um abaixo assinado que é contrário aos seus ideais? Porque não criam o deles para que ela permaneça presa? Vivemos numa democracia mas nessa atitude nebulosa Hannah Arendt volta novamente a nos explicar do que se trata:
“O protofascismo busca forjar o consenso explorando o medo e a angústia das pessoas. O ambiente de trabalho, por exemplo, é lugar escolhido por esse estilo político para gerar intrigas, divisões, perseguições, queimar ou gelar os supostos adversários”.
Bom, o que importa é que ela estará solta hoje e o documento [abaixo assinado] seguirá para os lugares indicados como forma de registro e para o advogado da pixadora. Mas o que realmente impressionou a todos os que participaram do abaixo assinado foi a pequena quantidade de artistas plásticos jovens [principalmente aqui de São Paulo, vulgo os faapers] que participaram – a vassalagem disfarçada de atitude cool superior que aliás dominou não só eles, mas muitos que prefiriram ficar em suas confortáveis cadeiras olhando com uma superioridade imbecil o que eles achavam que seria rasteiro e pueril: Um simpels abaixo assinado. Eles preferiram se omitir. Pra esses mais um pouco de Hannah Arendt:
“Os grandes males da humanidade e as maiores atrocidades foram causados justamente por esse esvaziamento do espaço público, o espaço que a coletividade deveria ocupar, em que deveria exercer o Poder (participação pró-ativa). Quando não ocupa este espaço, participa negativamente (omissão)”.
A vigília da razão.

PS: Muitos blogs, sites, ações individuais colaboraram pra soltura da pixadora. Seria bem bom fazer desse post também um arquivo com links de matérias que ajudaram alguém que estava sendo tremendamente injustiçada.

MADONNA NA CADEIA?

Será que a Madonna deveria apodrecer na cadeia pelo seu vandalismo? Pixar um carro é boderline demais para alguns, mas ela era amiga nessa época do Keith Haring, sabia do que acontecia nas ruas de sua Nova York e traduzia tudo numa baianice deliciosa, pra mim a fase que mais amo dela.

ADORO O PERIGO

Las Bibas from Vizcaya são mais que um orgulho gay, elas levam orgulho pras bichas quá quá, essas que são estranhas ao padrão normativo e quando sofrem a evolução pokemoniana viram as nossas queridas fashionistas. Amo muito!