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ELEGÂNCIA E ORIGINALIDADE

Minha amiga Sueli quando escrevi sobre elegância me abriu os olhos e me deu uma dica preciosa, ela escreveu:

“Aproveitando a oportunidade aberta pelo tema elegância e individualidade, que eu concordo plenamente, eu gostaria de entender um pouco mais sobre o papel da originalidade na combinação elegância & individualidade. Você acha que seria pertinente considerar a originalidade como um resultado, talvez, de uma atitude individual que foca na elegância? Ou será que seria o contrário?”

Voltando ao pai dos burros, lá encontro:

Originalidade S.f. Qualidade ou caráter de original

Original Adj. 1. Relativo a origem. 2. Que provém da origem; inicial, primordial, primitivo, originário. 3. Que não ocorreu nem existiu antes, inédito, novo. 4. Que foi feito pela primeira vez, em primeiro lugar, sem ser copiado de nenhum modelo. 5. Que tem caráter próprio; que não procura imitar nem seguir ninguém. 6. Que por seus caracteres peculiares, singulares, chega a ponto de tornar-se bizarro, extravagante.

E no Dicionário de latim:

Originale, a palavra na língua mãe para original está relacionado com o verbo orire que siginifica levantar-se, lançar-se para fora de, nascer, tirar sua origem de, originar-se, começar.

A originalidade é produto do levante da individualidade, quando ela se lança pra fora, quando nasce, impõe seu cárater. A verdadeira individualidade sempre carrega um grau de originalidade. Então pensando na pergunta da Sueli, acredito que é do encontro da originalidade com a individualidade que se origina a elegância.


Mona Lisa: uma elegante por seu sorriso original e individual que só a ela pertence

A ELEGÂNCIA

Como a mítica Eldorado, o tesouro escondido das amazonas, a definição de elegância é uma relíquia perseguida e almejada por muitos fashionistas. A Cris da Oficina de Estilo escreveu um texto que me fez pensar muito sobre o assunto. aliás sua premissa é toda a razão desse texto. Ela começa dizendo: “Ô palavrinha difícil de definir, né!?! Fica muito mais fácil citar pessoas elegantes, exemplificar com imagens, descrever um ícone. E o mais difícil é explicar a ideia de que elegância não depende só da roupa que se usa, mas está mais relacionado a atitude!!!”.
Em recente entrevista que fiz com o estilista Alessandro Sartori da Z Zegna, ele diz que a linha entre ser ou não ser elegante é quase imperceptível e está no sujeito saber atravessar essa fronteirae que para isso é preciso auto-conhecimento.
Já a Vivi Whitman, no blog Última Moda, escrevendo sobre estilo também pede atenção para o realmente importa: a elegância. Ela escreveu sugerindo: “que tal começar substituindo o estilo pela elegância? Ai, que saudades da elegância. Ela, para começar, não se compra. Depende do gesto, do pensamento”.
Percebemos que existe uma ação do sujeito (atravessar a fronteira da elegância), e muito dessa ação poderia ser de cunho “espiritual” pois dependia mais do impalpável (gesto e pensamento) do que de algo material (a compra). Mas ainda parece que a ideia de elegância não se fecha.
A primeira resolução foi correr ao dicionário. Lá encontrei:

Elegância [vem do latim elegantia] S.f. 1 . Distinção e porte, de maneiras; donaire. 2. Graça, encanto, garbo. 3. Gosto; bom gosto. 4. Gentileza, finura, amabilidade. 5. Delicadeza de expressão; cortesia. 6. Apuro, correção, graça. 7. Proporção adequada entre os elementos de uma composição artística; harmonia.

Essas definições parecem não ajudar muito, então fui mais fundo na raiz do problema, no Dicionário de Latim encontra-se as seguintes definições:

Elegantia ou elegantae quer dizer s.f 1) Escolha, bom gosto, elegância, distinção. 2) Correção, clareza.
Seu advérbio êlegânter quer dizer: Com escolha, com bom gosto, com distinção.
E o adjetivo êlêgans, êlêgantis se refere a 1) Que sabe escolher, de bom gosto, distinto 2. Seleto, bem escolhido, fora do comum, elegante, esmerado, apurado 3) Castigado, correto, puro (tratando-se do estilo).

A palavra chave é escolha. A elegância consegue-se com a ação do sujeito de fazer escolhas com clareza e correção para si. Para isso é preciso distinção, ser distinto dos outros, ser indivíduo, portanto longe do senso e do lugar comum.
As dúvidas na escolha, em sentido amplo, significa fraqueza de elegância, pois se você se conhece você sabe o que escolher. Essa também é a fronteira da distorção do auto-conhecimento para o que Regina Guerreiro chama de “auto-ajuda fashion” e sua regras para o que é certo ou errado na moda. “Sou contra qualquer corrente que dita o que você deve usar com quê. Para mim não existe regra, não existe certo ou errado, nem na moda nem na vida. Gostoso é a emoção de experimentar. É melhor errar catastroficamente do que nem tentar”, diz a grande editora de moda no Caderno Ela.
A elegância, talvez a alma da moda, deve pairar acima de um certo e errado generalizado e sim ser parte do pensamento do que é certo ou errado para cada um. Individualidade, daí nasce a elegância.

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Dois ícones da moda em seus respectivos tempos, a Rainha Vitória da Inglaterra e Audrey Hepburn adotaram o preto. A confusão reside em acreditar que a cor preta é sinal de elegância. Elegante foi como elas escolheram a cor para representar os seus sentimentos, a sua alma. Uma para mostrar o luto fechado e a tristeza da morte de seu grande amor [por mais que versões invalidem essa ideia de que o príncipe Alberto de Saxe-Coburgo-Gota foi seu grande amor, foi a imagem que ficou no imaginário] e a outra para mostrar a rebeldia de um novo tempo que surgia no final da década de 50. A elegância está na escolha que você se faz.
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FALANDO EM ELEGÂNCIA…

Nada como o despojamento do grande e genial Miles Davis, em dois momentos:

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um estilo que parte da música, invade suas roupas e se estende na elegância do gesto.

O SOBRETUDO

Falando de brechós e vintage, acabei me lembrando de uma história que aconteceu comigo.
Nos idos anos 80, eu tinha um sobretudo de lã preto que comprei em um brechó e simplesmente era um sucesso. Todo mundo, até no Satã, o templo do sobretudo preto na época, elogiava meu sobretudo. Era incrível como ao colocar aquele sobretudo preto, me tornava uma pessoa automaticamente elegante. Aliás, até hoje os casacos 7/8 e sobretudos causam furor aqui no Brasil, acredito que devido ao pouco uso que fazemos deles, mas enfim… Continuando, foi que no final dessa mesma década ganhei meu presente de Cinderela, meu sapatinho de cristal[ou rubi], o sonho de toda uma geração: uma viagem a Londres, a cidade do sobretudo preto [pelo menos no meu imaginário].
Naquela época não era uma coisa simples assim viagens internacionais, tudo bem, que já tinha avião. Mas notícias de deportação de estrangeiros do 3º Mundo (é, na época a gente nem do G-12 era, mas isso não muda a perspectiva de achar que ainda estou no 3º Mundo), de desconfiança por parte da imigração me fizeram pagar um curso de inglês meio caro pra mim na época e meio a contragosto. Bom, essa política de portas fechadas não mudou nada, aliás piorou.
Também não se ia direto para Londres, quer dizer, gente classe média como eu pagava mais barato indo até Barajas, em Madrid [esse lance de Bruxelas é muito anos 90]. Ali era a primeira fronteira, você podia {pode] ficar por ali como tinha acontecido com um grande amigo meu [por isso o curso de inglês, por isso o Europass de trem, por isso um gasto absurdo… pra conhecer uma cidade como turista].
Ufa, passei sem problemas, disse que ia pra Londres e eles, acho, pensaram que a duana de lá me colocaria nos eixos se estivesse tentando entrar como imigrante ilegal.
Lembro de pegar um trem e ir direto para Paris para passar o fim de semana na casa de uns amigos em Paris. Lembro de ver a neve e pensar em Mario de Andrade (aquele lance de “ela é branca como a neve, eu não gosto dela, eu não gosto da neve”). Lembro da vergonha de ver que os telefones em Paris eram a maioria de cartão e aqui ainda eram com umas fichas bisonhas [a vergonha foi que fiquei procurando fichas durante um tempão sem entender que isso não existia lá].
Passado, nos dois sentidos, o meu primeiro fim de semana em Paris, parto para a meca da modernidade: Londres. É inverno, e como todos dizem que temos que nos apresentar bem vestidos na imigração, visto meu sobretudo.
Na imigração, eles não param de me fazer pergunta. Mostro o curso, mostro o lugar que iria ficar [falso, fiz reservas em um hotel, mas iria ficar na casa de amigos]. Eles olham muito desconfiados pra mim e eu sem entender muito. Depois de um bom tempo em Dover, eles me liberam, me dão um mês de visto, o normal eram 6 meses. Fico intrigado pelo tratamento, além de achar absurdo todos esses mecanismos e esse jogo para entrar em um país [e de ter aceitado esse jogo], me sinto diminuído.
Chego na casa dos meus amigos, meio desapontado, conto que fui super questionado e que não entendia o porquê, afinal fiz tudo direitinho. No segundo dia, passeando pela cidade, vejo que meu sobretudo é idêntico ao de muitos mendigos. Parece ser essa a resposta do meu tempo na duana que se confirma com uma história idêntica de Antonio, um querido amigo que morou anos em Berlim na época do muro e hoje é livreiro. Eu me apresentei como mendigo para as autoridades da imigração, apesar de jurar que vestia um glamouroso look de algum filme mudo dos anos 20.
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Penso nas diferenças culturais, penso nas diferenças sociais, penso na hierarquia dos gostos e penso principalmente que o que é elegante pra uns não é pra outros.