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CASA-GRANDE & SENZALA

As finas observações de Alcino Neto são sempre grandes mudanças de perspectiva. Alguns anos atrás, ao visitar, no Rio, uma exposição que não me recordo o nome, mas versava sobre as roupas do Brasil antigo, ele comentou comigo algo assim: “É muito interessante perceber como a moda brasileira se divide desde os seus primórdios entre a moda feita na imagem da Casa-Grande e a que é feita na Senzala. Pense em Reinaldo Lourenço e Gloria Coelho e eles são da Casa-Grande, pense na Neon, na Amapô e eles são da Senzala. Pense em Clodovil e Dener e eles fazem parte da Casa-Grande, já Zuzu Angel é Senzala”.

Longe de qualquer maniqueísmo e esquematismo radicais e mais longe ainda dessa observação parecer pejorativa para ambos os lados, ela desenha muito da mentalidade brasileira: uma que se liga com a exuberância da ancestralidade européia e outra que se desnuda na ancestralidade africana. Existe um nome em astrologia que gsoto muito e serve para o que acabei de descrever: oposto complementares. Uma se preenche com a outra e ao mesmo tempo se opõe.

Durante muitas vezes pedi para Alcino escrever sobre esse pensamento que muito me persegue e conversando com Fernanda, da Oficina de Estilo e contando dessa visão teleológica de uma moda feita no Brasil – não sei se o termo moda brasileira é pertinente -, ela me pediu para eu continuar a reflexão do Alcino, ou pelo menos colocá-la no blog.

Ao mesmo tempo, acabei de ler uma entrevista do artista plástico Nuno Ramos que veio alargar o conceito iniciado por Alcino:

Tassinari fala de duas tradições do pensamento brasileiro. De um lado, Euclydes da Cunha, Oswald de Andrade, Gilberto Freyre, Nelson Rodrigues, Guimarães Rosa, Zé Celso, Glauber Rocha e Hélio Oiticica; do outro, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Niemeyer, concretos, João Cabral, bossa nova, tropicalismo. No meio: Carlos Drummond de Andrade. E afirma que você opera esteticamente nos dois campos. Concorda?

NUNO RAMOS – Drummond é a coisa mais livre que o Brasil produziu, o artista que topou olhar para este patrimônio peculiar brasileiro: o da indecisão constitutiva entre o moderno e o atraso, entre o gentil e o violento. Drummond descreveu esses dois polos contrários como irmãos gêmeos, amarrados, desencapando os dois fios e fazendo ligação direta entre eles. Dos dois outros lados, me identifico com o primeiro, talvez, pela estridência estilística, mas principalmente com o segundo, o lado Goeldi-Bandeira-Nelson Cavaquinho, que escapa desse nasce-morre drummondiano e mergulha direto na derrisão nacional. Fico pulando de um lado para o outro.

Apesar das questões complexas nessa separação, podemos identificar o primeiro grupo citado na pergunta com a Senzala – fazendo certas concessões – e o segundo com a Casa-Grande. Mas existe um terceiro grupo – que na opinião ideologizada de Nuno é de suma e maior importância e na minha opinião do mesmo porte ideologizada considero que é da mesma importância e medida que os outros:

São as mucamas, os negros que frequentavam a Casa-Grande e que faziam o trânsito entre a Casa-Grande e a Senzala. Nesse grupo penso muito em Alexandre Herchcovitch, Lino Villaventura, Samuel Cirnansck.

Sim, ainda aparentemente esquemático, pensar nessas 3 moradas da moda feita no Brasil e o pensamento que rodeia cada uma delas, facilita o entendimento que o crítico e o apreciador de moda possa ter sobre as coleções, dos seus limites e das suas rupturas. Mas isso é assunto para o próximo post.

PS: Ainda fazendo esse exercício podemos pensar também na nossa moda praia: Lenny é Casa-Grande, Salinas é Senzala e Blue Man está entre as mucamas e assim vai…

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“GÊNIAS” FERNANDA E CRIS


Quem me conhece sabe do amor e carinho que tenho por Cris e Fernanda da Oficina de Estilo. A troca, os diálogos, o respeito que temos reciprocamente fazem me sentir confortável no mundo da moda. Me sinto muito seguro de tê-las como amigas. Elas me instigam a pensar, a refletir e a viver para além da moda. E eu precisava manifestar isso publicamente. Amo vocês!

Tomo a liberdade de reproduzir dois textos que são muito fundamentais pra entender um pouco a alma de cada uma delas. Fernanda escreveu esse texto, “Sobre Prioridades”, que é uma excelente reflexão para termos sempre em relação a moda:

Importante é ter pai e mãe com saúde. Importante é ter avô e avó vivos. Importante é se dar bem com irmãos, ter um grupo bom de amigos, ter em quem confiar até de olho fechado. Importante é estar com as contas em dia e poder planejar a vida. Importante é sentir frio na barriga e olho brilhando por alguém em especial. Importante é amar tudo e todo mundo de coração aberto, saber enxergar as coisas boas da vida, sentir gratidão. Moda é muito legal, mas não é tão importante. O mundo da moda também pode ser muuuuito legal, mas é menos importante ainda. O que se veste não é tão importante, em que fila se senta não é tão importante, em que veículo se escreve não é tão importante. É só trabalho. E é muito fácil se deixar envolver e confundir esses valores, especialmente num trabalho como o dessa semana. Que a semana de moda é o máximo, mas não é tão importante quanto ser educado, quanto sentir e demonstrar respeito, quanto ser gentil ou ter carinho/cuidado com que tá em volta. É só tra-ba-lho. E tem tanta coisa mais importante merecendo mais atenção e dedicação de energia, não?

E aqui um texto da Cris, chamado “Na Intimidade” com conexões muitos interessantes dignas de um ensaísta:

Quando a gente procura no dicionário o significado de “íntimo” os resultados são: muito de dentro, profundo; da alma, do coração; doméstico, familiar; vestido diretamente sobre a pele, sob outra roupa: roupa íntima. Ou seja nem o Aurélio consegue desligar a intimidade da roupa que a gente veste!!!
Acontece que estamos vivendo um momento de muita intimidade com as outras pessoas! Por conta de blogs pessoais, reality shows e twitters da vida virou normal a gente saber quando alguém está passeando com o cahorro, ver alguém tomar banho, saber o que esse alguém pensa sobre a manchete do jornal do dia. Embora a gente cada vez se relacione menos com as pessoas no “plano material” – embora a gente sinta que está acontecendo um contra-movimento – a gente está cada vez mais íntimo no “plano digital”. Não é!?!
E se moda é refelexo de comportamento, é materialização de como a gente está pensando/sentindo/agindo num determinado momento, não tem como não percebermos a “intimização” das roupas!!! É quando a roupa íntima se revela, o que deveria estar por baixo escapa ou acaba “vindo pra cima”… Foi Miuccia Prada (quem mais?) que na sua coleção primavera/verão 2009 fez as mulheres repensarem o uso do sutiã: em alguns looks virou top por baixo de casaquinhos, em outros virou a estrutura de uma blusa, em outros eram a blusa em si!!! Foi ela também quem ressucitou a renda, lembra!?!
Renda tem esse aspecto lingerie, tem a transparência que revela o que deveria estar coberto. Por isso é sexy, por isso é intimista. Mesmo essa vontade que a gente tem tido de usar meia-calça decorada, texturizada, tem um clima meio “boudoir”. E a cinta liga aparecer no defile primavera/verão 2009 da Triton e no desfile da Dior de alta costura (depois, hein!?!) não é coincidência, né, gente!?! É um mood!!!
Nem precisa pensar só em desfiles… a Raia de Goeye vende os sutiãs que vão aparecer por baixo dos seus tops decotados, a Isabela Capeto tem nessa coleção uma camiseta que já vem com o sutiã-que-aparece preso nela (uma graça!!!) e a Les Lis Blanc sugere que a rendinha da underwear apareça no decote da regatinha básica e do coletinho jeans.
Essa da alcinha do sutiã ficar de fora é só uma das ideias que a gente pode ter quando pensa em lingerie como roupa. Camisetas em algodão bem fininho, quase transparentes ou regatas podrinhas podem ser sobrepostas a sutiãs coloridos e estampados – é lógico que não dá certo pra guarda-roupa profissional, mas fica uma graça na hora de relaxar no fim de semana ou na hora dese divertir na balada. Pedacinhos de renda também são super femininos e entram bem no clima. Sabe o que pode ficar beeeeeeem lindo? No lugar da camisa xadrez aparecer na barra da saia e do vestido, pode ser uma combinação com acabamento em rendinha. Que tal?

SUZY MENKES ENTRE NÓS E OS DOIS MAIS BELOS POSTS DA TEMPORADA

As jornalistas estavam tão na “loucurinhas” que nem notaram a famosa presença de Suzy Menkes na sala de imprensa e seu inseparável laptop.

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Ahahahahah! Essa é a Brisa, querida, bem mais jovem, mais bela e simpática que Menkes, mas já cultivando um topetinho à la editora do International Herald Tribune. Ela tem um blog só de tatoos e eu até mostrei a minha.

Mas o que me tatuou de verdade nessa temporada foram dois posts que explicitaram posições que eu acredito e tento cultivar no meio de moda.

Fernanda Resende escreveu sobre as verdadeiras prioridades
, que todo o circo armado da moda pode nos fazer esquecer.
E Jana Rosa fez as imagens mais lindas de uma verdadeira afetividade fashion, que muitos dizem não acreditar, mas está lá.
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Nina e eu