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AINDA SOBRE A ROUPA DO PODER – UM PAPO ENTRE MARIO MENDES E WALTER RODRIGUES


Uma excelente surpresa foi a volta de Mario Mendes ao mundo da moda. Fazendo vídeos curtos com ideias rápidas e espertas, ele é uma das brisas boas na sempre deslumbrada “crítica” de moda do país, que muitas vezes faz o papel de release mais do que crítica.
Outra excelente surpresa foi ele ter feito um vídeo só com Walter Rodrigues. Percebo agora que entre muitos estilistas do país que admiro, nunca escrevi no blog sobre Walter – isso é uma falta grande. Mas minha admiração por ele só cresceu com os anos. Já entrevistei a maioria dos designers de moda do Brasil, e uma coisa que muitas vezes se torna muito evidente é como o discurso do estilista está muito distante da roupa por ele – ou sua equipe – criada. Com Walter sempre o seu discurso veste-se com sua roupa perfeitamente.
Isso pode ficar claro quando Mario fala de algo monástico na última coleção do estilista e o próprio Walter cita Balenciaga falando sobre excessos.
Nesse sentido Walter está mais para Ana do que para Dilma.
Vale muito ver e perceber como Lula e Dona Marisa entenderam o seu papel usando Ricardo Almeida e o próprio Walter na posse. Ficaadica:

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A TRAGÉDIA E A ALEGRIA

Há pouco menos de um mês, Nina Lemos escreveu:”Todo mundo está sempre para cima. Ficar para baixo pega mal. E, se você é um telespectador, ainda olha para Hebe sorrindo, apesar de tantos problemas, e se sente um pouquinho pior porque você, ao contrário da diva da TV, sofre. E se sente menos forte que ela. É que nem todo mundo consegue ser alegre o tempo inteiro…”
Conversando com Nina sobre esse texto, ela me disse que estava achando muito estranho todos estarem tão felizes o tempo todo. Não que ela fosse contra a felicidade ou o estado de felicidade dos outros, mas havia algum desarranjo nessa alegria que ela estava sentindo. Tinha algo programado ou oficialesco.

Esse texto, ela escreveu em 30 de dezembro de 2010. No dia 14 de janeiro desse ano, Vivian Whiteman e Pedro Diniz escrevem um texto que parece comprovar esse sentimento de Nina. Em “Rio quer exportar ‘felicidade’ em pacote”, a editora de moda e o repórter da Folha de São Paulo colocam em pauta o projeto da indústria têxtil de “vender a alma carioca”.
“‘Vamos mostrar como aplicar a felicidade, no sentido de valor agregado, em produtos de moda’, diz [Rafael Cervone] Netto, [gestor do Texbrasil]. Nesse pacotão feliz estão conceitos variados, do bom humor à biodiversidade. […] Para os organizadores nem mesmo as tragédias, a violência e a pobreza ofuscam o projeto. ‘O brasileiro é feito da luta entre contrastes, mas nossa alegria se sobrepõe aos problemas’, filosofa Fernando Pimentel, diretor da Abit”.

Existe uma visão vitoriosa no Brasil que nos trata como um povo alegre por excelência. E muitas vezes acreditamos nesse mito criado na década de 1930. Mas nem sempre foi assim como retrata o clássico de Paulo Prado, Retrato do Brasil: “Numa terra radiosa vive um povo triste. Legaram-lhe essa melancolia os descobridores que a revelaram ao mundo e a povoaram. O esplêndido dinamismo dessa gente rude obedecia a dois grandes impulsos que dominam toda a psicologia da descoberta e nunca foram geradores de alegria: a ambição do ouro e a sensualidade livre e infrene que, como culto, a Renascença fizera ressuscitar”.

Tentamos, nós brasileiros, vivenciar muito pouco a tristeza, é quase como uma obrigação estar sempre feliz. A mídia brasileira odeia a tristeza, a moda brasileira odeia a tristeza, os brasileiros odeiam a tristeza. Mas ela existe e é natural que de vez em quando dê as caras, não adianta empurrar pra debaixo do tapete. Ela faz parte do que é essencialmente humano e do que chamamos viver. Ela se faz necessária até para que possamos entender o que é felicidade.

Com esse buraco de formação e imaginário,a tragédia parece mais pesada quando acontece. E por um infeliz acaso aconteceu de modo tão terrível no mesmo lugar que a moda quer tanta felicidade, o Rio de Janeiro.
Me senti irmanado com Augustuzs Neto que escreveu no Facebook: “A gente brinca, faz uma frescura, encena um frege, tenta se distrair trabalhando/jardinando/ouvindo música mas a verdade é que a catástrofe que devastou a região serrana do RJ não me sai da cabeça.
É um turbilhão de imagens, relatos, sensações… uma noite, a passada, habitada por sonhos que me drenaram a energia”.

A tragédia se impôs! E a tristeza é inevitável.

Agora só nos resta solidariedade como Isaac me escreveu

Para ajudar as vítimas da enchente:

– A Cruz Vermelha aceita doações. Nesse site, você pode encontrar as informações necessárias para ajudar

A IMAGEM DA TEMPORADA

Para aqueles fashionistas que acreditam que é apenas lero-lero de uma parte da imprensa, deu no New York Magazine e a legenda dizia: Modelos trocam de roupa no backstage do São Paulo Fashion Week.

Abaixo reproduzo a matéria de Fernanda Mena para a Folha de São Paulo continuando o assunto da hipermagreza nas passarelas.

Evento tem poucas respostas para apelo

FERNANDA MENA
DA REPORTAGEM LOCAL

Dois dias após enviar uma carta alertando os principais atores da moda internacional sobre a hipermagreza atual das modelos, a organização da São Paulo Fashion Week obteve, por enquanto, poucas respostas de apoio.
O evento recebeu e-mails da revista “Vogue” francesa e do fotógrafo Nino Muñoz, um dos preferidos de Gisele Bündchen. A editora da “Vogue” americana, Anna Wintour, não escreveu diretamente à SPFW: encaminhou o alerta de Paulo Borges ao Conselho de Designers de Moda da América, que convidou o empresário para uma conferência sobre a saúde das modelos, em Nova York.
A carta da SPFW propõe um esforço conjunto para minimizar a onda de hipermagreza “e seus efeitos na indústria e na sociedade como um todo”.
Para Borges, diretor da SPFW, é preciso apoio internacional, já que as modelos passam a maior parte do ano trabalhando nos EUA e na Europa e importam de lá o padrão radical de magreza.
A “Vogue” americana seria a publicação mais influente para esse processo. É a única revista de moda de renome internacional que se recusa a publicar imagens de hipermagras. “Wintour já conseguiu acabar com a onda “heroin chic”, das modelos com cara de “junkie” nos anos 90″, diz Borges.
Há quem duvide do poder que vem de fora e ache que as mudanças devem começar no Brasil. “Paris não vai ajudar em nada. O Brasil tem força para resolver isso por aqui”, afirma o estilista Marcelo Sommer.
A crítica de moda Gloria Kalil discorda. “Esse tipo de ação precisa ser internacional. Nunca foi exigência brasileira ter varapau na passarela”, diz. “Para dar certo, tem que perseverar. Criar campanha de uma vez só é fogo de artifício.”
A SPFW criou em 2007 uma campanha de esclarecimento para modelos sobre problemas alimentares. Na mesma época, passou a exigir atestado de saúde das garotas. Por que, então, agora desfilam modelos com “magreza severa”, na classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS)? “Todas continuam apresentando atestado. Se não estão bem, temos de questionar o sistema de saúde do Brasil”, justifica Borges.
“O mercado todo tem de se reeducar. Se a magreza não entrar num desfile, mas continuar na publicidade e nos editoriais, não adianta nada”, diz André Hidalgo, diretor do evento Casa de Criadores.

Desconforto

Na SPFW, o assunto da magreza radical gerou desconforto. Equipes de TV dizem ter sido proibidas de entrar em alguns camarins para fazerem reportagens sobre o assunto. A assessoria de imprensa da SPFW nega que tenha havido restrições.
A organização do SPFW reteve a credencial de um fotógrafo da agência de notícias France Presse até que ele deletasse fotos feitas nos camarins dos desfiles, alegando que continham imagens de seminudez. A Folha viu as fotos e elas revelam, sobretudo, flagrantes da extrema magreza das modelos.
Borges destaca a responsabilidade da mídia. “A imprensa massacrou a modelo russa Karolina Kurkova em 2008, chamando-a de gorda. Fernanda Tavares até hoje sofre as consequências de uma reportagem de 2002 que falou de sua celulite. Foi cruel.”
No empurra-empurra do mundo fashion, quando assunto é magreza, a culpa parece ser sempre do vizinho. Entre o padrão esquálido das passarelas e a epidemia de obesidade fora dela, mais fácil dizer que os culpados somos todos nós.

DE JESUS LUZ A REGINA GUERREIRO – OS VÍDEOS QUE FIZ PARA O VIRGULA

Fiz alguns vídeos para o Virgula falando e abordando diversos assuntos. Quem se interessar, tem:

– o já clássico vídeo do Jesus Luz, digo clássico graças aos amigos blogueiros.

– o que existe de mais cafona no mundo da moda.

– bafo no backstage pra entrevistar Mariana Ximenes na Forum.

– conversa com Marília Campos Mello sobre moda masculina.

– o desfile masculino de Alexandre Herchcovitch.

– fashionistas falam a definição da temporada em uma tag.

– entrevista com a queridinha Regina Guerreiro.

A CASA


desfile Simone Nunes inverno 2010

Nessa temporada, o mobiliário físico e sentimental da casa: as franjas das toalhas, as mesas do passado, as correntes dos portões e das cortinas tiveram mais presentes do que nunca nas passarelas do São Paulo Fashion Week.

Em um momento complicado – estético e econômico – da moda nacional, alguns estilistas preferiram ficar em casa, outros preferiram sair dela e por fim, os que retornaram para suas casas (uns seguindo o velho ditado – “o filho pródigo à casa retorna”, isto é, aquele que saiu de casa, depois de ter usado e os recursos que seu pai lhe doou, mas teve que voltar pois ficou sem dinheiro – e outros por necessidade de um reencontro com suas raízes).

Nesse sentido Alexandre Herchcovitch fez um movimento duplo: no feminino saiu de sua casa, apresentando um luxo descomunal nunca visto em sua grife. Reinaldo Lourenço é do mesmo movimento, tentando – mesmo que tateando terreno arriscado – navegar pela espiritualidade. Ronaldo Fraga, Rosa Chá e Osklen também arriscaram e entraram em nova chave. Talvez isso tenha feito termos dificuldades de apreensão de algumas dessas coleções.

Voltando ao Herchcovitch, no masculino, ele fez um movimento inverso, depois de uma coleção sartorial no verão passado, afastada das raízes streetwear, ele retorna com força descomunal a sua antiga linguagem para o masculino: underground e com questões do diálogo masculino e feminino.

Neon e Gloria Coelho ficaram em suas próprias casas, trabalhando sobre o mesmo, na mais moderna estrutura da roupa hoje: quando ela é work in pregress, não acabada. eles trabalham sempre a mesma roupa como o bordado de Penélope da “Odisséia”, algo que nunca tem fim, se repetindo e se renovando aos poucos na repetição, o que no afã pelo “sempre novo” faça que compreendamos menos essas coleções ou as enxergamos como repetitivas.

Essa casa, que é a moda feita no Brasil, parece – com essa movimentação toda dentro dela – ganhar mais vida e diversidade. Mas seu segredos, ainda, nem às paredes confesso. Esse é nosso fado!

A HIPERMAGREZA NA MODA SEGUNDO A FOLHA DE SÃO PAULO

Hipermagreza domina passarelas da SPFW

FERNANDA MENA
NINA LEMOS
da Folha de S.Paulo

“Gente, o que é isso, essa menina está doente?” A frase, de um fashionista sentado na primeira fila de um desfile da SPFW, ilustra um espanto recorrente na atual edição do evento: as modelos estão mais magras do que nunca. Prova disso é que estilistas estão tendo dificuldades em montar seus “castings”, fazem ajustes de última hora e escolhem peças estratégicas que escondam os ossos saltados das modelos.

Na SPFW da magreza radical brilham modelos na faixa dos 18 anos, que têm índice de massa corporal, calculado pela Folha, igual ao de crianças de 9 anos. No mundo dos adultos, a Organização Mundial da Saúde chama esse índice de “magreza severa”.

A explicação vem da top Aline Weber, 21, que mora em Nova York e participou do filme “Direito de Amar”, de Tom Ford. “Três coleções atrás, no auge do pânico antianorexia, as pessoas pesavam as modelos no backstage para ver se elas estavam saudáveis. Agora, a poeira baixou. Se você engorda um pouco, todo mundo está ali pra te julgar. Se você emagrece, falam que você está linda.” Aline diz conhecer muitas meninas bulímicas e anoréxicas fora do Brasil. “As russas são as piores”, conta.

O stylist David Pollak identifica o padrão supermagro europeu como uma das causas da onda que atinge a atual edição da SPFW. “Muitas meninas estão trabalhando fora e por isso estão supermagras. Estão dentro do padrão de Paris, que é esquelético.”

A magreza radical fez com que ele tivesse dificuldades na hora de montar o “casting” da Cavalera. “A marca tem uma imagem mais adolescente, saudável. Por isso, peguei meninas que não são badaladas [leia-se, as que ainda não têm carreira internacional]. Outros stylists tiveram de fazer o improvável: dispensar meninas de suas seleções porque elas estavam magras demais.

A onda tem feito eles inverterem uma antiga lógica da moda: ao invés de avaliarem roupas ideais para esconder, por exemplo, um quadril mais largo, têm de descobrir os looks que vão ocultar um corpo esquálido. “As meninas muito magras causam problemas. Seus ossos apontam num vestido de seda mais fluido. Ou seus corpos, muito estreitos, deixam a proporção toda estranha”, avalia o stylist Maurício Ianês.

Muito café

O estilista Reinaldo Lourenço não só percebe a hipermagreza das modelos desta temporada como também conta que teve que fazer hora extra por conta do fenômeno. “Tive que fazer vários ajustes de última hora em roupas que ficaram largas nas meninas, o que me deu o maior trabalho”, diz. Segundo ele, isso acontece porque a atual safra de modelos é “muito jovem”.

Nos camarins, longe da mesa de salgadinhos e quitutes –relegada aos jornalistas–, modelos desfilam com copos de café. “Identifico as mais magras como a turma do cafezinho, já que elas passam o dia todo tomando café para não comer e ficarem ligadas”, diz Pollak. Em entrevistas, elas escondem o peso e as medidas. “Não sei quanto peso. Nunca subo na balança”, disfarça uma delas.

Cristina Theiss, 18, jovem aposta da Ford Models, teoriza: “Para fazer passarela de inverno, precisa ser mais magrinha mesmo, porque as roupas são volumosas, enchem demais”. Para agências de modelos, o assunto ainda é tabu. Ou foi deixado de lado. “Magreza? Anorexia? Mas que assunto antigo, datado!”, diz um agente, interrompendo a entrevista da Folha com uma modelo. Basta olhar para as passarelas para ver que não é.

Moda tem que parar de sacrificar as modelos

ALCINO LEITE NETO
VIVIAN WHITEMAN
da Folha de S.Paulo

Chegou a um nível irresponsável e escandaloso a magreza das modelos nas semanas brasileiras de moda. As garotas, muitas delas recém-chegadas à adolescência, exibem verdadeiros gravetos como pernas e, no lugar dos braços, carregam espécies de varetas desconjuntadas. De tão descarnadas e enfraquecidas, algumas chegam a se locomover com dificuldade quando têm que erguer na passarela os sapatos pesados de certas coleções.

Usualmente consideradas arquétipos de beleza, essas modelos já estão se acercando de um estado físico limítrofe, em que a feiura mal se distingue da doença.

Essa situação tem o conluio de todo o meio da moda, que faz vista grossa da situação, mesmo sabendo das crueldades que são impostas às meninas e das torturas que elas infligem a si mesmas para permanecerem desta maneira: um amontoado de ossos, com cabelos lisos e olhos azuis.

Uma rede de hipocrisia se espalhou há anos na moda, girando viciosamente, sem parar: os agentes de modelos dizem que os estilistas preferem as moças mais magras, ao passo que os estilistas justificam que as agências só dispõem de meninas esqueléticas. Em uníssono, afirmam que eles estão apenas seguindo os parâmetros de beleza determinados pelo “mercado” internacional –indo todos se deitar, aliviados e sem culpa, com os dividendos debaixo do travesseiro.

Alguns, mais sinceros, dizem que não querem “gordas”, com isso se referindo àquelas que vestem nº 36. Outros explicitam ainda mais claramente o que pensam dessas modelos: afirmam que elas não passam de “cabides de roupas”.

Enquanto isso, as garotas emagrecem mais um pouco, mais ainda, submetidas também a uma pressão psicológica descomunal para manterem, em pleno desenvolvimento juvenil, as características de um cabide.
Um emaranhado de ignorâncias, covardias e mentiras vai sendo, assim, tecido pelo meio da moda, inclusive pelos estilistas mais esclarecidos, que não pesam as consequências do drama (alheio) no momento em que exibem, narcisicamente, suas criações nas passarelas.

Para uma semana de moda, que postula um lugar forte na sociedade brasileira, é um disparate e uma afronta que ela exiba a decrepitude física como modelo a milhões de adolescentes do país.

Para a moda como um todo, que vive do sonho de embelezar a existência, a forma como os agentes e os estilistas lidam com essas moças é não apenas cruel, mas uma blasfêmia. Eles, de fato, não estão afirmando a grandeza da vida, mas propagando a fraqueza e a moléstia.

O filósofo italiano Giorgio Agamben escreveu que as modelos são “as vítimas sacrificiais de um deus sem rosto”. É hora de interromper esse ritual sinistro. É hora de parar com essas mistificações da moda, que prega futuros ecológicos, convivências fraternais e fantasias de glamour, enquanto exibe nas passarelas verdadeiros flagelos humanos.

Ver também a entrevista de Naomi Campbell falando sobre o assunto para Eva Joory e a resposta do SPFW:


SPFW faz alerta sobre magreza a outras semanas de moda

ALCINO LEITE NETO
editor de Moda da Folha de S.Paulo

O empresário Paulo Borges, diretor da São Paulo Fashion Week, contou à Folha que a organização do evento está encaminhando uma carta às maiores semanas de moda do mundo, bem como aos principais editores e fotógrafos internacionais, alertando sobre a magreza atual das modelos.

A carta foi elaborada logo após o Fashion Rio. “No evento, percebemos que as modelos estavam mais magras”, diz Borges. “Sentimos então a necessidade de fazer essa carta, porque o problema é mundial.”

Para Borges, são os grandes editores e fotógrafos que determinam os padrões de beleza representados pelas modelos. “Para mudar esse padrão estético que está se espalhando pelo mundo, você tem que ir ao topo da pirâmide da moda”, afirma o empresário.

Ainda mais que, segundo ele, as modelos brasileiras passam grande parte do tempo fora do país. “Algumas ficam mais em outros países do que aqui. Se lá fora não fizerem nada para reverter essa situação, nossa dificuldade para resolvê-la aqui será ainda maior.”

Controle

A SPFW realiza desde 2007 uma campanha de esclarecimento com as modelos a respeito de distúrbios alimentares. O evento também faz um controle sistemático das modelos que participam dos desfiles. Elas devem fornecer à organização atestado de saúde, documentação de trabalho e autorização judicial, se forem menores de idade. “Fomos pioneiros em tomar uma atitude sobre isso, como também em incluir sistematicamente os afrodescendentes nos desfiles”, conta.

Borges diz que, nesta edição da SPFW, duas modelos já foram impedidas de participar dos desfiles porque eram menores de idade e não tinham autorização judicial. “Fazemos o controle, mas não a seleção das modelos que participam. Isso compete às grifes, aos estilistas. Não somos coniventes com as escolhas feitas por eles, mas a escolha não está em nossas mãos.”

A CRÍTICA DE MODA

A vinda do professor de filosofia dinamarquês Lars Svendsen para o Pense Moda abriu uma discussão sobre a crítica de moda. Confesso que não li o seu livro “Fashion: A Philosophy” (Moda: Uma Filosofia) – que segundo as observações de Alcino Neto, no texto “Lições de Crítica e Liberdade”, me parecem interessantes -, mas seu recorte para mim não faz muito sentido hoje. Ele faz o diálogo entre moda e arte, enquanto acho mais salutar – na minha humilde opinião – o recorte entre moda e mundo ou moda e vida, para tentarmos constituir uma verdadeira crítica de moda. Se assim fizermos, todas as observações que Sylvain Justum fez da palestra de Svendsen ficam muito mais esclarecedoras.

Ao mudar o eixo arte para o eixo mundo, temos também maior clareza do papel do crítico. Ora, ele está no mundo, é agente ativo e passivo dos acontecimentos, então temos aí um primeiro passo: o crítico como sujeito. Diferente da ação jornalística que prima pela aproximação com a objetividade e com o imediatismo, a crítica necessita da subjetividade e do tempo de fermentação. Existe um tempo para que aconteça o encontro do que foi visto e o que irá ser refletido. Às vezes ele é muito rápido, mas nem sempre – ou quase nunca – ele tem a velocidade do jornalismo porque ele carrega subjetividade e não a objetividade prática das notícias.

Antes de falar desse paradoxo da rapidez do jornalismo de moda com o tempo da crítica, queria deixar claro que a questão da subjetividade que falo no papel da crítica não significa essa exarcebação do eu que vemos nas redes sociais e em muitas resenhas de moda sobre os desfiles, cheias de opiniões sem contextualização. Ela significa esclarecer ao leitor seus gostos, deixar claro sua linha de pensamento e sua visão de moda.

Se no jornalismo a velocidade da informação é cada vez maior, no jornalismo de moda ela é supersônica. Descarta-se com facilidade espantosa o que acabou de acontecer tornando-se antigo o objeto que acabou de surgir por não ser mais novidade e assim, sem os olhos e o debruçar dos jornalistas/críticos, tal objeto de assunto perde qualquer interesse de reflexão. Isso faz parte da dinâmica do jornal, mas não da crítica.

E uma postura que o crítico de moda deve adotar é resistir heroicamente em concordar com esse tipo de dinâmica, ele deve agir contra essa atitude para assim historicizar o objeto de moda. Só o que está – e permanece – no mundo e na história do mundo é que tem valor crítico, então colocar, recolocar, relembrar seja os desfiles, as peças de roupa, uma atitude comportamental na história, e não descartá-la como notícia antiga é papel crucial da crítica de moda. Refletir sobre coleções passadas, a história do estilista, as roupas das pessoas nas ruas de todos os tempos e outros ângulos da moda deve ser o motor da crítica de moda. Aqueles que fazem sua resenha pra embrulhar peixe no dia seguinte estão longe de uma verdadeira apuração crítica. E nesse sentido devemos colocar a crítica de moda em confronto – saudável – com o jornalismo de moda.

Por fim, por a moda estar em diálogo com o mundo, tudo que é do mundo pertence à moda, inclusive a arte. E a crítica não deve se abster de olhar o mundo através da moda. E no mundo não tem fórmulas, exatamente por isso a crítica de moda também não deve ter, da mesma maneira que não existem duas pessoas iguais em tudo no mundo, não deve ter milhares de “críticas” de moda iguais como o que ocorre ainda hoje. Acreditar que falar das tendências, da cor e da modelagem de tal coleção, está se fazendo uma crítica, pois assim se formatou um pensamento durante um tempo (obscuro) é trair não só a sua subjetividade, mas também a sua capacidade de ser um sujeito ativo no mundo – um crítico.

Será apenas esse o lugar da crítica de moda?