Arquivo do mês: junho 2007

ESSA TAL DE ARQUITETURA NA MODA

Com um pouco de atraso desnecessário e provinciano, a moda brasileira passou a falar dessa tal arquitetura na moda.
O assunto já estava em evidência nos primeiros anos do começo do milênio, pois o estilista Cristóbal Balenciaga foi “redescoberto” e virou fonte de referência de uma nova moda. O arquiteto da moda estava de novo na moda.

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Não seja uma Balenciégua, arquitetura na moda não é minimalismo

Lembro de Costanza Pascolato falar que via garotas em Londres usando roupas que passavam uma idéia de vanguarda (as tais construções inspiradas no estilista espanhol), mas no fundo elas estavam repetindo modelos que na época dela, Costanza, já eram clássicos.
Mas isso não me incomoda tanto. O que preocupa é saber que arquitetura está se falando e com o que está se confundindo.
A arquitetura é a moderna e sua relação com a funcionalismo e a correlação direta na moda é com o chamado minimalismo.
Acredito que ambas depuram a forma e buscam a essência do objeto, mas não é porque o estilista é minimalista que ele trabalha a arquitetura da roupa, até porque Balenciaga era tudo, menos minimalista.

A arquitetura na moda está ligada à silhueta e à proporção. Não adianta, por exemplo fazer uma estampa gráfica por que o trabalho de construção não está nesse item e sim o de ornamentação.Além dessa confusão grosseira, o que vemos no Brasil é uma construção inspirada em arquitetura ou referindo-se a ela de maneira canhestra que muitas vezes é melhor chamar o Contru.

Tenta-se construir uma Brasília e sai um Palace 2.

A COMÉDIA HUMANA DA MODA

Balzac não teve medo de descrever os tipos de sua época em uma grande aventura literária chamada de “A Comédia Humana”. A partir dessa idéia, o editor de moda da Folha, Alcino Leite Neto, e eu tivemos a idéia de inventar tipos humanos da moda. Alguns deles foram publicados no jornal, outros por falta de espaço não. Eis então aqui a íntegra da galeria de personagens que montei imitando Balzac que costumo dizer que se não escrevo como ele pelo menos temos a mesma silhueta balonê. 

SEGURANÇA GALÃ
Interpreta o seu terno preto comprado em um grande magazine como um modelo exclusivo de alguma poderosa grife italiana. Adora dar pinta pela sala cumprimentando os editores e fashionistas como se fosse íntimo “de oliveira”, mas o que mais gosta é de encarnar o seu papel de autoridade e poder dizer não para as pessoas na entrada de tudo quanto é lugar.  

CAÇADORA DE FLASH
Celebridade do 2º escalão da novela ou de algum reality show que vai aos eventos de moda muito mais para ser fotografada do que para assistir aos desfiles. Faz qualquer tipo de declaração, em geral politicamente correta, só para aparecer na revista e sempre chega atrasada nos desfiles só pra causar comoção.  

DESLUMBRADINHA DO LOUNGE
Não consegue entrar em nenhum desfile, então só sobra o lounge. Consegue com algum esforço entrar, comer tudo, beber tudo, pegar todos os brindes e exclamar para a amiga também deslumbrada que aquele é o melhor lugar do evento. Até que, sempre super expressiva e saltitante, consegue entrar no lounge seguinte. 
 

ASSESSORA BIPOLAR
Quando medicada não pode nunca esquecer seu estabilizador de humor, mas quando se esquece de tomar seus remédios durante a temporada é comum vê-la super agressiva com a imprensa de certos lugares mais distantes e ao mesmo tempo super carinhosa e doce com os grandes órgãos da mídia.   
 

PIT FOTÓGRAFO
Raro espécime testosterona do mundo da moda que costuma do pit, como é chamado o cercadinho de onde tira suas fotos, dar urros e assovios nervosos quando o estilista atrasa o desfile ou a modelo não
pára direito no final da passarela. São também conhecidos como super ego da moda pois são os únicos que tem coragem de gritar a verdade.
 

MODELO JAZZ
Com seu corpo moreno e longelíneo, adora reviver as grandes piruetas do passado. Sua atitude vintage na passarela ao revitalizar o pivô de meio de passarela a faz manter-se top. Crente na volta do drama e do pivô, preparou na última temporada um triplo carpado digno de suas aulas de jazz com o falecido Bob Fosse.
 

REPÓRTER SEM LUGAR
Sempre feroz e mal humorado, ele tornou-se membro do Movimento dos Sem Lugar (o MSL) na luta que ele acredita ser a grande batalha ferrenha contra as assessorias que cuidam do mapeamento dos convidados. Militante da esquerda do pit dos fotógrafos, ele acha que sua grande inimiga não passa de um membro opressor da elite que consegue sentar na fila A nos desfiles. Seu lema é eliminar esse adversário, para é claro, poder tomar o seu lugar.
 

ESTILISTA ATLETA
Ele tem corpo slim de modelo, faz dieta de folhas como os fashionistas e tem barba mal feita de fotógrafo. Com todo esse pré-requisito para um triatlo fashion, ele ainda corre os 50 metros passarela com obstáculos de modelos e cenografia.
 

PEDINTE DE CONVITE
Menor abandonado do mundo da moda, posiciona-se em geral na entrada dos desfiles e com a cara de quem não comeu para poder caber naquele baby look ou na calça skinny, pede desesperadamente para poder entrar na sala. E como bom pedinte recebe inúmeros não.
 

LADRA DE BRINDE
Cleptomaníaca especializada em afanar os brindes da primeira fila, em geral utiliza seus longos dedos e sua cara de pau para que em questão de segundos qualquer objeto que repousa nas cadeiras da fileira A suma como num passe de mágica.
 

HILLARY JOURNALIST
Não fala português, mas tenta transmitir por gestos e expressões o sentimento de felicidade por estar em um país tropical. Sempre com um sorriso “hilário” na boca diz na sua língua nativa que está amando tudo (sim ela fala no gerúndio), que as mulheres são lindíssimas e que viu desfiles maravilhosos. Mas na verdade passa boa parte do tempo bebendo uma caipirinha em algum lounge tentando aproveitar as pseudo-férias.
 

STYLIST CAMELÔ
Uma pessoa que o mundo da moda chama de um “crash de estilos”. Viaja ao Paraguai como as editoras de moda costumam ir à Paris. Adora uma bagunça e uma confusão de cores. Exagera sempre em suas roupas e por isso mesmo odeia o carnaval pois nele s
ente-se uniformizada com a massa.

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Balzac: em comum comigo apenas a silhueta balonê

A ROUPA DO FUTURO FOI FEITA HÁ 9 MESES ATRÁS

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nudez e futuro por Hussein Chalayan – foto de  Márcio Madeira

Essa imagem do final do desfile de Hussein Chalayan lembra o final de um filme muito criticado pelo povo de moda, mas que é enfim uma obra-prima: “Prêt-à-Porter”, do Robert Altman. Nele, o cineasta enxergava o avanço da moda pela nudez e não por acaso dialogava com uma idéia que foi traduzida na moda pela ultra sexualidade de Tom Ford, que reinou absoluto nos anos seguintes. Uma ligeira leitura de nudez = sexo!

Como o princípio da roupa está na nudez, assim como do sexo, o principio da nova roupa também não poderia estar em outro lugar.E finalmente, depois de tantos “revivals”, um cara chamado Hussein Chalayan, cipriota que fez carreira em Londres e apaixonado por design, coloca a moda no século 21!

Não é retrô, não é vintage! Ele olha para o futuro mesmo, num dia em que a nossa roupa poderá ter as mangas encurtadas se sentirmos calor ou o casaco ganhar volume se bater um vento frio. Tudo feito pelo “simples” comando de um chipe.

E assim como do sexo pode nascer a nova vida, das propostas de Chalayan, que ele pariu há 9 meses na semana de Paris verão 2007, nasce um novo tempo e a moda (a mais “pobre” das artes, sobrinha bastarda das artes plásticas) é entre as artes aplicadas ou não, a primeira a desenhar algo realmente novo no 3º milênio. Enquanto isso a maioria das outras “grandes” manifestações não se cansam de reciclar idéias antigas travestidas de novas.  

 

 

Quero agradecer primeiro a Ricardo Oliveros pelo apoio em todos os sentidos de criar um blog e pelo BlogView pelo incentivo indireto cheio de criatividade pulsante.