Arquivo do mês: janeiro 2011

AINDA SOBRE A ROUPA DO PODER – UM PAPO ENTRE MARIO MENDES E WALTER RODRIGUES


Uma excelente surpresa foi a volta de Mario Mendes ao mundo da moda. Fazendo vídeos curtos com ideias rápidas e espertas, ele é uma das brisas boas na sempre deslumbrada “crítica” de moda do país, que muitas vezes faz o papel de release mais do que crítica.
Outra excelente surpresa foi ele ter feito um vídeo só com Walter Rodrigues. Percebo agora que entre muitos estilistas do país que admiro, nunca escrevi no blog sobre Walter – isso é uma falta grande. Mas minha admiração por ele só cresceu com os anos. Já entrevistei a maioria dos designers de moda do Brasil, e uma coisa que muitas vezes se torna muito evidente é como o discurso do estilista está muito distante da roupa por ele – ou sua equipe – criada. Com Walter sempre o seu discurso veste-se com sua roupa perfeitamente.
Isso pode ficar claro quando Mario fala de algo monástico na última coleção do estilista e o próprio Walter cita Balenciaga falando sobre excessos.
Nesse sentido Walter está mais para Ana do que para Dilma.
Vale muito ver e perceber como Lula e Dona Marisa entenderam o seu papel usando Ricardo Almeida e o próprio Walter na posse. Ficaadica:

walter-rodrigues-nao-sou-o-favorito-da-dona-marisa

A TRAGÉDIA E A ALEGRIA

Há pouco menos de um mês, Nina Lemos escreveu:”Todo mundo está sempre para cima. Ficar para baixo pega mal. E, se você é um telespectador, ainda olha para Hebe sorrindo, apesar de tantos problemas, e se sente um pouquinho pior porque você, ao contrário da diva da TV, sofre. E se sente menos forte que ela. É que nem todo mundo consegue ser alegre o tempo inteiro…”
Conversando com Nina sobre esse texto, ela me disse que estava achando muito estranho todos estarem tão felizes o tempo todo. Não que ela fosse contra a felicidade ou o estado de felicidade dos outros, mas havia algum desarranjo nessa alegria que ela estava sentindo. Tinha algo programado ou oficialesco.

Esse texto, ela escreveu em 30 de dezembro de 2010. No dia 14 de janeiro desse ano, Vivian Whiteman e Pedro Diniz escrevem um texto que parece comprovar esse sentimento de Nina. Em “Rio quer exportar ‘felicidade’ em pacote”, a editora de moda e o repórter da Folha de São Paulo colocam em pauta o projeto da indústria têxtil de “vender a alma carioca”.
“‘Vamos mostrar como aplicar a felicidade, no sentido de valor agregado, em produtos de moda’, diz [Rafael Cervone] Netto, [gestor do Texbrasil]. Nesse pacotão feliz estão conceitos variados, do bom humor à biodiversidade. […] Para os organizadores nem mesmo as tragédias, a violência e a pobreza ofuscam o projeto. ‘O brasileiro é feito da luta entre contrastes, mas nossa alegria se sobrepõe aos problemas’, filosofa Fernando Pimentel, diretor da Abit”.

Existe uma visão vitoriosa no Brasil que nos trata como um povo alegre por excelência. E muitas vezes acreditamos nesse mito criado na década de 1930. Mas nem sempre foi assim como retrata o clássico de Paulo Prado, Retrato do Brasil: “Numa terra radiosa vive um povo triste. Legaram-lhe essa melancolia os descobridores que a revelaram ao mundo e a povoaram. O esplêndido dinamismo dessa gente rude obedecia a dois grandes impulsos que dominam toda a psicologia da descoberta e nunca foram geradores de alegria: a ambição do ouro e a sensualidade livre e infrene que, como culto, a Renascença fizera ressuscitar”.

Tentamos, nós brasileiros, vivenciar muito pouco a tristeza, é quase como uma obrigação estar sempre feliz. A mídia brasileira odeia a tristeza, a moda brasileira odeia a tristeza, os brasileiros odeiam a tristeza. Mas ela existe e é natural que de vez em quando dê as caras, não adianta empurrar pra debaixo do tapete. Ela faz parte do que é essencialmente humano e do que chamamos viver. Ela se faz necessária até para que possamos entender o que é felicidade.

Com esse buraco de formação e imaginário,a tragédia parece mais pesada quando acontece. E por um infeliz acaso aconteceu de modo tão terrível no mesmo lugar que a moda quer tanta felicidade, o Rio de Janeiro.
Me senti irmanado com Augustuzs Neto que escreveu no Facebook: “A gente brinca, faz uma frescura, encena um frege, tenta se distrair trabalhando/jardinando/ouvindo música mas a verdade é que a catástrofe que devastou a região serrana do RJ não me sai da cabeça.
É um turbilhão de imagens, relatos, sensações… uma noite, a passada, habitada por sonhos que me drenaram a energia”.

A tragédia se impôs! E a tristeza é inevitável.

Agora só nos resta solidariedade como Isaac me escreveu

Para ajudar as vítimas da enchente:

– A Cruz Vermelha aceita doações. Nesse site, você pode encontrar as informações necessárias para ajudar

DILMA, ANA E A AÇÃO CRÍTICA

Alcino Leite – atualmente Editor do PubliFolha – publicou no domingo, dia 09 de janeiro, o seguinte texto na Folha de São Paulo, dentro do caderno Poder:

Look da presidente põe em xeque projeto de prêt-à-porter brasileiro de prestígio


Ter uma mulher na Presidência da República é uma espécie de revolução para um país cujo passado patriarcal é dos mais pesados.
Dessa perspectiva, parece fútil tratar da relação de Dilma Rousseff com a moda. No entanto, eis um pequeno tema que deverá estar presente nos quatro anos de governo.
Antes que me acusem de sexista, gostaria de deixar claro que não estou preocupado com o estilo da presidente. O que me interessa é a decisão que tomou de vestir na posse uma roupa feita por uma costureira particular pouco conhecida, e não um modelo criado por algum dos principais criadores ou grifes brasileiros.
A escolha de Dilma representa um baque para as marcas nacionais de moda. Há décadas, estilistas e empresários vêm se empenhando em criar um prêt-à-porter brasileiro de prestígio, nos moldes do que ocorreu na França, na Itália e nos EUA.
Naqueles países, a indústria de moda é bastante forte, uma empregadora de peso e uma poderosa fonte de riqueza. Não é à toa que Michelle Obama elege cautelosamente a grife americana que vai vesti-la em eventos expressivos. O mesmo faz Carla Bruni, ao selecionar seus trajes entre as famosas “maisons” francesas.
Nas escolhas dessas primeiras-damas, está em jogo não apenas a elegância, mas também o compromisso com um extrato da economia de seus países.
É certo que Dilma optou por uma roupa brasileira, feita com toda dignidade pela gaúcha Luisa Stadtlander. Agindo assim, entretanto, acabou por colocar em xeque a relevância das grifes nacionais de prêt-à-porter e de luxo, bem como o projeto que elas mantêm de modernizar o design, a produção e o consumo no Brasil.
A decisão da presidente demonstra outras três coisas: que os celebrados estilistas nacionais não estão aptos a agradar mulheres “reais” como ela; que a política de afirmação do prestígio das grifes está muito longe de se efetivar no país; e que a indústria de moda brasileira, enfim, parece não ser um assunto significativo para a Presidência da República.

Na foto da presidenta e de seus ministros, reparamos de canto que um look azul acinzentado destaque-se dos demais. Apesar do incômodo laranja e vermelho usado por outras ministras, é na elegância de Ana de Hollanda que prestamos a atenção. O vestido que sugere uma forma avental vai em oposição ao falso tailleur da presidenta. Se o conjunto saia e blazer que é quase tailleur está ligado ao trabalho burguês, o vestido, que tem rabiscos e forma de avental de alguma forma, é um uniforme muito usado e conhecido tanto da classe operária como da classe média. O vestido é uma criação de Ronaldo Fraga, um dos grandes designers autorais do país.

Dilma não se preocupou com a indústria da moda no país em sua posse. “Coisa de mulher, futilidade” como pensaria um bom burguês do século 19 no alto de seu terno [não podemos esquecer que o tailleur é o terno feminino]. Já Ana sinalizou que está realmente disposta a caminhar ao lado dos criadores, de criadores como Ronaldo Fraga. “O Ministério vai ceder a todas as tentações da criatividade cultural brasileira. A criação vai estar no centro de todas as nossas atenções […] A criatividade brasileira chega a ser espantosa, desconcertante, e se expressa em todos os cantos e campos do fazer artístico e cultural: no artesanato, na dança, no cinema, na música, na produção digital, na arquitetura, no design, na televisão, na literatura, na moda [grifo meu], no teatro, na festa”.

Percebemos que não foi mero detalhe a escolha de Ronaldo Fraga por parte de Ana de Hollanda assim como também não é secundária a escolha do off-white de Dilma – isso tem outras implicações que desenvolverei depois. Existem diferenças femininas claras entre as duas e o “fútil” traje pode tanto demonstrar essas intenções.

A ação crítica de Alcino levou a essa nota no caderno de cultura do mesmo jornal, na coluna de Mônica Bergamo, nesta quarta-feira, 12 de janeiro:

PASSARELA OFICIAL
Depois de esnobar as grifes nacionais na escolha da roupa da posse, a presidente Dilma Rousseff vai abrir espaço na agenda desta semana para telefonar a Paulo Borges, diretor da São Paulo Fashion Week e do Fashion Rio. Quer se colocar a serviço da promoção do prêt-à-porter brasileiro. Os dois estiveram juntos na campanha, quando a então candidata prometera criar um ministério da Pequena e Média Empresa para alavancar o setor.

Uma certa esquerda no país tem o péssimo hábito de agir por maniqueísmo, por ser puramente de esquerda acreditam já vir com a grife que é bom e justo e leal, o pragmatismo tem mostrado que a história é outra. Agora basta acompannhar os novos looks de Dilma – talvez dirão mais que seus atos – e o quanto essa nota de Bergamo pode ter de verdade, a verdade que só os tecidos desnudam.