Arquivo do mês: dezembro 2010

EM DEFESA DA CRÍTICA


Ao terminar de escrever “Crítica de Moda no Brasil?”, liguei a TV para uma espécie de esvaziamento de ideias e por acaso estava passando um episódio dos “Os Simpsons” que Hommer era um crítico de gastronomia e para tanto deveria ser cruel, falar mal de tudo e todos para ser respeitado. Pensei muito sobre esse senso comum que constrói a imagem do crítico como um ser perverso que sua única função é destruir, desdenhar.
Ela vem em conjunto com outro senso comum que é a razão perene do artista contra a crítica. Gerald Thomas adora volta e meia citar Walter Kerr, o grande crítico de teatro do New York Times: “Ele detonou nos anos 50 [a peça ‘Esperando Godot’, de Samuel Beckett] e acabou se despedindo da crítica, fazendo um “mea culpa”, dizendo que Godot era TUDO e que ele não havia visto aquilo. E, portanto, não deveria ter visto milhares de outros talentos também”. Assim temos a crítica como falácia e injusta (apesar de Kerr ser crítico até seu último suspiro).
O que parece Gerald esquecer é que Beckett foi antes de tudo um crítico, e crítico no sentido restrito da palavra, seu trabalho sobre a obra de James Joyce – e muito ele escreveu antes de ser o tal Beckett do Teatro do Absurdo – ainda é referência para a literatura. Sem contar que muito do “sucesso” de Beckett se deve aos críticos franceses e sua ação de se perguntarem sobre o que era aquilo [a estranheza] que estava em cena do que aos artistas tão cheios de boa vontade.
Sobre o crítico ser alguém que só tem valor por desdenhar, temos na contramão o exemplo de Truffaut e Godard, Rommer e Chabrol ainda críticos – e não cineastas – do Cahier du Cinema reavaliando a importância de Alfred Hitchcock. Para quem não sabe, tanto para a crítica mundial até os anos 50, assim como para Hollywood, o diretor inglês era considerado um cineasta de segunda linha. Foi o tremendo esforço crítico dos jovens do Cahier que colocaram Hitchcock no lugar que se encontra hoje, um mestre do sentido total da palavra.
Tem-se também o mito que o crítico tem que ser um ser superior, outro senso comum que deveria ser enterrado. No Brasil, temos o grande exemplo de Mario Pedrosa e Abraham Palatnik nas artes plásticas. Ao construir uma peça que tinha movimento, mas não era nem escultura, nem pintura, e ainda não se tinha noção de instalação (estamos nos anos 50), Palatnik chamou Pedrosa que criticamente também se indagou sobre o objeto. Os dois cresceram juntos com a obra que seria uma das precursoras da arte cinética. Houve um aprendizado em conjunto.
A arte e pensamento trabalham para além do senso comum, já de entrada basear-se em senso comum seria um demérito tanto para artistas como estilistas. E a ação crítica dá aval ao fazer artístico ou cultural, não existe um sem o outro. Não existe Cinema Novo sem Alex Viana ou Paulo Emílio, não existe Neoconcretismo sem Ferreira Gullar. Não existe Bossa Nova sem Tinhorão ( seu crítico antagonista). E garanto: não existirá a tal moda brasileria sem crítica.

CRÍTICA DE MODA NO BRASIL?

A crítica de moda no país sofreu duas grandes baixas esse ano. A primeira foi a saída de Alcino Leite Neto como editor de moda da Folha de São Paulo. Uma das poucas vozes independentes se calou. Senti durante todo esse ano uma tremenda falta de visões de Alcino sobre moda, por mais que pudesse alguma vez discordar dessa ou de outra ideia, existia ali um exercício crítico – sincero – de pensar a moda. Não é à toa que sua entrada para o mundinho coincide também com um interesse de novas gerações sobre o pensamento de moda e isso podemos ver tanto no surgimento de um evento do porte do Pense Moda como também no excelente fanzine de Aline Botelho e Thiago Felix, o Edição de Luxo. Enquanto tivemos Alcino na Folha e seu aprendizado sobre o ofício de moda – ele mesmo admitia não conhecer nada de moda quando ia aos primeiros desfiles -, acabou acontecendo também uma desmistificação da informação de moda. o que era quase criptografado se tornou acessível. E não tenho nenhuma dúvida que ele exerceu sua crítica como os críticos de outras áreas da cultura também a exercem, uma crítica atuante. Para muitos, a contagem de negros era mais um sensacionalismo da Folha, “uma bobagem” para muitos fashionistas dissimulados em seus preconceitos mais profundos. Pois para mim sempre foi clara como uma atuação crítica, no sentido mais moderno, de interferência no processo. O aumento do número de negros nos últimos desfiles da temporada de moda em São Paulo não é obra do acaso ou vontade de um ser generoso e provedor e sim fruto de uma atitude crítica.
Mas Alcino não escreve mais sobre moda…
A segunda veio como uma ducha fria. A saída de Erika Palomino do site FFW, ligado ao São Paulo Fashion Week. De umas 3 temporadas pra cá, o site que nunca me chamou a atenção e sempre achei chapa branca, tinha se tornado algo interessante por ter um time de jovens jornalistas tentando exercer a crítica dos desfiles de moda. Pelo que eu saiba foi uma das condições para Erika aceitar o cargo e foi a que fez sair, já que não poderão ser feitas críticas “negativas” das coleções a partir das próximas temporadas.
Desde que comecei a frequentar o mundinho, muitos dizem a boca pequena que Gloria Coelho sempre faz a mesma coisa, dizem esse “fazer a mesma coisa” de forma meio depreciativa – pessoas até próximas da estilista. Existe uma parcela de fashionistas que fazem essa mesma crítica a Gloria Coelho faz muitos anos. Eu – que quero deixar bem claro, tenho a maior admiração pela estilista – discordo e acredito que não é demérito fazer a “mesma coisa” (tadinho do João Gilberto). Mas existe essa visão [válida, já que feita por muitas pessoas de moda] que aposto nunca chegou a sra Coelho, mas o jornalista Luigi Torre, na temporada passada para o FFW, teve a coragem de escrever isso. Oras, além de ser um ponto de vista dele, é também algo que se discute com muita recorrência nos corredores da Bienal, o que eu – mesmo discordando – acho muito legítimo de se tocar e discutir. Gloria Coelho ligou reclamando para Paulo Borges – é o que dizem os corredores e a boca pequena que aqui se torna grande. Dizem que outros estilistas também reclamaram das críticas pouco laudatórias de suas coleções no site do FFW. Eu sinceramente acredito que os estilistas deveriam perceber que sem uma crítica de moda, o trabalho deles nunca terá relevância no panorama cultural e por crítica coloca-se tanto o que pode ser ruim e o que pode ser bom. Nada é 100% perfeito como querem os estilistas, stylists, empresas, marketing da marca. Por mais duras que às vezes possa parecer as palavras de alguém que escreve de moda, sim pode ser irresponsável, se um estilista quer ter relevância cultural, ele deve entender as críticas como peça fundamental do seu processo criativo.
Sim, uma grande maioria dos críticos de moda precisa crescer e aprender muito, mas os estilistas também.

PS: Sobre o fato do site do FFW ser do SPFW, eu só penso em Maria Rita Kehl e o Estado. E aqui eu me calo.


Saudades de Alcino