Arquivo do mês: março 2009

A ÁRCADE DA PRADA

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Os valores greco-romanos acabaram se tornando a síntese do que levou o nome de Humanismo e volta e meia ao longo da História preenchem o vazio do imaginário dos Homens. Se pensarmos no Renascimento e no mais explícito Arcadismo temos quase que um ato geracional de uma época que para progredir teve que fixar o olhar no passado. Sem falar que um dos valores ligados ao resgate da Grécia pelo Ocidente, o fugere urbem (fuga da cidade), pode ser sentido em exemplos díspares como na poesia de Virgílio ou de Alberto Caeiro, no ciclo do cangaço do cinema brasileiro, na música de Milton Nascimento e mesmo no último desfile da Prada para o inverno 2009. Todos esses artistas – sem exceção e sem os qualificarmos esteticamente – reforçam o arquétipo que recusa o que está acontecendo nas cidades – leia-se, nos dias que vivem ou viveram e portanto no pensamento – para tentar resgatar os valores primeiros, primordiais que para eles estariam no campo.
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Na Prada, o material para esse retorno aos valores greco-romanos perdidos estão em primeiro foco na matéria usada pela marca para as suas criações. A eleição do couro e da lã como base da coleção nos remete imediatamente aos pastores, símbolo emblemático da Grécia Antiga e que no Arcadismo, por exemplo, fez com que muitos poetas assinassem suas criações com pseudônimos pastoris (fingimento poético para não revelar a verdadeira identidade do escritor). Eram os pastores responsáveis pela lã, o tecido essencial dos gregos no inverno assim como o linho era a base da vestimenta no verão. Já o couro era usado nas tiras dos calçados e também nas roupas de guerra, e de montaria, outra idéia ligada ao campo. Tinha algo ali de campo de guerra, de militarismo também. Enfim, a Prada mixando escapismo e realidade.
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Talvez aí , no campo de guerra, esteja a chave para imagem de mulheres velhas, cansadas, as tais mulheres de Atenas que esperam seus maridos que foram à guerra. A realidade é guerra e é também por isso aparece na Prada uma silhueta que em alguns momentos nos remete aos anos 40, anos que sofreram com o crack da Bolsa de 1929 e pela Segunda Guerra Mundial. Não à toa a imagem de ringue ou a arena no final com as modelos todas paradas em tableau-vivant, pois afinal a Prada faz roupas para mulheres protagonistas, isto é, nesse caso, guerreiras!
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PS: Escrevi esse texto muito pensando em Cris Gabrielli da Oficina de Estilo e Estelinha sua filha que acabou de nascer.

ORAÇÃO OU PRONUNCIAMENTO DE ELIANA TRANCHESI

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Realmente não se falou em outra coisa nesse fim de semana. A prisão, a pena de mais de 60 anos de cadeia -antes foi anunciado mais de 90 anos -, o câncer e seu habeas corpus. Eliana Tranchesi foi manchete fashion. Alguns fashionistas pediam “Free, Eliana” e outros pediam para que ela continuasse presa. Em meio a toda essa celeuma, um e-mail corrente chegou na minha caixa de correio dizendo que esse era o verdadeiro pronunciamento da dona da Daslu – como nós brasileiros fazemos piada de tudo, tava mesmo demorando um texto assim:

“Caríssimos, e bota caro nisso, essa Operação Narciso me deixou aloPrada! Alguém me deFendi. Não sou dessa Alaia. Não é Versace o que Diesel por aí. Sou pessoa Dolce & Bacanna. Pucci que Paris!!! Estão me pegando para Christian, meu Dior. Preciso de um Cacharel em direito, um cara Valentino para dar um jeito nessa Bottega, antes que coloquem no meu Rabanne. Eu não vou botar o Galliano dentro não. Chloé? Vou continuar minha Missioni. Miu Miu, abraços para vocês!
Eliana”

PS; Só faltou: “Meu Dior, me Dasluz nesse momento’!

PENSAMENTO FRACO DE DOMINGO

Eliana estava tranchesi!

AUTOMATIC LOVER

O Japão apresentou durante a Semana de Moda de Tóquio um andróide que pretende substituir as modelos.

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Mas dentro de todo esse “futurismo” bizarro, vale muito mais voltar ao passado e partir de look retrô – meio tosco, meio humano – como o robô de Dee D. Jackson!

AINDA MARC JACOBS

Ele no clipe do Sonic Youth no começo dos anos 90. Existia algo de grunge no ar!

ELIANA TRANCHESI NA CADEIA

Não se fala em outra coisa na cidade. Mais de 90 anos foi a sentença. E já está se formando um Fla X Flu fashion sobre se ela deveria ou não ficar na cadeia.

OFICINA DE ESTILO NO ALEXANDRE HERCHCOVITCH

Recebi esse e-mail da Fernanda Resende e ela escreve de uma maneira tão pessoal que prefiro deixar na íntegra:
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Amigos óoótemos dessa Oficina!

O Alexandre Herchcovitch nos convidou pra apresentar a coleção de inverno para convidados queridos
– como a Cris está em licença maternidade, eu preciso de apoio moral e rostinhos amigos lá comigo!
Vai ser uma tarde de conversinhas e passeios pelos provadores, pra gente ver juntos como o tema do desfile aparece desdobrado (lindamente) nas peças da loja: tipo “decifrando e personalizando Alexandre Herchcovitch”!
É na sexta-feira dia 27/03, das 15h até um pouquinho depois das 19h. E vai ter mimos pra quem passar, descontitos pra quem quiser comprar e o Alexandre em si fazendo presença! Na Haddock Lobo 1151, entre a Franca e a Tietê.
Vamos vamos vaaaaamos todos?!?? Chamem os amigos pra aparecerem também?!?? Espero cada um de vocês, com o coração cheio de sorrisos! 😉
Beijoca,

Só um adendo nada ou tudo a ver com tudo isso, Jana me lembrou que hoje é dia 25 de março, a verdadeira rua da moda em São Paulo.

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Amo muito Miuccia Prada, suas frases sempre misteriosas depois dos desfiles, sua formação comunista, suas coleções e principalmente sua criação pois faz roupa para mulheres que tem coragem de serem antes de tudo protagonistas das histórias. Será ela pós-feminista?
Mas uma coisa é certa, ela ficou com cara de idiota nessa foto!
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SANTA CATARINA: INDÚSTRIA E EXPERIMENTALISMO

Eu já tinha escutado falar sobre o Santa Catarina Moda Contemporânea e o que mais me impressionou, e isso a todos os jornalistas presentes sem exceção, foi o apoio das empresas – um pólo têxtil poderosíssimo – aos jovens estilistas.
Foi essa curiosidade que me moveu para o Balneário Camboriú para ver em close o que realmente acontecia no estado dos barrigas verdes- pergunto aos catarinas, escrever barriga verde é pejorativo? Até porque meu interesse pelas semanas de moda tem diminuído muito, não que elas não tenham importância, mas defitivamente elas tem menos importância do que elas próprias se dão. Mas me parecia que ali, no sul do país estava acontecendo algo inédito!
Lá também me tocou a idéia que essas empresas almejam de se tornarem sujeito da História. Ao ouvir um dos empresários nos falar que eles não queriam a cópia mas a criação e que eles queriam que saísse um nome forte, um estilista de importância e excelência do estado, que surgissem criadores eu pensei imediatamente nos poucos momentos que nosso país deixou de ser mero reprodutor de conteúdo para influenciar o conteúdo dos outros: Cinema Novo, neoconcretismo, manifesto antropofágico, bossa nova. Aliás foi sobre esse movimento musical que o músico Tom Zé me disse uma vez que finalmente o Brasil com os acordes de Tom e João deixou de exportar bananas pra exportar cultura, o mais alto grau de civilização.
Sim, a pretensão civilizatória nesse caso da vontade dos empresários [é, lá a gente ouvia falar nesses termos, os empresários, quase como uma entidade] de se transformarem em sujeito da História, de colocarem Santa Catarina no mapa fashion é uma grande iniciativa, como as iniciativas dos intelctuais baianos nos anos 60 que trouxeram o melhor da cultura européia na época como Walter Smetak e Koellreutter em música e a arquiteta Lina Bo Bardi para agitar a cena baiana: resultado – jovens como Glauber, Caetano, Gal Bethânia, Tom Zé, Gilberto Gil não sairam impunimente dessa experiência.
Posto isso: parece que estou falando do paraíso. Mas o paraíso não existe na Terra e as dificuldades são muitas. Nos dois dias que passei por lá percebi que uma iniciativa desse porte tem sempre que se reformular, se repensar, mas principalmente não perder o foco de sua bandeira: o de se tornar criador!
Primeiro o que me chamou atenção era que assistimos desfiles de estudantes do último ano das faculdades de moda da região e tinham, em sua maioria, um certo experimentalismo primário, uma espécie de clichê do experimentalismo, de uma idéia que ser experimental era simplesmente fazer algo estranho, mas sem uma verdade interior. Quem frequenta desfiles de jovens estilistas já viu muito dessa gag experimental, que no fundo não passa de uma piada ruim sendo contada repetidas vezes. Colocar algo pessoal, conceitual e que diz muito da personalidade de seus criadores é sempre benvindo, mas acredito que muito dessa atitude (ou falta de) vem da despretensão tanto das empresas como dos estilistas de que aquilo o que víamos na passarela supostamente não iria virar produto. Ora, me parece um contrasenso , se querem se tornar criadores, se querem formar um nome de moda, um estilista de releviancia no país vindo do estado, não apresentar produto é não apresentar aos estudantes a cadeia completa do ciclo moda. É como se fosse um mero exercício diletante (estou musical hoje, né!). Nenhum grande estilista ou simplesmente bom ou que sobreviva no meio de moda ganhou esses méritos por milagre de Deus. Todos eles sabem que sem ter noção de produto nunca sobreviveriam e aprenderam como adaptá-lo à sua criação.
Visualizar nenhum produto ou muito pouco é como um cineasta que filma e seus filmes não chegam às telas. Em indústria, e a moda é uma, o ciclo não se fecha se não pensarmos em produto. Agora é importante ressaltar que o produto não precisa ter uma carga comercial gigantesca. E muito produto pode sair de imagens fortes. Hussein Chalayan ou Rei Kawakubo ou aqui no Brasil Alexandre Herchcovitch fazem uma imagem poderosa para depois vender camisetas. O produto, no caso de Santa Catarina e digo de maneira negligente pois fiquei apenas dois diaslá, poderia ser feito em pequenas linhas, em parceria estudante e empresa, mas algo que essse estudante pudesse continuar o seu trabalho e ter vínculos com a empresa, ou quem sabe os mais talentosos serem absorvidos por essas mesmas empresas. Só um trabalho contínuo com os estudantes formará uma nova mentalidade de moda no estado. Também não adianta muito apoiar uma única vez. Os mais talentosos, os que as empresas acreditam que tem futuro e talento deve ser apoiados sim [digo apoiar não como uma atitude paternalista, mas como uma troca entre empresa e estudante, o estudante também tem qeu oferecer algo pra empresa] em suas próximas coleções. Não serão muitos, é uma grande peneira, mas o processo tem que ser contínuo. Acredito que muito mais vantajoso que uma nova técnica de estamparia ou modelagem como essas empresas acabam adquirindo com a pesquisa dos estudantes em suas fábricas [que diga-se é muito importante], eles poderão formar sujeitos e não objetos e a atenção desse fato com certeza não passará impunimente pela história da moda no nosso país, nem pela trajetória desses estudantes e dessas empresas.

Coloco abaixo a exceção à regra do que escrevi. A Marisol Calçados fez uma linha infantil desenhada pelas estudantes do SENAI S. João Batista Andréia Pizzolo, Elisa Maria Schmidt Dalsenter e Nathalya Serpa Puel que é um pecado não virar produto. Mais ainda, elas não serem contratadas por uma fábrica de calçados ou fazer uma parceria para elas produzirem esse produto.
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PENSAMENTO FRACO DE DOMINGO

[por uma travesti que estava na frente da Cantho na hora da festa para Marc Jacobs falando para uma amiga – cena vista por Giovanna Barbieri] O que é esse Marque Jacóbi, a Cantho mudou? Ih, tá cheio de gente esquisita, é melhor a gente desaquandar pra outro lugar…