Arquivo do mês: julho 2008

ARMISTÍCIO ENTRE OS GÊNEROS

Depois de tanta guerra dos sexos, nada como pular comemorando a paz…

foto: Philippe Halsman

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SEMANA LULA RODRIGUES: MODA MASCULINA E O UNISSEX


Sobre a última temporada de moda masculina e seu feminino é sempre bom ver outras visões não menos importantes, o sempre incrível Mario Mendes e suas observações afiadas fazem uma análise sobre a tendência dos pijamas nas passarelas e sobre uma moda mais relax, mais confortável que parece reinar também entre os criadores fashion – todos sabemos que cada vez mais os homens preferem o conforto, por isso mesmo a resistência à gravata, ou melhor, ao terno como uma roupa natural do seu dia-a-dia. A grande maioria só o usa por motivos profissionais e parecem felizes ao fim do dia ao se livrar de seu espartilho. Quem sabe é o final mesmo de um ciclo do terno como a principal roupa para os homens…
Quem será nosso Poiret? Quem será nossa Chanel?

Osklen inverno 2008, tanto para meninos como para meninas

Ao ver o penúltimo desfile da Osklen, seu inverno 2008, vi com felicidade e surpresa uma possibilidade para a moda masculina e no geral para o streetwear. Ali tinha algo unissex que poderia ser um possível impulso para a moda masculina.
No dicionário Houaiss, o termo unissex é adjetivo de dois gêneros e dois números que pode ser usado tanto por homens quanto por mulheres (refere-se especialmente à moda, como tipo de roupa, calçado, corte de cabelo etc., ou a serviços profissionais)
O termo não poderia ter surgido senão na década de 1960, época que os gêneros foram postos em xeque.

Você acredita no unissex como uma possibilidade de arejar a moda masculina? Ou não? Como vc vê o unissex?

O unissex já rolou na moda e sempre achei que quem sai perdendo é o homem, que fica feio, meio caricato. O unissex é um dos caminhos apontados para o futuro da cosmética. A direção foi concluída numa feira internacional que rolou em Bolonha, no começo do ano [N.E. é possível que a beleza novamente sinalize algo na frente das roupas com o suspeito].

Cher e Sonny
Com relação à moda, pode ser que role. O século 16 foi masculino, no 17 a mulher começou a aparecer, vide Maria Antonieta, Pompadour e outras. O 19 foi masculino e no 20 a mulher conquistou tudo o que falamos acima.
Acredito que o século 21 seja de armistício entre os gêneros, seja um século misto, unissex. O homem assume seu lado feminino para se equilibrar com o masculino da mulher, que bomba desde o final dos ano 90, quando ela chegou ao topo nas corporations, virou provedora do lar. O homem leva os filhos ao pediatra e à escola. Na cama, eles se entendem cada vez mais. Ueba! Pode ser uma viagem de aquariano dragonino.
Por outro lado, o homem cada vez mais caminha para descobrir que sua moda é bacana, por mais que muita gente a ache chata e entediante. Onde há fumaça, há fogo. Tudo o que te contei aqui, está contado detalhadamente no meu livro.

Bom, aqui encerra a semana Lula Rodrigues no blog, pra mim foi uma grande honra ele ter respondido às perguntas e se debruçado nessas questões da maneira que fez, ainda mais que está finalizando um livro sobre o assunto, o Almanaque da Moda Masculina que sairá no começo do ano que vem pela Senac Rio. Pra mim, repito, já nasce clássico!
Adorei também todos os comentários e a discussão que a entrevista suscitou na blogosfera.

SEMANA LULA RODRIGUES: MODA MASCULINA E SEU PULO DO GATO, OU MELHOR, SEUS NOVOS CAMINHOS


Uma preocupação minha em relação ao que vimos nas passarelas do verão 2009 com a afirmação desse homem mais feminino, foi saber exatamente se seria mesmo uma aposta efetiva dos criadores de moda ou apenas uma jogada de marketing de algumas grifes para se autosacralizarem modernas e antenadas. Então continuando minha conversa com Lula

Esse homem é uma sinalização de mudança ou é apenas decor de passarela dos estilistas, uma modinha?

Nada de modinha. Dos estilistas sérios, este homem é estudo, laboratório e divulgação. Quer uma prova? Estamos falando nele agora e você, espero, vai publicar esta matéria em seu blog. Estamos divulgando um embrião de uma mudança que, não tem mais jeito – vai rolar.

Raf Simons verão 2009
Paremos para pensar. Há 20 anos, estaríamos agora falando do homem e sua moda? Os ciclos para reflexões sobre o tema estão cada vez mais curtos. O que rolava em 10 anos agora acontece em 5. O neologismo metrossexual foi criado em 1994. Ninguém deu bola. Em 2002, David Beckham foi eleito o padrão. Bombou e o mundo descobriu um novo homem. O retro, o über, o techno, o homem alfa, o beta, o power seeker e o neo-patriarca, nasceram e sumiram em 2 anos. Hoje o “homem sem rótulos” – o que já é um rotulo – é a bola da vez.

Johnny Depp e seu estilo retro man

Alemão, o homem alfa brasileiro

Se analisarmos esse homem, veremos que o formato surgiu nos 80´s num evento – New Man – pilotado por ninguém menos do que o Paul Smith, em Londres. Rolou o que foi batizado de newmania_ou mania do novo homem. Acabou, foi reeditado em 90 com o boom do consumo masculino _ de moda, passando a carros & gadgets – nas revistas para homens. São ciclos que se fecham cada vez mais curtos. Professo a minha fé no mantra que diz: água mole em pedra dura, tanto bate até que vira comportamento & moda masculina.

Qual seria o pulo do gato para a moda masculina? Você me disse que a Prada, a Osklen, o Raf Simons estão tentando esse pulo…

O pulo do gato? A expressão já diz tudo. Pulo do gato não se conta, se faz e, depois se vende hehehe. São os criadores que têm que rebolar para terem os seus diferenciais, seu pulos de gatos. Prefiro a palavra caminhos. Se eu descobrir até terminar o meu Almanaque da Moda Masculina [N.E. com certeza já um clássico], eu prometo que, esta reposta estará no livro. Segundo os estudiosos, o caminho é continuar pacientemente com o mantra: água mole em pedra dura …

SEMANA LULA RODRIGUES: MODA MASCULINA E O NOVO HOMEM


Antes de mais nada quero deixar claro aqui que quando digo e legitimo um discurso autônomo do streetwear em relação à alfaiataria é porque penso que muitas das amarras da moda masculina passam por essa questão. Não é negar a alfaiataria, de maneira nenhuma, até porque minha crítica não passa por ela enquanto processo de fazer roupa e nem a desautoriza como uma grande contribuição do Ocidente para a vestimenta masculina, mas sim questiono hoje a sua idéia, sua lógica cartesiana. Penso nisso muito dentro de um mergulho da minha memória por um desfile memorável de Karlla Girotto para o verão 2007. A estilista já vinha discutindo o gênero assim como algumas coleções masculinas de Herchcovitch, mas dessa vez ela fez um tratado sobre a moda masculina e feminina.
A moulage faz a mulher flutuar, é pura poesia que enlaça o corpo, já a alfaiataria é mais pesada, medida, mais pé no chão. Será que o streetwear não poderia ser a moulage da moda masculina? Será que não chegou a hora dos homens encontrarem mais poesia em suas roupas?
Por fim, dando uma de Caetano Veloso, é importante ressaltar que a saída também pode estar na alfaiataria, tudo é possível, ou não…

Karlla Girotto, os opostos se atraem
Voltando a questão do gênero, o feminino parece querer sair do armário do homens. Veja uma grife tradicional como a YSL, por exemplo…

ser um homem feminino – YSL verão 2009

Faz algumas temporadas que a Prada tem investido em um homem mais feminino. Nessa temporada aqui e lá fora, esse homem parece dominar as passarelas. O que realmente desse homem pode chegar às ruas, já que os homens são muito conservadores na hora de vestir?

Prada verão 2009

Prada verão 2008

Prada verão 2007

A Miuccia [Prada] e o Raf Simons encabeçam uma lista de criadores que trabalham um laboratório de mudanças fundamentais no closet masculino. Mas, não são loucos a ponto de fazerem roupas que não vendam. A Miu Miu masculina – a mais criativa, segundo Colin Mc Dowell para meu blog – acabou, o foco lab agora é na Prada. Na Jil Sander, Simons está preso a contrato de vendas. Na sua signature line, pode fazer experimentos e leva-los para a grife Jil Sander.

Miu Miu verão 2007
Isso vem acontecendo desde os anos 2000, digamos, sendo generosos. Acredito que tais mudanças, tais laboratórios estejam conectados à procura da nova silhueta do terno executivo contemporâneo. Por um simples motivo: quem EMPLACAR a nova silhueta do terno do homem de negócios, do estadista, do clero sem batinas e e afins, e não apenas nos fashionistas e modernos, entra para o hall of fame da moda contemporânea, ou melhor, em letras garrafais, entra para a HISTÓRIA.
Vale lembrar que tudo começou em Versailles quando os alfaiates de Luiz 14, tiveram a idéia brilhante de fazer as 3 peças num mesmo tecido, estampa e cor, estava criado o terno de 3 peças: calça, paletó e colete, – daí terno. Depois, tudo foi adaptação.
Para encurtarmos a história, nos 60´s Pierre Cardin, criou o terninho curto e justo, sem lapela que foi devidamente copiado, renovado e usado pelos Beatles, via o seu empresário. Foi copiado por modernos e fãs do mundo inteiro. Acabou, saiu de moda. Já não me lembro quantas vezes fiz matéria no Ela [caderno do jornal O Globo], tendo como pauta, o novo terno.

Se você observar, tem no mínimo uns 10 criadores apostando na nova silhueta. Foi tema de pesquisa do WGSN [bureau de tendências] _ a nova alfaiataria. Fazer uns poucos fashionistas usar é simples. Nada fora do normal. Agora, convencer todos os homens de negócios do planeta usarem – de Nova York a Xangai _ ai são outros quinhentos. Quero estar vivo e bem esperto, velhinho, para ver … e adotar, of course, a novidade hehehe.

SEMANA LULA RODRIGUES: MODA MASCULINA, O STREETWEAR E A ALFAIATARIA


Particularmente acredito que o avanço da moda masculina está no streetwear, mas não gosto de vê-lo subjugado à alfaiataria. Por exemplo, tanto o Marcelo Sommer como o Alexandre Herchcovitch só começaram a ser valorizados quando começaram a aplicar uma alfaiataria mais elaborada ao seu streetwear. Penso que o streetwear deve ter seu valor em si e não acoplado à alfaiataria. Sim, a alfaiataria é um dos valores máximos da roupa ocidental e ocidentalizada para os homens, mas tenho a leve intuição que ela se esgotou, seu modelo cartesiano está com os dias contados. Mas é só uma intuição…

As marcas de streetwear só recebem aval da moda quando dominam a alfaiataria. Realmente ela é tão importante assim ou a alfaiataria é uma adequação do streetwear às normas do “bem vestir” tirando o seu espírito mais libertário?

As marcas de streetwear têm seus próprios códigos e seu próprio público, no espaço que um dia foi gueto. Não precisam ter aval da moda mainstream.
Por que o Monsiuer Bernalt Arnault da LVMH levou o Marc Jacobs e esse levou para o templo Vuitton o Pharrell Williams? A Chanel tem o olhar do kaiser generoso para a moda das ruas, o que faz com que ele esteja na direção da maison há 25 anos. Por uma simples questão: vendas … vendas … vendas.

pharrell + jacobs
Vivemos uma era de mudanças dos jogos do poder. P. Diddy senta no front row da Dior Couture, ao lado da Anna Wintour, para prestigiar as criações de Galliano, que nunca escondeu seus fundamentos street culture (isso está no documentário “Mulheres no Poder”, exibido pelo GNT, que deu muita pista para o filme o Diabo …).

Sean “P. Diddy” Combs
A adequação da moda de ruas aos cânones da alfaiataria é conseqüência de seu crescimento. O jovem saiu do gueto e precisa trabalhar nos universos corporativos, tendo já passado pela universidade. Por que não lhe dar opções formais dentro do seu universo de consumo?
O tema já foi capa da revista DNR, mostrando o que é o streetwear contemporâneo. É preciso, no entanto, que entendamos esse movimento não como caretice ou adequação aos modelos dos brancos, e sim como um crescimento, maturação. O branco mainstream bebe continuamente na fonte da cultura das ruas, que se espalhou por todo o planeta. E, como diria a fake Miranda/Wintour, do filme _ não gosto_ Diabo veste Prada: “that´s all”.

SEMANA LULA RODRIGUES: A MODA MASCULINA, COMO ANALISÁ-LA E COMO PERCEBER A CONTRIBUIÇÃO DAS RUAS E DOS NEGROS


Lula apontou e esclareceu algo importante no momento de fazermos a crítica e observação da moda masculina: ela evolui através dos detalhes, ela é, em certo sentido, metonímica. enquanto a moda feminina é metáforica. Para entendermos melhor a roupa masculina temos que ficar atento aos detalhes, é uma moda microscópica, enquanto a moda feminina hoje é uma questão do todo, é macroscópica. Por isso se ficarmos apenas reparando nos itens ou looks não compreenderemos as finas mudanças que ali se procede, a moda para os homens é muito mais sutil. Quando Sylvain escreve elogiando a Iódice masculino para susto de muitos fashionistas, ele está exatamente reverenciando e anunciando o detalhe, vendo através de uma lupa que mudanças importantes estão ali acontecendo.
Continuando…

O fato de você estar ligado ao streetweat e a cultura de rua é porque vê nessa manifestação uma possibilidade de avanço da moda para os homens? O que te interessa no streetwear?

É claro que a moda das ruas e sua cultura promove um avanço no visual masculino, o torna mais glamuroso e rico até demais. Ajuda ao homem a ter menos grilos com sua vaidade. Os rappers são super vaidosos e ostentam isso. São uma espécie de Luizes 14 contemporâneos. Tem seu códigos de beleza e são replicados e copiados por todo o planeta. Suas imagens vendem de cds/dvds a roupas a até cosméticos masculinos.

Mas é preciso que entendamos também suas mudanças. O streetwear desenvolve cara nova. Antes de criticá-lo como um processo de caretice ascendente, é necessário um olhar mais generoso para descobrir que tais mudanças fazem parte de um crescimento e maturação. O jovem do gueto de ontem, hoje tem emprego em Wall Street, é advogado de rappers, ou trabalha em ofícios que exigem dele roupas formais.
Veja a quantidade de perfis e a grande participação do negro americano numa revista mainstream como a Men’s Vogue, inclusive a regularidade de celebridades negras em suas capas. Vale lembrar que na Vogue feminina, modelo negra na capa fazia a revista encalhar. Quando Ralph Lauren usou uma modelo negra em sua campanha, o fato foi parar na revista Time. Quer mais preconceito ?

Já a versão masculina da revista, nasceu conectada no seu tempo. O street culture me interessa muito como um elemento que, por ser masculino acima de quaisquer suspeitas, propõe mudanças para o homem urbano e contemporâneo. Tem dinheiro, cash para pagar anúncios.

SEMANA LULA RODRIGUES: A MODA MASCULINA, OS GÊNEROS E A RELAÇÃO GAYS E MULHERES


Lula além de nos contar a evolução da moda masculina, faz deliciosas observações ensaísticas como: “A moda se torna mais austera no período vitoriano e a Revolução Industrial, no século 19, editou um burguês rico e discretíssimo, […] Isso rolou no auge do Império Britânico e foi replicado por todo o planeta_inclusive no Brasil. Vivemos um momento em que os ricos tem que se disfarçar, se esconder em carros blindados. Alguma semelhança ??? É preciso que reflitamos”.
Só esse parágrafo me fez pensar muito numa resposta para aqueles que ainda vêem a moda como algo alienado. Com esse pensamento tão requintado, Lula criou a partir de suas constatações sobre a moda masculina, um reflexão sobre o estado de coisas hoje no nosso país.
Bom, continuando…

Sobre a questão do gênero pode-se falar que além do embate com os gays, existe outro com as mulheres e sua moda. Por que a moda masculina anda tão a passos lentos, essa é minha visão e é quase um consenso – apesar eu de odiar unanimidades. Você acredita nisso?

Temos que ir com calma. Levamos 4 séculos para chegarmos a esse padrão. As coisas no universo masculino demoram. São digeridas com calma. Têm seu ritmo. Por incrível que pareça, o homem muda continuamente. As mudanças mais relevantes não são notadas: são os detalhes. O homem médio, do povo, que eu chamo de “vox populi”, reage lentamente, mas absorve as mudanças, no seu próprio timimg. Depois faz delas uma verdadeira algazarra. Quer ver? Homem de brinco e tatuado há 10 anos, não era bem visto, gerava polêmica do tipo, brinco é coisa de mulher e viado, mesmo sendo os piercings e tatoos, acessórios de machos tribais. E hoje quando todo homem que se preza tem lá seus brinquinhos e piercings e, usa cabelo com gel e topetes espigados para cima (herança da estética punk tão em alta) e apostam em jeans com a lavagem da moda.

“Deus está nos detalhes” – brincos, piercings, tatoos, cabelos espetados

É preciso que sejamos indulgentes com ele. Não podemos assustá-lo e fazê-lo voltar à sua reclusão vitoriana. É preciso que mostremos a ele DELICADAMENTE_que ele pode ser alegre sem que isso macule seus temores de identidade sexual. Acredito que, em paralelo ao reportar as suas mudanças, nós da mídia temos que ser cautelosos. Não quero dizer endossando caretices e sim não compactuando com detonações banais, simplesmente dizendo que a moda masculina é mesmice e chatice, ueba, rimou. A meu ver, este é outro ponto de vista na análise da moda masculina contemporânea.
As mulheres modernas sempre os assustaram. Elas tiveram todo o século passado de mudanças; começaram com o direito de voto, roubaram as calças que eles levaram séculos para conquistar (lembram dos culotes ridículos?), ganharam a pílula, a minissaia, o power dress nos anos 80 e, na década seguinte, viraram o seu chefe: galgaram altos cargos no universo corporativo.

E o homem como ficou? Viu seus cânones serem quebrados na televisão com reality shows do tipo Queer Eye for the Straight Guy, que revelou um armistício entre heteros e gays_como o nome já diz.
Agora, podemos dizer que a moda masculina AINDA lida com identidades: de tribos e sexual. Eu disse ainda. O processo de mudança, é, no entanto, irreversível. É preciso que tenhamos paciência e eu tenho toda a paciência do mundo.