Arquivo do mês: setembro 2009

A IMAGEM

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foto de Mara Gama

Fala-se muito em imagem de moda e da construção de uma imagem de moda. Realmente o trabalho de erguer uma imagem sólida de moda não é tarefa fácil e pode levar anos, às vezes décadas se a personalidade não se impor de imediato. No caso das grifes, os franceses usam o termo marca forte, para afirmarem que maisons como Chanel ou Dior, tem uma imagem poderosa, identificável e firme. Elas tem que ter uma imagem clara e para que isso aconteça é necessário depois de alcançada essa imagem um certo grau de imobilidade. Identificamos a Chanel ou a Neon por certo traços característicos que nunca mudam, ou quando mudam é para reafirmar a importância dos traços negados. Chanel sem tailleur de tweed é possível desde que o substituto equivala a mesma imagem que o tweed e o tailleur juntos produzem para a imagem da Chanel: a idéia de uma mulher independente em primeiro lugar, e depois em segundo plano a imagem da mulher que trabalha, mas ao mesmo tempo consegue ser sofisticada. Todos esses elementos: liberação, independência e glamour formam o ícone Chanel.
Posto isso, podemos falar que essa é a essência de uma imagem forte, no geral. Ela é imutável pois se ela muda não pertence mais a esse signo. Aí você pode se perguntar: e quem muda o tempo todo como a Madonna, ela não tem imagem? Sim, a imagem dela é mudar o tempo todo, continua sendo uma imagem imutável. O chamado motor imóvel, é assim que a imagem funciona para conseguir sua fixação no nosso imaginário.
Uma imagem forte, e isso vale também pra imagem de moda, precisa de uma personalidade com seus arquétipos para se tornar em algo realmente identificável, senão ela é tão pueril como um flash, talvez menos.
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O que faz a foto do cartaz do Sonic Youth com crianças ser uma imagem tão representativa da banda assim como o de Marc Jacobs com a Miss Piggy?

LADY GAGA E MADONNA

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Tenho um verdadeiro interesse por Lady Gaga, mas muitos dizem que ela é a nova Madonna. Outros que ela é um ícone por si só. E ainda outros dizem que é apenas um sucesso passageiro.
Fico aqui com perguntas que gostaria de saber as opiniões:
Lady Gaga é afinal uma nova Madonna ou seria ela só Lady Gaga?
É possível fazer um paralelo de estilo e roupas com a Madge?
O que Lady Gaga tem que encanta tanto esses tempos de hoje?
Quais os símbolos de estilo que representam Lady Gaga?

Como estou numa correria de pensamento, prefiro refletir com m ais calma emcima e sobre o que vocês tem a me dizer, pois eu mesmo já estou ficando gagá, não consigo mais pensar muitas coisas ao mesmo tempo.

POR QUE ESSA CARA TÃO SÉRIA?

“O mundo da moda e principalmente os fashionistas se levam a sério demais”. Já ouvi essa frase mais de uma vez de amigos que olham o “espetáculo” de fora. Essa tal seriedade, penso eu, pode ser uma reação aos que olham a moda de maneira diminuta, de forma alienada e por isso sem muita importância. Também é uma forma de dizer: “ei, nós não somos uma brincadeira, um pastelão, um circo apenas, aqui o trabalho é duro”. Glamour, atitude e principalmente imagem não nascem em qualquer lugar, temos que arar essa terra, sujar as mãos, suar, ralar para tentar chegar perto de algum resultado (quando se chega…), dentro de metodologias de tentativa e erro semelhantes as das pesquisas científicas mais avançadas.
Mas também entendo que muitas vezes ocorre uma seriedade um pouco demasiada. A sisudez de Anna Wintour me cansa um pouco, apesar dela carregar muito do que disse acima. Uma certa obsessão de alguns fashionistas por grifes e as tratam como o suprasumo do bom gosto e a fórmula certa para se estar elegante, acho de uma tolice atroz pré-adolescente, igual aqueles críticos de música ou de futebol que dizem os nomes dos álbuns de tal banda de cor com data e tudo ou a escalação inteira de um time em 1962 com todos os reservas e comissão técnica. A seriedade escondendo e disfarçando a falta de conteúdo para ir fundo nas questões. Torna-se o detalhe o fator principal por uma incapacidade de conseguir fazer um aprofundamento de questões centrais sobre os assuntos que tratam. Lembro que quando criança sabia todas as capitais do mundo e isso sempre causava certa admiração entre as pessoas, mas não em fez um gênio nem da geografia nem da turismologia. Era apenas um exercício virtuoso do vazio, o virtuosismo com uma certa pretensão de seriedade.
De qualquer forma, adoro quando os fashionistas abandonam seus cintos de segurança, os lugares que acreditam estarem confortáveis com a sua imagem, sempre sérias e nos surpreendem.
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Carine Roitfeld em pose xoxo, deliciosamente longe da seriedade que a editora de moda da Vogue Paris tem que ostentar

COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO 20/09/2009

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Claudia Leitte causou ainda grávida ao declarar na televisão, no ano passado, que adorava os gays mas que preferia que seu “filho fosse macho”. Tirando a desafinação conceitual de que um gay não pode ser macho, no sentido de possuir masculinidade, o que a cantora verdadeiramente expôs foi uma ideia que percorre toda a sociedade.
Sim, ela foi condenada por muitos homossexuais que agem dentro dos dogmas do politicamente correto e nos obrigam a viver em eterno cinismo, escamoteando nossos verdadeiros pensamentos. Mas vendo a baiana em uma outra longa entrevista percebi que suas declarações trabalham sempre com chavões – ela pensa e fala para agradar a maioria da população, nada é polêmico em sua figura. Então essa polêmica apesar de passada, nos revela muito sobre o presente dos gays no Brasil.
Ao se utilizar do senso comum para dizer que preferia que sua cria não fosse viado, a cantora sem saber mostra o pavor de ter um filho em um país que, segundo o Relatório Anual do Grupo Gay da Bahia (GGB), 190 homossexuais foram assassinados no Brasil em 2008, um a cada dois dias, sendo considerado por alguns especialistas como o país mais homofóbico do mundo. Ou o horror de ver seu filho perseguido e torturado  por traficantes e milícias dos morros cariocas pelo simples fato de ser gay ou lésbica, como noticiou o jornal O Dia (05/09/09).
Ou ainda a reza de algumas igrejas que pregam o ódio aos homossexuais que a única coisa que os interessam agora é barrar a lei nacional contra a homofobia e se esquecem foram fundadas pela lei do amor ao próximo.
Claudia Leitte, no Brasil é preciso ser muito macho pra ter um filho gay.

PENSAMENTO FRACO DE DOMINGO

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PENSAMENTO FRACO DE DOMINGO

[por Sandra Brogioni] Você assustou o cheque? Faça mil favor… Matei dois coelhos com uma caixa d’água só!

A FOTO REVELA

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Quando escrevi sobre o funk carioca, publiquei essa foto, que foi capa de uma reportagem da Folha de São Paulo sobre um baile funk dos anos 80. No jornal, a foto é bem maior e podemos ver as estampas florais se repetindo em vários padrões. Não nego que fiquei fascinado e intrigado. Mesmo a foto sendo em p&b dá para sentir uma certa vibração das cores que parecem casar e iluminar tão bem as roupas na Cidade Maravilhosa, longe da canhestrice do chamado lifestyle carioca.
Já comentei aqui no blog o fascínio que senti ao ver as belas da Zona Sul vestindo as roupas estampadas e coloridas da Neon, da Amapô, da Fkawallys quando Rita Wainer armou uma Fashion House no Jardim Botânico. Parecia que aquelas roupas que aqui eram vestidas por pessoas descoladas e undergrounds ganhavam uma outra aura. Parecia que aquelas estampas sempre pertenceram àquelas garotas educadas no Santo Inácio ou na PUC. Parecia que aquele colorido todo ganhava um outro e novo sentido, um certo glamour. E assim parecia no mesmo tom a sensação que tive ao olhar as estampas do baile funk em preto e branco.
Muito longe da mentalidade que tenta construir o tal do “lifestyle carioca” que se pretende pretensiosamente atemporal e universal, acredito sim que as cidades apresentam seus estilos mas de maneira menos ambiciosa e deslumbrada. Claro que esse tal “estilo” sempre se dá dentro de um recorte de tempo, classe social, área, sensibilidade visual e da percepção de quem visita ou reside em certa cidade. Muito diferente de um ambicioso plano de decidir que tal cidade é e será eternamente enquadrada em um tipo de comportamento, as visões que os turistas tem das cidades que visitam, sempre de maneira tão profundamente pessoais e superficiais, são as que acredito mais válidas. Claro que existem traços que durante um tempo, às vezes décadas, são comum àquela cidade ou a tribo ou classe que a representa. Dizem que Tóquio hoje é o lugar que indica 2 ou 3 anos o que será moda pro resto do mundo. Durante um bom tempo poderá ser assim, mas isso não significa que sempre isso acontecerá.
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Mas observando a foto novamente do baile funk vejo, à direita, dois rapazes vestidos de maneira idêntica, floridos mas iguais. Antes que se entre em qualquer disputa bairrista que esse tipo de post sempre parece sugerir, não vou nem tocar no velho chavão dos modernos de São Paulo que não enxergam quase nenhum estilo na Cidade Maravilhosa e sim vou falar da experiência de um turista muito conectado nas questões de estilo. Um grande amigo inglês quando visitou o Rio teve seus momentos de êxtases, mas como bom britânico depois de alguns dias na cidade, virou pra mim e comentou: Por que todo mundo é igual nessa cidade? Argumentei que achava o lance bermuda e correntão uma maneira vintage do Rio se estabelecer e se afirmar antes da revolução da moda de rua, aquela que antes fazia todo mundo se vestir mais ou menos parecido segundo os ditames dos costureiros internacionais. Pensei de como era paradoxal já que é muito forte a questão de uma falta de personalidade individual nas roupas usadas nas ruas, mas que a roupa pouco importava pois tinha o corpo, e nesse quesito os cariocas tem o melhor corpo-roupa do mundo. Ele sempre inglês me respondeu que mesmo fenomenais: até os corpos são iguais!
Claro que a partir daquele momento comecei a ver, sinceramente, o estilo carioca com menos entusiasmo, pois a questão do corpo, da beleza e plenitude do corpo que os cariocas tem como em nenhum outro lugar era vital pra pensar em alguma individualidade até aquele momento pra mim.
Mas ao ver os dois rapazes na foto de maneira idêntica e sem o menor constragimento por isso, como um código de identificação, pensei se a questão da coletividade não era a chave pra entender a individualidade naquela cidade. Foi o que essa foto me revelou
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YOKO ONO, 11 DE SETEMBRO…

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Sempre gostei muito de Yoko, mesmo antes dela ser mezzo beatificada mezzo perdoada pelos beatlemaníacos pós morte de John Lennon. Quando bruxa ainda, sempre olhava mezzo fascinado para sua atitude, seu rosto meio de cerâmica, meio impávido, sua gola rulê e suas roupas pretas.
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É tão óbvio quanto injusto a gente sempre associar Yoko aos Beatles e, é claro, Lennon. Muito antes da banda entrar nas paradas de sucesso, a japonesa já era uma artista plástica conhecida. Na década de 50 abria seu loft em Nova York para seus amigos prepararem as novas perspectivas para a relação entre arte e vida e que anos mais tarde iriam formar o Fluxus. Ela mesma foi participante ativa do Fluxus, o grupo que tinha John Cage, Nam June Paik e George Maciunas nas suas linhas de frente e que agitariam as artes ao propor diversas formas de integração das artes plásticas com outras artes e com o cotidiano. Essa relação com o dia-a-dia é ainda hoje uma das linhas mestras da arte de Yoko Ono, sempre tentando nos levar a (re)ver atitudes diárias de novas maneiras.E foi assim em 1966, quando Lennon visitou a sua exposição “Unfinished Paintings and Objects” (“Pinturas e Objetos Inacabados”) na Indica Gallery, em Londres. Ele ficou particularmente maravilhado com “Ceiling Painting” (“Pintura no Teto”), uma escada branca de onde, do topo, podia-se ler, através de uma lupa, a palavra “sim”. Lennon declarou na época que as artes plásticas eram tão destrutivas e pessimistas, sempre querendo desmontar os objetos que ele viu positividade e otimismo naquele ato. Daí pra frente todos sabemos: construiu-se uma instigante história de amor.

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a famosa performance “bed-in pela paz”, de 1969, no Hotel Hilton em Amsterdã, Holanda

Como artista atuante, Yoko não poderia deixar de colocar suas ideias e discutí-las com Lennon e consequentemente os Beatles. Também não tinha as melhores relações com a loira Linda McCartney, mulher de Paul. Resultado: foi culpabilizada e satanizada pela separação do grupo.
Penso muito do porquê ela foi considerada culpada. Primeiro, por ser uma mulher forte, com ideias e um trabalho independente dos Beatles. Ela não era a típica garota que topava e obedecia tudo o o que o namorado dizia, ela influenciava também, de maneira direta, sem os subterfúgios femininos.
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E é muito mais marcante a imagem de Yoko ao lado de Lennon do que de qualquer mulher dos Beatles, mesmo Linda. Percebe-se que ali existia um diálogo de igual pra igual. Penso muito ao ver a foto que o filho deles, Sean Lennon, e sua noiva, a modelo Charlotte Kemp Muhl, recriaram da clássica imagem clicada por Anne Leibovitz, em 1981, de Yoko Ono e John Lennon. Se Sean cumpre o clássico pictórico de mulheres nuas e homens vestidos (lembrem sempre de “Piquenique na Relva” de Manet), reparem que quem aparece nu, invertendo essa lógica é Lennon. Toda essa gestualdiade já indica muito da força de Yoko. Então talvez tenha um pouco de machismo nessa vontade de acusar Yoko pelo fim dos Beatles.

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“Piquenique na Relva”, Manet
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Sean e noiva; Yoko e John

Mas outra razão pode estar também naquilo que o 11 de setembro só evidenciou: a intolerância contra o Oriente, sentimento existente na sociedade americana desde os filmes mudos da década de 10 em que os chineses eram sempre os vilões ou pessoas pouco confiáveis. Depois teve também a guerra contra o Japão e não é difícil pensar que é mais fácil dentro de um senso comum rasteiro culpar uma oriental do que uma loira pelo fim de um sonho. Então talvez tenha um pouco de preconceito nessa vontade de acusar Yoko pelo fim dos Beatles.

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Mas também pensando que os fatos não são tão fechados e cartesianos assim, o 11 de setembro chega com um excelente álbum de composições novas de Yoko e sua Plastic Ono Band, o elogiado “Between my Head and the Sky”, que você pode conferir nesse link. E também são os americanos do ThreeASFOUR nesse período pós-11 de setembro que se rendem à arte múltipla de Yoko. Eles fazem parceria com a japonesa, criam estampas em conjunto e se apresentam no dia 17 de setembro, quinta, na semana de moda de Nova York, na Milk mais precisamente. Dizem que Yoko e seu filho Sean vão tocar ao vivo durante o desfile. Yoko não esconde seu entusiasmo: “Eu sempre fui interessada em expressar os pensamentos de arte através de roupas. Eu penso que existe uma incrível conexão, é como uma escultura, mas que você pode vestir” disse ao WWD. Uma vez Fluxus, sempre Fluxus!

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ThreeASFOUR & Yoko: parceria fashion

Este post foi escrito pensando em e para Silvia Hayashi, a verdadeira japa dus infernus

O FUNK CARIOCA

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Eu acho o funk carioca uma potência tanto musicalmente como no quesito estilo. Não foi à toa que para o “Moda & Música” fui firme na presença do funk como manifestação fundamental do comportamento jovem, pop e principalmente fashion – o que gerou um episódio dedicado só para o pancadão.
Na moda e no comportamente não digo apenas sobre o alcance da calça da Gang que por si já comprova o que o funk carioca tem a oferecer. Hoje as funkeiras adotaram o visual shortinho curto e o baby look, já os meninos pegaram emprestados o estilo vindo do hip hop com calças e camisas folgadas e bonés. Já o cabelo pode ser descolorido, ideia que veio do grupo Funk N’Lata.
A carga altamente erótica é outra chave assim como os diversos papéis da mulher no funk carioca. Temos desde as que se objetificaram como as frutas da vida até as Mcs como Tati Quebra-Barraco e Deise Tigrona que foram responsáveis e porta-voz da difusão internacional do movimento musical.
Abaixo está um pequeno trecho de uma matéria que escrevi para a falecida revista Beatz ainda sobre o impacto do meu encontro com o funk, em 2003, depois do Tim Festival, no Rio de janeiro:

NA TERRA DE MARLBORO:
Afrika Bambaata encontra a verdadeira música eletrônica brasileira

Prólogo:
No dia 1º de novembro, DJ Marlboro com seus diversos convidados que eu só conhecia dos programas de auditório encerraram o TIM Festival, no MAM (Museu de Arte Moderna) do Rio de Janeiro. A apresentação foi apoteótica por diversos motivos, mas principalmente pela descoberta, para boa parte dos espectadores, da qualidade das mixagens do funk e de uma pulsação fortíssima do grave que fazia vibrar todo o corpo, o chamado pancadão.
Dias depois para conseguir informações sobre uma matéria sobre o verão carioca, ligo pra Marlboro e meio sem saber o porquê começo a rasgar elogios empolgados pela apresentação no festival. Ele não perde tempo e convida: “Porque você não vem aqui na semana que vem? Vou dar uma volta com Afrika Bambaataa pelos bailes funks”.
Demorô, já é!!!

Sábado, dia 15 de novembro –

O primeiro encontro

Feriado, apesar do calor “dus infernus”, o dia estava nublado. Ligo para Marlboro e combino de encontrar com ele na rádio O Dia, onde grava de segunda a sábado, das 16h às 18h, o programa Big Mix para mais de meio milhão de ouvintes. E serão eles as primeiras testemunhas desse encontro histórico do embaixador do funk com o pai do hip hop e do electro.
Éééééééé Big Mix, ô mané!!!

Mané de primeira viagem

Chegando na sede da rádio, sou barrado. Motivo: estava de bermuda. Falo para Luciana, a fotógrafa, ir subindo e tento chantagear o pessoal da portaria. Eles são irredutíveis, mas como me autodenomino de mané, ganho a simpatia deles que indicam um lugar que poderia comprar uma calça bem baratinho: Central do Brasil. Saio correndo com o sol abrindo cada vez mais forte. Em um camelô consigo comprar uma calça de 3 reais da marca Sabotage.
Suado, mas já uniformizado, chego a tempo de ouvir o locutor Ricardo Gama apresentar Afrika como o “homem que está por trás de Marlboro”. O DJ rapidamente e cheio de humor interrompe e diz: “Por trás de mim não porque pega mal, que tal do lado”.
Apesar das brincadeiras, as reverências são mútuas. Bambaataa fala para Marlboro que tem um disco dele que nem o próprio se lembrava que tinha lançado. Ele descreve a capa rosa e a ficha cai: “Caraca, é o Funk Brasil 2!!!”, se surpreende o DJ com um sorriso no rosto.
Muitos ouvintes ligam para a rádio emocionados com a visita ilustre. Mas o programa acaba e eles combinam de trocar vinis e mais tarde ir a algum baile funk. Afrika sai com sua entouragé, mas Marlboro continua na rádio, uma revista francesa quer fazer uma entrevista sobre o funk com ele. Aliás, o interesse da imprensa estrangeira parece ser cada vez mais constante. No dia anterior, a BBC de Londres foi com Marlboro em diversos bailes funks para gravar um especial.

Uma aula sobre o funk

Depois de dar uma entrevista para a revista francesa, finalmente encontro frente a frente com Marlboro. Sempre simpático, fala da importância social do funk para as comunidades mais pobres do Rio e como esse ritmo musical pode tirar a falta de perspectiva dessa população. “Fazendo funk, eles podem ter uma saída além do tráfico ou de um subemprego”, afirma.
Didaticamente, ele me ensina os passos evolutivos do funk. “O baile funk é o primeiro a aceitar a música brasileira assim como James Brown, ska… e ‘Planet Rock’ [o grande hit de Afrika Bambaataa] foi entendido rapidamente nos bailes. Depois, no começo dos anos 80, vem a Miami Bass, de onde a batida grave também é integrada, mas só por volta de 88, 89 que acontece a nacionalização do funk”.
Marlboro explica que é nesse período que começam a ser feitas músicas em português e também os ritmos brasileiros são inseridos no funk. “Perceba como a melodia do ‘Rap da Felicidade’, de Cidinho e Doca e autoria de Kátia e Julinho Rasta (eu só é quero ser feliz / andar tranqüilamente na favela em que nasci) tem a estrutura de um samba enredo. E tem funks com estrutura de forró, folia de reis e axé. O funk é fruto legítimo da miscigenação, um caldeirão musical”, esclarece. E finaliza: “O funk é tão MPB quanto qualquer música feita aqui no país!”.
Ele começa a falar: “Afrika também tem essa noção de misturar tudo porque tem cultura e o preconceito só emburrece…”. Toca o celular!

Interrupção global da aula

Marlboro atende. É Regina Casé. Eles conversam com bastante familiaridade. O DJ diz a ela que está inconformado, pois desde o TIM soube do boato que o funk não estaria no especial da Globo sobre o festival. Regina diz que não foi a Globo mas a organização do festival que decidiu só pelas atrações estrangeiras.
Seja quem for o responsável, realmente foi bem vacilão (começo a me familiarizar com o vocabulário funk) quem não colocou no ar a apresentação mais quente e intensa de um festival, em geral, frio e apático.
Logo mudam de conversa e Marlboro convida Regina para ir na tour com Afrika. Ele diz que vai no complexo do Alemão e ela, do outro lado da linha, parece ficar com receio e ele a tranqüiliza: ”Regina, você está com Marlboro”.
Terminado o telefonema e a conversa quase no elevador, Marlboro fala orgulhoso que Afrika disse para ele que o funk é seu filho mais promissor… seu filho mais importante.

CAMINHO DAS INDIES 2, A MISSÃO

Depois da primeira versão, eis que surge…

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