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ANNA WINTOUR E O CASACO DE ONÇA


Quando a mais poderosa editora de moda do planeta aparece vestida por quatro ocasiões muito próximas com um mesmo casaco de onça, algo está sendo sinalizando. E é muito mais do que uma mudança comportamental ou uma nova tendência que tem o aval do topo da pirâmide da moda a todos repetirem roupas como um fator de elegância. Ela explicita paradoxos da moda e seu momento de crise.

Sobre o quesito comportamental, ícones de elegância atuais como Kate Middleton já provaram que a chamada roupa repetida já não é um problema entre as mulheres requintadas. Apesar desse evento ocorrer faz pouco tempo, não se discute mais nas fúteis listas de estilo se é certo ou errado, apenas é um fato.

Mas o que Anna Wintour coloca em sua repetição de roupa não está só no campo do comportamento, está no terreno da ideologia e da política – da moda e do mundo. Se a ideologia da moda e do mundo está – neste estágio do capitalismo tardio – atrelado ao consumismo, ela se mostra amiga da onça e faz como que um manifesto contra o consumo desenfreado, base tão fundamental da moda com suas inúmeras coleções por ano e por uma obsolescência de imagens com velocidades assustadoras. De certa forma, ela joga contra aquilo que Gilles Lipovetsky chama de Sistema Moda.

Se ela está em diálogo com o Sistema Moda, que é muito superior ao mundo da moda – basta ver por exemplo como o sistema moda age em áreas como a tecnologia celular com os modelos que são novíssimos ficando antiquados em questão de meses –, ela também está de certa forma fazendo um manifesto político.

De forma silenciosa, seu casaco de onça fala sobre consumismo, crise e criatividade. Mas engana-se quem acha que a editora está se posicionando de forma revolucionária ou anárquica. Não existe nada mais atrelada à indústria de moda que a Vogue americana. Anna Wintour só está legitimando e procurando soluções para aquilo que já está acontecendo com os bancos e o sistema financeiro.

Como diz o velho ditado popular: “Chegou a hora da onça beber água”.

AINDA SOBRE A ROUPA DO PODER – UM PAPO ENTRE MARIO MENDES E WALTER RODRIGUES


Uma excelente surpresa foi a volta de Mario Mendes ao mundo da moda. Fazendo vídeos curtos com ideias rápidas e espertas, ele é uma das brisas boas na sempre deslumbrada “crítica” de moda do país, que muitas vezes faz o papel de release mais do que crítica.
Outra excelente surpresa foi ele ter feito um vídeo só com Walter Rodrigues. Percebo agora que entre muitos estilistas do país que admiro, nunca escrevi no blog sobre Walter – isso é uma falta grande. Mas minha admiração por ele só cresceu com os anos. Já entrevistei a maioria dos designers de moda do Brasil, e uma coisa que muitas vezes se torna muito evidente é como o discurso do estilista está muito distante da roupa por ele – ou sua equipe – criada. Com Walter sempre o seu discurso veste-se com sua roupa perfeitamente.
Isso pode ficar claro quando Mario fala de algo monástico na última coleção do estilista e o próprio Walter cita Balenciaga falando sobre excessos.
Nesse sentido Walter está mais para Ana do que para Dilma.
Vale muito ver e perceber como Lula e Dona Marisa entenderam o seu papel usando Ricardo Almeida e o próprio Walter na posse. Ficaadica:

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A MINI-SAIA E OS UNIVERSITÁRIOS

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Twiggy e sua revolução chamada mini-saia

Não é mera coincidência a liberação das mulheres acontecer na mesma época que aparecem as mini-saias na hoje mítica década de 60. Depende de quem conta a história, Mary Quant ou André Courrèges a inventaram, mas a revolução veio das ruas, com meninas que assim como Twiggy levantaram as saias não por submissão aos homens mas por vontade própria, pra mostrar que tinham o poder e a liberdade ou ainda a liberdade de poder. O mesmo podemos pensar sobre o terninho ou smoking feminino de Yves Saint-Laurent, são dos mesmo gesto, o gesto de autoafirmação positiva do status de liberdade para vestir o que bem entender.
Já comentei aqui no blog sobre o papel político importantíssimo das roupas em contraposição à imagem de alienação que foi grifada para todos que lidam com moda. Percebo também que esse papel muitas vezes se silencia no meio de moda como aconteceu sobre o fato que conto logo abaixo e só comprova os tempos extremamente conservadores que vivemos.
Se os universitários dos anos 60 estavam a favor da liberdade [claro que essa é a visão vencedora, pois tinham os chamados reacionários também, basta lembrar dos confrontos na Maria Antonia entre os uspianos e os mackenzistas), a imagem dos estudantes do ensino superior que se impõe no anos 2000 é a dos que frequentam o campus da Uniban em São Bernardo do Campo.

Foi lá que a estudante de Turismo, Geysi Vila Nova Arruda, 20, foi hostilizada pelos alunos da faculdade por estar usando uma mini-saia. Teve que sair escoltada pela PM aos gritos de “puta”.
“Se eu não voltar para a faculdade, vou assumir uma culpa que eu não tenho”, disse a estudante numa clara atitude de resistência.
Muitos telejornais, programas da tarde da televisão exploraram o assunto nesses dias, mas tudo tratado como caso isolado de uma mentalidade reacionária localizada. Não sei bem se é tão localizada assim e não um resultado, um sintoma dos tempos que vivemos hoje.
Os vestidos estão sim mais curtos, no mundo todo, e sim, eles se parecem muito com os trajes das garotas de programa, mas isso não é motivo de escândalo e hostilização como o que aconteceu com a estudante.
Por isso, mulheres de todo o mundo levantem suas saias e saiam na rua se isso continuar a acontecer!
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