Arquivo do mês: dezembro 2009

“GÊNIAS” FERNANDA E CRIS


Quem me conhece sabe do amor e carinho que tenho por Cris e Fernanda da Oficina de Estilo. A troca, os diálogos, o respeito que temos reciprocamente fazem me sentir confortável no mundo da moda. Me sinto muito seguro de tê-las como amigas. Elas me instigam a pensar, a refletir e a viver para além da moda. E eu precisava manifestar isso publicamente. Amo vocês!

Tomo a liberdade de reproduzir dois textos que são muito fundamentais pra entender um pouco a alma de cada uma delas. Fernanda escreveu esse texto, “Sobre Prioridades”, que é uma excelente reflexão para termos sempre em relação a moda:

Importante é ter pai e mãe com saúde. Importante é ter avô e avó vivos. Importante é se dar bem com irmãos, ter um grupo bom de amigos, ter em quem confiar até de olho fechado. Importante é estar com as contas em dia e poder planejar a vida. Importante é sentir frio na barriga e olho brilhando por alguém em especial. Importante é amar tudo e todo mundo de coração aberto, saber enxergar as coisas boas da vida, sentir gratidão. Moda é muito legal, mas não é tão importante. O mundo da moda também pode ser muuuuito legal, mas é menos importante ainda. O que se veste não é tão importante, em que fila se senta não é tão importante, em que veículo se escreve não é tão importante. É só trabalho. E é muito fácil se deixar envolver e confundir esses valores, especialmente num trabalho como o dessa semana. Que a semana de moda é o máximo, mas não é tão importante quanto ser educado, quanto sentir e demonstrar respeito, quanto ser gentil ou ter carinho/cuidado com que tá em volta. É só tra-ba-lho. E tem tanta coisa mais importante merecendo mais atenção e dedicação de energia, não?

E aqui um texto da Cris, chamado “Na Intimidade” com conexões muitos interessantes dignas de um ensaísta:

Quando a gente procura no dicionário o significado de “íntimo” os resultados são: muito de dentro, profundo; da alma, do coração; doméstico, familiar; vestido diretamente sobre a pele, sob outra roupa: roupa íntima. Ou seja nem o Aurélio consegue desligar a intimidade da roupa que a gente veste!!!
Acontece que estamos vivendo um momento de muita intimidade com as outras pessoas! Por conta de blogs pessoais, reality shows e twitters da vida virou normal a gente saber quando alguém está passeando com o cahorro, ver alguém tomar banho, saber o que esse alguém pensa sobre a manchete do jornal do dia. Embora a gente cada vez se relacione menos com as pessoas no “plano material” – embora a gente sinta que está acontecendo um contra-movimento – a gente está cada vez mais íntimo no “plano digital”. Não é!?!
E se moda é refelexo de comportamento, é materialização de como a gente está pensando/sentindo/agindo num determinado momento, não tem como não percebermos a “intimização” das roupas!!! É quando a roupa íntima se revela, o que deveria estar por baixo escapa ou acaba “vindo pra cima”… Foi Miuccia Prada (quem mais?) que na sua coleção primavera/verão 2009 fez as mulheres repensarem o uso do sutiã: em alguns looks virou top por baixo de casaquinhos, em outros virou a estrutura de uma blusa, em outros eram a blusa em si!!! Foi ela também quem ressucitou a renda, lembra!?!
Renda tem esse aspecto lingerie, tem a transparência que revela o que deveria estar coberto. Por isso é sexy, por isso é intimista. Mesmo essa vontade que a gente tem tido de usar meia-calça decorada, texturizada, tem um clima meio “boudoir”. E a cinta liga aparecer no defile primavera/verão 2009 da Triton e no desfile da Dior de alta costura (depois, hein!?!) não é coincidência, né, gente!?! É um mood!!!
Nem precisa pensar só em desfiles… a Raia de Goeye vende os sutiãs que vão aparecer por baixo dos seus tops decotados, a Isabela Capeto tem nessa coleção uma camiseta que já vem com o sutiã-que-aparece preso nela (uma graça!!!) e a Les Lis Blanc sugere que a rendinha da underwear apareça no decote da regatinha básica e do coletinho jeans.
Essa da alcinha do sutiã ficar de fora é só uma das ideias que a gente pode ter quando pensa em lingerie como roupa. Camisetas em algodão bem fininho, quase transparentes ou regatas podrinhas podem ser sobrepostas a sutiãs coloridos e estampados – é lógico que não dá certo pra guarda-roupa profissional, mas fica uma graça na hora de relaxar no fim de semana ou na hora dese divertir na balada. Pedacinhos de renda também são super femininos e entram bem no clima. Sabe o que pode ficar beeeeeeem lindo? No lugar da camisa xadrez aparecer na barra da saia e do vestido, pode ser uma combinação com acabamento em rendinha. Que tal?

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OS BLOGUES, BRYAN BOY E O DESLUMBRE

No debate sobre o blogues do Youpix, Camila Yahn falou de uma certa moral que alguns blogueiros internacionais conquistaram dentro do mundo da moda. Alguns deles foram recentemente convidados pela Dolce & Gabanna para a fila A do desfile da marca, tiveram livre acesso ao backstage, isso é, uma situação privilegiada. Ela continuou dizendo que a inciativa da marca era para ter os “olhares livres e frescos” dos blogueiros. Mas questionou o quanto a suposta liberdade desses blogueiros poderia estar comprometida com tanta adulação.
Ok, existe um encantamento sobre a opinião que algumas pessoas conseguem expressar em seus blogues, mas também existe um deslumbre dada a nova possibilidade de pessoas terem voz onde antigamente não teriam por diversas razões, a principal: o acesso aos canais de comuniacação via mídia tradicional. Mas também existe um deslumbre dos blogueiros como novas superstars. Tudo isso deve ser medido e considerado.
Ao ver o festejado Bryan Boy que teve seu convite na primeira fila do desfile da Marc by Marc fazer o mesmo discurso – vazio e repetitivo [dizia ele: Marc by Marc foi muito Marc Jacobs, muito chique, muito sofisticado…] – que todas as editoras comprometidas com seus anunciantes fazem para a tv, fui acometido de uma raiva profunda. Lembro de que junto com Lia Pimenta, que edita até hoje o GNT Fashion, de comentarmos os depoimentos das tops fashionistas em Paris e percebermos que, mudando apenas o nome da editora, o discurso é sempre igual, laudatório e sem o menor conteúdo, é sempre “muito chique, muito a própia marca, sempre sofisticado, para uma mulher elegante e cita alguma peça do desfile”. Bryan Boy, apesar do nome, portou-se como os velhos medalhões da moda, repetindo a farseta, o mesmo pensamento fechado bem longe do olhar livre que dizem esperar dos blogueiros.
Será mesmo que os blogues podem fazer a diferença numa nova postura perante à crítica de moda ou é apenas um passo acertado dentro de um certo alpinismo social que a moda adora proporcionar?

BRITPOP 25 ANOS: MÚSICA E MODA


“Se o punk era para se livrarem dos hippies, eu vou livrar-me do grunge”. Essa famosa frase de Damon Albarn, vocalista e líder do Blur, foi um acorde de guitarra em volume bem alto para a formação ideológica no chamado Britpop, contração de British pop ou em bom português, pop britânico – apesar do movimento se referir somente ao rock feito nas terras da Rainha nos anos 90.
Contra o discurso, considerado hipócrita pelas bandas ingleses, que os grunges não queriam ganhar dinheiro nem fazer sucesso, outro personagem central do Britpop, Noel Gallagher, do Oasis, pede ironicamente que Eddie Vedder, do Pearl Jam, então deixe de fazer música e vire frentista de posto de gasolina. Essa é uma questão importante para os ingleses: resistir a invasão do rock americano representada pelas bandas de Seattle.
A Inglaterra, no começo da década de 90, está vivendo a ressaca musical do fechamento da Factory Records de Tony Wilson (o filme “24 Hour Party People” – em português “A Festa Nunca Termina” – conta essa história direitinho que se passa em boa parte no lendário clube Haçienda com bandas como New Order e Happy Mondays como protagonistas) e ao mesmo tempo assolada pelas bandas grunges vindas da costa oeste dos Estados Unidos. Apesar disso, as novas bandas do Reino Unido se voltam para a história do rock inglês. Na formação do Britpop está a influência decisiva de bandas e músicos como Beatles, David Bowie, The Smiths, Happy Mondays, Primal Scream, My Bloody Valentine.
A primeira imagem do Britpop sai em 1992 na capa do NME, periódico musical inglês: o vocalista Brett Anderson do Suede aparece totalmente andrógino num misto de Bowie e Morrisey. Ao mesmo tempo outro importante jornal musical, o Melody Maker, chama a banda de a “mais excitante dos últimos tempos”, mesmo eles não tendo lançado nenhum álbum. Por fim, em 1993, Anderson está na capa da Select, em uma pose muito feminina com a bandeira do Reino Unido atrás. A legenda diz: “Yanks go home!” Esse é o lema da cena.

Se existe um conflito com o rock americano, em terras inglesas, pelo menos no começo, existe uma clima de paz e camaradagem entre as bandas do Britpop. O grande exemplo é o ”The Scene that Celebrates Itself”, nome criado pelo jornalista da Melody Maker Steve Sutherland para descrever a cena que acontecia em Camden Town e no clube Syndrome em Oxford Street no começo do anos 90. O termo foi usado por toda imprensa inglesa pra descrever o encontro de bandas inglesas que se reuniam para tocarem, fazerem pequenas apresentações em outras bandas e beberem juntas.
Nas gigs do ”The Scene that Celebrates Itself”, bandas como Muse, Lush e Blur recuperam e colocam em primeiro plano uma tradição dos anos 80 de bandas como My Bloody Valentine e Cocteau Twins: o “shoegazer” ou “shoegazing”. O termo se refere a fazer uma postura tímida no palco, os integrantes ficam quase inertes e muitas vezes mal encaram a platéia. Eles mantem o olhar para baixo, até porque assim podiam ver os pedais para distorcer as guitarras, características musical dessas bandas e que acabariam influenciando diversas bandas do Britpop.
1994 é o ano considerado fundamental para a Cool Britannia. Oasis lança seu álbum de estréia “Definitely Maybe” e Blur causa muito barulho com seu terceiro álbum “Parklife”. Mas a partir daí o clima de amizade entre as bandas de Britpop não duraria muito, pois o Oasis, e seu culto aos Beatles, escolhe o Blur como seu Rolling Stones.

Apesar do campo de batalha acirrado e criativo entre as duas bandas, do Britpop também germina a urbanidade e o neo glam do Pulp, o marxismo politizado do Manic Street Preachers, a atitude feminina roqueira do Elastica, o legalize do Supergrass. Sem falar das tardias mas não menos impactantes Travis, Coldplay, Verve e Radiohead.
Paradoxalmente, o movimento que surgiu como resistência ao rock americano acabou conhecido como a terceira invasão inglesa – expressão usada sempre que bandas britânicas fazem estrondoso sucesso nos Estados Unidos. Enfim, odiando o grunge, o Britpop conquistou o Tio Sam!

2 momentos do Blur: simplicidade de estilo

Também em resposta ao grunge, pode-se dizer que o que se formalizou chamar-se de uma moda vinda das bandas do Britpop é a negação – em um primeiro momento – à ideia de uniforme proposta pelas bandas de Seattle. Se o grunge tinha o seu uniforme: a camisa de flanela, as botas pesadas, o meião e os cabelos compridos, as bandas ingleses optaram por não ter um assim chamado uniforme de tribo. Paradoxalmente ao investirem na simplicidade das roupas do dia-a-dia como camiseta, jeans e tênis, acabaram também por criar um uniforme. É inegável ver os tênis Converse All Star, o agasalho esportivo, as camisetas com listras, o cardigã também listrado, a camisa pólo, o blazer, a jaqueta jeans, ou mesmo os óculos de aros redondos e não associá-los ao Britpop, nem tanto com o produtos originais (o tal óculos de aros redondo é símbolo da obsessão do Oasis pelos Beatles), mas pela combinação das peças. É interessante fazer um parelelo que essa mesma limpeza – de ter as roupas essenciais – que ocorre no Britpop também está acontecendo de uma outra forma na moda de passarela dos anos 90 com o minimalismo e o desconstrutivismo que reinaram durante toda a década. Sendo assim podemos concluir que a volta histórica que o Britpop faz aos seus ancestrais musicais procurando o que era da essência do chamado rock inglês também acontece com a sua moda e com a moda do mundo na época, pois nos anos 90 procurou-se a essência da roupa, suas linhas mestras, sua melodia primeira e até a essência do que seria o bom gosto, não à toa a Prada surge reinante no final do século 20.

Apesar de discordar da ordem, esses vídeos são uma boa forma de ver o estilo e relembrar a música do Britpop

COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO – 13/12/2009

Você sabe que é gay. Talvez experimentou relações com meninas, mas sentiu que algo mais forte te levava a querer brincar com os meninos. O que te incomoda nem são as conversas de vestuário sobre a gostosa da classe ou a saída com outros garotos pra fazer a “zoação” com as garotas que praticam a profissão mais antiga do mundo. Ancestral mesmo é sua vontade de ser o que realmente é e ter que dissimular sentimentos como falar mecanicamente que aquela “mina é da hora”. Olha para a bichinha da escola e sente que ela, apesar das possíveis humilhações, é mais feliz e autêntica que você. Nesse momento, tem certeza que, apesar da ideia de inferioridade que fazem das quá quás, ela está em posição superior a sua. Todos não tem dúvidas sobre ela enquanto você é um poço de interrogações para si mesmo.
Em casa, seu pai, meio de sacanagem, quer saber se você é o garanhão da escola e sua mãe, religiosa, adoraria te ver no altar casando com toda a pompa. São eles que pressionam, para o bem ou para o mal, pelas suas respostas. Como um Cristo ou um Diabo perante a cruz, não há muita saída, você não os quer decepcionar mas também não quer se torturar. Como se livrar dessa angústia? Alguns infelizmente não aguentam e respondem da forma mais triste: o suicídio, se recusando à verdade e à vida. Mas outros preferem apenas sair de casa, se afastar da família, viver feliz sua sexualidade longe daqueles que preferem a mentira. E há ainda outros que respondem saindo do armário e acabando com toda essa encenação de uma vez por todas. Em todos os casos, muito antes de suas respostas, já houve a decisão dos pais, que – posso estar enganado – sempre souberam que você é gay.