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O SAMPLER E A CÓPIA

É, eu sei, você vai dizer, lá vem esse assunto dus infernus de novo… Mas dê uma olhada nesses dois clipes.

Você acha que Madonna copiou o ABBA?
Estudando o hip hop para uns roteiros que estou terminando, me deparo com a questão do sampler e toda a discussão que “Planet Rock” gerou por samplear uma música importante e conhecida dos alemães do Kraftwerk, a “Trans Europe Express”.

A discussão é antiga na música e já foi resolvida – nada como o dinheiro. Hoje ninguém acha ou aponta um sampler como algo menor ou cópia. Até aliás tem seu charme samplear algo obscuro ou que na época era alternativo e só poucos conheciam.
Mas e o que a moda tem com isso? A questão da cópia é central na moda, apenas isso. E o que seria samplear em moda? Coloco essas questões para pensarmos juntos.

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Afrika Bambaataa, o cara que deu um sentido nobre para a palavra cópia.

RUFOS, CÓPIAS, COLONIALISMO E PREPOTÊNCIA

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Como disse um amigo: “Os rufos de jornal vêm com tudo”…
Na foto acima tem Beth Ditto para a “Dazed & Confused” de maio. Fizeram um rufo de jornal igual ao que Antonio Farinaci construiu para Lovefoxxx usar no show do Festival da Ilha de Wight, no Reino Unido no dia 06 de setembro de 2008. Infelizmente, na única foto da vocalista do CSS, com o rufo no palco, a produção já está meio se desmontando…
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Sim, é cópia, está claro. O curto espaço de tempo entre as duas ações garantem o sentido de cópia hoje. E se “os rufos de jornal vêm com tudo”, as cópias continuam em alta.
Tenho sentido uma vontade da imprensa nacional de levantar a lebre que marcas estrangeiras estão nos copiando – exatamente dentro desse contexto de enxergar a cópia como algo que acontece em curto espaço de tempo, senão já vira referência, homenagem, citação, etc.
Marco Sabino em seu blog deu um alerta, devagar com o andor, pois uma coisa é numa mesma temporada surgirem desejos semelhantes, afinal todos meio que seguem os mesmos bureaus de tendências, com exceção dos legítimos criadores como a Prada que fazem seu próprio caminho – enfim, no fim o que existe é a cópia do que é dito como tendência. A outra é copiar coleções que se consagraram nas temporadas passadas recentes, e esse festival tem dominado as semanas de moda, apesar de todos falarem o contrário.
Sofremos de um colonialismo atroz, mas é importante saber o que é cópia e o que é sensacionalismo ou ufanismo.
Todos copiam, me parece, mas poucos assumem. Até porque copiam de referências claras e conhecidas. O bom copaidor, se é que isso existe, procura o underground para copiar como aconteceu no famoso caso do Nicolas Ghesquière, da Balenciaga. Mas teve a “ética” de assumir para a New York Times que realmente colou e plagiou um vestido do estilista Kaisik Wong, conhecido apenas das rodas fechadas na Califórnia dos anos 70. Agora você me pergunta, mas não poderia ser referência, citação? Não, pelo motivo das peças serem idênticas e não apenas um pouco semelhantes.
Ao assumir a cópia, o estilista da Belenciaga demonstra, mais do que tudo, prepotência. Acredito que Ghesquière pensava que nunca ninguém iria perceber a “referência”. Assim como de certa forma os rufos de Lovefoxxx foram vistos por poucos, em apenas um festival. Os stylists da revista deixaram se enganar pela “nova falsa modéstia”.

O ato de copiar tem sido uma discussão constante no blog. Mas já não a vejo de maneira plenamente negativa, aliás acho cada vez mais revelador ver a cópia e quem a copiou.

CÓPIA COMO AUXÍLIO DE IDENTIDADE, MAS QUAL IDENTIDADE?

Sobre a cópia no Brasil, como escrevi no Blogview, penso que é muito mais um problema de mentalidade do que de criatividade.

É muito comum entre os estudantes de artes plásticas, copiar certos quadros famosos para tentar descobrir como eles superaram certos problemas plásticos na prática. Você vai aos museus e lá estão eles copiando, copiando…

Claro que eles não têm o problema ético de apresentarem o que copiaram como um trabalho autoral: Todos sabem que aquilo que eles fizeram tem apenas o valor de exercício para descobrirem como podem chegar a ter uma expressão pessoal ou não.A moda norte-americana também copiou” ad infinitum” a moda vinda de Paris até descobrir sua possível identidade. Pode ser que nesse exercício de copiar que os brasileiros estão atrelados a descobrir sua verdadeira personalidade fashion.  Mas na moda, a questão nacional é paradoxal. Diferentemente do que nas outras áreas, é complicado entender o conceito de nacional. A moda, em si, se propõe internacionalista. Vejam só a tão falada moda francesa: Balenciaga era espanhol. Yamamoto e Kawakubo são japoneses, Alaïa é tunisiano e Worth e Galliano vieram da Inglaterra só para citar alguns nomes. E é impossível falar da moda em Paris sem falar desses nomes.
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Dona Kawakubo faz moda francesa ou japonesa?