Arquivo do mês: abril 2009

LINO VILLAVENTURA: AME-O OU DEIXE-O


Conheci Lino ainda em Fortaleza, lá pelo final dos anos 80. Ele já era um estilista super respeitado, Cristina Franco – a entidade mor da moda naqueles tempos e ainda referência absoluta pra minha geração – o adorava, mas sinceramente não tinha a menor idéia de como era a sua roupa e quão importante ele era. Sem esse aval, foi fácil e sem barreiras dar risadas, conversar e tirar umas fotos absurdas com ele e a Ines – sua mulher na época – na casa de um amigo em comum. [Ainda digitalizo essas fotos]
Já em São Paulo, nos anos 90, seus primeiros desfiles causaram sensação e comoção pela carga de brasilidade. Uns amavam outros odiavam, mas eram sempre um acontecimento muito especial um desfile do Lino. Lembro que na época, teve até uma rixa silenciosa entre ele e Alexandre Herchcovitch. Não sei bem se isso era claro entre eles, mas tinha uma disputa de torcidas tipo Marlene e Emilinha Borba pra saber qual era o maior estilista brasileiro. Memórias provincianas!
O que é inegável é que seu barroquismo, seu trabalho feito à mão e principalmente seu estilo único, sem seguir quaisquer tendências o fazem uma figura ímpar na moda brasileira.

No ano passado, ele comemorou 30 anos, fiquei de escrever algo, fazer uma relação mais séria do barroco no Brasil, Glauber Rocha,etc mas minha ambição me afundou.
Do mesmo jeito que nunca consegui ir muito além em escrever sobre sua coleção de verão 2006 que acho genial (mas Regina Guerreiro fez isso pro mim)
717198
Uma vez em conversa num bar, o diretor de desfiles Zee Nunes, um cara que admiro a inteligência e a visão de moda e além dela disse que pode-se gostar ou não de Lino Villaventura, mas é inegável que ele é um criador. E isso no mundo da moda abarrotado de cópias e mais cópias não é pouca coisa não.
Salve Lino!
dsc00170

COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO – 19/04/2009

show48show53
Quando eu vejo um lip synch, a técnica que sincroniza o movimento dos lábios a uma outra voz, sempre penso nos shows de transformistas e nas próprias travestis – já escrevi aqui antes sobre minha decisão de escrever sempre sobre elas no gênero feminino.
Lembro de assistir muitas dessas performances, em boates no centro de São Paulo, com uma trava manca que tinha a cara de Maria Bethânia e dublava o repertório da cantora baiana. Mas não era na semelhança física que ela se parecia com a irmã de Caetano, mas sim no jeito de dramaticamente mexer a boca, meio nervosa. E, mesmo claudicante, ao dar uma corridinha ela era a própria Bethânia e ao mesmo tempo algo a mais.
Existe no desejo de possuir uma imagem de mulher, em geral divas, personas femininas únicas em sua excelência, uma vontade das travestis de também se mostrarem e se afirmarem raras.
Porém ao serem possuídas pela voz de uma mulher durante o lip synch, as travestis dão um novo corpo a ela. Muitas vezes reinvindicam – mesmo que em todo o seu exagero e dramaticidade – o feminino, dando um recado às mulheres que nos dias de hoje se veem obrigadas a abandonar – em parte – sua feminilidade pra poder entrar no mundo masculino do trabalho competitivo.
As travestis, esses seres com certas anatomias masculinas transitam entre os gêneros através do ritual do lip synch para se afirmarem como seres femininos.

PENSAMENTO FRACO DE DOMINGO

[por Frank Dezeuxis em tempos de gripe suína] Em Hollywood tá todo mundo gripado, só a Susan Sarandon!

A RELAÇÃO ESTILISTA E MODELO: O CASO MARINA DIAS – LINO VILLAVENTURA

n1284556777_30109099_2955738
foto – Fabio Porcelli.

Meio felina, meio silenciosa, angulosa como um dodecaedro que de muitos lados são bons pra pose e de cada ângulo uma nova faceta, foi assim que vi Marina Dias no meio da fumaça do Hell‘s Club quando ainda era dentro do Columbia. Ela me chamou muito a atenção assim como as Gêmeas. Aliás os personagens silenciosos sempre fazem barulho na minha cabeça.
Depois a vi em uma imagem de sonho, de dramaticidade no desfile do verão 1997 de Lino Villaventura. Com certeza uma das grandes imagens produzidas pela moda brasileira.
Clique aqui para assistir
Essa imagem poderosa de uma ninfa, meio vampira de lentes brancas é cheia de dramaticidade, mas não era o drama carregado de teatralidade e sim de peso cinematográfico. Parece ela, Marina, chamar a nossa atenção mental para o zoom, para o close em seu rosto, seus seios e depois se afastar em um plano americano, mais aberto.
Lino e sua equipe muitas vezes comentaram desse desfile como um marco, pois muitos críticos ficaram chocados e alegaram que talvez a apresentação estivesse mais para o teatro do que para um desfile de moda.
Flashback!
É importante lembrar que também na mesma época, 1996, Ronaldo Fraga faz a sua estréia com o desfile “Eu Amo Coração de Galinhas”. A carga teatral do desfile de Ronaldo leva a editora de moda Lilian Pacce a escrever na época sobre a coleção de Fraga que “moda não é teatro”. Com esse parênteses quero dizer que a idéia de teatralização ou melhor a busca de formas diferenciadas de apresentação de uma coleção estava no espírito de alguns criadores brasileiros na época.
Se para Fraga seus desfiles tinha algo de circense e portanto de teatral, já que a origem e, mais ainda, o desenvolvimento do teatro brasileiro tem certas ligações com o circo, a dramaticidade de Lino, mais barroca na época, tinha, muito por causa de fotogenia de Marina Dias, uma ligação com o cinema e porque não, em última instância com o cinema de Glauber Rocha, autor igualmente barroco [tenho essa tese faz algum tempo e gostaria de desenvolvê-la com mais precisão mas ainda me faltam dados e tempo].
Fast foward!
Penso que durante o período que Marina Dias participou com ênfase dos desfiles de Lino, ela foi sua melhor tradução. O último que me recordo de sua presença magnânima foi o do verão 2006, que na minha opinião [balizado pela mestre Regina Guerreiro] foi o grande momento do criador paraense nessa década. Em imbricadas, complicadas e perfeccionistas construções em patchwork, Lino apresentou uma mulher atemporal. Mesmo Marina não abrindo o desfile, foi ela que alcançou com maior êxito a imagem daquela coleção. Enquanto algumas exibiam uma teatralidade que à essa altura era mais do que esperada numa coleção de Villaventura, ela apenas mexe uma das mãos enquanto anda. Deposita todo o drama apenas nessa mão. E nos faz delirar nas muitas mãos que confeccionaram todo aquele sonho [Lino me contou que sonhou com toda a coleção], faz querer que nossa mão toque naquela roupa. Enfim, com o mínimo, um dos apredizados do cinema, nos diz o máximo.
717186
Sinto muita falta dela nos desfiles de Lino hoje. Nenhuma modelo entendeu tão bem o imaginário do estilista, ou melhor, nenhuma modelo filmou tão bem para essa mente única da moda brasileira.

Pós post – Cesar Fasina, o stylist do desfile de verão 1997 de Lino Villaventura, me escreveu e fez uma espécie de memorabilia:
Foi feito à seis mãos ( Lino, Jackson [Araújo] e eu) . As lentes de contato brancas tiravam a alma das modelos, um olhar frio, “ bailarinas congeladas”… Amo este desfie. Fiquei muito emocionado quando terminou, foi um árduo e apaixonante trabalho… Lembro da Berriel trocar todo um look branco pra um totalmente preto….com 5 pessoas ajudando na troca, fechando as dezenas de botões minúsculos….feitos a mão….nas costas….Lino é um grande estilista. Foi uma honra estar junto.

O TALISMÃ E A RELAÇÃO AMOROSA ENTRE ESTILISTA E MODELO

708074
Penso com interesse na exposição “Muse: Embodying Moda” que acontecerá entre 6 de maio e 9 de agosto desse ano no Costume Institute of The Metropolitan Museum of Art. Leio que a exposição irá “explorar a relação recíproca entre a alta moda e a evolução dos ideais de beleza, e incidirá sobre as icônicas modelos do século 20 e seus papéis na projeção e, por vezes, inspiração na moda das respectivas épocas”. Mas muito mais que os ideais de beleza, não consigo parar de pensar na relação amorosa entre os criadores e suas musas. E, com certeza, o papel das modelos como musas dos estilistas faz parte talvez da relação mais intensa e rica do mundo da moda.
E quando falo de amor, não estou sendo metafórico. Charles Frederick Worth, o pai da alta-costura, ao construir, ou melhor, evidenciar a creolina, ele usa uma vendedora da mesma loja que trabalhava para demonstrar sua criação. Marie Vernet é considerada por muitos a primeira modelo da história e não à toa acabaria por se tornar sua esposa.
Um pouco mais tarde Paul Poiret tem em sua mulher Denise, a sua musa e modelo de suas idéias de uma nova mulher. O estilista declarou: “Minha mulher é a inspiração para todas as minhas criações, ela é a expressão de todos os meus ideais”.
Coco Chanel teve entre suas preferidas a modelo norte-americana Suzy Parker, na década de 50. Ela era considerada o rosto Chanel por excelência. Foram muito próximas e confidentes e boatos dizem que as duas chegaram a ser amantes.
Muitas vezes o lance é genético, assim como Maxime de la Falaise foi musa de Elsa Schiaparelli, sua filha LouLou de la Falaise foi o modelo ideal durante 3 décadas de Yves Saint Laurent. Paixão geracional!
Mas nem sempre a relação acaba de forma amistosa. Durante anos Inès de la Fressange foi para Karl Lagerfeld a mulher Chanel. Mas a partir do momento que Inès decidiu, no final dos anos 80, posar de peitos nus como Marianne, um dos símbolos da pátria francesa, Lagerfeld reagiu igual a um marido enciumado e rompeu com a modelo achando a atitude dela “vulgar, provinciana e burguesa”.
Hoje, como o amor se pulverizou em uma certa promiscuidade do desejo, vemos muito dessa atitude refletida nas passarelas. A cada momento os estilistas elegem suas musas para depois descartá-las. Ora tal é a queridinha ora outra é o rosto da marca e assim por diante. Parecem que os estilistas não mais amam suas modelos, apenas se apaixonam e ou então como se diz hoje, apenas “ficam” (assim como os adolescentes) com elas por uma temporada.
8705151302673
Então a cada temporada, aqui no Brasil, meu coração palpita ao ver dois estilistas seguirem firmes com suas musas por mais de uma década em uma prova que mesmo com todo o império das paixões e do desejo, o amor ainda tem espaço na moda e na vida das pessoas. Com a fidelidade digna do romantismo da século 19, Marcelo Sommer ainda entra abraçado com Luciana Curtis e Alexandre Herchcovitch sempre está de mãos dadas com Geanine Marques. Elas iluminam o final do desfile desses dois estilistas como um talismã: um talismã que mais do que indicar sorte, fala a fundo sobre a relações humanas.
1359687

FUI

e já voltei

punta-cana
República Domenicana

Logo mais tem post dus infernus.

A TORRE, 12 ANOS

Desculpem fashionistas de última hora, mas a verdadeira buatchy fashionista é a Torre. Pode ser que seja meio o avesso do que a gente pensa ser fashion, e o que o povo fashion costuma frequentar, mas durante 12 anos eu já vi muita gente da moda passar por lá e, o melhor, de maneira descompromissada. Por exemplo, Nelson Alvarenga? Não só esteve lá, como foi com gota e se desequilibrou e me queimou com o cigarro. Adriana Bozon já vi se acabando na pista. Os maquiadores Daniel Hernandez, Theo Carias, Robert Estevão também por lá pisaram. Maurício Ianes, também. André Hidalgo, Claudia Guimarães, Geanine Marques, Simone Nunes, Wilson Ranieri, Karlla Girotto, Rita Wainer, todos os abravanados, Marcelo Sommer, David Polack, Judy Blame, só pra dizer alguns nomes, também foram. E eles não foram em nenhuma festa específica para marcar presença, foram mesmo para se jogarem.
A Torre é tão amada pelo povo da moda que as estilistas Lívia Torres e Helena Pimenta da Amonstro fizeram uma estampa para umas camisetas que se chama Quinta na Torre (ou Torre de Quinta, nunca sei…), sem falar que um dos djs da casa, Adriano Costa – gostem dele ou não – revitalizou a camisetamania no começo dos 2000, aqui em São Paulo, com sacadas excelentes como “Quero Meu Hype em Dinheiro”.
Eu tenho particularmente uma relação muito próxima com a casa. Antes de eu ser “alguém na noite” (será que sou? se sou, juro que não acredito no personagem), era o único lugar que eu era VIP por não ser porra nenhuma, apenas amigo. E isso a gente nunca esquece. Foi lá também que começou e terminou minha curta carreira de DJ de drum’n bass lá no começo dos anos 90 e foi o único lugar que fui poser de vocalista.

694697747_l

Aqui está um e-mail do Adriano Costa sobre a noite de hoje. Espero encontrar vocês lá!

Amigos,
amanhã comemoraremos 12 de Torre
sim, 12 anos……record, não é ?
como todos vcs ((( e não digam que eu estou mentindo )))
já passaram momentos felizes e ou insólitos e ou incríveis e ou
inesquecíveis e ou loukos e ou blah blah blah…..
arrumaram marido / mulher
perderam marido / mulher
montaram banda de sucesso internacional
montaram banda que não saiu do nosso palco em cima dos banheiros
atual cabine do dj e camarote não oficial da brâmane paulista s/a
muitos já deram truque no cartão
muitos já gastaram todo o dinheiro do amex
quebraram o salto e ou a cara ou a cara do outro outra…..
whatever………

o lance é o seguinte: se der, apareçam….. A Torre tem importância
vital na montagem da cara esquisita de São Paulo….a gente inventou
um monte de coisas juntos…já destruiu muita também.
acho bonito e honesto que vcs apareçam amanha….tragam os filhos
ou aquele ex namorado insuportável…..tragam flores e ou frutas

não vai ter nada de especial…..só a mesma coisa de sempre…..o
que – óbvio – é especial pra caramba.

12 anos…..estamos virando mocinha.

mesmo horário….mesmo lugar…..o mesmo niilismo botequínico da pá virada

Adriano Costa