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YOKO ONO, 11 DE SETEMBRO…

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Sempre gostei muito de Yoko, mesmo antes dela ser mezzo beatificada mezzo perdoada pelos beatlemaníacos pós morte de John Lennon. Quando bruxa ainda, sempre olhava mezzo fascinado para sua atitude, seu rosto meio de cerâmica, meio impávido, sua gola rulê e suas roupas pretas.
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É tão óbvio quanto injusto a gente sempre associar Yoko aos Beatles e, é claro, Lennon. Muito antes da banda entrar nas paradas de sucesso, a japonesa já era uma artista plástica conhecida. Na década de 50 abria seu loft em Nova York para seus amigos prepararem as novas perspectivas para a relação entre arte e vida e que anos mais tarde iriam formar o Fluxus. Ela mesma foi participante ativa do Fluxus, o grupo que tinha John Cage, Nam June Paik e George Maciunas nas suas linhas de frente e que agitariam as artes ao propor diversas formas de integração das artes plásticas com outras artes e com o cotidiano. Essa relação com o dia-a-dia é ainda hoje uma das linhas mestras da arte de Yoko Ono, sempre tentando nos levar a (re)ver atitudes diárias de novas maneiras.E foi assim em 1966, quando Lennon visitou a sua exposição “Unfinished Paintings and Objects” (“Pinturas e Objetos Inacabados”) na Indica Gallery, em Londres. Ele ficou particularmente maravilhado com “Ceiling Painting” (“Pintura no Teto”), uma escada branca de onde, do topo, podia-se ler, através de uma lupa, a palavra “sim”. Lennon declarou na época que as artes plásticas eram tão destrutivas e pessimistas, sempre querendo desmontar os objetos que ele viu positividade e otimismo naquele ato. Daí pra frente todos sabemos: construiu-se uma instigante história de amor.

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a famosa performance “bed-in pela paz”, de 1969, no Hotel Hilton em Amsterdã, Holanda

Como artista atuante, Yoko não poderia deixar de colocar suas ideias e discutí-las com Lennon e consequentemente os Beatles. Também não tinha as melhores relações com a loira Linda McCartney, mulher de Paul. Resultado: foi culpabilizada e satanizada pela separação do grupo.
Penso muito do porquê ela foi considerada culpada. Primeiro, por ser uma mulher forte, com ideias e um trabalho independente dos Beatles. Ela não era a típica garota que topava e obedecia tudo o o que o namorado dizia, ela influenciava também, de maneira direta, sem os subterfúgios femininos.
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E é muito mais marcante a imagem de Yoko ao lado de Lennon do que de qualquer mulher dos Beatles, mesmo Linda. Percebe-se que ali existia um diálogo de igual pra igual. Penso muito ao ver a foto que o filho deles, Sean Lennon, e sua noiva, a modelo Charlotte Kemp Muhl, recriaram da clássica imagem clicada por Anne Leibovitz, em 1981, de Yoko Ono e John Lennon. Se Sean cumpre o clássico pictórico de mulheres nuas e homens vestidos (lembrem sempre de “Piquenique na Relva” de Manet), reparem que quem aparece nu, invertendo essa lógica é Lennon. Toda essa gestualdiade já indica muito da força de Yoko. Então talvez tenha um pouco de machismo nessa vontade de acusar Yoko pelo fim dos Beatles.

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“Piquenique na Relva”, Manet
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Sean e noiva; Yoko e John

Mas outra razão pode estar também naquilo que o 11 de setembro só evidenciou: a intolerância contra o Oriente, sentimento existente na sociedade americana desde os filmes mudos da década de 10 em que os chineses eram sempre os vilões ou pessoas pouco confiáveis. Depois teve também a guerra contra o Japão e não é difícil pensar que é mais fácil dentro de um senso comum rasteiro culpar uma oriental do que uma loira pelo fim de um sonho. Então talvez tenha um pouco de preconceito nessa vontade de acusar Yoko pelo fim dos Beatles.

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Mas também pensando que os fatos não são tão fechados e cartesianos assim, o 11 de setembro chega com um excelente álbum de composições novas de Yoko e sua Plastic Ono Band, o elogiado “Between my Head and the Sky”, que você pode conferir nesse link. E também são os americanos do ThreeASFOUR nesse período pós-11 de setembro que se rendem à arte múltipla de Yoko. Eles fazem parceria com a japonesa, criam estampas em conjunto e se apresentam no dia 17 de setembro, quinta, na semana de moda de Nova York, na Milk mais precisamente. Dizem que Yoko e seu filho Sean vão tocar ao vivo durante o desfile. Yoko não esconde seu entusiasmo: “Eu sempre fui interessada em expressar os pensamentos de arte através de roupas. Eu penso que existe uma incrível conexão, é como uma escultura, mas que você pode vestir” disse ao WWD. Uma vez Fluxus, sempre Fluxus!

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ThreeASFOUR & Yoko: parceria fashion

Este post foi escrito pensando em e para Silvia Hayashi, a verdadeira japa dus infernus