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ANNA WINTOUR E O CASACO DE ONÇA


Quando a mais poderosa editora de moda do planeta aparece vestida por quatro ocasiões muito próximas com um mesmo casaco de onça, algo está sendo sinalizando. E é muito mais do que uma mudança comportamental ou uma nova tendência que tem o aval do topo da pirâmide da moda a todos repetirem roupas como um fator de elegância. Ela explicita paradoxos da moda e seu momento de crise.

Sobre o quesito comportamental, ícones de elegância atuais como Kate Middleton já provaram que a chamada roupa repetida já não é um problema entre as mulheres requintadas. Apesar desse evento ocorrer faz pouco tempo, não se discute mais nas fúteis listas de estilo se é certo ou errado, apenas é um fato.

Mas o que Anna Wintour coloca em sua repetição de roupa não está só no campo do comportamento, está no terreno da ideologia e da política – da moda e do mundo. Se a ideologia da moda e do mundo está – neste estágio do capitalismo tardio – atrelado ao consumismo, ela se mostra amiga da onça e faz como que um manifesto contra o consumo desenfreado, base tão fundamental da moda com suas inúmeras coleções por ano e por uma obsolescência de imagens com velocidades assustadoras. De certa forma, ela joga contra aquilo que Gilles Lipovetsky chama de Sistema Moda.

Se ela está em diálogo com o Sistema Moda, que é muito superior ao mundo da moda – basta ver por exemplo como o sistema moda age em áreas como a tecnologia celular com os modelos que são novíssimos ficando antiquados em questão de meses –, ela também está de certa forma fazendo um manifesto político.

De forma silenciosa, seu casaco de onça fala sobre consumismo, crise e criatividade. Mas engana-se quem acha que a editora está se posicionando de forma revolucionária ou anárquica. Não existe nada mais atrelada à indústria de moda que a Vogue americana. Anna Wintour só está legitimando e procurando soluções para aquilo que já está acontecendo com os bancos e o sistema financeiro.

Como diz o velho ditado popular: “Chegou a hora da onça beber água”.

ROUPAS, MODA E O SISTEMA MODA

Gloria Kalil na sua sabatina do Pense Moda [aos 16:14] fez uma separação clara entre a roupa chamada étnica e a moda. A roupa étnica é aquela que nunca muda, a chamada roupa folclórica, já a moda muda sempre.
A partir desse pensamento podemos esclarecer que a moda surge no fim da Idade Média e o começo do Idade Moderna, no Renascimento como fenômeno burguês. Já a roupa existe desde o tempo do pecado capital, sendo a folha de parreira talvez a primeira vestimenta no imaginário do mundo ocidental. Desde os tempos míticos a questão nudez e roupa é crucial para todas as culturas e nem sempre pela relação de oposição como aconteceu com o Ocidente.
Singularmente a roupa até o advento da moda sempre marcou a condição social, ofício, gênero e idade da pessoa- grupo – que a vestia. E como as culturas antigas era estamentais, isso é, não havia mobilidade de classe, suas roupas também não tinham o porquê mudar. A partir do momento que o advento da moda começa, percebemos de maneira sutil que a representação de uma condição de um determinado grupo perde espaço para a roupa ganhar conotação individual e de individualização – mesmo com todas as implicações que essa lógica impõe.
o sistema moda é comum estar associado ao surgimento da moda, e posso resumir em um única palavra: modismos. O modismos em todas as áreas da vida humana – do esporte, pesquisas acadêmicas, movimentos artísticos ao nome de bebês – pertence ao sistema moda. apoesar da minha falta de dados e pesquisa, tenho comigo que o sistema moda é mais antigo que o aparecimento da moda, e esteja na mesma região mítica que as roupas. Se as roupas não mudavam, ou mudavam com lentidão, podemos na área dos gostos e das mentalidades, perceber esse sistema começando entrar em ação. Se pensarmos no Helenismo, a difusão da cultura grega e sua “miscigenação” no Oriente e nos países dominados e sua predominância mesmo depois da morte de Alexandre, o Grande, podemos notar que sim, o poderio militar e econômico foi fundamental para o surgimento da estética do helenismo, mas também a substituição de uma ideia por outra, um proto sistema moda pode ter dado o alcance para que a cultura grega, mesmo sem poder, tenha influenciado tanto o Oriente como o poderosíssimo Império Romano.
Sendo assim, acredito que do encontro do sistema moda com as roupas que nasce a moda. Enfim, escrevo isso porque cada vez mais penso na importância capital das roupas, pois mesmo se um dia a moda acabar, as roupas ficarão, e assim entender das roupas é entender mais profunda e extensamente a moda, a compreensão da moda começa pelas roupas e não o contrário. E a cada dia fica muito mais claro um comentário sobre Miuccia Prada – acredito que numa Vogue América de 2005 – dizendo que mais do que a moda, ela é sim apaixonada e fascinada pelas roupas, é o que ela acha realmente interessante.
t-baiana
as roupas: o turbante étnico e o turbante moda
robertasa1