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SANTA CATARINA: INDÚSTRIA E EXPERIMENTALISMO

Eu já tinha escutado falar sobre o Santa Catarina Moda Contemporânea e o que mais me impressionou, e isso a todos os jornalistas presentes sem exceção, foi o apoio das empresas – um pólo têxtil poderosíssimo – aos jovens estilistas.
Foi essa curiosidade que me moveu para o Balneário Camboriú para ver em close o que realmente acontecia no estado dos barrigas verdes- pergunto aos catarinas, escrever barriga verde é pejorativo? Até porque meu interesse pelas semanas de moda tem diminuído muito, não que elas não tenham importância, mas defitivamente elas tem menos importância do que elas próprias se dão. Mas me parecia que ali, no sul do país estava acontecendo algo inédito!
Lá também me tocou a idéia que essas empresas almejam de se tornarem sujeito da História. Ao ouvir um dos empresários nos falar que eles não queriam a cópia mas a criação e que eles queriam que saísse um nome forte, um estilista de importância e excelência do estado, que surgissem criadores eu pensei imediatamente nos poucos momentos que nosso país deixou de ser mero reprodutor de conteúdo para influenciar o conteúdo dos outros: Cinema Novo, neoconcretismo, manifesto antropofágico, bossa nova. Aliás foi sobre esse movimento musical que o músico Tom Zé me disse uma vez que finalmente o Brasil com os acordes de Tom e João deixou de exportar bananas pra exportar cultura, o mais alto grau de civilização.
Sim, a pretensão civilizatória nesse caso da vontade dos empresários [é, lá a gente ouvia falar nesses termos, os empresários, quase como uma entidade] de se transformarem em sujeito da História, de colocarem Santa Catarina no mapa fashion é uma grande iniciativa, como as iniciativas dos intelctuais baianos nos anos 60 que trouxeram o melhor da cultura européia na época como Walter Smetak e Koellreutter em música e a arquiteta Lina Bo Bardi para agitar a cena baiana: resultado – jovens como Glauber, Caetano, Gal Bethânia, Tom Zé, Gilberto Gil não sairam impunimente dessa experiência.
Posto isso: parece que estou falando do paraíso. Mas o paraíso não existe na Terra e as dificuldades são muitas. Nos dois dias que passei por lá percebi que uma iniciativa desse porte tem sempre que se reformular, se repensar, mas principalmente não perder o foco de sua bandeira: o de se tornar criador!
Primeiro o que me chamou atenção era que assistimos desfiles de estudantes do último ano das faculdades de moda da região e tinham, em sua maioria, um certo experimentalismo primário, uma espécie de clichê do experimentalismo, de uma idéia que ser experimental era simplesmente fazer algo estranho, mas sem uma verdade interior. Quem frequenta desfiles de jovens estilistas já viu muito dessa gag experimental, que no fundo não passa de uma piada ruim sendo contada repetidas vezes. Colocar algo pessoal, conceitual e que diz muito da personalidade de seus criadores é sempre benvindo, mas acredito que muito dessa atitude (ou falta de) vem da despretensão tanto das empresas como dos estilistas de que aquilo o que víamos na passarela supostamente não iria virar produto. Ora, me parece um contrasenso , se querem se tornar criadores, se querem formar um nome de moda, um estilista de releviancia no país vindo do estado, não apresentar produto é não apresentar aos estudantes a cadeia completa do ciclo moda. É como se fosse um mero exercício diletante (estou musical hoje, né!). Nenhum grande estilista ou simplesmente bom ou que sobreviva no meio de moda ganhou esses méritos por milagre de Deus. Todos eles sabem que sem ter noção de produto nunca sobreviveriam e aprenderam como adaptá-lo à sua criação.
Visualizar nenhum produto ou muito pouco é como um cineasta que filma e seus filmes não chegam às telas. Em indústria, e a moda é uma, o ciclo não se fecha se não pensarmos em produto. Agora é importante ressaltar que o produto não precisa ter uma carga comercial gigantesca. E muito produto pode sair de imagens fortes. Hussein Chalayan ou Rei Kawakubo ou aqui no Brasil Alexandre Herchcovitch fazem uma imagem poderosa para depois vender camisetas. O produto, no caso de Santa Catarina e digo de maneira negligente pois fiquei apenas dois diaslá, poderia ser feito em pequenas linhas, em parceria estudante e empresa, mas algo que essse estudante pudesse continuar o seu trabalho e ter vínculos com a empresa, ou quem sabe os mais talentosos serem absorvidos por essas mesmas empresas. Só um trabalho contínuo com os estudantes formará uma nova mentalidade de moda no estado. Também não adianta muito apoiar uma única vez. Os mais talentosos, os que as empresas acreditam que tem futuro e talento deve ser apoiados sim [digo apoiar não como uma atitude paternalista, mas como uma troca entre empresa e estudante, o estudante também tem qeu oferecer algo pra empresa] em suas próximas coleções. Não serão muitos, é uma grande peneira, mas o processo tem que ser contínuo. Acredito que muito mais vantajoso que uma nova técnica de estamparia ou modelagem como essas empresas acabam adquirindo com a pesquisa dos estudantes em suas fábricas [que diga-se é muito importante], eles poderão formar sujeitos e não objetos e a atenção desse fato com certeza não passará impunimente pela história da moda no nosso país, nem pela trajetória desses estudantes e dessas empresas.

Coloco abaixo a exceção à regra do que escrevi. A Marisol Calçados fez uma linha infantil desenhada pelas estudantes do SENAI S. João Batista Andréia Pizzolo, Elisa Maria Schmidt Dalsenter e Nathalya Serpa Puel que é um pecado não virar produto. Mais ainda, elas não serem contratadas por uma fábrica de calçados ou fazer uma parceria para elas produzirem esse produto.
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