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LINO VILLAVENTURA: AME-O OU DEIXE-O


Conheci Lino ainda em Fortaleza, lá pelo final dos anos 80. Ele já era um estilista super respeitado, Cristina Franco – a entidade mor da moda naqueles tempos e ainda referência absoluta pra minha geração – o adorava, mas sinceramente não tinha a menor idéia de como era a sua roupa e quão importante ele era. Sem esse aval, foi fácil e sem barreiras dar risadas, conversar e tirar umas fotos absurdas com ele e a Ines – sua mulher na época – na casa de um amigo em comum. [Ainda digitalizo essas fotos]
Já em São Paulo, nos anos 90, seus primeiros desfiles causaram sensação e comoção pela carga de brasilidade. Uns amavam outros odiavam, mas eram sempre um acontecimento muito especial um desfile do Lino. Lembro que na época, teve até uma rixa silenciosa entre ele e Alexandre Herchcovitch. Não sei bem se isso era claro entre eles, mas tinha uma disputa de torcidas tipo Marlene e Emilinha Borba pra saber qual era o maior estilista brasileiro. Memórias provincianas!
O que é inegável é que seu barroquismo, seu trabalho feito à mão e principalmente seu estilo único, sem seguir quaisquer tendências o fazem uma figura ímpar na moda brasileira.

No ano passado, ele comemorou 30 anos, fiquei de escrever algo, fazer uma relação mais séria do barroco no Brasil, Glauber Rocha,etc mas minha ambição me afundou.
Do mesmo jeito que nunca consegui ir muito além em escrever sobre sua coleção de verão 2006 que acho genial (mas Regina Guerreiro fez isso pro mim)
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Uma vez em conversa num bar, o diretor de desfiles Zee Nunes, um cara que admiro a inteligência e a visão de moda e além dela disse que pode-se gostar ou não de Lino Villaventura, mas é inegável que ele é um criador. E isso no mundo da moda abarrotado de cópias e mais cópias não é pouca coisa não.
Salve Lino!
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UM CERTO NOVO NATURALISMO (MAQUIAGEM, MARCELO GOMES E SIGUR RÓS)


Faz algum tempo que estou de olho no trabalho fotográfico de Marcelo Gomes. Faz algum tempo que Nucool começou uma reflexão interessantíssima sobre o que eu chamo de um certo novo naturalismo (digo um certo novo naturalismo evocando “Um Certo Capitão Rodrigo”, do gaúcho Érico Veríssimo, conterrâneo da stylist Lelê Toniazzo, namorada e musa de Marcelo Gomes). Faz algum tempo que já comentei como estar atento à beleza dos desfiles – maquiagem e cabelo – pode dizer muito mais sobre o comportamento de hoje que muitas outras manifestações.
E foi olhando uma tendência cada vez mais recorrente de uma maquiagem limpa, sem excesso – “cara de bonita” – que elimina a aparência da maquiagem em nome de um ar mais natural, que percebi como na música de Sigur Rós que o mundo deseja se simplificar, no melhor dos sentidos. Adoro quando os maquiadores falam pra mim que a beleza de tal desfile foi pensada como se a mulher acordasse e saísse direto pras ruas – eu ouvi de muito deles esse discurso nas últimas temporadas. Para a beleza, o lance é ser natural!

Esse certo novo naturalismo tem muito de uma volta à natureza, ao natural mas sem dispensar os aparatos tecnológicos dos tempos que vivemos hoje. Mas mais que isso é uma volta à essência das coisas e do mundo e dos homens e das relações.
É isso que sinto quando vejo as fotos de Marcelo Gomes, quando sua narrativa afiada, precisa e hipersensível aponta para essa direção.
o universo colorido e lúdico do stylist Dani Ueda é sua essência mesmo vestido em preto e branco na companhia de Lelê

relações: o cerne de uma amizade – Fernando e Thiago

Zee Nunes e namorado: a docilidade travestida de masculinidade

Marcelo Gomes é um homem da poesia. Maria Prata já escreveu sobre o novo livro de Marcelo, “Love and Before, Green and After”, que terá lançamento no Brasil na loja da Surface to Air, no dia 26 de julho.
Esse é seu primeiro livro e é claro que eu escrevi pra Marcelo pra saber mais sobre:
“Me propuseram fazer esse livro em abril, nessa editora novinha que foca em livros de arte, meio ‘novellas’, são curtos e acessíveis, não custam 80 dólares mas ao mesmo tempo dão vontade de colecionar, pois são edições limitadas (até agora todos foram de 500 cópias). O preço no Brasil é 50 barão (como diria meu amigo Paulo Bega)”.
Uma das coisas que eu mais gosto de Marcelo é que ele tem personalidade, nas fotos e na vida. Leia isso: “Eu ODEIO livro de fotografia contemporânea de cara que se limita a fazer um ‘estudo’ sobre um tema, aquela mesma coisa, um livro sobre pneus, um livro sobre sobrancelhas, essas coisas… Nunca fiz escola de arte, Yale, Parsons, muito menos RISD, ooooooooooooooo gente metida este povo da RISD (Rhode Island School Of Design) [detalhe: Marcelo mora em Nova York há 7 anos]. Eu realmente faço de propósito até mesmo porque eu acho que é bem mais fácil fazer o livro de sobrancelhas do que fazer uma coisa realmente sincera, é impessoal, assim tu nunca colocas o teu na reta, e não é recalque, não é falta de recurso retórico, é porque eu acho chato e não concordo com o ranço acadêmico da maioria…” Marcelo rulez!
Essa franqueza de tentar buscar algo que seja realmente uma preocupação estética sua o diferencia da grande maioria que hoje procura, por facilidade e para ter uma inserção mais fácil no ‘mercado’, seguir as “tendêncinhas”, isso seja na arte, na foto e na moda.
“Eu nunca tentei enganar ninguém com o meu trabalho, sempre disse que é corriqueiro mesmo”. Esse olhar pra vida, pras atitudes mais simples das pessoas e das coisas sem medo de cair no clichê é sua grande coragem e recado.
“São 19 fotos ao total, das mais variadas coisas, e apesar disso o livro flui bem, conta um historinha, o que eu acho bem legal. se tem algo que unifica o livro é cor, cor sempre vai unificar o que eu faço porque eu sou tarado por cor, sempre fui, sempre vou ser. A historinha é mesmo uma cartinha de amor, meio cafona talvez, mas é sincero (outra coisa que sempre vai ser, sempre vai ser sincero), e do coração”. Se perguntem ao olhar essas fotos de Marcelo se tem algo de cafona ou se essa sinceridade que ele vê na natureza [leia, cores], nas relações e no ser humano realmente nos comove, se não estamos embrutecidos pela avalance de imagens que nos são bombardeadas. Vamos ser mais simples, mais sinceros parecem susurrar suas fotos. Esse talvez seja um certo novo naturalismo, pois parece que toda uma geração e Marcelo, eu tenho certeza, é um de seus representantes, nos faz voltar os olhos desse mundo photoshopado para algo mais poético, lírico e simples, como a vida pode ser.


PS: Nem preciso dizer que essas são todas fotos de Marcelo Gomes (dãh)