Arquivo da categoria: verão 2010

A PARÓDIA E OS TROCADILHOS


Las Bibas From Vizcaya: mestres da paródia

A paródia e os trocadilhos chamaram a atenção de nós, brasileiros, quando os modernistas da Semana de 22 se mostraram muito interessados por essas manifestações da linguagem como representativas e constitutivas de um “espírito” do Brasil.
Mesmo o projeto modernista não tendo total êxito na tentativa de termos uma consciência maior do humor nas nossas vidas e uma recolocação da posição da comédia entre os gêneros literários e artísticos (já que o drama e a tragédia são considerados por parte da crítica como superiores). Mesmo assim tanto a comédia como o humor são muito fortes culturalmente no ambiente nacional. A paródia é um dos nossos instrumentos para realizarmos pontos altos da comédia como aconteceu na Atlântida com Oscarito e Grande Otelo.
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Oscarito e Grande Otelo: os reis da paródia

Penso que essa falsa seriedade da moda brasileira ganharia novo fôlego e força se fosse mais bem humorada. Mas é exatamente por essa chave que hoje consigo entender melhor um desfile antigo de Samuel Cirnansck que nevou na passarela e a minha sensação que aquilo era muito brasileiro. Estaria ele fazendo uma paródia de uma vontade de Brasil possível? Lembrando que em seu último desfile com todo o imaginário cubano da década de 40 e sua entrada final como turista de máquina fotográfica, penso que sim.
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Samuel Cirnansck: delibarado ou não, humor na moda

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SERÃO MESMO OS OMBROS DOS ANOS 80 EM 2000?

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Lady Gaga, ícone dos anos 2000

2009, quando pensávamos que os anos 80 estavam finalmente acabando como releitura no terceiro milênio, vemos de repente, como uma fênix – a ave mitológica que ressurge de suas próprias cinzas –, a volta triunfal, pelo menos na moda, da chamada década dos yuppies e rappers. Concluindo, quando a gente achava que com a morte de Michael Jackson, ícone maior daquela década também seria a morte simbólica da releitura dos 80 e os anos 2000 iriam dar de ombros pra chamada década perdida, ledo engano…
Quem deu o pontapé inicial foi Marc Jacobs. O desfile do estilista para o inverno 2009 foi um dos mais aguardados da temporada e com certeza um dos highlights da semana de moda de Nova York. E o que ele nos mostrou em tom otimista? Cintura alta, brilhos, blazers e vestidos estruturados e, é claro, foco nos ombros.
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Marc Jacobs inverno 2009

Depois dele muitas passarelas também levaram seus holofotes para os anos 80 a ponto do próprio Giorgio Armani declarar que sua coleção de inverno 2009 era assumidamente feita da “estética e dos shapes do anos 80”.
Donatella Versace também olhou para uma década que ela conheceu bem e suavizou o power dressing ao contrário da Maison Martin Margiela que prefiriu radicalizar o poder das ombreiras recebendo muitas críticas negativas das editoras internacionais.
Já no verão 2010 não teve pra ninguém, Balmain que voltou a ser foco na moda dos 2000 aposta nos ombreiras assim como na jaqueta militar tão amada pelo Michael Jackson e que virou uma espécie de uniforme do cantor. É importante colocar que no contexto pop, essa jaqueta tem origem icônica com os Beatles e o álbum “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, mas Michael conseguiu tomar pra si essa peça e carcterizar os 80’s.
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a jaqueta de Michael na Balmain, verão 2010
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ombreiras no verão piriguete 2010 da Balmain

Mas de todo esse revival, o que é importante notar é que a década de 80, nessas duas temporadas esse ano, trouxe a reafirmação dos ombros, com foco nas ombreiras como vimos em outra importante coleção de verão 2010, Givenchy.
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Givenchy verão 2010

Apesar das ombreiras estarem coladas ao imaginário dos anos 80, elas começaram a ter evidência muito antes, na década de 30 quando Adrian colocou almofadinhas trilaterais costuradas na parte interna dos ombros de vestidos de dois mitos hollywoodianos, as atrizes Greta Garbo e Joan Crawford. Logo virou moda e estilistas como Rochas e Schiaparelli adotaram as ombreiras que entraram no guarda roupa tanto masculino como feminino da década de 30 e principalmente 40.
Se, nos 80, as ombreiras eram signo do poder das mulheres no mercado de trabalho, acredito que a simbologia das ombreiras hoje estão mais conectadas com a década de 40 – os anos da 2ª Guerra – elas são como que um prenúncio de resistência e força das pessoas para tempos difíceis anunciados, uma resposta de sobrevivência e não uma afirmação de poder.
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Joan Crawford e as ombreiras feitas por Adrian para o filme “Humoresque”, 1946

CABELO CABELÊRA

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Louis Vuitton verão 2010

Sem dúvida, a presença de Obama na presidência dos Estados Unidos foi o maior acontecimento imagético dessa década. Já escrevi aqui sobre a força do black power e sente-se uma mudança de mentalidade positiva em relação aos negros nesses últimos anos, acentuada pela presença icônica da família Obama na Casa Branca sim. Mesmo que de forma lenta, progride-se em relação aos negros e o mundo editorial, aquele mesmo que prega que preto (não a cor) na capa não vende. Podemos perceber mais negros nas folhas das revistas de moda ultimamente, talvez modismo, talvez não…
Mas mesmo assim, uma espécie de mitologia do cabelo ruim cerca ainda os negros. Tenho amigas negras que ficam o dia inteiro no cabeleireiro toda semana, quase como um ritual.
Um comediante politizado e preocupado com as questões raciais como Chris Rock (o autor da série “Everybody Hates Chris” – “Todos Mundo Odeiam o Chris”) se sentiu intrigado quando sua filha Lola, quase chorando perguntou: “Como eu faço pra ter um cabelo bom?”
A partir daí, ele resolveu investigar a raiz desse problema na cultura negra, indo parar até na Índia no documentário “Good Hair”. Só esse mote torna o filme importante pra todos nós que temos algum interesse em beleza, a área da moda dedicada ao cabelo e a maquiagem. Mas encerrar por aqui seria redutor, acho-intuo que o filme pode nos dizer muito sobre nossos próprios preconceitos.

O SONHO E O LÚDICO ACABARAM?

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Alexander McQueen

Nunca se viu tanta realidade nas passarelas como nessa temporada 2010. Não, na realidade nunca se viu tanta falta de sonho na moda. O lúdico, materia essencial na construção fashion, talvez mais do que em outras manifestações culturais, fazia muito tempo que não ficava adormecido no imaginário dos estilistas e das grifes que fazem a chamada temporada internacional.
Sim, o sonho muitas vezes conduzido e muitas vezes condutor da alienação que a moda é sempre acusada, faz parte da realidade fashion. Aliás o lúdico é vital em qualquer manifestação cultural, ele é que faz o vínculo e a mediação com essa tal realidade podendo ter o caráter naturalista ou não. Pense numa forma radical de se atrelar com a realidade: os documentários. Seja os de Michael Moore, Eduardo Coutinho ou os do cinema verité, todos eles, seja pelo enquadramento, pela montagem ou pelo discurso, apresentam traços lúdicos, pensando que na atividade lúdica [palavra que também significa jogo] não importa somente o resultado, mas a ação, o movimento vivenciado.
Pois bem, o que se viu nessa temporada foi um freio de mão em relação ao lúdico e ao sonho, a moda entrou em um estado de vigília preocupada com os números da economia. Em nome da chamada crise, economizou-se imaginação, marcas que sempre se mostraram ousadas parecem aflitas pra ter um pé mais comercial na passarela (que não é bem o melhor lugar pra esse tipo de proposta). Não existe nada de ruim em fazer uma coleção comercial, mas que o desfile se mostre longe dessa realidade. Parece que ao olharem pros bolsos, esqueceram de fantasiar as roupas como um todo, afinal moda tem esse quê de fantasia essencial.
Em um cenário que muitas vezes parecia um pesadelo, McQueen e Viktor & Rolf se destacaram indo contra o tsunami de bom senso econômico das marcas e apresentaram as loucuras e delírios que tanto amamos.
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Viktor & Rolf

Enquanto isso no Brasil, a Mafuá Jeans promete alçar vôo, Johnny Luxo e seus deliciosos delírios mostram que ainda é possível ser lúdico na moda, mesmo sem grana.

O HAWAII É AQUI?

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Prada verão 2010

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Maison Martin Magiela verão 2010

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Empório Armani verão 2010

OBRIGADO, MARCELO!

O fotógrafo Marcelo Gomes nas nossas conversas sempre me falou de sua admiração por Rick Owens e de como eu deveria olhar com mais atenção para o estilista americano. Nunca fiquei muito empolgado com ele, mas olhando a cada temporada, aperfeiçoando mentalmente o que via, comecei a sentir interesse por toda aquela darktude. Nesse verão 2010, todas as suas construções me soaram como um bom exemplo e uma antítese para muitos estilistas que buscam uma elaboração maior na arquitetura da roupa (salve Cristóbal Balenciaga!) e quase sempre erguem castelos de areia.
Obrigado Marcelo, por me fazer ver nesse escuro todo de Owens, a luz que ele indica.
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AINDA IMAGEM (BALENCIAGA E BALMAIN)

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Balenciaga verão 2010

Como disse no post anterior, uma imagem forte, quando se forma, é sempre imutável. Pense na Balenciaga que, quando aconteceu sua retomada com o estilista Nicolas Ghesquière, em algumas coleções o francês teve a audácia de literalmente copiar modelos de antigas coleções do próprio Cristóbal (falou-se muito na época nos “arquivos” que estavam sendo pesquisados). Mas também com muito cuidado ele insere sua visão de streetwear (como aconteceu na fantástica coleção de inverno 2007 e agora no verão 2010), mas nunca deixando a imagem que temos de Balenciaga de lado: arquitetura e exclusividade. Mesmo sua streetwear daquele inverno, da qual se mitificou que ele inventou a moda dos lenços palestinos, era caríssima, para muito poucos.

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Balmain verão 2010

Mas e a Balmain? Acho que ela coloca outro ponto importante para pensarmos na imagem. É interessante essa febre de interesse pela marca. Como disse, acho que são roupas de puta de luxo, tanto que visualmente a coleção anterior a essa desfilada em Paris tinha peças muito semelhantes (dadas às devidas proporções) às expostas há anos na Ropahara, famosa loja para meninas de programa na rua Augusta. Pois bem, o que a imagem da Balmain de hoje reflete na Balmain do passado? Temos que lembrar que a Balmain das décadas de 40, 50 e 60 era literalmente uma grife para mulheres sofisticadas, com um certo decoro, o máximo de sexy encontrava-se nos vestidos tomara-que-caia (sempre bem acompanhados, nas grandes festas, de requintados casacos e sua marca registra – a estola – que seriam prontamente retirados na entrada e dariam um certo efeito) mas sem os arroubos quase eróticos como as peças que vemos nas criações de Christophe Decarnin.

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Katherine Hepburn de Balmain

Basta olhar com atenção a foto acima com a atriz Katherine Hepburn para entendermos que o sexy não estava profundamente enraizado na Balmain de ontem como o é na de hoje. Também é clara e lógica a escolha de Oscar de la Renta com seus vestidos de festa para desenhar durante um período os modelos da marca depois da retirada de Pierre Balmain.
Podemos pensar que talvez a Balmain seja uma marca que sua imagem é colar-se à época que vive. No conservadorismo dos anos 50, a marca tinha as estolas para cobrir seus tomara-que-caia, no periguete final dos anos 2000, a marca vende sexo.

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Balmain verão 2010

Mas apesar de imutável, a imagem não é perpétua, ela pode ser esquecida, morrer na memória coletiva que a consolidou ou ainda, depois de um longo período [a questão temporal é importantíssima] ressurgir outra. É mais por esse caminho que acredito que a imagem hoje da Balmain é outra, a Balmain antiga morreu, só restou a carcaça, isto é, o nome.

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à esquerda Balmain e à direita Balenciaga, diferentes imagens