Arquivo da categoria: verão 2009

BRÜNO, PRADA E OS HETEROSSEXUAIS

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Tem um comediante hoje que eu tiro o chapéu, se chapéu usasse: Sacha Baron Cohen. Personagens criados por ele como Ali G, Borat e Brüno, o repórter austríaco gay, são hillarys. As situações inusitadas, como essa com um grupo de rapazes soletrando “party” como cheeleaders punks para um Brüno cheio de segundas intenções, são a chave de seu humor requintado.

No blog do Marco Sabino fiquei sabendo que o filme que até então era só chamado de “Brüno” tem um nome vasto igual ao de Borat: “Bruno: Delicious Journeys Through America for the Purpose of Making Heterosexual Males Visibly Uncomfortable in the Presence of a Gay Foreigner in a Mesh T-Shirt” (ou como traduziu Sabino: “Bruno: Deliciosas Jornadas pela América Com o Propósito de Deixar Machos Heterossexuais Visivelmente Desconfortáveis Na Presença de um Gay Estrangeiro Vestindo Uma Camiseta de Malha”).
No trailer, que já está circulando na internet, podemos ver em imagem e som o bafón que Cohen, incorporado como Brüno, fez durante a semana de moda de Milão. Na época, setembro de 2008, foi muito noticiado como ele causou durante o desfile de Ágatha Ruiz de la Prada. E dá pra perceber que o babado não foi pouco. A cara da hair stylist Odile Gilbert no backstage pedindo para ele sair denuncia que talvez tenha muito pouca ficção nesse novo filme de Sacha Cohen!

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NOTA TRISTE: DAVID AZULAY JÁ NÃO ESTÁ ENTRE NÓS

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Eu vou dizer uma coisa: Gostava muito mesmo do David Azulay, sua espontaneidade, sua atitude anti-socila fashion e principalmente a sua moda-praia. E foi com muita tristeza que recebi um telefonema de Nina Lemos me comunicando que uma das pessoas que a gente mais adora na moda nacional faleceu.
A Blue Man é referência quando o assunto é praia. Tem uma modelagem excelente, sempre tentando inovar tanto na imagem como no produto.
Lembro da última vez que o vi. Foi depois de seu desfile de verão 2009 na SPFW. Ele estava com a Helga, a assessora, cheguei perto dele e falei: E aí David, tá numa relax, numa traquila, numa boa agora?
Ele sorriu e me abraçou.
Lembranças de alguém que não foi exatamente nem meu amigo nem meu colega mas me sentia irmanado com ele e seu olhar sobre o mundo da moda.
Fiquei Blue!

ICE ICE CADA UM COM A SUA VELHICE


Louis Vuitton


Ronaldo Fraga

POR QUE TANTA SEMANA DE MODA NO MUNDO?

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Depois de conhecer a semana de moda de prêt-à-porter em Paris, voltei muito inquieto por constatar que a Moda – o sistema, a lógica e a realidade – pouco se encaixavam naquilo tudo que via. Temos uma sensação mentirosa – fruto da época que os desfiles de couture difundiam realmente o que deveria ser usado por todo mundo – que o que vemos em uma semana de moda realmente dialoga direto com a realidade de moda e que a influencia. Diálogo existe, mas em outra escala.
Hoje uma semana de moda tem mais um sentido publicitário de divulgar outros assuntos além-moda. E ela entrou no calendário cultural de diversas cidades – como existe semana de moda no mundo! – muito mais pelo caráter marqueteiro do que pela valorização da moda. Mesmo a moda ganhando um certo status cultural no mundo de hoje, ainda é vista como assunto de segundo ou terceiro escalão.
Claro que como disse o crítico literário Alcir Pécora para Alcino Leite: “A moda hoje é o que foi a música nos anos 60”. E pode parecer exagerado mas, no sentido publicitário, faz todo o sentido. O alcance que a moda tem de projeção de algo que está fora dela hoje foi o mesmo que a música pop teve nos anos 60. Então usa-se a moda para difundir objetos que estão em sua órbita como comportamento, design, luxo.
Enfim, o que quero dizer é que numa semana de moda existe muito pouca moda. Pareço cada dia entender melhor o que Mario Mendes um dia me disse que a moda realmente fazia todo o sentido nos desfiles de alta-costura.
Quando algo como a calça skinny ou o lenço palestino realmente ganham as ruas através da passarela – sim, o caso do lenço palestino é polêmico – parece que os estilistas marcaram um gol quase no fim do segundo tempo, mas no fundo foi a indústria que levemente se impôs. Talvez não seja à toa que uma estilista do porte de Clô Orozco diz hoje preferir ir no Premiere Vision – uma das mais importantes feiras de tecido do mundo – a assistir os desfiles da temporada.

PS: Exatamente por algumas dessas razões, a outra é de tentar historicizar minimamente uma marca que ainda durante esse mês e o outro escreverei no blog resenhas de coleções que desfilaram na SPFW. Quero me debruçar com mais prudência, sem o imediatismo do jornalismo e os holofotes de um espetáculo que a moda finge ser a atriz principal como fiz com um texto que muito prazer me deu, pois foi no solo do tempo e do passar do tempo que finalmente entendi a coleção de verão 2009 de Herchcovitch às portas de iniciar o seu inverno.

POR QUE TUDO É MAIS TRISTE NO INVERNO, PACO RABANNE?

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Neon verão 2009

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Osklen inverno 2009

GUERRA E PAZ


Hoje, dia 17, Israel anunciou o cessar fogo unilateral. Foi vergonhosa essa intervenção do Estado de Israel na Faixa de Gaza e as causas ainda serão sentidas em todo mundo de maneira muito negativa.
Antes de tudo é preciso dizer que o mais importante do conflito na Faixa de Gaza é tomarmos uma posição clara, logo de início de sermos contra qualquer ato anti-semita, pois é exatamente esse mesmo termo que fascistas, radicais de esquerda e judeus massificados usam de um lado ou de outro pra justificarem sentimentos injustificáveis. É importante sempre afirmar a autencidade e a contribuição judaíca ao mundo e também assumirmos (os “góis”) que durante muitos séculos eles foram perseguidos e massacrados e o fato de ainda sobreviverem é uma prova mais do que de resistência, mas de cultura.
Conflitos como esse que ocorrem na Faixa de Gaza fazem alimentar mais ainda o ódio pelos judeus, o nefasto anti-semitismo e isso é o maior erro de todos.
Devemos não confundir e sabermos separar os judeus e o Estado de Israel, por mais imbricada que seja essa relação entre os dois. E percebermos que mesmo dentro do Estado de Israel, um estado altamente militarista, existem pacifistas e judeus que contestam a relação de ódio entre judeus e árabes.
Ilan Pope, importante historiador israelita, afirma: “Israel encontra-se fundado sobre uma mentira”. Ele não fecha com os judeus massificados pela cegueira religiosa.
Ele conta: “O meu pai me havia enganado e que todos nós havíamos sido enganados no colégio e na Universidade. Tanto o meu pai, como os meus professores, disseram-nos, uma e outra vez, que, quando da fundação do Estado de Israel, em 1948, os palestinos preferiram partir, o que é mentira. Os arquivos que consultei e os documentos que eu mesmo li são prova evidente da expulsão de palestinos por parte dos israelitas, os quais recorreram ao terror, às ameaças e à violência”.
Isso vindo de um judeu é um ato mais de fé do que de coragem, uma fé nos princípios fundamentais do judaismo, eu diria.
Outro judeu que pregou a paz foi Alexandre Herchcovitch em seu verão 2009, muito antes de todo esse babado de Hamas versus Israel no Oriente Médio.
Aos homens, a guerra, para as mulheres, a paz. Nesse sentido ele foi profético como os profetas de sua religião e abriu possibilidades para uma historicização da moda. Pois ver esses desfiles nessa altura dos acontecimentos torna-se uma lição de imagem muito especial.
Levantem seus lenços palestinos como bandeiras brancas!

AVAFANDO=ABRAVANANDO COM AS ARTES PLÁSTICAS E COM A MODA

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Fábio Gurjão realizou sua performance-ação-desfile-ação comercial na última terça, dia 2 de dezembro, abrindo os trabalhos da a.v.a.f. [assume vivid astro focus] que desta vez vem com o nome Axé Vatapá Alegria Feijão e encerra em clima de grande festa com direito a trio elétrico sua intervenção na Bienal do Pixo no sábado, dia 6 de dezembro.
A princípio, o evento aconteceria no andar do vazio, mas acredito que por problemas técnicos + ideológicos, eles preferiram deixar o segundo andar para o autoritarismo da arte contemporânea de vassalagem. Pois bem, foi tudo no térreo mesmo e o clima era de galpão de Escola de Samba.
Enquanto sua ação era realizada ao passar do tempo (das 19 às 22 horas) – não se esqueça que além do desfile tem a ação dos fotógrafos, trilha e araras para a compra das roupas ali mesmo -, um carro alegórico era preparado por Eli Sudbrack, Silvia e equipe, a cantora Cibele Cavalli que virou Kivelle Bastos, a persona abravanada estava realizando ali uma mandiga-instalação e o talentoso Ed Inagaki, que montou seu Ateliê Abstração na paralela da ação de Fábio e sua FKawallys, mostrou uma camiseta com capuz que ele chamou de fantasmando e que também nos remete ao uniforme dos presidiários e/ou guerrilheiros – muito oportuno para esse momento portas fechadas da arte contemporânea de vassalagem ou aos fantasmas que rondam o andar do vazio.
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Buuuu Bienal
Já na entrada, um clima diferente daquilo que Denis Rodriguez também desenhou e era tão verdadeiro durante os dias de Bienal que antecederam a chegada dos avafanados=abravanados: a opressão dos seguranças [acredito que para combinar com o andar vazio e o autoritarismo de seus curadores].
O ar estava mais leve entre os seguranças e alguns até queriam se enturmar com os abravanados. Eles nem revistaram minha mochila…
Ao chegar, muita gente tirando fotos, e Fábio já nos mostrou a cadeira Fila A e cadeira de Imprensa pra gente sentar na passarela. Quer iconoclastia melhor que essa?
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Nossa, essa roupa é uó! Pena que esqueci meu bloquinho…
As coisas corriam soltas, algumas pessoas compravam as roupas na arara, outras cantavam as músicas do rádio, outras ficavam paisageando, Bianca Exótica fazia amizade com os bombeiros…
E foi assim, sem nenhum alvoroço, numa relax, numa tranquila e numa boa que Fábio Gurjão anarquizou com o mundo das artes plásticas e da moda.
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Ao vender as suas camisetas dentro de um espaço de arte, ele evidencia o jogo do comércio disfarçado em simulacros de “arte” feito pelas galerias, museus e bienais. A questão grife é tão mais importante na arte contemporânea de vassalagem que na moda. Afinal um Jeff Koons vale mais que um Marc Jacobs, não?
Existe um valor para aquilo que não tem valor – o espiritual da arte? Por isso seu preço será sempre alto conforme não o seu valor artístico mas seu valor de mercado – em contraposição a isso, as camisetas de artista de FKawallys eram baratíssimas, tudo 30 reais.
Sem falar da ocupação de um lugar sagrado das artes com um desfile de moda – considerado até pelos próprios críticos de moda (?) algo menor que a suprema arte.
Para a moda, ele trouxe orgulho e auto-estima. Não existe terreno mais almejado por jornalistas de moda, estilistas, stylists que o terreno das artes plásticas. Muito pelo valor [falso] e o status [de novo-richismo]que hoje as artes plásticas ganharam. Talvez porque lá o valor da grife [no caso o nome do artista] foi criada de maneira tão escondida e dissimulada que consegue iludir que estamos no terreno do espiritual e não do mercado.
FKawallys está fora dessa etiqueta e dessa lógica canhestra. Em nenhum momento ela se acredita menor que as artes plásticas, não procura como a maioria dos fashionistas aliar-se às artes para ganhar status, esse ISO de ignorância.
Se trabalha dialogando com as artes plásticas é em pé de igualdade. Ele não se acha inferior por fazer moda e muito menos por realizar camisetas [infelizmente considerada carne de segunda na moda].
Ao porpor um desfile em plena Bienal, ele sabe que aquele pode ser um de seus espaços, não o único. E ao vender seu produto que é o mesmo que está sendo desfilado tudo ao mesmo tempo agora ele critica a lógica da chamada imagem de moda tão difundida entre os fashionistas. Essa lógica: a grande parte das vezes o que se desfila não é o que se produz. Cria-se uma imagem falsa da marca, pois na loja temos, em geral, aquilo que é do mais comercial [de alguma forma ele dialoga com o excelente desfile Do Estilista para o verão 2009].
Agora o mais importante, ao fazer essa performance-ação-desfile-ação comercial que outros “artistas” também se acoplam, onde todos, público, visitantes, compradores, funcionários da bienal podem participar [ atentando ao detalhe que a Bienal é de graça], enfim, ali se realiza uma ação de inserção e inclusão. Ao final ele obtém uma obra verdadeiramente duchampiana onde todos que participam são artistas e estilistas ou melhor, vivem a arte como o mestre da roda de bicicleta sempre almejou!
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PS1: E o melhor, disse Fábio Gurjão o tempo todo como autor [não que ele não tenha participação decisiva] no texto por conformismo da linguagem que precisa nominar, mas sinceramente as fronteiras se romperam pois eu não sei se foi a a.v.a.f. , os abravanados, quem apareceu por lá para criar isso tudo que aconteceu no dia 2 de dezembro. Enfim, na realidade foi uma confluência de idéias e desejos!