Arquivo da categoria: uniforme

O JEANS E O MILK

levismilk05
Quem me conhece sabe do meu desprezo pelo chamado jeans premium, essa sofisticação leviana que retira de um dos impérios da contracultura seu status libertador e igualitário. O jeans nasce como uniforme operário e ruralista no século 19, e torna-se, nos anos 60 e todas as décadas seguintes até metade dos anos 90, a melhor tradução em roupa da palavra igualdade.
Me recuso a pagar R$1000,00 em um jeans desde sempre e não só agora por causa da chamada nova política da moda perante à crise que os fashionistas estão adorando anunciar. O jeans deve ser sofisticado em sua excelência, em seus valores, não em suas lavagens e rasgos propositais. Não digo isso contra a técnica de lavanderia que acho muito interessante, mas pelo abuso nos preços exorbitantes do chamado valor agregado que algumas marcas pregam em suas peças.
Para mim, jeans bom, é aquele que envelhece no seu corpo, não o que envelheceram pra você. A manobra para encarecê-lo – com a desculpa que o tradicional jeans já não tem o apelo que tinha – tem como resultado a descaracterização da própria essência do jeans. Não que ele não possa ou não deva mudar, mas a perda de seus elementos primordiais como o ideal de uniforme e igualdade fazem dele mais uma roupa de outra ideologia, ou por fim, uma roupa banal, sem caráter, muito mais do que aquilo que os críticos na época diziam sobre os exércitos de jovens vestidos com seus jeans pelas ruas nos anos 60 e 70.
levismilk02
Apesar disso o jeans tem seu lado fetichista. Esse, talvez, o único elemento primordial que permaneçou no chamado jeans premium.
Sempre tive uma atração pelo jeans five pockets e em especial o 501 da Levi’s. Fiquei um pouco reticente quando soube que a marca também quer apostar mais em suas linhas premium. Bom, pouco importa contanto que ainda faça jeans com preços razoáveis e o sempre clássico 501.
Acho que combina mais com a idéia de jeans que eu gosto de usar, a idéia de uma igualdade diferenciada, de uma igualdade possível, mas não de um igualitarismo.
levismilk03
Essa idéia de igualdade diferenciada está muito presente no excelente filme “Milk – A voz da igualdade”, de Gus Van Sant. A história de Harvey Milk, um ícone da militância gay, é interpretada por Sean Penn que acabou ganhando o Oscar de melhor ator pelo filme. O militante quer o direito de igualdade pela diferença, não à toa, sua plataforma política é apoiada não só por gays, mas sindicalistas, idosos, deficientes físicos.
O filme tem a palavra igualdade no título traduzido para o português e respira liberdade a 24 quadros por segundo. E o mais engraçado e coerente é que o clássico jeans com suas carcterísticas de uniforme, igualitárias, fetichistas e libertárias é um elemento presente e essencial durante toda essa história.
É esse jeans que me interessa e que eu gosto, pois é legítimo em sua essência, não precisou de nenhuma lavagem – cerebral – pra se tornar melhor ou mais bem aceito!
levismilk04

QUESTÕES DA MODA DE RUA

014593499-ex00
Marco Sabino, que realiza um papel importantíssimo na moda brasileira de historicizá-la através de seus textos e de seu já clássico Dicionário de Moda, me enviou essas perguntas bem interessantes e argutas sobre a moda de rua e decidi que minhas respostas deveriam ser compartilhadas, até porque estão em formação. Não existe um pensamento muito claro sobre a moda de rua e uma discussão enraizada, pelo menos no Brasil.
Ele também me escreveu dizendo que muita gente acha que o oposto da moda de rua é a alta costura. Superficialmente podemos pensar que sim, pois temos a chamada democracia nas ruas em contraposição à elitização extrema da alta costura – hoje quantas pessoas consomem alta costura? 500, 1000 pessoas no mundo todo? Mas como disse, essa oposição é apenas superficial pois as duas procuram o mesmo caminho: O da individualização – o ponto mais importante da moda e sua contribuição para o mundo! Só que uma – a alta costura – em relação à roupa e a outra – a moda de rua – através do estilo.
Então comecemos! Como disse são respostas cruas e acho que todos poderão ajudar no debate que talvez se forme aqui e/ou em outros blogs.

1- Qual seria o oposto da moda de rua?
A moda de rua ou anti-moda surge nas tribos jovens entre os anos 50 e 60 que criam um estilo pessoal distante do que ditava as passarelas, mas ainda identificados com o segmento que os representavam (teddy boy, beatnik, mod, hippie) Enfim, eles não se preocupam com a chamada moda oficial, não respeitam seus códigos e nem os seguem. Então, por exercício lógico, podemos pensar que a moda de rua estaria em oposição à moda de passarela, mas na verdade o que ela processa e pretende é estar no lugar da moda de passarela, no topo da pirâmide e não mais na base. O seu oposto na verdade é a diluição da moda de passarela nas ruas.
[Talvez isso explique minhas ressalvas ao trabalho do The Sartorialist como moda de rua pois ao fotografar saídas de desfiles e lugares ditos como fashion, estaria ele fotografando mais atento à diluição da moda de passarela, apesar de na diversidade dos tempos de hoje, ele consiga achar sim, às vezes, pessoas com estilo próprio que é a raiz da moda de rua, um de seus objetivos cruciais, na minha opinião e não apenas como a rua está lendo a passarela]

2. A roupa comprada na loja de grife também não vai às ruas e acaba se misturando no olhar? Ou existe uma “moda de salão”?
A moda de rua trabalha numa chave diferente dessa que estamos chamando de “moda de passarela ou oficial ou mesmo de salão”. Sabemos que a “moda de salão ou oficial” só se fecha e ela só acontece quando chega às ruas. Mas a moda de rua independe da passarela, podendo sim ser influenciada – pouco, verdade seja dita, ou enganosamente como o caso dos lenços palestinos que foram chamados por um tempo de lenços Balenciaga -, mas ela apenas dialoga com essa moda de passarela que sim, está muito atenta para o que acontece nas ruas. Aliás o espírito da moda de rua é não olhar pra passarela, já que ela tem caráter subversivo, de anti-moda no sentido de estar invertendo a pirâmide da “moda oficial” [antigamente era dos grandes ateliês para as ruas e a partir dos anos 60, formou um outro movimernto que sai da rua para os grandes ateliês]. A legítima moda de rua influencia as passarelas. Até porque nas passarelas o primeiro foco é a roupa (produto) e imagem dessa roupa ou da marca. E na moda de rua o primeiro foco é o estilo ou imagem da pessoa, do indivíduo. A indivídualidade é muitíssimo sutil na passarela porque o foco tem que ser as roupas,a grife. Não existe uma individualidade Herchcovitch, Calvin Klein ou Marc Jacobs, o que existe é a label, a marca, o produto
Então a moda de rua é anti-moda porque independe da passarela para existir, depende unicamente de personalidade e do indivíduo. Posto isso, pouco importa se a roupa é de grife ou não, porque o que importa no caso da moda de rua é quem a veste e como aquilo que a veste lhe realçou a personalidade. Isso pra mim é claro nos uniformes, pois todos são iguais (e poderia ser todos assinados por Balenciaga) mas são certas pessoas que – no modo de compor, andar, fazer um certo detalhe diferencial – dão mais personalidades a eles, os uniformes, do que outras.
É importante ressaltar que não é porque está na rua é que é moda de rua – pode ser apenas diluição da passarela, a base da pirâmide que tem como topo as grifes -, na moda de rua tem que ter o quesito “desprezo” para as tendências da passarela, ou antecipá-las ou usá-las para além e acima da tendência de passarela.
[Um exemplo é o garçom do Ponto Chic que usa o colete-jaquetão de uniforme antes mesmo da tendência das passarelas masculinas internacionais e possivelmente continuará a usar depois que essa tendência passar].

3. Roupa de rua = Roupa de gueto?
Ela surge assim e permanece assim até hoje. O estilo dos guetos do hip hop e do rock que o digam. E por isso a importância dos uniformes para entendermos melhor a moda de rua. Mas a partir dos anos 1990 e seu já clássico termo “supermercado de estilo”, o menino do hip hop que se destacava por seu estilo dentro do movimento ganha mais liberdade, pois percebe-se que não precisa pertencer a algum grupo específico para ter um estilo. É a entrada da era das individualidades na moda de rua. O gueto ainda conta – veja os looks dos emos hoje -, mas com menos força e mesmo assim mais mixado. Muitos emos podem se passar por indies, por exemplo. Como muito clubbers por ravers. Mas a acentuação individual ganha mais corpo.

4. Na sua opinião, representantes de classes mais baixas, o povão mesmo, se toca com moda?
No Brasil nos falta cultura visual. Com certeza tanto diante de um quadro de Boticelli como em um desfile de Ronaldo Fraga, o observador médio tem muita dificuldade de formar discursos e/ou outras visualidades a partir desses dois exemplos. O ensino de artes no país é uma catástrofe. [Exatamente por isso truques como Galeria Vermelho e outras atrocidades da artes contemporâneas mistificadoras no nosso país caem no gosto suburbano do provinciano].
Sobre a questão das classes populares, essas sem educação visual nenhuma agem como a maioria da população brasileira, incluindo os ricos, no quesito moda: Por instinto. A maioria das vezes copiando o que “está na moda”. E no caso da classe média e baixa copiando não a moda de passarela, mas a de novela o que é um fenômeno interessantíssimo. Toda a educação visual e com isso a de moda [precária, diga-se de passagem] da maioria dos brasileiros é dada pela televisão.
Enfim, a moda como expressão da individualidade é ainda mérito de poucos, de uma elite muito restrita que não necessariamente é a econômica nem a intelectual.

5. Gosto do povão é diferente do da classe média?
Um pouca dessa pergunta está respondida acima, mas como falamos de individualidades, a questão de classe fica mais prejudicada. Usando uma frase antiga de Glauber Rocha que se encaixa para esse exemplo: “No meio da massa tem o indivíduo e o indivíduo é muito mais difícil de dominar”.

15-boticelli-venus
O que você verdadeiramente vê?

AINDA SOBRE UNIFORMES E MODA DE RUA

dsc02405
No livro “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, o futuro – ele escreveu o romance em 1932 – é totalmente uniformizado em castas com pessoas sem personalidade nenhuma.
Ao pensar os uniformes, me veio muito esse livro na cabeça; o uniforme pra diferenciar os grupos. Fiquei intrigado o quanto tambem não seria uniforme hoje não ter uniforme. Quando toquei novamente no nome do The Sartorialist não foi nunca para invalidar o seu nome, mas sim localizá-lo e pensei se ele também não estava fotografando uniformes, os uniformes dos fashionistas. Pensei o quão paradoxal poderia parecer também essa necessidade extrema de expressão pela roupa por parte do mundo da moda e que levada às últimas consequências – como no caso das fashion victims -, não estaria ali se formando também um uniforme.
Sim, em maior ou menor grau estamos todos uniformizados, pois através das nossas roupas passamos os mesmos códigos que os uniformes. Sim, passamos esses sinais da mesma maneira só que de um jeito mais sutil e nem com tanta literalidade como é o caso dos uniformes esportivos e escolares.
Voltando ao livro de Huxley, talvez o exemplo está em Bernard Marx que mesmo naquele ambiente homogenizador, tenta o questionamento e a individualização. Pois é assim que devemos tratar todos os nossos uniformes.

MODA, MODA DE RUA E OS UNIFORMES

dsc02309
Carol Vasone, editora de moda do Uol, tem me dado oportunidade de fundamentar minhas questões sobre moda de rua. Como já disse e escrevi acho muito fantasioso achar tanto o The Sartorialist como o menino magrela meio sem sal que esqueci o nome que vem sempre aqui em São Paulo fotografar porta de desfile serem chamados de fotógrafos de streetstyle. Não tirando o mérito dos trabalhos deles, o que eles fazem é algo importante para uma antropologia das esquinas dos desfiles, da periferia que rodeia o mundo da moda, mas está longe de ser um recorte honesto da chamada moda de rua.
Cito Vasone e o Uol porque veicular as imagens em um grande portal é de suma importância para a desseminação do que acredito serem os objetivos de uma moda de rua. Atinge o olhar de inúmeras pessoas e não necessariamente só os que estão viciados tanto na linguagem fashion como na linguagem dos blogues de streetwear – aliás esses, aqui no Brasil, graças a Deus, cada vez mais distantes do olhar imperial do Sartorialist ou do menino sem sal.
Dessa vez minha missão foi pensar sobre os uniformes e achá-los no meio da multidão. Os uniformes, por excelência, prezam igualar pela diferença. Eu sei se um menino estuda no Dante ou numa Escola Estadual, assim como eu sei quem é policial, quem é servente, quem é executivo e quem é segurança pelo uso do uniforme. Eu sei a classe social, a especialidadem e a função pelo uniforme. Ele é uma roupa cheia de códigos prontos e todos sabemos “instintivamente” lê-los.
Existe uma simbologia austera e erótica em um uniforme de aeromoça, existe um pragmatismo no uniforme de um marronzinho. Olhar os uniformes é também entendermos os códigos de nossa cidade e de nosso tempo não só pela questão social, mas também erótica. Não é à toa que alguns uniformes são vendidos em sex shop. E numa relação muito direta podemos dizer que existe desejo em certos uniformes da mesma maneira que os estilsitas querem imprimir desejos em suas coleções.
Aqui está meu ensaio para o Uol!. Veja o que acha pois a discussnao sobre os uniformes está apen as começando.

DEGRADÊ


Os jogadores de vôlei em Pequim


A secretária Elisabeth de Oliveira com blusa da Vanguard do Shopping D, no metrô Luz, São Paulo

PALMEIRAS FASHION (VICTIM?)

palmeirascamisa.jpg 

Não sou palmeirense, longe de mim, mas foi com um pouco de inveja e dúvida quando vi o novo uniforme do time, apresentado no dia 7 de setembro. 

25.jpg fluo no verão 2008 de Alexandre Herchcovitch 

Feito pela Adidas, e a venda por quase  R$ 140,  o 3º uniforme do time do Parque Antártica vai ao mínimo chamar atenção com sua cor fluo tão ten-dên-cia para o próximo verão. O nosso “Tom Ford” Edmundo gostou. E você, o que achou?

camisaspalmeiras.jpg