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COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO 06/09/2009

Portrait Of King Louis XIV & His Brother Duc D'Orleans
Luis 14 e seu irmão Philippe d’Orléans

Alcino Leite em seu blog Útima Moda escreveu um post interessantíssimo no dia 29/08 chamado “O Abade Travesti” sobre o nobre francês François-Timoléon de Choisy (1644-1724). Ele foi criado como uma menina assim como seu conterrâneo o princípe Philippe d’Orléans, irmão mais novo do rei Luis 14. O futuro abade seria uma companhia ao jovem sucessor nesse jogo político armado por sua mãe, a rainha Ana da Áustria, e o cardeal Mazarin que pretendiam através da idéia feminilidade tirar qualquer traço de agressividade e luta pelo poder atribuída aos homens e impedir o filho caçula de lutar pelo trono do França. E deu certo!
Apesar dessa manobra que muita gente hoje enxerga como uma certa visão misógina por parte da própria rainha, temos que entender a época em que tudo isso ocorre, muitos séculos antes do feminismo queimar esteriótipos em praça pública.
Mas o mais curioso é que mesmo educados dentro das regras femininas de bom comportamento da época e com luxuosos vestidos, maquiagens e jóias, cada um dos jovens nobres seguiu sua orientação sexual.
Philippe d’Orléans quando mais adulto se rebelou à essa educação, tornou-se militar, venceu batalhas, mas era conhecido na corte por manter relações com outros homens e apenas vestia-se de mulher nos círculos mais íntimos.
Já o abade de Choisy declarou seu amor pelas roupas femininas durante toda a sua vida e também pelas mulheres: muitas viraram suas amantes. Está tudo no “Memórias do Abade de Choisy Vestido de Mulher” de sua autoria.
Enfim, um nobre exemplo pra quem ainda acredita em estereótipos como “homem que é homem não chora”, o Abade de Choisy chorava sempre que via um belo vestido rendado e com brocados.

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COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO – 19/04/2009

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Quando eu vejo um lip synch, a técnica que sincroniza o movimento dos lábios a uma outra voz, sempre penso nos shows de transformistas e nas próprias travestis – já escrevi aqui antes sobre minha decisão de escrever sempre sobre elas no gênero feminino.
Lembro de assistir muitas dessas performances, em boates no centro de São Paulo, com uma trava manca que tinha a cara de Maria Bethânia e dublava o repertório da cantora baiana. Mas não era na semelhança física que ela se parecia com a irmã de Caetano, mas sim no jeito de dramaticamente mexer a boca, meio nervosa. E, mesmo claudicante, ao dar uma corridinha ela era a própria Bethânia e ao mesmo tempo algo a mais.
Existe no desejo de possuir uma imagem de mulher, em geral divas, personas femininas únicas em sua excelência, uma vontade das travestis de também se mostrarem e se afirmarem raras.
Porém ao serem possuídas pela voz de uma mulher durante o lip synch, as travestis dão um novo corpo a ela. Muitas vezes reinvindicam – mesmo que em todo o seu exagero e dramaticidade – o feminino, dando um recado às mulheres que nos dias de hoje se veem obrigadas a abandonar – em parte – sua feminilidade pra poder entrar no mundo masculino do trabalho competitivo.
As travestis, esses seres com certas anatomias masculinas transitam entre os gêneros através do ritual do lip synch para se afirmarem como seres femininos.