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COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO 03/10/2009

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Rock Hudson, ator americano (1925 -1985)

No final de setembro, o ator anglo-americano John Barrowman, conhecido como o capitão Jack Harkness nas séries “Torchwood” e “Doctor Who”, chamou atenção, ao lançar “I Am What I Am” (“Sou o Que Sou”). No livro autobiográfico, ele conta que um produtor gay do alto escalão de uma emissora de televisão pediu para que ele não assumisse sua homossexualidade publicamente e que fingisse ser hétero para não atrapalhar sua carreira.
Casos como esse não são nenhuma novidade na indústria do entretenimento. Se lembrarmos dos tempos áureos de Hollywood, muitos atores tinham casamentos arranjados para não queimarem literalmente seu filme – e a rosca – na frente de suas fãs. No Brasil vivemos situação semelhante com galãs interpretando desejos que nunca tiveram.
Mas antes de os colocar em uma fogueira (das vaidades?) ou fazer como certos militantes que autoritariamente tentam tirá-los à força do armário, precisamos pensar que muitos acreditam que a arte de atuar é a ação de fingir. “Não podendo fazer o que queriam, fingiram querer o que podiam” escreveu Montaigne no final de seu ensaio “Da Liberdade de Consciência”.
Porém, a confusão entre realidade e fantasia que parte do público da televisão e do cinema faz, diz muito a respeito sobre a situação de tantos atores “não-gays”: Eles não teriam credibilidade de fazer um garanhão sendo assumidamente viados. Mas porque um ator hétero teria quando interpreta um gay? O que essa situação dramatica explicita é que fingindo ser hétero, um gay pode interpretar um machão. E todos dissimulamos não sermos hipócritas até o próximo comercial!

A MODA NA TV

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É impressionante a quantidade de programas de moda que surgiram nos últimos tempos na televisão brasileira, ou melhor no último ano, tanto nos canais abertos como nos fechados. Se pensarmos que antes só tinha o GNT Fashion e um quadro no Jornal Hoje de sábado, é de se admirar a quantidade de novos quadros com dicas de estilo, programas que prometem através da modae beleza rejuvenescer a pessoa ou os famosos programas de estilo antes e depois que a pessoa é abençoada por personal stylists e se transforma a olhos vistos pras câmeras. Tudo bem que a maioria é cópia de programas gringos – não é só a moda brazuca que copia não! -, principalmente aquele das duas inglesas que jogam as roupas das pessoas no lixo e dão uma grana pra ela gastar em roupa já totalmente catequizada pelo manual do bem vestir, o “Esquadrão da Moda”.
Podemos num primeiro momento saudar que finalmente as informações de moda estão sendo democratizadas pela televisão, e que um maior número de pessoas vão poder tomar consciência da arte de vestir, fantasiar, transfigurar, criar uma imagem, tomar consciência do seu corpo e de sua individualidade. A vontade do público de obter essa informação é grande tanto que a audiência desses programas compravam a carência.
Mas ao invés abrir novas perspectivas que o conhecimento de moda pode gerar, esses programas se fecham em dogmas bisonhos do que pode e do que não pode, como regras fixas e imutáveis.
“Preto emagrece”, “listras engordam”, opa pera lá, nem todo preto emagrece, nem toda listra engorda. E se você é gordo e se sente bem com listras, não pode usar, mesmo sentindo que as listras fazem parte de sua identidade?
Outro dia estava passando um episódio do “Esquadrão da Moda” americano e tinha um cara que amava cores fortes e estampas absurdas, dessas de abravanar quarteirão. O que o casal de apresentadores fez? Pulverizou esse gosto dele, o acinzentaram, fizeram ele perder a confiança em seu estilo, não investiram dentro daquilo que o caracterizava, isso é um deserviço. E o mesmo ocorre nos programas feitos no Brasil, eles chegam a ser mais constrangedores. Tem um quadro na Record que chama “A Verdadeira Idade” que pega pessoas super carentes pra fazer uma transformação e o quadro sempre encerra com a apresentadora dogmatizando: “O importante é ser fa…” e a pessoa responde: “..shion!”. Bom, eu acho que isso não pode ahahahah.
É importante conhecer as regras, saber do que elas tratam, mas também saber que não existe pode e não pode definitivo na moda, tudo é cíclico, tudo é maleável e muda de pessoa pra pessoa. E esses programas “ensinam” exatamente o contrário.
É muito mortificante ser essa visão de moda, como ditadura, que a televisão está veiculando e seu apelo é tão grande que até programas como o “GNT Fashion” sofre mudanças. Eu vi a chamada do “GNT Fashion” com a Lilian Pacce falando que nem sempre estar de salto alto é estar elegante e não anunciando uma entrevista com alguém mega importante do mundo da moda ou um desfile impecável.
O próprio canal investiu em um programa desse porte, o “Tamanho Único”, que tem algo interessante que é contar um pouco, de forma bem resumida a história da peça em questão ou do estilo, mas segue o mesmo beabá que conto acima tirando um pequeno detalhe que faz toda a diferença. Em geral, os programas mostram um antes e depois como se fosse um passo de mágica. Chiara Gadaleta Klajmic, uma das apresentadoras que faz a transformação na personagem, se permite errar, testar, trocar a peça que recomendou em um primeiro momento porque não ficou bom – e esse processo aparece no programa. Existe enfim o exercício de observação e construção como um work progress que é fundamental no trabalho de um personal stylist e que nunca aparece nesses programas e que seria um passo pra entender que pode errar sim, que faz bem quebrar regras e convenções em nome da sua individualidade, que nada é tão categórico assim. Sobre isso, as meninas do Oficina, que exercem também a profissão, fizeram um texto primordial e com ele que encerro esse post: Ninguém tem que ter medo de experimentar!
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PS: Essa imposição do pode e do não pode como verdades absolutas também está presente nos reality shows de moda que esqueci de citar.

QUESTÕES DA MODA DE RUA

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Marco Sabino, que realiza um papel importantíssimo na moda brasileira de historicizá-la através de seus textos e de seu já clássico Dicionário de Moda, me enviou essas perguntas bem interessantes e argutas sobre a moda de rua e decidi que minhas respostas deveriam ser compartilhadas, até porque estão em formação. Não existe um pensamento muito claro sobre a moda de rua e uma discussão enraizada, pelo menos no Brasil.
Ele também me escreveu dizendo que muita gente acha que o oposto da moda de rua é a alta costura. Superficialmente podemos pensar que sim, pois temos a chamada democracia nas ruas em contraposição à elitização extrema da alta costura – hoje quantas pessoas consomem alta costura? 500, 1000 pessoas no mundo todo? Mas como disse, essa oposição é apenas superficial pois as duas procuram o mesmo caminho: O da individualização – o ponto mais importante da moda e sua contribuição para o mundo! Só que uma – a alta costura – em relação à roupa e a outra – a moda de rua – através do estilo.
Então comecemos! Como disse são respostas cruas e acho que todos poderão ajudar no debate que talvez se forme aqui e/ou em outros blogs.

1- Qual seria o oposto da moda de rua?
A moda de rua ou anti-moda surge nas tribos jovens entre os anos 50 e 60 que criam um estilo pessoal distante do que ditava as passarelas, mas ainda identificados com o segmento que os representavam (teddy boy, beatnik, mod, hippie) Enfim, eles não se preocupam com a chamada moda oficial, não respeitam seus códigos e nem os seguem. Então, por exercício lógico, podemos pensar que a moda de rua estaria em oposição à moda de passarela, mas na verdade o que ela processa e pretende é estar no lugar da moda de passarela, no topo da pirâmide e não mais na base. O seu oposto na verdade é a diluição da moda de passarela nas ruas.
[Talvez isso explique minhas ressalvas ao trabalho do The Sartorialist como moda de rua pois ao fotografar saídas de desfiles e lugares ditos como fashion, estaria ele fotografando mais atento à diluição da moda de passarela, apesar de na diversidade dos tempos de hoje, ele consiga achar sim, às vezes, pessoas com estilo próprio que é a raiz da moda de rua, um de seus objetivos cruciais, na minha opinião e não apenas como a rua está lendo a passarela]

2. A roupa comprada na loja de grife também não vai às ruas e acaba se misturando no olhar? Ou existe uma “moda de salão”?
A moda de rua trabalha numa chave diferente dessa que estamos chamando de “moda de passarela ou oficial ou mesmo de salão”. Sabemos que a “moda de salão ou oficial” só se fecha e ela só acontece quando chega às ruas. Mas a moda de rua independe da passarela, podendo sim ser influenciada – pouco, verdade seja dita, ou enganosamente como o caso dos lenços palestinos que foram chamados por um tempo de lenços Balenciaga -, mas ela apenas dialoga com essa moda de passarela que sim, está muito atenta para o que acontece nas ruas. Aliás o espírito da moda de rua é não olhar pra passarela, já que ela tem caráter subversivo, de anti-moda no sentido de estar invertendo a pirâmide da “moda oficial” [antigamente era dos grandes ateliês para as ruas e a partir dos anos 60, formou um outro movimernto que sai da rua para os grandes ateliês]. A legítima moda de rua influencia as passarelas. Até porque nas passarelas o primeiro foco é a roupa (produto) e imagem dessa roupa ou da marca. E na moda de rua o primeiro foco é o estilo ou imagem da pessoa, do indivíduo. A indivídualidade é muitíssimo sutil na passarela porque o foco tem que ser as roupas,a grife. Não existe uma individualidade Herchcovitch, Calvin Klein ou Marc Jacobs, o que existe é a label, a marca, o produto
Então a moda de rua é anti-moda porque independe da passarela para existir, depende unicamente de personalidade e do indivíduo. Posto isso, pouco importa se a roupa é de grife ou não, porque o que importa no caso da moda de rua é quem a veste e como aquilo que a veste lhe realçou a personalidade. Isso pra mim é claro nos uniformes, pois todos são iguais (e poderia ser todos assinados por Balenciaga) mas são certas pessoas que – no modo de compor, andar, fazer um certo detalhe diferencial – dão mais personalidades a eles, os uniformes, do que outras.
É importante ressaltar que não é porque está na rua é que é moda de rua – pode ser apenas diluição da passarela, a base da pirâmide que tem como topo as grifes -, na moda de rua tem que ter o quesito “desprezo” para as tendências da passarela, ou antecipá-las ou usá-las para além e acima da tendência de passarela.
[Um exemplo é o garçom do Ponto Chic que usa o colete-jaquetão de uniforme antes mesmo da tendência das passarelas masculinas internacionais e possivelmente continuará a usar depois que essa tendência passar].

3. Roupa de rua = Roupa de gueto?
Ela surge assim e permanece assim até hoje. O estilo dos guetos do hip hop e do rock que o digam. E por isso a importância dos uniformes para entendermos melhor a moda de rua. Mas a partir dos anos 1990 e seu já clássico termo “supermercado de estilo”, o menino do hip hop que se destacava por seu estilo dentro do movimento ganha mais liberdade, pois percebe-se que não precisa pertencer a algum grupo específico para ter um estilo. É a entrada da era das individualidades na moda de rua. O gueto ainda conta – veja os looks dos emos hoje -, mas com menos força e mesmo assim mais mixado. Muitos emos podem se passar por indies, por exemplo. Como muito clubbers por ravers. Mas a acentuação individual ganha mais corpo.

4. Na sua opinião, representantes de classes mais baixas, o povão mesmo, se toca com moda?
No Brasil nos falta cultura visual. Com certeza tanto diante de um quadro de Boticelli como em um desfile de Ronaldo Fraga, o observador médio tem muita dificuldade de formar discursos e/ou outras visualidades a partir desses dois exemplos. O ensino de artes no país é uma catástrofe. [Exatamente por isso truques como Galeria Vermelho e outras atrocidades da artes contemporâneas mistificadoras no nosso país caem no gosto suburbano do provinciano].
Sobre a questão das classes populares, essas sem educação visual nenhuma agem como a maioria da população brasileira, incluindo os ricos, no quesito moda: Por instinto. A maioria das vezes copiando o que “está na moda”. E no caso da classe média e baixa copiando não a moda de passarela, mas a de novela o que é um fenômeno interessantíssimo. Toda a educação visual e com isso a de moda [precária, diga-se de passagem] da maioria dos brasileiros é dada pela televisão.
Enfim, a moda como expressão da individualidade é ainda mérito de poucos, de uma elite muito restrita que não necessariamente é a econômica nem a intelectual.

5. Gosto do povão é diferente do da classe média?
Um pouca dessa pergunta está respondida acima, mas como falamos de individualidades, a questão de classe fica mais prejudicada. Usando uma frase antiga de Glauber Rocha que se encaixa para esse exemplo: “No meio da massa tem o indivíduo e o indivíduo é muito mais difícil de dominar”.

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O que você verdadeiramente vê?