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GOYA E JULIETTE (O ESPANHOL E A FRANCESA… E A BRASILEIRA)

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Mme. Récamier por David

A francesa Juliette Récamier [a moça acima] foi uma espécie de Kate Moss (guardada as devidas proporções) do final do século 18 e começo do 19, pois ela era a grande difusora de moda na sua época. Foi ela a responsável pela popularização da chamada linha império ou diretório.
O Diretório, lembrando um pouco das aulas de História, foi um curto período (1795-1799) que antecedou o surgimento de Napoleão na França e que tentou dar uma certa ordem ao regime do Terror que veio pós Revolução Francesa e abafar todas as revoltas. Mesmo que de fundo autoritário, o Diretório tentou dar ordem ao que seus líderes enxergavam como caos. Também é do mesmo período o chamado Arcadismo ou Neoclassicismo e à volta aos valores greco-romanos tanto nas artes, arquitetura assim como na literatura. Enfim, um retorno a um tempo mítico, onde tudo nos dava a idéia de ordenado.
Por isso os vestidos longos, retos com a cintura marcada logo abaixo dos bustos, em geral de tecidos leves como a musseline remetiam a um ideal ligado à Grécia antiga e se tornaram as roupas representativas das décadas pós Revolução Francesa.
Juliette, assim como a imperatriz Josefina – daí nome linha império -, é um nome central na difusão dessa peça tanto que a a silhueta também é conhecida como récamier.

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Nesse extraordinário trabalho de Francisco de Goya, “A Família Real de Carlos IV”, de 1801, vemos a influência da silhueta império em outras cortes, como a espanhola. A figura central, mais iluminada que o rei é a rainha Maria Luísa de Parma que, junto com toda as outras figuras feminina do quadro, ostenta vestido da linha império. Podemos ver também o magnifíco contraste de cores, a leveza dos trajes femininos e a altivez dos masculinos, mas todos os adultos apresentam traços no rosto entre a alienação e a pasmaceira, incomum na composição pictórica de nobres e ainda mais dos supremos líderes de uma corte.
A genialidade de Goya como retratista faz com que mais do que vermos os brilhos dos brocados, dos bordados a ouro, das pedras preciosas, das pérolas, os sentíssemos reluzindo. O brilho ofusca as caras meio tolas e alienadas dos personagens principais que estão prestes a serem subjugados exatamente pela força que difundiu os vestidos império, a era napoleônica. É uma corte retratada em seu fim. Enfim, as mulheres já vestiam culturalmente o que depois seria político. De alguma forma, a moda antecipou os fatos.

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PS: Quando Gisele apareceu com um Dior Couture da linha império no Oscar de 2005, todos falaram que ela estava grávida. De alguma forma, a moda antecipou os fatos.

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