Arquivo da categoria: são paulo fashion week inverno 2008

SPFW: BAFOS!

Teve muito bafo com as assessorias, o Oliveros escreveu bem sobre alguns momentos difíceis dessa relação conturbada entre jornalistas e assessores. Eu também tive os meus problemas.
Fiz uma coluna na Folha que tocava levemente no assunto e recebi uma enchente de e-mails me perguntando quem era a assessoria que me cortou e qual era a festa que me convidou para o meu aniversário.

Aqui vai o texto da Revista da Folha:

Fundamento cacura! Se você é homem e heterossexual, a idade parece não pesar em nenhuma das áreas. Seja no amor, a exemplo das belas e jovens namoradas do mais que setuagenário empresário Olacyr de Moraes, ou no trabalho, com Oscar Niemeyer aos 100 anos em pleno vapor criativo, o avanço dos anos é tratado socialmente como.uma conquista a mais, um viagra. Mas se você é gay ou mulher, o assunto é babado, pois na ditadura da juventude, somos os principais perseguidos.

Consciente disso, acabei de fazer 40 anos recentemente com a apreensão de quem de tia passa para tia-avó.

Uma assessoria de moda que sempre me mandava convite para os desfiles de seus inúmeros clientes, dessa vez me deu bolo. Mostrando total falta de prestígio dessa coluna (bicha adora moda. né!) recebi como presente um veto no maling deles. Pensei: Será que é porque eu sou viado e velho orgulhosamente assumido num mundo cheio de gente dentro do armário? Ou por preconceito, uma bicha gorda e velha tem mesmo que ficar em casa?

Ao mesmo tempo, uma marca (eu sei, sou uma bichinha fashionista!) me convidou para fazer meu aniversário e uma lista de convidados numa festa de arromba que realizaram. Pensei: Será que é porque sou viado e a gente anima até velório e pela minha idade eu conheço muita gente? De qualquer forma, foi a cereja no meu bolo! E o ponto de partida para uma mudança de postura

Esses dois casos ilustram como podemos sofrer com os pontos de vista sobre uma mesma situação, mas basta sabermos qual a gente prefere para nós mesmos. Eu, nesse caso da idade, passo agora a agir como um bom macho heterossexual!

Agora quero saber se você sabe quem é a assessoria e qual foi a festa. Press Pass? Alice Ferraz? Ellus? Zapping?

Façam suas apostas!

SPFW: I’M BUT I’M (BORDADOS E LITERALIDADES)

Eu sei que a semana de moda deixa a gente meio mal humorado, mas também vamos com calma na ranhetice. Mas nada que um olho por olho pra tudo acabar bem.

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Ricardo Oliveros escreveu no meu post sobre a influência portuguesa que o ponto cruz surgiu na China. Tudo bem que ele estava puxando a sardinha para o seu lado, mas nem Gilda Chataignier, a maior expert no assunto sobre tecidos, fios e bordados confirma essa aposta de Oliveros. Supõem-se que sim, técnicas de ponto cruz já tinham sido encontradas na pré-história. E o que hoje conhecemos como ponto cruz é a técnica do bordado inglês do século 16 e 17 e difundido pela Europa e principalmente em Portugal diante o famoso Tratado dos Panos e Vinhos.

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Mas as flores do post não eram ponto cruz, pelo menos isso me ensinou Cris Gabrielli da Oficina de Estilo e vejam como essa parte decorativa – as flores – é referência direta da tradição portuguesa:  

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Esse tipo de bordado e desenho de flores aparece nas coleções da Zoomp e do Fause! 

Sobre a questão mexicana, o problema é mais embaixo. Nem vou comentar sobre a troca de influências entre os povos ibero-americanos. A imagem do véu em Fause é uma leitura literal do traje típico de tijuana.

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O que todo fashionista que se preze odeia uma leitura literal, mas pelo jeito dessa vez adoraram.

Não podemos esquecer que esse traje mexicano tem relação direta com a inquisição e com as vestes do luto português como o negro traje de Viana. (como bem Ana salientou): esse é um traje de noiva minhota. Mas o recado é o mesmo no sentido de perseguir literalidades.

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Aliás, cá entre nós, seria muito melhor se a referência fosse essa e não a literalidade mexicana. Achei bem português da parte do Fause!

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SPFW: GISELLE NASSER TRANSCENDE SEU “ROMANTISMO”

Coragem de mudar para permanecer a mesma na essência.

Não é de hoje que o rótulo “romantismo” que muitos imprimem para o DNA da marca da estilista a incomoda. Não que ela o negue, muito pelo contrário, mas já me confidenciou que a limita, a deixa prisioneira. Uma mulher doce e frágil é tudo que os editores de moda esperam dela. E nada mais.

Mostrar que pode ir para outros caminhos foi o grande passo de Giselle nessa temporada. E ela o fez de maneira sensível e nada programática.

A estilista vasculhou no xamanismo, rituais que freqüenta, uma outra posição para ela e por conseqüência para as suas criações.

No xamanismo, a busca da essência, através dos psicotrópicos, é feita através de uma orientação guiada, pois se pode entrar num terreno nebuloso (de loucura e desespero), uma espécie de precipício mental se não acontecer tal orientação, tamanho o poder das alucinações e do transe.

Nessa viagem, seus debruns e seus rolotês são seus guias, sua orientação. São eles que avisam o limite da roupa, até onde ela pode ir, onde não deve passar. Eles dão o limite certo da sensualidade e da força dessa mulher que também existe em Giselle. Com a liberdade dos hippies, no seu caso, super chiques, e suas estampas de cashemire, ela constrói uma imagem além da psicodélica.

Sua roupa então desprende-se do corpo cem estado de transe. E assim revela-se a mesma alma de Giselle, agora nova para quem não a conhecia.

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SPFW: DUPLA DINÂMICA – FILIPE JARDIM E RENATO DE CARA

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Quem acredita que só tem bofe no pit de fotógrafos está com a crença errada. Apesar de poucos e extremamente fofos, eles podem sim estar no meio de nós. É o caso do ilustrador Filipe Jardim e do fotógrafo Renato de Cara.

Enquanto Filipe, sempre iconoclasta, diz que está dando um tempo das ilustrações (será?), Renato de Cara amplia a Galeria Mezanino que se muda para a parte superior da loja da VRom na al. Lorena.

SPFW: I’M PORTUGUESA

Ninguém falou da tendência portuguesa que apareceu nos desfiles do grupo I’M… Porque?

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Ai ai Maria, sai da lata e vem pra mesa!

(fotos Charles Naseh – site Chic)

SPFW: UMA FOTO, UMA IMAGEM (LEITURA DO MANIFESTO DE WESTWOOD)

Escolinha do Professor Raimundo!

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SPFW: A MEMÓRIA DO MUNDO

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Quando Adão e Eva comeram o fruto proibido, eles se cobriram com uma folha de parreira: a primeira roupa e o primeiro ”tecido”. Arquetipicamente temos aí a passagem do homem irracional para o homem que se utiliza da razão.

E os tecidos são a razão dessa nova coleção de Ronaldo Fraga. Uma razão que se utiliza dos sentidos (toque, cheiros, cores) para iluminar um passado que está se perdendo ou que poderia se perder pois quando um criador como Fraga olha para esse tema, ele o reavive ou melhor, o reanima, pensando em anima como os gregos empregavam essa palavra.

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O tecido é a alma e o corpo de uma roupa, por isso as transparências dos inúmeros vestidos pendurados na passarela de Fraga retratam que as roupas apenas nos representam, mostram (ou escondem!) quem somos no íntimo.

Fraga que sempre gostou de formas bem mais soltas ao corpo dessa vez as ajustas para ficarem mais próximas da pele, pois são os tecidos nossa segunda pele e neles ficam marcados as nossas vivências, nossas dobras e nossa relação com as roupas.

Em uma atitude sempre proustiana, o estilista mineiro lança o perfume da memória para projetar sua visão de futuro e dessa vez suas madeleines foram a força de uma pequena loja de tecidos que trabalhou quando jovem.

Ele, como o filósofo Bergson, acredita na materialidade da memória e ao completar 25 coleções, sabe que todas as suas roupas e toda a sua memória estavam  espalhados pela passarela e também pela platéia como pequenos pedaços de tecidos jogados no ateliê de costura.

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