Arquivo da categoria: prada

A NOVA BELEZA MASCULINA

02
É interessante pensar que a moda masculina sofre muito a influência de um peso-pesado da moda feminina: o estilista da Chanel, Karl Lagerfeld [talvez devolvendo aos homens o que as mulheres de Coco Chanel pegaram emprestado em suas inúmeras incursões ao guarda-roupa masculino]. Mesmo ele tendo para o grande público uma imagem um pouco bizarra, Lagerfeld tem feito um senhor trabalho de apontar vontades para a moda voltada para os homens.
É histórica a sua legitimação confirmando que os caminhos que Hedi Slimane percorria na Dior Homme estavam acertados. Ele mesmo fez questão de alardear a saga de seu regime para caber em uma calça skinny de Slimane. Repetiu esse mantra inúmeras vezes e é claro chamou a atenção do mundo para o trabalho do ex-estilista da Dior. Hoje vemos bofinhos usando modelagem skinny e podemos ter certeza, sem exageros, que uma parte dessa razão está indiretamente na propaganda de Lagerfeld anunciando que aquilo que Slimane estava desenhando era o que tinha de mais interessante na moda masculina naquele momento (não digo novo porque isso é mais marketing que verdade, pois sua modelagem é toda chupada da década de 60 como já escrevi aqui antes). Mas isso pouca importa, o que chama atenção é que com o aval de Lagerfeld, viu-se durante quase toda uma década a entrada de meninos muito jovens, magricelos, andróginos e feios. Todos recrutados para as passarelas da Dior Homme e da Prada e fruto do desinchaço dos modelos bombados dos anos 80 que passaram a década de 90 toda se secando.
Bom, depois de tudo, Karl volta a dar as cartas novamente e declara que só mesmo Hedi Slimane para arranjar aquele casting de meninos feios e que os tempos agora são outros, que a beleza dos homens deveria voltar à mesa [acredito que ele está se referindo a uma beleza mais clássica assim como todo o movimento sartorial e de alfaiataria tradicional que está sendo retomada na moda masculina]. Ele exatamente declara isso para legitimar seu novo muso, o modelo marselhês Baptiste Giacobini. Quem acompanha o blog de Marco Sabino pode ver a carreira meteórica do modelo, indo parar no primeiro lugar do site Models.com, mostrando o poder das palavras do kaiser da moda .
Com certeza Karl anuncia uma mudança de paradigma para a beleza masculina na passarela e isso tem resultado em todo o mundo da moda e com certeza na imagem do que é belo em um homem para o nosso mundo de hoje. Versátil, ousado e bonito, Giabiconi é esse sinal.
baptisteomg5
3
bg1-500x652
Sem medo do salto alto, da androgenia e de mostrar o (H)edi
ccf9a_ZXWEjgG0Pneyb2ty06imR0YUo1_500
Criatura e criador: Mais “Morte em Veneza” impossível

E abaixo um vídeo com Baptiste em movimento

Anúncios

O HAWAII É AQUI?

00160m
Prada verão 2010

margiela 1
Maison Martin Magiela verão 2010

emporio
Empório Armani verão 2010

JOELMA É PRADA!

Antes de mais nada, amo Joelma e acho sua investida na moda com a marca Calypso Vest um prolongamento óbvio de seu estilo que mais que “indianas”, “lifestyles cariocas”, “modernidade global” é o que realmente o Brasil profundo quer vestir.
calypsovestdiv540
Diz a matéria do Uol: “Joelma não está interessada nas tendências do mundo da moda. O projeto foi feito para gerar emprego na minha cidade [Almeirim, no Pará], mas sem poluir as margens do rio. E eu adoro roupa, explicou a cantora, que acompanhava quando criança os trabalhos da mãe, costureira desde os nove anos de idade”.
Usando um exercício de lógica da época da escolástica podemos deduzir que:
1) Joelma não está interessada nas tendâncias [até porque cria a tendência]
2) Prada não está interessada nas tendâncias [até porque cria a tendência]
3) Então [logo] Joelma é Prada!

NOSTALGIA, ANOS 80, REVISTA QUEM E MELHORES DESFILES DA TEMPORADA INTERNACIONAL

Antes de dizer sobre as minhas coleções preferidas da temporada internacional, e gostaria de que as selecionei pensando que as quatro principais semanas de moda (Nova York, Londres, Milão e Paris) se dividem claramente em conceitual e comercial, – não é nada muito rígido – , mas de uma maneira esquemática: Nova York e Milão tendem mais para coleções mais comerciais e Londres e Paris para o conceitual. Foi pensando nesses parâmetros e na releitura dos anos 80e sobretudo na nostalgia que acredito foi o traço mais forte da temporada que elegi para a revista Quem, meus desfiles preferidos na temporada:

Nova York deu o start das idéias de moda e, é claro, que Marc Jacobs fez o desfile de maior relevância e repercurssão por lá. E o resultado, apesar de não ser nada novo, foi importante ao tentar indicar primeiro e junto com outras marcas importantes um possível caminho para vendas: continuar as referências em algo que tem tido sucesso comercial. E, vamos dizer que, além de dar um gás na febre 80’s (algo que pela lógica da moda já deveria estar aposentado pois desde o começo dos 2000 estamos revisitando essa década), fez com que outros estilistas durante a temporada internacional afirmassem que esse talvez fosse o caminho certo dentro das incertezas econômicas que vivemos. Jacobs revisitou os anos 80 de forma muito otimista afinal está naquela década o começo de uma era que parece se findar agora com a queda das Bolsas. Foi o canto do cisne! Foi nostálgico!
00350m
Desdobre essas peças e quem sabe você tenha sucesso nas vendas

Já em Londres, a dupla Basso & Brooke faz novas experiências tecnológicas (não confundir com futurismo) com um ar retrô. Algo que o filme Blade Runner, um clássico dos anos 80, em sua estética formal também fez, mostrar um futuro de forma retrô. Apesar de a ponte entre os estilistas e o cinema nessa temporada não foi essse filme e sim a produtora de animação Pixar, existe aqui uma experiência nova de olhar uma forma muito importante dos anos 80 (foi nessa década que começou-se incisivamente a olhar para as décadas passadas e para os tempos históricos), mas dentro de um conceito. Não à toa, as estampas – maravilhosas por sinal – nos remetem a um Versace dos 80 que olhava o passado e as aristocracia (romana e francesa) e era esse mesmo o assunto das criações tecnológicas de Basso & Brooke, os tempos da aristocracia francesa pré-Revolução e o esplendor de Versalhes antes de sua derrocada. Algo que pode estar acontecendo hoje com o mundo e as grifes de moda? Existe um elemento nostálgico na superfície da modernidade das roupas desses dois talentosos criadores!
00040m
Você não vê a Rachel (Sean Young) de Balde Runner usando um desses em alguma festa?

Milão é Prada, me desculpem. Jil Sander arrasou, Marni arrasou, mas a Prada dita o que vai ser importante como estilo e qual peça, tecido, atitude vai ser improtante para o mercado. Claro que dona Miuccia não segue tendiencias e então olhar diretamente para os anos 80 jamais faria parte de seu repertório para essa e outras recentes temporadas passadas. Manter um mulher forte e agressiva dentro do chamado escapismo é algo pra poucos, mas a nostalgia se encontra no fugere urbem (fuga da cidade), em procurar um tempo ancestral. Nisso ela já indicava essa grande vontade de retorno a um tempo “mais feliz e seguro” que parece não mais existir hoje.
00090m
As botas do campo

E Paris, mesmo com a onda “parisien chic” pregada pela Chanel e por Balenciaga, e pelo incrível desfile de Rick Owens (que verdadeiramente me encantou pela primeria vez, obrigado Marcelo Gomes) foi o inglês Alexander McQueen com seu desfile com uma cenografia que tinham elementos que pareciam entulhos e lixo que apontou para um “novo” luxo que para mim é a essência da capital francesa. Um exemplo são as cabeças feita com latas de refrigerantes. Existe ali uma referência, uma ironia à idéia de luxo, mas também uma possibildiade de um outro luxo (talvez reciclável?). Sim, tinha referência ao performer Leigh Bowery, muito influente… nos anos 80. Tinha também Escher, o pintor dos labirintos sem saída, das formas enganosas, do jogo de visões. Parecia que ali resumia-se, estamos no fim de um tempo, algo vai mudar, estamos sem saída? Talvez para alguns. Então o que levar para a Arca de Noé, o que desses anos todos eu realmente posso levar para esse novo tempo anunciado? E a resposta foi algum objeto,ícone ou sinal dos anos 80, o tempo do princípio. E cada um desses desfiles nos deu um exemplo, falta saber se eles nos servirão.
00140m

A ÁRCADE DA PRADA

00390m
Os valores greco-romanos acabaram se tornando a síntese do que levou o nome de Humanismo e volta e meia ao longo da História preenchem o vazio do imaginário dos Homens. Se pensarmos no Renascimento e no mais explícito Arcadismo temos quase que um ato geracional de uma época que para progredir teve que fixar o olhar no passado. Sem falar que um dos valores ligados ao resgate da Grécia pelo Ocidente, o fugere urbem (fuga da cidade), pode ser sentido em exemplos díspares como na poesia de Virgílio ou de Alberto Caeiro, no ciclo do cangaço do cinema brasileiro, na música de Milton Nascimento e mesmo no último desfile da Prada para o inverno 2009. Todos esses artistas – sem exceção e sem os qualificarmos esteticamente – reforçam o arquétipo que recusa o que está acontecendo nas cidades – leia-se, nos dias que vivem ou viveram e portanto no pensamento – para tentar resgatar os valores primeiros, primordiais que para eles estariam no campo.
00240m
Na Prada, o material para esse retorno aos valores greco-romanos perdidos estão em primeiro foco na matéria usada pela marca para as suas criações. A eleição do couro e da lã como base da coleção nos remete imediatamente aos pastores, símbolo emblemático da Grécia Antiga e que no Arcadismo, por exemplo, fez com que muitos poetas assinassem suas criações com pseudônimos pastoris (fingimento poético para não revelar a verdadeira identidade do escritor). Eram os pastores responsáveis pela lã, o tecido essencial dos gregos no inverno assim como o linho era a base da vestimenta no verão. Já o couro era usado nas tiras dos calçados e também nas roupas de guerra, e de montaria, outra idéia ligada ao campo. Tinha algo ali de campo de guerra, de militarismo também. Enfim, a Prada mixando escapismo e realidade.
00130m
Talvez aí , no campo de guerra, esteja a chave para imagem de mulheres velhas, cansadas, as tais mulheres de Atenas que esperam seus maridos que foram à guerra. A realidade é guerra e é também por isso aparece na Prada uma silhueta que em alguns momentos nos remete aos anos 40, anos que sofreram com o crack da Bolsa de 1929 e pela Segunda Guerra Mundial. Não à toa a imagem de ringue ou a arena no final com as modelos todas paradas em tableau-vivant, pois afinal a Prada faz roupas para mulheres protagonistas, isto é, nesse caso, guerreiras!
miuccia-prada-2009

PS: Escrevi esse texto muito pensando em Cris Gabrielli da Oficina de Estilo e Estelinha sua filha que acabou de nascer.

VICKY CRISTINA BARCELONA OU TODAS AS MULHERES DO MUNDO

vicky-cristina-barcelona-3
Vicky
Um dos focos da moda feminina é sempre procurar entender a mulher e seus desejos e principalmente o que ela deseja e também deixá-la desejável, não no sentido sexual apenas, mas também para que seus desejos profissionais, amorosos e espirituais se realizem. Mas que mulher é essa que tanto se coloca no singular – como um arquétipo – que a moda tanto quer alcançar?
Mas o que isso tem a ver com o novo filme do Woody Allen, “Vicky Cristina Barcelona”?
O diretor consegue tripartir exatamente essa mulher – o seu arquétipo – em Vicky (Rebecca Hall), Cristina (Scarlett Johansson) e Maria Elena (Penélope Cruz). Essa cirurgia é bilhante pois estão aí todas as mulheres do mundo ou apenas , a mulher, assim como a socidade patriarcal a desenhou.
Vicky, a mulher que nega o desejo pelo bem estar social – a típica burguesa do século 19 – personagem dos romances realistas de Gustav Flaubert onde a traição a espreita o todo tempo, esse fruto proibido.
Cristina, a mulher que tenta se rebelar contra os dogmas – a típica burguesa pós anos 1960 – personagem dos filmes de Jean Luc Godard e Domingos de Oliveira onde a rebelião pode não lhe trazer a liberdade, mas com certeza a infelicidade.
Elas, Vicky e Cristina, são a mesma mulher, pois ambas procuram na relação amorosa, no homem, a sua felicidade. Colocam o amor e a paixão como ponto máximo de suas existências e para isso dependem do homem, do outro – no caso do filme de Woody Allen, o artista Juan Antonio (Javier Bardem). São Evas contemporâneas!
news_2509_user_15224
Cristina
Aí temos Maria Elena, que não aparece no título do filme, mas tão essencial pra construção dessa imagem de mulher quanto as outras duas. Ela está oculta como Lilith, a mulher primordial e primeira mulher de Adão – “aquela que se recusava a ficar por baixo durante as relações sexuais”. Como Lilith, ela trata em pé de igualdade todas as questões (sexuais, artísticas, amorosas) com Juan Antonio. Ela parte, ela o deixa, mas antes de tudo não podemos nos esquecer que estamos no reino do patriarcado, não à toa, o filme é todo contado por um narrador homem, é ele que faz a versão da história. Exatamente por isso ela volta, se envolve com essas Evas modernas e seu Adão e como serpente – Lilith, em muitos textos religiosos é lida também como a serpente do paraíso – envenena para uns ou contextualiza para outros a verdadeira relação que todos ali estavam vivendo.
Talvez isso explique porque estilistas mulheres como Miuccia Prada, Consuelo Castiglioni e Rei Kawakubo criem peças tão desinteressantes para o olhar masculino mas que fascinam muitas mulheres. Essas Liliths da moda nos enviam mensagens sobre o desejo e o que fazer com ele a cada coleção assim como a mensagem obscura que Maria Elena nos deixa nesse belo filme de Woody Allen.
vicky-cristina-barcelona-penelope-cruz
Lilith

Dois excelentes textos sobre o filme são de Nucool e Tati Rodrigues, vale muto lê-los mesmo!
Ah! ainda tem o Ricko com uma outra visão do filme e a Casa de Narcisa que fez uma versão hillary do título.

PERIQUITEX

00010m
Prada, ela acabou de fazer gostoso
Mesmo a Prada apresentando uma coleção pós coito para o verão 2009 invertendo a lógica da moda feminina onde as roupas para as mulheres são para seduzir – quer dizer roupa pré-coito -, ainda existem bons produtos no mercado dentro desse pensamento:
periquitex