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O SOL BRASILEIRO DO VERÃO 2009

Estava conversando recentemente com Fernanda da Oficina de Estilo sobre o que mais nos encantou no verão 2009. Os 5 tops, as listas de Nick Horby…
Ela fez a dela da Oficina , a minha é simples e curta:
Marcelo Sommer e Reinaldo Lourenço colocaram questões pertinentes à moda e à imagem de maneiras diferentes e complementares.
O estilista Reinaldo Lourenço focou numa visão microscópica da moda, entrou na arquitetura e principalmente no design trazendo as questões de desenho à frente – no caso, a porcelana e a roupa – para fazer relações da essência da moda, do que a moda é feita. Fez uma verdadeira maiêutica.

Reinaldo Lourenço verão 2009

Sommer para a sua marca Do Estilista fez a operação inversa, macroscópica e foi até o limite do conceito de moda, discutindo fantasia e figurino. De maneira corajosa ele foi até as fronteiras dessa discussão. Fez novas duanas.

Do Estilista verão 2009
Maria Bonita
fez o equilíbrio perfeito entre uma moda nacional e uma vontade internacional. Pescou do universo dos ribeirinhas o desenho minimalista, e pôs na mesma rede tudo o que é cool das passarelas daqui e de lá. Fez Cinema Novo.

Maria Bonita verão 2009
Lenny ventilou frescor novamente. A busca de novas formas, novas proporções, os plissados, tudo simbolizando a vida. Uma elegia à mulher e a uma moda que sempre é vista como menor. Fez arquitetura da vida.

Lenny verão 2009
Gloria Coelho sempre busca na história e na história da moda, uma nova história. Dessa vez – novamente – , toda a moda masculina se fez feminina. E deu pano pra manga. Fez voar.

Gloria Coelho verão 2009

A IMAGEM NO PODER: 40 ANOS DE MAIO DE 68

Acabei de receber a programação da Cinemateca Brasileira que pode provar inteiramente o que escrevi sobre o poder do cinema e da imagem produzida por ele na década de 60.  A Cinemateca e a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo apresentam a segunda parte da mostra 1968 NO CINEMA, que ocupa também o cinema da Galeria Olido entre os dias 3 a 8 de junho de 2008.

Os destaques incluem dois clássicos de Jean-Luc Godard (A chinesa, na Cinemateca, e One plus one – com os Rolling Stones -, na Galeria Olido) além de quatro filmes do cineasta brasileiro mais representativo do período, Glauber Rocha: 1968, Câncer (esse filme é super raro e tem Hélio Oiticica no elenco, vale muito!), História do Brasil e Terra em Transe.

Eu, com certeza, não perderia também Hitler III Mundo, Bla Bla Bla e Bandido da Luz Vermelha.
 

A CHINESA – incrivelmente pop, incrivelmente lúcido em uma época que todos eram chineses (estaremos vivendo um revisionismo)

 

 

O BANDIDO DA LUZ VERMELHA – jovem, insano, sem medo de ser brega e ultramoderno ao mesmo tempo agora.

 

TERRA EM TRANSE – já pelo fato de ser o filme que Zé Celso olhou para fazer “O Rei da Vela”, que Hélio e Lygia elegeram como uma das maiores contribuições para as artes plásticas, que Caetano sistematicamente elege como fundador do Tropicalismo, provando que o cinema era mesmo a lanterna de popa daquela geração. O extrato que coloco aqui é a parte final. O populista interpretado por José Lewgoy cede ao golpe de Estado de Porfírio Diaz (Paulo Autran maravilhoso!!!!) e o poeta (Jardel Filho) prefere se suicidar. Reparem que na posse de Porfírio, a leitura elevadíssima de Glauber sobre as chacretes ao fundo e também na linguagem clipada que anos depois seria reconhecida como mérito da MTV. 

 

 
Programação e sinopses:

03.06 | TERÇA
Galeria Olido
15h00 – O bandido da luz vermelha
17h00 – Meteorango Kid – Herói intergalático
19h30 – Hércules 56

04.06 | QUARTA
Sala Cinemateca / Petrobras
16h00 – 1968 + Câncer
18h00 – História do Brasil
21h00 – A chinesa

Galeria Olido
15h00 – Meteorango Kid – Herói intergalático
17h00 – Bla bla bla + Hitler III Mundo
19h30 – O Rei da Vela

05.06 | QUINTA
Sala Cinemateca / Petrobras
16h00 – A chinesa
18h00 – Universidade em crise + Desesperato
20h00 – Retomada

Galeria Olido
15h00 – Partner
17h00 – Fogo que não se apaga + Memória e história em utopia e barbárie
19h30 – Corações e mentes

 06.06 | SEXTA
Sala Cinemateca / Petrobras
17h00 – Amantes constantes
20h00 – A insustentável leveza do ser

Galeria Olido
15h00 – Bla bla bla + Hitler III Mundo
17h00 – O bandido da luz vermelha
19h30 – One plus one

07.06 | SÁBADO
Sala Cinemateca / Petrobras
16h00 – Os sonhadores
18h00 – A chinesa
20h00 – Amantes constantes

Galeria Olido
15h00 – Hércules 56
17h00 – One plus one
19h30 – Partner

08.06 | DOMINGO
Sala Cinemateca / Petrobras
16h00 – Terra em transe [exibição em 35mm]
18h00 – O dragão da maldade contra o santo guerreiro
20h00 – 1968 + Câncer

Galeria Olido
15h00 – Fogo que não se apaga + Memória e história em utopia e barbárie
17h00 – Corações e mentes

1968, de Glauber Rocha e Affonso Beato
Rio de Janeiro, 1968, 16mm, pb, 21’
Documentário inacabado que registra uma manifestação estudantil no Rio de Janeiro em 1968.

Amantes constantes (Les amants réguliers), de Philippe Garrel
França, 2005, 35mm, pb, 178’ | Legendas em português
Louis Garrel, Clotilde Hesme, Julien Lucas, Eric Rulliat
Um romance entre um poeta e uma escultora que se conheceram durante as manifestações de maio de 68. Vencedor dos prêmios de Melhor Direção e Melhor Fotografia no Festival de Veneza de 2005.

O bandido da luz vermelha, de Rogério Sganzerla
São Paulo, 1968, 35mm, pb, 92’ | Exibição em DVD
Paulo Villaça, Helena Ignez, José Marinho, Luiz Linhares
Clássico do cinema moderno brasileiro que toma como ponto de partida um caso policial de grande repercussão.

Bla bla bla, de Andrea Tonacci
São Paulo/Rio de Janeiro, 1968, 16mm, pb, 26’ | Exibição em DVD
Paulo Gracindo, Irma Alvarez, Nelson Xavier, Marcelo Pietsh França
Num momento de grave crise nacional, um ditador, confrontado na cidade e no campo por revoltas e guerrilha, faz um longo pronunciamento pela televisão buscando justificar seu programa de governo e obter uma paz ilusória.

Câncer, de Glauber Rocha
Brasil/ Itália, 1968-1972, 16mm, pb, 86’ | Exibição em DVD
Odete Lara, Hugo Carvana, Hélio Oiticica, Antonio Pitanga
Num dos mais radicais projetos do diretor, três personagens – um típico malandro carioca, o receptador de seus pequenos golpes e uma loura sensual – envolvem-se em situações cujo tema é a violência psicológica.

A chinesa (La chinoise), de Jean-Luc Godard
França, 1967, 16mm, cor, 96’ | Legendas em português
Jean-Pierre Léaud, Anne Wiazemsky, Juliet Berto, Lex De Bruijn
Um grupo de estudantes franceses de ideais maoístas discute a possibilidade de mudar o mundo através do terrorismo. Um retrato, com toques de pop-art, do movimento esquerdista francês um ano antes dos eventos de Maio de 68.

Corações e mentes (Hearts and minds), de Peter Davis
Estados Unidos, 1974, 35mm, cor, 112’ | Legendas em português
Documentário que marcou época ao trazer à tona as devastadoras conseqüências humanas da Guerra do Vietnã.

Desesperato, de Sérgio Bernardes Filho
Rio de Janeiro, 1968, 35mm, pb, 85’
Raul Cortez, Mariza Urban, Nelson Xavier, Mário Lago, Ferreira Gullar
Após pesquisar as “zonas negras do Terceiro Mundo”, escritor lança um livro sobre patriotismo e luta pela liberdade. Ao voltar pra casa, encontra uma estrutura arcaica que não pode mais suportar.

O dragão da maldade contra o santo guerreiro, de Glauber Rocha
Rio de Janeiro, 1969, 35mm, cor, 95’ | Exibição em 16mm
Othon Bastos, Mauricio do Valle, Odete Lara, Jofre Soares
Com ares tropicalistas, o filme retoma o personagem Antonio das Mortes, de Deus e o Diabo na Terra do Sol, contratado por um coronel para exterminar um bando de cangaceiros.

Fogo que não se apaga (Nicht löschbares feuer), de Harun Farocki
Alemanha, 1969, 16mm, pb, 25’ | Legendas em português | Exibição em DVD
Com escassos recursos, o diretor apresenta uma visão da Guerra do Vietnã que critica a abordagem sensacionalista da imprensa.

Hércules 56, de Silvio Da Rin
Rio de Janeiro, 2006, 35mm, cor/pb, 93’
Documentário sobre os presos políticos trocados pelo embaixador americano seqüestrado por revolucionários que lutavam contra a ditadura militar.

História do Brasil, de Glauber Rocha e Marcos Medeiros
Brasil/Itália, 1974, 35mm, pb, 166’
Revisão crítica da história do Brasil, por meio de uma montagem dialética de material recolhido nos arquivos e cinematecas de vários países.

Hitler III Mundo, de José Agrippino de Paula
São Paulo, 1968, 35mm, pb, 70’ I Exibição em DVD
Jô Soares, José Ramalho, Eugênio Kusnet, Túlio de Lemos
O nazismo toma conta da cidade: prisão e tortura de revolucionários, um samurai perdido no caos, amantes trancafiados, o ditador e sua corja de bárbaros conservadores.

A insustentável leveza do ser (The unbearable lightness of being), de Philip Kaufman
E.U.A., 1988, 35mm, cor, 171’ | Legendas em português
Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche, Lena Olin, Derek de Lint
Adaptação do best-seller de Milan Kundera sobre jovem cirurgião que é forçado a rever sua postura de alienação política ao envolver-se num triângulo amoroso, na cidade de Praga em 1968.

Memória e história em utopia e barbárie, de Silvio Tendler
Rio de Janeiro, 2005, vídeo digital, cor, 50’ | Exibição em DVD
Documentário que aborda e interpreta os cinqüenta anos que precederam o início do século XXI: o pós-Segunda Guerra Mundial, os movimentos de contra-cultura, as ditaduras militares na América Latina, a Guerra do Vietnã etc.

Meteorango Kid – Herói intergalático, de André Luiz de Oliveira
Salvador, 1969, 35mm, pb, 85’ | Exibição em DVD
Antonio Luiz Martins, Sonia Martins, José Wagner, Carlos Bastos
Com humor e escatologia, o filme apresenta o cotidiano de um revoltado universitário em busca de aventuras. Um ilustre exemplar da vertente baiana do cinema marginal.

One plus one (Idem), de Jean-Luc Godard
Inglaterra, 1968, 35mm, cor, 97’ | Legendas em português | Exibição em DVD
Mick Jagger, Keith Richards, Brian Jones, Bill Wyman, Charlie Watts
Uma série de vinhetas sobre a contracultura, os Panteras Negras, a mídia e a liberação das mulheres, intercaladas a imagens da banda Rolling Stones em estúdio, trabalhando na gravação de seu clássico álbum Beggars Banquet. Versão do diretor para o longa lançado com o título de Sympathy for the Devil.

Partner (Idem), de Bernardo Bertolucci
Itália, 1968, 35mm, cor, 105’ | Legendas em português | Exibição em DVD
Pierre Clémenti, Stefania Sandrelli, Tina Aumont, Sergio Tofano
Baseando-se livremente em O Duplo, de Dostoiévski, o filme conta a história de um estudante cuja existência solitária é abalada pelo aparecimento de um homem que o incentiva a ter um maior engajamento político.

O Rei da Vela, de José Celso Martinez Corrêa e Noilton Nunes
São Paulo/Rio de Janeiro, 1971-1982, 35mm, cor, 160’ | Exibição em DVD
Renato Borghi, Henrique Brieba, Esther Góes, Maria Alice Vergueiro
Registro da revolucionária montagem do Teatro Oficina para peça de Oswald de Andrade, acrescido de imagens externas filmadas posteriormente e cenas de arquivo retiradas de documentários e filmes familiares.

Retomada (Reprise), de Hervé Le Roux
França, 1996, 195’, 35mm, cor/pb | Legendas em espanhol | Exibição em Beta digital
A partir de um registro do final de uma greve numa fábrica na periferia de Paris, feito por dois estudantes de cinema em junho de 1968, este documentário busca reencontrar, quase 30 anos depois, uma operária que foi filmada em sua eloqüente recusa a retomar o trabalho.

Os sonhadores (The dreamers), de Bernardo Bertolucci
França/ Itália/ Inglaterra, 2003, 35mm, cor, 115’ | Legendas em português
Michael Pitt, Eva Green, Louis Garrel, Jean-Pierre Léaud
Em meio aos tumultos políticos de Paris em 1968, três estudantes se vêem envolvidos num triângulo amoroso marcado pela descoberta e pelo desejo de liberdade.

Terra em transe, de Glauber Rocha
Rio de Janeiro, 1967, 35mm, pb, 105’
Jardel Filho, Glauce Rocha, Paulo Autran, José Lewgoy
No país imaginário de Eldorado, em meio a uma disputa pelo poder, um poeta à beira da morte rememora sua participação em lutas políticas. Obra-prima de Glauber Rocha, o filme inaugurou um debate sobre o populismo no Brasil e foi o ponto de partida para o Tropicalismo.

Universidade em crise, de Renato Tapajós
São Paulo, 1965, 16mm, pb, 20’
Retrato de uma greve estudantil motivada por uma invasão policial ao conjunto residencial da USP.
 

Serviço:
ENTRADA FRANCA
CINEMATECA BRASILEIRA
Largo Senador Raul Cardoso, 207
Metrô Vila Mariana
Outras informações: 3512-6111 (ramal 215)
http://www.cinemateca.gov.br
GALERIA OLIDO
Av. São João, 473
Metrôs Anhangabaú / República
Outras informações: (11) 3331-8399

A IMAGINAÇÃO NO PODER: 40 ANOS DE MAIO DE 68

Um dos grandes orgulhos do povo de cinema é proclamar que Maio de 68 começou na realidade em fevereiro quando Henri Langlois, amado por quase todo mundo da 7ª arte (fato em si já bem raro!) foi demitido da presidência da Cinemateca Francesa pelo Ministro da Cultura, André Malraux, famoso escritor, uma espécie de Gilberto Gil do governo De Gaulle.

estudantes contra De Gaulle Estudantes X De Gaulle

O intelectual e pesquisador de cinema provocou uma série de protestos de estudantes, intelectuais e classe artística e acabaram ficcionados por Bernardo Bertolucci em seu filme “Os Sonhadores” (The Dreamers, 2003).

O poder nas ruas

Gosto de pensar nessa alegoria pois o cinema sim, na década de 1960 era A manifestação, A expressão mais antenada que o mundo dispunha. Não à toa que todo jovem tinha planos de fazer um filme na época.

Sim, muitos vão me perguntar, e a música? Diferentemente da música e igualmente à moda, o cinema tem a indústria, a reprodução/cópia em seu DNA, no seu específico. Realiza-se sempre em uma escala que o único, o precioso não se impõe (apesar da moda sofrer com o paradoxo da Alta Costura). O que se chama indústria fonográfica é a tentativa da música de acompanhar esse novo momento do Homem que o sempre citado e lido nas universidades Walter Benjamin chama de reprodutibilidade técnica. Outro fator, o cinema assistido na época e comentado era o que de mais moderno e avançado em termos de linguagem estava sendo feito, aliás o cinema fez um tour de force e avançou em menos de 100 anos o que as artes estavam discutindo durante mais de 3 mil anos. Os Cinemas Novos colocavam a discussão da imagem em pé de igualdade e logo “avant-garde” (desculpa o termo mas acho que posso usá-lo em se tratando de Maio de 68 ) em relação a qualquer outra arte visual. Já a música consumida era a pop, que tem os seus méritos mas estava longe da pesquisa de ponta que a música fazia com os pós-serialistas, concretos, aleatóriose eletrônicos. Não era Berio ou Boulez que era consumido e sim Beatles, nenhum problema, mas não era a informação nova de linguagem em música que estava sendo absorvida.

Voltando aos 24 quadros por segundo: Godard em 67 ao filmar “A Chinesa” já contava em imagens aquilo que iria se tornar realidade. Um grupo de jovens esquerdistas querem mudar o estado das coisas durante as férias. Eles alugam um apartamento, vivem em torno das palavras de ordem, tentam matar um líder político e no fim devolvem o apartamento e voltam para as suas vidas normalmente. Exatamente como aconteceu um ano depois.

A Chinesa”: premunição

Mas quando o evento ocorre no calor da hora, ele e seus amigos de Nouvelle: François Truffaut, Alais Resnais, Eric Rohmer, Claude Lelouch com o apoio de Monica Vitti, Milos Forman, Roman Polanski e Carlos Saura impedem a realização do Festival de Cannes que ocorria ao mesmo tempo que os estudantes estavam protestando na rua. As salas de projeções viraram foruns acaloradas. Romantismos à parte, para eles era inconcebível realizar um festival enquanto o mundo estava mudando.

Só coloco esse adendo pois lembrei de uma edição do SPFW que aconteceu durante ameaças de ataques do PCC e tirando o nosso fashionista trotkista Alcino Leite e sua companheira Nina Lemos, ninguém se manifestou em crítica sobre o absurdo que estava acontecendo na cidade. Como se moda e vida não tivessem nenhuma ligação! Aliás tento acreditar que hoje a moda é A manifestação, mas ainda no armário, pois nos falta auto-estima e sofremos de um complexo de inferioridade avassalador, basta ver como pagamos pau pros artistas plásticos, designer e arquitetos que ainda estão quando muito com idéias do século 20 e criando igualmente se nesse época vivessem.

A moda deve encontrar seu específico e não depender de outras artes como assim fez o cinema na década de 1960 que abandonou a literatura e o teatro para encontrar-se.

Apesar das muitas mudanças que Maio de 68 trouxe, a maior de todas, para o bem e para o mal, é o estrelato da subjetividade, prova maior que isso são os blogs e EU um exemplo.