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DUAS REFLEXÕES SOBRE PARIS E OS NOVOS TEMPOS

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Pensei em escrever sobre Paris, onde a questão que 2009 ia ser piriguete e que Jorge Wakabara via o sexo como uma saída para esses novos tempos das marcas de luxo foi a tônica dos desfiles. Além disso, não menos importante, apresentou-se na capital francesa o que foi chamado de “a nova modéstia” onde consumir tanto e ficar desejando e querendo muito foi reavaliado. Sempre achei que querer algo tudo bem, mas esse desejo promíscuo dos fashionistas (e mais ainda pelos aficcionados por design e tecnologia) sempre e toda hora por peças tão díspares e numa ascendência cada vez mais acelerada era algo muito falso e teatral tipo Escolinha do Professor Raimundo.
Para ser bem sincero não acho que esse desejar acelerado seja algo de gente insatisfeita, mas de uma infelicidade totalmente alienada com a vida. E isso não é de hoje nem desses novos tempos que penso assim.
Pois bem, como Alcino e Carol Vasone escreveram de lá com propriedade o que exatamente eu penso daqui, me questionei: Porque escrever outro texto com as mesmas idéias em palavras diferentes?
Aqui vai o link para o texto de Alcino Leite e aqui o link para o de Carol Vasone.
Boa leitura!

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GALLIANO E CIRNANSCK: O MESMO TEMA, REALIDADES TOTALMENTE DIFERENTES

Confesso que quando vi as imagens de John Galliano para o inverno 2009/2010, não pude deixar de pensar em Samuel Cirnansck. Os dois congelaram o imaginário que temos da Rússia, algo um pouco folclórico é verdade, para dar asas aos próprios devaneios.
Longe de falar em cópia, mesmo que se esse fosse o tom do post, eu estaria falando que Galliano copiou Cirnansck, o que acredito que não procede nem de um lado nem de outro.
Também longe de acusar o tal espírito do tempo que leva um nome bizarro para nós da língua portuguesa de Zeitgeist. O espírito do tempo está preocupado com contas a pagar ultimamente.
John Galliano é um estilista viajante, como o grande Paul Poiret, ele precisa do choque das culturas para que seu barroco resplandeça. Seja a Arábia para a Dior ou a Rússia pra grife que leva o seu nome, ele sempre viaja para fora.
Já Cirnansck sempre, e isso é mais claro em seus primeiros desfiles para o falecido Amni Hot Spot, viaja para dentro, para as suas raízes. Existe uma busca de identidade que passa pela nacional e pela pessoal que é uma de suas forças e ao mesmo tempo uma de suas fraquezas.
Como eu disse na época do desfile, nada mais brasileiro do que fazer nevar na passarela, me lembra muito o clássico do cinema nacional: “Bye-bye Brasil” que o Lorde Cigano (eeeeee Jana e Jorge!!!) interpretado por José Wilker faz nevar no sertão.
Enfim, Galliano e Samuel vivem realidades totalmente diferentes e só tendo em vista essa perspectiva é que podemos comparar – levianamente – os dois desfiles.


A Rússia de Galli e…


…de Samuca!

EU TENHO AMADO TANTO…

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essa dupla dinâmica!

Uma é dame e a outra vagabunda… Não tem combinação melhor!

BOCALOKA

Cada vez me interesso mais pela periferia dos desfiles e daquilo que é considerado Moda. Tenho achado a beleza e o styling mais inusitados, mais interessantes e mais supreendentes do que as próprias roupas e às vezes mais do que o próprio desfile. Não é o caso nem da Comme des Garçons nem do Alexander McQueen que fizeram inspiradas apresentações para o inverno 2009, mas essas bocas me deixaram louco!
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Comme des Garçons
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Alexander McQueen

BETH TEM DITTADO MODA

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Beth com o papai coruja da estilista Stella McCartney na primeira fila

Sou gorda, mas estou na moda parece nos dizer a todo instante a cantora Beth Ditto. Sua figura rotunda nas primiras filas dos desfiles de Paris é muito inspiradora contra uma certa ditadura da magreza que reina principalmente entre as mulheres.
Claro que o problema não é ser magra ou gorda, mas viver em plena insatisfação com o seu corpo o que no caso das mulheres é uma triste constante – talvez aí uma das chaves venenosas da Moda para criar desejos, já que o desejo é um sentimento que só existe pela ausência de algo.
Dentro do padrão certo e errado normativo de hoje, Beth estaria o errado, então é muito bom ver o erro nas primeiras filas super glamourosa, na capa da revista hype Love que acabou de ser lançada sendo proclamada como “ícone da nossa geração”.
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Ela emite sinais evidentes que a beleza, a moda e o mundo não estão voltados apenas para quem tem um corpo magro. Sem fazer oposição a essa imagem, ela parece gritar que a beleza está no que hoje chamamos de atitude muito mais no que no manequim 36.

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Com os amigos indo ver o desfile da Chanel

P.S.: Marco Sabino comprou a Love e conta aqui o que achou

ICE ICE CADA UM COM A SUA VELHICE


Louis Vuitton


Ronaldo Fraga

POR QUE TANTA SEMANA DE MODA NO MUNDO?

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Depois de conhecer a semana de moda de prêt-à-porter em Paris, voltei muito inquieto por constatar que a Moda – o sistema, a lógica e a realidade – pouco se encaixavam naquilo tudo que via. Temos uma sensação mentirosa – fruto da época que os desfiles de couture difundiam realmente o que deveria ser usado por todo mundo – que o que vemos em uma semana de moda realmente dialoga direto com a realidade de moda e que a influencia. Diálogo existe, mas em outra escala.
Hoje uma semana de moda tem mais um sentido publicitário de divulgar outros assuntos além-moda. E ela entrou no calendário cultural de diversas cidades – como existe semana de moda no mundo! – muito mais pelo caráter marqueteiro do que pela valorização da moda. Mesmo a moda ganhando um certo status cultural no mundo de hoje, ainda é vista como assunto de segundo ou terceiro escalão.
Claro que como disse o crítico literário Alcir Pécora para Alcino Leite: “A moda hoje é o que foi a música nos anos 60”. E pode parecer exagerado mas, no sentido publicitário, faz todo o sentido. O alcance que a moda tem de projeção de algo que está fora dela hoje foi o mesmo que a música pop teve nos anos 60. Então usa-se a moda para difundir objetos que estão em sua órbita como comportamento, design, luxo.
Enfim, o que quero dizer é que numa semana de moda existe muito pouca moda. Pareço cada dia entender melhor o que Mario Mendes um dia me disse que a moda realmente fazia todo o sentido nos desfiles de alta-costura.
Quando algo como a calça skinny ou o lenço palestino realmente ganham as ruas através da passarela – sim, o caso do lenço palestino é polêmico – parece que os estilistas marcaram um gol quase no fim do segundo tempo, mas no fundo foi a indústria que levemente se impôs. Talvez não seja à toa que uma estilista do porte de Clô Orozco diz hoje preferir ir no Premiere Vision – uma das mais importantes feiras de tecido do mundo – a assistir os desfiles da temporada.

PS: Exatamente por algumas dessas razões, a outra é de tentar historicizar minimamente uma marca que ainda durante esse mês e o outro escreverei no blog resenhas de coleções que desfilaram na SPFW. Quero me debruçar com mais prudência, sem o imediatismo do jornalismo e os holofotes de um espetáculo que a moda finge ser a atriz principal como fiz com um texto que muito prazer me deu, pois foi no solo do tempo e do passar do tempo que finalmente entendi a coleção de verão 2009 de Herchcovitch às portas de iniciar o seu inverno.