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A VELHICE

armani

Essa foto de Armani eu vi na Katylene e imediatamente pensei em Oscar Niemeyer que ao perguntarem pro fofo como era fazer 100 anos, ele na lata disse: “Uma merda!”
Como uma pessoa que preferiu a velhice ao sucídio, tenho sentido os aspectos negativos de ficar cada vez mais velho no sentido físico. Lembro bem de virar 2 ou 3 noites entre ir ao Satã, estudar pra prova de física, ir à aula, fazer natação, encontrar com os amigos e depois de tudo, nada como um soninho de 8 horas que estava tudo correto. Hoje é quase impossível virar a noite, apesar de sempre ir dormir tarde.
Também compreendo a frase de Niemeyer em um mundo que sofreu uma transformação profunda, que o respeito ancestral pelos mais velhos perdeu lugar para a glorificação da juventude – eterna. Ser jovem sempre é a questão. Nesse sentido, a moda só faz – com suas imagens sempre construídas sobre o aspecto da jovialidade dos adolescentes – confirmar essa mudanca de pensamento no mundo de hoje ou do mundo depois da Segunda Guerra: Não desejamos os velhos!

madonna-versace
Véia?!
Uma lembrança que me veio foi a campanha que Madonna fez para a Versace uns anos atrás que o comentário que os fashionistas mais fizeram foi que ela estava parecendo velha. Hello, a rainha do pop é cinquentenária!!!! Talvez por isso photoshoparam ela agora na Louis Vuitton.
Voltando à questão física na velhice, ela é marcante pois você sente na totalidade a força da palavra decrepitude. A luta contra essa velhice se dá em diversos níveis: plásticas, botox, exercícios físicos contra a osteoporose… Mas o que sinto ao ver os que são mais velhos que eu, são que “os que deixaram a vida lhe levar”, encararam a velhice com tranquilidade, não lutaram contra ela (isso não quer dizer desleixo nem a falta de intervenções estéticas, mas sempre muito mínimas, controladas), conseguiram envelhecer com dignidade e beleza. Penso em Fernanda Montenegro e Christine Yufon que – apesar de odiar termos politicamente corretos – estão mesmo na melhor idade.
E ao mesmo tempo penso na beleza de um desfle do Ronaldo Fraga e de Renée Gumiel e como a velhice pode ser apenas a merda que a gente deseja para os atores antes de entrar no palco!

A ORGANICIDADE NA CRIAÇÃO BRASILEIRA

Alguns teóricos gostam de apontar uma certa dificuldade da forma na arte feita no Brasil, seja nas artes plásticas, seja no cinema, ou na moda. Essa dificuldade muito advinda de uma situação de colonialismo cultural (ainda se usa esse termo?) e como conseqüência a expansão da cópia.

Em cinema, essa discussão, acredito, esteve muito avançada a ponto de Paulo Emílio Salles Gomes, já na década de 1960, admitir que a nossa dificuldade e nosso erro na hora de copiar é que nos dava uma certa identidade.

Mas o que me chama muito atenção ao meu olhar é uma certa dificuldade do rigor em função daquilo que chamo de organicidade da forma.

Em artes plásticas o exemplo é claro, o esforço da arte concreta ao exercício de uma forma rígida não conseguiu aqui o rigor que em outros lugares, logo vieram os neo-concretistas pedindo um certo relaxamento dos dogmas. O mesmo são as curvas de Niemeyer em relação a escola modernista européia de arquitetura.

Esse embate entre a lição do Ocidente, o racionalismo e uma certa organicidade na forma deixando até ela perto da imperfeição faz para mim um grande traço da criação brasileira em todas as áreas.

Acredito que não precisamos aval do estrangeiro, mas nesse caso, a Vogue Japão olhou para a criação no país da mesma maneira como eu acredito que ela é mais contundente e verdadeira.

Basta lembrar da quebra paradoxal da bossa nova , ou sua organicidade em relação tanto à cadência do jazz como do samba. E para falarmos do presente: Gisele com seu nariz e curvas é uma das provas vivas do que escrevo. 

MAMÃE FAZ 100 ANOS (OSCAR NIEMEYER)

Esse final de semana foi geriátrico, só se falou nele (e no Ryan Grace também), mas ele, nossa mamãe faz 100 anos, Oscar Niemeyer!

Tenho que assumir que já compartilhei de discursos contra o arquiteto, como “Brasília são só escritórios” ou “o Memorial da América Latina é seco”! Mas são só discursos.

Lembro que fui conhecer a capital federal já com mais de 20 anos e todo cheio de preconceito. Eu e outros alunos da ECA fomos selecionados para o Festival de Cinema de Brasília e como não tinha passagem e hospedagem pra todo mundo dividimos assim, os que ganharam hospedagem pagaram a viagem de ônibus e os que ficaram na casa de amigos ou parentes foram de avião pelo Festival.

Fui de ônibus com minha grande amiga Ana Cabeças. Lembro que era umas 9 da manhã quando o ônibus entra na cidade. Eu e Ana ficamos espantados, parecia o antigo Egito, monumental, belo, avassalador. A partir daí não tinha discurso certo. Oscar NinguémMalha tinha entrado no meu coração. Desse momento em diante foi como se eu entendesse ‘o monumento no planalto central do país”.

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O impacto emocional surgiu na Catedral, eu ainda comunista de fim de carreira, pensei como um ateu podia fazer um ato de fé tão transcendente como aquela construção onde os anjos sustentam todo o alicerce.

Enfim, minha admiração por Oscar vai além das obras, mas como seu signo invadiu tantos pensamentos e artes no Brasil.

No cinema além dos filmes do Cinema Novo feitos pelo susto de Brasília e o “Idade da Terra” que no delírio glauberiano se transforma numa cidade futurista e ao mesmo tempo no centro das civilizações da Antiguidade. Mas Oscar tem uma participação espetacular em “Conterrâneos Velhos de Guerra” de Vladimir Carvalho. Ele diz atrocidades e incoerências sobre um massacre que houve na época da construção da capital federal. Pede pra desligar a câmera, mas o som continua ligado e a cena é um impacto para quem assiste, pois todo o sectarismo, e ele é comunista histórico, tem uma razão que a lucidez não aprova. Mas dentro da linguagem do cinema, vivemos um grande momento e uma experiência que só Oscar nos faz passar ao assistir a esse filme.

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Na moda, ele vive sendo referência. Mas o grande momento é quando em um ato Vera Cruz, a poderosa marca Forum nos anos 90 resolve olhar para o Brasil e lançar as hoje históricas coleções inspiradas na cultura nacional, como o cinema e a arquitetura e claro Oscar estava presente. Tinha meias com os desenhos dele, eu bem me lembro. Foi uma reviravolta na época. Vale lembrar que a marca voltou ao tema Niemeyer recentemente, na coleção de inverno 2007, mas na minha opinião sem muito sucesso.

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Forum inverno 2007

Enfim, a mamãe está sempre presente, guiando e ajudando seus filhos. Parabéns pelo centenário!