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ALEK WEK E O MULTICULTURALISMO


Alek Wek é o símbolo da beleza negra, também é a chave para entendermos o que realmente significa multiculturalismo.

Escrevi para o Virgula, no dia do suposto aniversário da top model. Dá uma olhada!

CABELO CABELÊRA

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Louis Vuitton verão 2010

Sem dúvida, a presença de Obama na presidência dos Estados Unidos foi o maior acontecimento imagético dessa década. Já escrevi aqui sobre a força do black power e sente-se uma mudança de mentalidade positiva em relação aos negros nesses últimos anos, acentuada pela presença icônica da família Obama na Casa Branca sim. Mesmo que de forma lenta, progride-se em relação aos negros e o mundo editorial, aquele mesmo que prega que preto (não a cor) na capa não vende. Podemos perceber mais negros nas folhas das revistas de moda ultimamente, talvez modismo, talvez não…
Mas mesmo assim, uma espécie de mitologia do cabelo ruim cerca ainda os negros. Tenho amigas negras que ficam o dia inteiro no cabeleireiro toda semana, quase como um ritual.
Um comediante politizado e preocupado com as questões raciais como Chris Rock (o autor da série “Everybody Hates Chris” – “Todos Mundo Odeiam o Chris”) se sentiu intrigado quando sua filha Lola, quase chorando perguntou: “Como eu faço pra ter um cabelo bom?”
A partir daí, ele resolveu investigar a raiz desse problema na cultura negra, indo parar até na Índia no documentário “Good Hair”. Só esse mote torna o filme importante pra todos nós que temos algum interesse em beleza, a área da moda dedicada ao cabelo e a maquiagem. Mas encerrar por aqui seria redutor, acho-intuo que o filme pode nos dizer muito sobre nossos próprios preconceitos.

O BLACK POWER

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O Black Power nasce nas veias dos anos 60 para correr por toda a corrente sanguínea que não via diferença entre brancos e pretos. Era a vez de dar um basta às humilhações que os negros sofriam nos Estados Unidos (aquele lance de sentar no fundo dos ônibus, bebedouros separados…) e clamar por direitos civis. É poder negro!
Dizem (blog é uma delícia por isso, podemos falar dizem) que a expressão “Black Power” foi criada por Stokely Carmichael, militante radical do movimento negro nos Estados Unidos, após sua vigésima sétima detenção em 1966. “Estamos gritando liberdade há seis anos. O que vamos começar a dizer agora é poder negro”, anunciou.
Hoje Obama está no poder, e se os negros não estão em uma posição ideal ainda na sociedade, não podemos negar que sua força de mobilização fez com que seus direitos avançassem, entre erros e acertos.
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pra mim um acerto, talvez uma das maiores imagens de uma Olímpiada, pra outros um erro, reverenciar um grupo como os Panteras Negras

Mas o que mais interessa agora é discutir sobre o valor simbólico do cabelo dos negros. Por um mimetismo, durante anos, nas décadas antes de Martin Lither King, eles fizeram da chapinha uma lei, e o chamado cabelo Black Power veio como um grito de liberdade e de possibilidades. A atriz Zezé Motta conta que quando viajou a primeira vez para os Estados Unidos e viu os negros americanos com sua cabeleira solta, ela imediatamente voltou pro hotel e enfiou o cabelo debaixo d’água pra tirar a chapinha. É inegável o acontecimento do cabelo black power e seu efeito no orgulho em ser negro.

Um orgulho que mesmo com a tal “teoria” do técnico João Saldanha, não intimidou um craque como o jogador Paulo César Caju, que ganhou esse apelido por pintar o cabelo black power de “acaju”. O nosso pré-David Beckham esbanjava estilo e vestia calça “boca-de-sino” quando ninguém ousava usar.
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Esse orgulho da raça pelo cabelo é um movimento importante, pois inverte-se a lógica do “cabelo ruim”. Quer dizer, é um estilo de cabelo que teve um valor simbólico – e ainda tem, por mais fashionices que queiramos colocar para esvaziar o seu discurso – até porque a revolução que os negros fizeram na sociedade americana também aconteceu pelo cabelo, em suas raízes.
Já disse que esteticamente acho um estilo de cabelo incrível e hoje os negros tem a liberdade de fazer com o cabelo o que bem entender. Power aos blacks!

PS; Esse é o link para a matéria interessante de Camilo Rocha sobre a Woodstock negra.

COTAS

A princípio eu sou contra as cotas pra qualquer minoria e de qualquer forma, acho elas redutoras, mas o efeito que elas podem provocar em um primeiro momento em um terreno como a moda, isso é, racista só pode ser saudável.
A notícia que “o São Paulo Fashion Week anunciou a assinatura de um termo de compromisso com o Ministério Público do Estado de São Paulo, em que se compromete a sugerir que as grifes integrantes do calendário paulista tenham uma cota mínima de 10% de modelos negros em seus desfiles” pode gerar alguma mudança na atual passarela branca que vivemos.Vai forçar os estilistas, os stylists e as agências a pensar nos negros como possibilidade de beleza um pouco maior do eles eles acreditam pensar hoje.
Sim, eu sei que nas edições de verão os negros são um pouco mais bookados para os desfiles de moda praia. Sim, eu sei que é apenas um sugestão do evento “forçado” por uma posição de um jornal importante, não me iludo, mas essa atitude sinaliza algo positivo sim.
Lembro muitos dos ensinamentos da filósofa e cientista social Hannah Arendt que estudou muito as formas de totalitarismo, pois um dos choques na época da 2ª Guerra era entender porque uma nação inteira se transformou em “nazista”. O que se constatou era que o silêncio, a omissão e a falta de posicionamento, assim como a alienação foram as causas maiores dessa atrocidade que aconteceu na segunda metade do século 20.
Se perguntarmos a cada stylist, a cada estilsita, a cada editor de moda, produtor, bookers, fashionistas enfim ninguém – com raras exceções – se posicionará como uma pessoa racista, aliás pelo contrário, achará isso uma bárbarie e contra esse estado de coisas na moda. Mas é exatamente o silêncio, a omissão, a falta de posicionamento, a alienação dessas mesmas pessoas em relação ao assunto (“ai, já deu; é old fashion!”) é que dá força para a continuidade de um preconceito velado – e nefasto – em todo o sistema de moda.
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PS: De certa forma me sinto orgulhoso de ter participado da equipe da Folha de São Paulo que de certa forma pressionou em edições e temporadas sucessivas fazendo a contagem de negros na passarela (“ai, já deu; é old fashion!”). Eva Joory, aquela loucura de contar os negros não foi em vão e você foi a melhor na contagem. Alcino, meus parabéns! Podemos achar que é um pequeno passo, mas é um passo!