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AVAFANDO=ABRAVANANDO COM AS ARTES PLÁSTICAS E COM A MODA

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Fábio Gurjão realizou sua performance-ação-desfile-ação comercial na última terça, dia 2 de dezembro, abrindo os trabalhos da a.v.a.f. [assume vivid astro focus] que desta vez vem com o nome Axé Vatapá Alegria Feijão e encerra em clima de grande festa com direito a trio elétrico sua intervenção na Bienal do Pixo no sábado, dia 6 de dezembro.
A princípio, o evento aconteceria no andar do vazio, mas acredito que por problemas técnicos + ideológicos, eles preferiram deixar o segundo andar para o autoritarismo da arte contemporânea de vassalagem. Pois bem, foi tudo no térreo mesmo e o clima era de galpão de Escola de Samba.
Enquanto sua ação era realizada ao passar do tempo (das 19 às 22 horas) – não se esqueça que além do desfile tem a ação dos fotógrafos, trilha e araras para a compra das roupas ali mesmo -, um carro alegórico era preparado por Eli Sudbrack, Silvia e equipe, a cantora Cibele Cavalli que virou Kivelle Bastos, a persona abravanada estava realizando ali uma mandiga-instalação e o talentoso Ed Inagaki, que montou seu Ateliê Abstração na paralela da ação de Fábio e sua FKawallys, mostrou uma camiseta com capuz que ele chamou de fantasmando e que também nos remete ao uniforme dos presidiários e/ou guerrilheiros – muito oportuno para esse momento portas fechadas da arte contemporânea de vassalagem ou aos fantasmas que rondam o andar do vazio.
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Buuuu Bienal
Já na entrada, um clima diferente daquilo que Denis Rodriguez também desenhou e era tão verdadeiro durante os dias de Bienal que antecederam a chegada dos avafanados=abravanados: a opressão dos seguranças [acredito que para combinar com o andar vazio e o autoritarismo de seus curadores].
O ar estava mais leve entre os seguranças e alguns até queriam se enturmar com os abravanados. Eles nem revistaram minha mochila…
Ao chegar, muita gente tirando fotos, e Fábio já nos mostrou a cadeira Fila A e cadeira de Imprensa pra gente sentar na passarela. Quer iconoclastia melhor que essa?
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Nossa, essa roupa é uó! Pena que esqueci meu bloquinho…
As coisas corriam soltas, algumas pessoas compravam as roupas na arara, outras cantavam as músicas do rádio, outras ficavam paisageando, Bianca Exótica fazia amizade com os bombeiros…
E foi assim, sem nenhum alvoroço, numa relax, numa tranquila e numa boa que Fábio Gurjão anarquizou com o mundo das artes plásticas e da moda.
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Ao vender as suas camisetas dentro de um espaço de arte, ele evidencia o jogo do comércio disfarçado em simulacros de “arte” feito pelas galerias, museus e bienais. A questão grife é tão mais importante na arte contemporânea de vassalagem que na moda. Afinal um Jeff Koons vale mais que um Marc Jacobs, não?
Existe um valor para aquilo que não tem valor – o espiritual da arte? Por isso seu preço será sempre alto conforme não o seu valor artístico mas seu valor de mercado – em contraposição a isso, as camisetas de artista de FKawallys eram baratíssimas, tudo 30 reais.
Sem falar da ocupação de um lugar sagrado das artes com um desfile de moda – considerado até pelos próprios críticos de moda (?) algo menor que a suprema arte.
Para a moda, ele trouxe orgulho e auto-estima. Não existe terreno mais almejado por jornalistas de moda, estilistas, stylists que o terreno das artes plásticas. Muito pelo valor [falso] e o status [de novo-richismo]que hoje as artes plásticas ganharam. Talvez porque lá o valor da grife [no caso o nome do artista] foi criada de maneira tão escondida e dissimulada que consegue iludir que estamos no terreno do espiritual e não do mercado.
FKawallys está fora dessa etiqueta e dessa lógica canhestra. Em nenhum momento ela se acredita menor que as artes plásticas, não procura como a maioria dos fashionistas aliar-se às artes para ganhar status, esse ISO de ignorância.
Se trabalha dialogando com as artes plásticas é em pé de igualdade. Ele não se acha inferior por fazer moda e muito menos por realizar camisetas [infelizmente considerada carne de segunda na moda].
Ao porpor um desfile em plena Bienal, ele sabe que aquele pode ser um de seus espaços, não o único. E ao vender seu produto que é o mesmo que está sendo desfilado tudo ao mesmo tempo agora ele critica a lógica da chamada imagem de moda tão difundida entre os fashionistas. Essa lógica: a grande parte das vezes o que se desfila não é o que se produz. Cria-se uma imagem falsa da marca, pois na loja temos, em geral, aquilo que é do mais comercial [de alguma forma ele dialoga com o excelente desfile Do Estilista para o verão 2009].
Agora o mais importante, ao fazer essa performance-ação-desfile-ação comercial que outros “artistas” também se acoplam, onde todos, público, visitantes, compradores, funcionários da bienal podem participar [ atentando ao detalhe que a Bienal é de graça], enfim, ali se realiza uma ação de inserção e inclusão. Ao final ele obtém uma obra verdadeiramente duchampiana onde todos que participam são artistas e estilistas ou melhor, vivem a arte como o mestre da roda de bicicleta sempre almejou!
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PS1: E o melhor, disse Fábio Gurjão o tempo todo como autor [não que ele não tenha participação decisiva] no texto por conformismo da linguagem que precisa nominar, mas sinceramente as fronteiras se romperam pois eu não sei se foi a a.v.a.f. , os abravanados, quem apareceu por lá para criar isso tudo que aconteceu no dia 2 de dezembro. Enfim, na realidade foi uma confluência de idéias e desejos!

UMA COISA OLIVEROS

Todos sabem do meu mau humor com a tal arte contemporânea, mas essa artista eu respeito e muito: Regina Silveira.

Ela abre hoje, terça, 13, no MAM de São Paulo uma coisa bem Oliveros, tipo arte e moda. Deve ser bem interessante, quem for me conta!

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COLUNA DUS*****INFERNUS NO BLOGVIEW

Continuando a discussão se moda é arte e fazendo certos desdobramentos, escrevo sobre o complexo de inferioridade da moda.

Vai lá no Blogview e entenda que complexo é esse?

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MODA É ARTE? A CONSULTORA MARIANA ROCHA AQUECE A DISCUSSÃO

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Mariana Rocha é professora, consultora e crítica de moda, além de estilista. Foi com bastante satisfação que recebi esse e-mail. Ela pede para mostrar para o Oliveros, mas resolvi compartilhar com todos aqui no blog, dada a excelência do pensamento e das observações dela. Enriquece muito a discussão sobre moda e arte e moda é arte. Ou não.

Abaixo o texto de Mariana Rocha na íntegra:

“A partir das colunas de Biti Averbach, dos comentários de Vitor Ângelo e da coluna do Oliveros.

Defendo o ponto de vista do Oliveros quando diz que moda não é arte. Com isso ele não quer subestimar a importância da moda, mas fortalecer uma manifestação nova, que ainda está se estruturando. Concordo plenamente com Vitor Ângelo no que diz respeito ao desfile de Jum Nakao e ao valor artístico de certos trabalhos. Entendo também a paixão que envolve essa discussão e acredito que a reflexão é fundamental para a evolução de uma linguagem que cresce em importância e significação na nossa sociedade. Mas a verdade é que se moda é ou não é arte, tanto faz.

Cercada por preconceitos, formação precária e más intenções, a moda, querendo ou não, transforma e influencia a vida contemporânea. Além de vestir, abrigar, resolver, enfeitar, expressar, esconder, seduzir, problematizar, excluir, integrar, negar, postular, significar, classificar, etc. e tal, quando a moda é boa , pode, por vezes, até se aproximar da arte. Mas ela é boa na medida em que se apropria e domina seu universo próprio, seu repertório particular e afirma o que tem de único. Nesses momentos, de muita técnica e domínio criativo, é possível haver uma reação parecida ao que se experimenta ao ver um trabalho artístico.

No caso do desfile de Jum Nakao, o debate está aberto. A moda, por definição, está vinculada à adesão da coletividade e tem que ter uma repercussão. O desfile de Jum Nakao tocou a moda, se utilizou de elementos da moda e usou o altar da moda para discuti-la. Contestou-a criticando sua fragilidade e efemeridade – utilizando-se do papel, matéria frágil, logo destruída pelas mãos das modelos robôs-bonecas, representando a massificação – e, ao mesmo tempo, exaltou-a, servindo-se lindamente de seus elementos constitutivos tradicionais, tais como a silhueta histórica, a decoração de superfície, a mão de obra artesanal e o formato desfile. Mas não fez, exatamente, moda. Nem por isso foi inadequada sua apresentação. Pelo contrário, foi divisora de águas. Desde aquele momento, houve uma consciência coletiva de onde estávamos nos metendo.

A Moda não só revela, mas constrói a sua própria época. Não é apenas o reflexo de uma sociedade, mas um fator constitutivo da mesma. Walter Benjamin, numa de suas análises da moda, a compara aos museus de cera, onde as imagens são tão impressionantes que são como aparições, reveladoras das entranhas do que é humano.“Na moda, o traje, a aparência externa é representação das ‘entranhas’. Enquanto fenômeno (aparição), a moda mostra o que está dentro. Essa consideração significa conferir uma outra importância à aparência: ela não é aparência que se opõe à essência, mas é aparição, aquilo que se mostra, num jogo entre o que aparece e o que se ausenta: ‘a expressão do inconsciente de uma época'”¹.

Quando Vitor trata dos conceitos de arte em Joyce, cita o desejo, comparando-o à pornografia, como algo inferior. Para Benjamin a moda é o desejo daquilo que não é. É fetiche, o que nunca se satisfaz. Quem sabe então a moda mais verdadeira não seja aquela que nunca se satisfaz? A que possui aquele “algo mais” citado por Vitor, que nos encanta e também nos aprisiona?

Inspirador de Benjamin, Baudelaire tem uma visão da moda ainda mais positiva: “ …aproximação qualquer de um ideal cujo desejo faz cócegas sem cessar no espírito humano não satisfeito”. Ela usa artifícios para colocar o belo acima da fragilidade da vida, da decadência das coisas.”

Agora, se é arte ou não é arte, tanto faz. Classificar coisas não é mais tarefa para o nosso tempo.

Mariana”

1)Todas as citações estão contidas no excelente ensaio “Mercadoria e moda: o fetiche e seu ritual de adoração”, de Sonia Campaner Miguel Ferrari. O livro é Leituras de Walter Benjamin, organizado por Márcio Seligmann-Silva, uma publicação da Fapesp infelizmente esgotada.

A MODA PODE SER ARTE, APESAR DE NÃO PRECISAR

O Ricardo Oliveros a partir de um post meu e de um texto da Biti sobre uma excelente entrevista com o poeta concreto Décio Pignatari levantou a questão e já respondeu: a moda não é arte.

Se ele está falando das 6 belas artes que consiste em Música, Dança, Pintura, Escultura, Poesia (Literatura) e Teatro realmente a moda não se encaixa.

E muito menos nas noções medievais e as chamadas artes liberais, que se dividiam em Trívio (Gramática, Retórica e Dialética) e Quatrívio (Aritmética, Geometria, Astronomia e Música).

Como divido apartamento com o Ricardo, perguntei a ele que arte ele estava se referindo e ele me respondeu que eram as Artes Plásticas.

Acho estranho ela ser chamada de Arte (nos Estados Unidos pelo menos eles falam Visual Art), mas entendo a megalomania dessa manifestação. A chave está em seu grande projeto de início revolucionário nas décadas de 1950 e 1960 em que ela salta verdadeiramente do quadro e escapa da escultura para procurar seu lugar em outros padrões. Daí as performances, as instalações, os objetos, a vídeo-arte e as inúmeras demais conjunções com as outras artes. A essência de uma boa parte da arte contemporânea e, com certeza, o discurso dominante dela hoje passa por essa bula.

Dentro desse receituário, as Artes Plásticas podem sim retirar fundamentos da moda para a construção de seu conceito. Mas está muito correto o Ricardo em dizer que Moda não é Arte(s) Plásticas, nem nunca será. Até porque (e isso desenvolverei melhor na minha coluna no Blogview) é a Arte(s) Plásticas (hoje personificada na figura dos galeristas, curadores e por fim artistas) que decide o que é Arte ou não. E se algo da Moda virar Arte(s) Plásticas na concepção demiúrgica desse triptico, ela deixa de ser Moda e vira Arte.

Posto isso, temos que pensar que a Moda, uma manifestação típica da passagem da Idade Média para a Idade Moderna traz em seu específico uma capacidade híbrida de multiplicação. Híbrida porque, mesmo sendo em princípio um produto artesanal tem no molde (a gravura sem numeração da Moda) o seu desdobramento serial.Ao lado das manifestações modernas como o Cinema, a Fotografia, o Design, ela tem em seu DNA a capacidade de reprodutibilidade técnica.

Isso por muito tempo fez com que essas manifestações fossem desconsideradas artísticas porque na visão tradicional da arte o objeto deve ser único e perene.

Com o advento da subjetividade e sua força cada vez maior nos séculos 19 e 20, a quebra de hierarquias no conceito de arte e o deslocamento da importância do objeto em si para a importância da conjunção Integridade, harmonia e radiância para qualquer tipo de manifestação, a chamada Arte (manifestação estética do espírito) pode encontrar seus ecos em outras áreas além das 6 belas artes.

 No começo do século 20, quando as imagens cinematográficas produziam proezas estéticas, era um absurdo pensar que o Cinema era Arte e hoje todos o conclamam como a sétima arte.

E talvez assim será com a Moda. Ela pode sim alcançar momentos de grandes manifestações artísticas, mas ela é livre e não precisa dessa grife para achar sua plenitude  

E nesse ponto eu concordo plenamente com o Oliveros. legonaholanda_f_005.jpg Lego encontrado em uma praia da Holanda

Se for de um artista (plástico), é arte

Se for de um “qualquer”, é apenas uma brincadeira

E se for de um estilista?