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ANTONIONI E VERUSCHKA

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É, eu sei que estou meio batendo na mesma tecla, ultimamente só falo de modelos. Não sei se foi um encantamento que me tomou quando fiquei pensando em Marina Dias, Geanine Marques e Luciana Curtis por dias. Não sei se foi uma propaganda subliminar que a exposição sobre as modelos no MET, em Nova York, invadiu essa mente que resiste mas, no fundo, é colonizada sim. Ou mesmo porque é melhor ver a beleza do que os assuntos de hoje na moda que estão pra lá de Marrakesh. Ou será Dubai?
De qualquer forma, amo Veruschka, assim como Jorge Ben e Michelangelo Antonioni a amaram.
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Além da clássica foto da modelo de saharienne, eu adoro ela nos tetos de Roma para Valentino (pena não achar essa foto no Google!). Adoro sua inteligiencia imagética a ponto dela mesma criar seus auto-retratos.
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Mas pra mim o ponto alto é a relação dela com Antonioni. O cineasta italiano a convidou para participar de “Blow Up” e a sua cena é uma das mais belas relações eróticas da história da imagem.

MAIS QUE UM MINUTO DE SILÊNCIO

Hoje estou de luto, ou melhor em silêncio, pois é a melhor maneira de homenagear dois grandes mestres da imagem. A morte dos cineastas Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni foi uma pausa nesse mundo cada vez mais barulhento e que utiliza os milhões de ruídos para escamotear o vazio.

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Michelangelo Antonioni

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Ingmar Bergman

Bergman, eu costumava relacioná-lo com a máscara da tragédia do teatro grego enquanto Fellini seria a da comédia. Com seus closes impressionantes queria penetrar na alma de suas personagens.

Eles (Bergman, Fellini e Antonioni entre muito poucos outros) trabalharam para elevar o cinema ao status de arte, de grande arte e não falharam na missão. Mesmo hoje com nós vivenciando de tão longe as concepções de imagens que criaram e tão perto a banalidade das visualidades pueris, eles continuam como faróis de uma civilização das imagens a serem alcançadas.

Tenho que confessar uma grande paixão pelo cineasta italiano. Lembro como se fosse hoje (e olha que minha memória é péssima!) o primeiro filme que assisti dele: “A Noite”. Um choque estético!

A elegância e o requinte de Jeanne Moreau e Marcello Mastroianni na visita ao hospital demonstrava através dos espaços e ângulos que algo não estava bem. Ele sim, como Balenciaga, um grande arquiteto de seu meio.

Mas além do espaço, ele utilizava a relação espaço-tempo para mostrar o estado das psiques de seus personagens. A deambulação, que é como em cinema se fala para uma personagem que anda durante uma cena, vinha carregada daquilo que depois ficou conhecido como tempo-morto.

O tempo-morto, algo cada vez mais raro no cinema e feito ultimamente com muito maneirismo, é o oposto do frenesi que queremos que nossas vidas andem. Mas o andar de Jeanne Moreau pelos terrenos baldios, pelas ruas, e pelas pessoas consegue transmitir que aquela relação está convalescente sem que uma palavra a respeito seja dito. O tempo-morto constrói essa sensação nos nossos olhos.

Fora essa cena memorável, uma construção de imagem de altíssimo nível, ele também questiona as imagens das personagens de seus filmes. Burgueses, as personagens de Moreau e Mastroianni também são intelectuais e ao fim do filme, quando tudo parece estar perdido, ela lê uma carta de amor para ele. Ele escuta em um tom meio de zombaria, tudo de uma sutilidade e elegância assustadoras.

Ao final da carta ele pergunta: Quem escreveu isso? E ela responde: Você!

A imagem que ele faz dele hoje não correspondia ao amor que ele sentia por ela no passado: um laço se rompeu e surgiu a grande incomunicabilidade entre o casal. Isso o deixa em desespero, isso abre uma nova chance entre eles. Ou não, como diria Caetano!

 

Infelizmente não achei nenhum dos trechos que mencionei, mas tem a elegância de Moreau e Mastroianni

 

Enfim, esse é um dos inúmeros exemplos de como ele trabalha a imagem. Desde o perfeccionismo de pintar a grama no filme “Deserto Vermelho” para que ela pareça mais verde até o grande final de “Passageiro:Profissão Repórter” com o mais impactante plano-sequência da história do cinema.

Tudo isso não está longe do universo da moda, já que também trabalhamos com a construção de imagens. Com certeza as de Antonioni são inspiradoras.

Fora isso, ele realizou na minha opinião o filme mais fashion em todos os sentidos: “Blow Up, Depois Daquele Beijo”. Se passa na Swinging London dos 60, com looks incríveis da década e conta a história de um fotógrafo de moda que na hora que revela as fotos que fez em um parque acredita ter fotografado um assassinato. O filme gira em torno se isso aconteceu mesmo ou foi apenas uma imagem manipulada. Uma metáfora forte e importante sobre a imagem, incluindo a de moda.

E o final é maravilhoso!

Alexandra Farah, você deveria incluir, se der tempo, no seu FilmeFashion.

 

Que delícia: todos os anos 60 em Blow Up

 

Bom, deixa eu voltar ao meu silêncio!