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CASA DE CRIADORES: A POESIA DAS GÊMEAS

Era para ser no heliponto, a chuva e o frio impediram que a locação do desfile fosse sobre os tetos da cidade. Era para ser às 20h30, a mudança para a passarela fez com que os fashionistas esperassem além da conta. Tudo isso poderia ter ajudado a detonar o humor do público mas quando vimos a poesia injetada nas roupas já nos primeiros looks esquecemos toda e qualquer adversidade, como aqueles percursos selvagens e inóspitos que nos levam à cachoeira, como ler com certa dificuldade aqueles poetas como Rilke ou T. S. Elliot que quando compreendemos tudo na vida ganha um outro sentido.
Mas a coleção das Gêmeas para o verão 2009 não apresentou nada de inóspito, foi pura poesia como Fernando Pessoa ou Carlos Drummond, ou melhor, como Hilda Hilst e Cora Coralina. Exemplos de mulheres com imensa personalidade, fortes, escrevendo em uma época que o sexo feminino ainda estava alojado dentro dos afazeres domésticos. Assim como a Gêmeas que de certa forma sempre renegaram a moda para “mulherzinha”, leia-se o romantismo radical fashion que é um dos símbolos da moda nos anos 2000 e que agora parece finalmente entrar lentamente em declínio.

O contraste entre o babador (simbolo doméstico e feminino) e a calça (símbolo do trabalho fora de casa e masculino)

A imagem da criação da marca nunca foi para mulherzinhas, ela questiona gêneros sem perder a feminilidade jamais. Feminilidade não significa ingenuidade nem romantismo como alguns arquétipos podem indicar. Ao liberar-se a mulher ganha outro status. Ela se transforma em alguém independente, capaz de ler seus próprios livros e se impor intelectualmente, não precisando do sexo como arma na guerra dos sexos.

homem feminino!
Apesar do chamado masculino-feminino, um dos DNA das Gêmeas, estar presente mais claramente nos looks masculinos, ele também se impõe no feminino mas de outra forma. O masculino-femnino sai de maneira mais óbvia das roupas e parte para atitude intelectual do desfile, ganhanho caráter transcendental, assim como deve ser sempre uma boa poesia.

Poéticos abotoamentos!!!

11 DE SETEMBRO & MARC JACOBS

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Não há dúvidas, assim como a Queda de Roma ou a Revolução Francesa, o 11 de Setembro é um divisor da História do Homem. Em um istmo aquilo que era realidade virou reality show e o mundo nunca mais foi o mesmo.

Em 10 de setembro, um dia antes dos atentados às Torres Gêmeas, o estilista americano Marc Jacobs apresentava na semana de moda de Nova York sua coleção para a primavera-verão 2002.

Na Moda, o primeiro look muitas vezes é a síntese das imagens que o estilista criou para a sua coleção. No seu caso, ele abria com um terninho. Segue-se um desfile com muitas calças de alfaiataria, alguns casacos de corte militar. Tudo entremeado por vestidos acinturados e coloridos. Dois deles em patchworks e que remetiam ao chamado multiculturalismo.

Jacobs apontava para um verão colorido, com referência aos anos 60. E com dois fortes apelos: o masculino-feminino e o romantismo. Como no conto de Borges, “O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam”, existia duas estradas e a moda preferiu se apegar ao percurso ligado ao romantismo logo de cara. Apesar do desfile de verão 2002 do estilista americano não apontar primordialmente para isso, Jacobs acaba se tornando uma das linhas mestre desse novo romantismo na moda, logo apontado de escapista perante a realidade do mundo. Mas é no romantismo também que as emoções (todas – boas e ruins) podem ser vivenciadas em sua plenitude. E parece ser uma atitude plausível diante o estado de perplexidade que se instalou.

terninho.jpg masculino-feminino no verão 2002 de Marc Jacobs 

vestido-etnico.jpg romantismo no verão 2002 de Marc Jacobs

E a partir de então assistimos a enxurrada de vestidos românticos, florais e étnicos que inundaram a passarela e só agora perdem um pouco a força para o chamado masculino-feminino, exatamente o outro caminho que foi excluído em um primeiro momento. Essa tendência entre outras coisas, indica a volta de uma mulher forte, igualitária e parece estar de acordo com esse nosso segundo momento pós-11 de Setembro.

Em um desfile síntese de vontades fashion, Marc Jacobs, um dia antes dos atentados de 11 de Setembro, não sabia qual a direção a Moda poderia tomar, mas com certeza, era um caminho imprevisível como um dia foi aviões se chocando em prédios.