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E DO ESTILISTA?

Muita gente deve estar se perguntando o que aconteceu com o desfile da marca Do Estilista que aparecia no line up no primeiro dia do SPFW para o verão 2010 e depois sumiu. Mas ficou um burburinho que iria rolar alguma coisa e tal. Pois bem, notícia quente, porque dizer que isso é furo é grande bobagem é a seguinte:
Do Estilista se apresenta no domingo, às 15 horas, em um contêiner. Vai ser uma micro coleção apresentada pela banda Stop Play Moon dos mais que fashion Paulo Bega, Ricardo Athayde e Geanine Marques com um plus da musa de Marcelo Sommer, Luciana Curtis, que aparecerá também cantando com eles duas músicas. Todos vestidos de Do Estilista , é lógico!
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O TALISMÃ E A RELAÇÃO AMOROSA ENTRE ESTILISTA E MODELO

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Penso com interesse na exposição “Muse: Embodying Moda” que acontecerá entre 6 de maio e 9 de agosto desse ano no Costume Institute of The Metropolitan Museum of Art. Leio que a exposição irá “explorar a relação recíproca entre a alta moda e a evolução dos ideais de beleza, e incidirá sobre as icônicas modelos do século 20 e seus papéis na projeção e, por vezes, inspiração na moda das respectivas épocas”. Mas muito mais que os ideais de beleza, não consigo parar de pensar na relação amorosa entre os criadores e suas musas. E, com certeza, o papel das modelos como musas dos estilistas faz parte talvez da relação mais intensa e rica do mundo da moda.
E quando falo de amor, não estou sendo metafórico. Charles Frederick Worth, o pai da alta-costura, ao construir, ou melhor, evidenciar a creolina, ele usa uma vendedora da mesma loja que trabalhava para demonstrar sua criação. Marie Vernet é considerada por muitos a primeira modelo da história e não à toa acabaria por se tornar sua esposa.
Um pouco mais tarde Paul Poiret tem em sua mulher Denise, a sua musa e modelo de suas idéias de uma nova mulher. O estilista declarou: “Minha mulher é a inspiração para todas as minhas criações, ela é a expressão de todos os meus ideais”.
Coco Chanel teve entre suas preferidas a modelo norte-americana Suzy Parker, na década de 50. Ela era considerada o rosto Chanel por excelência. Foram muito próximas e confidentes e boatos dizem que as duas chegaram a ser amantes.
Muitas vezes o lance é genético, assim como Maxime de la Falaise foi musa de Elsa Schiaparelli, sua filha LouLou de la Falaise foi o modelo ideal durante 3 décadas de Yves Saint Laurent. Paixão geracional!
Mas nem sempre a relação acaba de forma amistosa. Durante anos Inès de la Fressange foi para Karl Lagerfeld a mulher Chanel. Mas a partir do momento que Inès decidiu, no final dos anos 80, posar de peitos nus como Marianne, um dos símbolos da pátria francesa, Lagerfeld reagiu igual a um marido enciumado e rompeu com a modelo achando a atitude dela “vulgar, provinciana e burguesa”.
Hoje, como o amor se pulverizou em uma certa promiscuidade do desejo, vemos muito dessa atitude refletida nas passarelas. A cada momento os estilistas elegem suas musas para depois descartá-las. Ora tal é a queridinha ora outra é o rosto da marca e assim por diante. Parecem que os estilistas não mais amam suas modelos, apenas se apaixonam e ou então como se diz hoje, apenas “ficam” (assim como os adolescentes) com elas por uma temporada.
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Então a cada temporada, aqui no Brasil, meu coração palpita ao ver dois estilistas seguirem firmes com suas musas por mais de uma década em uma prova que mesmo com todo o império das paixões e do desejo, o amor ainda tem espaço na moda e na vida das pessoas. Com a fidelidade digna do romantismo da século 19, Marcelo Sommer ainda entra abraçado com Luciana Curtis e Alexandre Herchcovitch sempre está de mãos dadas com Geanine Marques. Elas iluminam o final do desfile desses dois estilistas como um talismã: um talismã que mais do que indicar sorte, fala a fundo sobre a relações humanas.
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A NAU DE MARCELO SOMMER

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Se na temporada passada, a grife Do Estilista nos levou para os limites da moda, em suas fronteiras, dessa vez mergulhamos em sua essência, sua células, sua origem: o design.
Marcelo Sommer viajou até a Holanda para nos trazer em estampas, a lembrança afetiva dos azulejos portugueses. Essa questão afetiva é primordial no desfile pois é primordial nas criações de Sommer. Por mais que tudo indique para a criação holandesa, é nessa ponte entre os grandes navegantes do século 16 que nossa mente embarca.
Em um exercício sagaz, Sommer traz, ou melhor, evidencia o chamado Decorativismo, uma tendência de design contemporâneo que brinca com o kitsch (é preciso informar que o folk – dos xadrezes por exemplo – elemento presente em quase todas as criações de Sommer é mercadoria direta do kitsch) e a ironia, algo que percebemos no marear do andar das modelos em suas plataformas-tamancos-holandeses e nas cores azul e branco tão referentes a Delft, uma cidadela perto de Amsterdã conhecida pela porcelana feita exatamente dessas cores. E é na viagem dessas cores que aportamos imediamente aos azulejos portugueses, pois navegar é preciso! Avançar para além-mar, para além dos azulejos.
Diz a Wikipedia: “A palavra em si, azulejo, tem origem no árabe azzelij (ou al zuleycha, al zuléija, al zulaiju, al zulaco) que significa pequena pedra polida e era usada para designar o mosaico bizantino do Oriente Próximo. É comum, no entanto, relacionar-se o termo com a palavra azul (termo persaلاژورد : lazhward, lápis-lazúli) dado grande parte da produção portuguesa de azulejo se caracterizar pelo emprego maioritário desta cor.”
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E é no azul das roupas como no vestido de tricô que existe uma vontade de tridimensionalização dos azulejos, como se ele quissese sair do seu espaço mas não conseguisse. Como se o marinheiro o tempo todo nos dissesse: é impossível ir além da essência. Navegamos por terra firme pois tanto os azulejos como o imaginário e a criação de Marcelo Sommer nos remetem que podemos mudar, viajar por todos os lugares, mas nunca mudar a nossa essência.
E isso estava em imagem quando os modelos em suas esteiras e bicicletas ergométricas pedalavam, corriam e nunca saiam do lugar. Do lugar que é só seu, como no caso de Sommer, onde todos os seus elementos primordiais (símbolos, melancolia, folk-pop) ancoram e nos mostram a essência da moda (design – como também fez brilhantemente Reinaldo Lourenço na temporada passada) e a do próprio Marcelo Sommer.

O SOL BRASILEIRO DO VERÃO 2009

Estava conversando recentemente com Fernanda da Oficina de Estilo sobre o que mais nos encantou no verão 2009. Os 5 tops, as listas de Nick Horby…
Ela fez a dela da Oficina , a minha é simples e curta:
Marcelo Sommer e Reinaldo Lourenço colocaram questões pertinentes à moda e à imagem de maneiras diferentes e complementares.
O estilista Reinaldo Lourenço focou numa visão microscópica da moda, entrou na arquitetura e principalmente no design trazendo as questões de desenho à frente – no caso, a porcelana e a roupa – para fazer relações da essência da moda, do que a moda é feita. Fez uma verdadeira maiêutica.

Reinaldo Lourenço verão 2009

Sommer para a sua marca Do Estilista fez a operação inversa, macroscópica e foi até o limite do conceito de moda, discutindo fantasia e figurino. De maneira corajosa ele foi até as fronteiras dessa discussão. Fez novas duanas.

Do Estilista verão 2009
Maria Bonita
fez o equilíbrio perfeito entre uma moda nacional e uma vontade internacional. Pescou do universo dos ribeirinhas o desenho minimalista, e pôs na mesma rede tudo o que é cool das passarelas daqui e de lá. Fez Cinema Novo.

Maria Bonita verão 2009
Lenny ventilou frescor novamente. A busca de novas formas, novas proporções, os plissados, tudo simbolizando a vida. Uma elegia à mulher e a uma moda que sempre é vista como menor. Fez arquitetura da vida.

Lenny verão 2009
Gloria Coelho sempre busca na história e na história da moda, uma nova história. Dessa vez – novamente – , toda a moda masculina se fez feminina. E deu pano pra manga. Fez voar.

Gloria Coelho verão 2009

9 DE JULHO


Fernando Betcher


Marcelo Sommer

SPFW – A MODA ESTÁ NUA: O MARAVILHOSO FIGURINO FAKE DE MARCELO SOMMER


Nada é banal em Marcelo Sommer e sua grife Do Estilista, não fantasiem errado. Mesmo quando declara fazer um desfile com seus desejos de imagem e não de produto ele está indo fundo no conceito de moda e na função dos desfiles. Ele, dentro de um sistema econômico que a cada dia privilegia muito mais os resultados e lucros (empobrecendo a imaginação na moda), lucra muito mais procurando os resultantes, os resultantes que fazem com que quando Marcelo cria uma peça, não tenhamos dúvidas que só a ele pertence e só por ele poderia ter sido construído.
Fantasia e figurino. O quanto a moda vive com medo desses extremos, como os antigos navegadores tinham medo que o mar acabasse. Quebrar, romper com o medo da teatralidade, do fantasiar-se, do figurino faz parte de uma atitude avançada em moda, ainda mais nos tempos de hoje.
O linguista inglês J.R.R. Tolkien afirmava que “fantasiar é ser bem sucedido em fazer ou vislumbrar outros mundos. Não mundos possíveis, mas mundos desejáveis.
Já na definição rápida do Wikipedia diz que “figurino é o traje usado por um personagem de uma produção artística (cinema, teatro ou vídeo)”.

Bailando sobre esses dois conceitos, a marca faz surgir toda a força de seu imaginário. Não é figurino de enfermeira, nem fantasia de enfermeira, é exatamente a sua versão fake, a versão moda que trafega sobre esses mundos desejáveis. Não à toa muitos fashionistas ficaram fascinados pelo look que eu chamo de burka mulçumana (terá algo freudiano nisso?).

Para provar o que eu escrevi e a radicalidade desse trabalho Do Estilista, por desorganização pessoal minha, assisti o desfile da janela de fora do museu com muitos fotógrafos e fashionistas. Foi uma experiência divertida e inusitada, porque eles identificavam os looks com pessoas de moda, do imaginário daquelas pessoas. Muitas gritavam:”Olha a Graça Borges! Olha o filho da Erika!” e não olha a noiva, a bruxa, o palhaço, a mulçumana.
Marcelo Sommer fez todos fantasiarem por poucos minutos um mundo muito melhor e mais divertido!

O MELHOR E O PIOR DO PENSE MODA

pensemoda_3003.gif É incrível como o pior e o melhor podem conviver juntos e foi isso que aconteceu no penúltimo dia do Pense Moda.

Vamos começar com a notícia boa: eu não me recordo de ver tantos estilistas de diferentes estilos e com histórias tão diversas reunidos em uma mesa redonda. A faísca da diferença estava no ar e o respeito que todos se trataram foi um exemplo que o debate deve continuar. Tinha da indústria Tufi Duek à marcas de estilistas que mantém sua grife ainda de maneira pequena mas não menos importante como Lorenzo Merlino e Marcelo Sommer, além de Jum Nakao que não tem marca própria e trabalha para uma no Bom Retiro, além de fazer trabalhos ligados ás relações entre moda e arte.

Só essa reunião que pra mim foi inédita, já valeu todo o Pense Moda. A maneira como expressam a moda que fazem e a personalidade que imprimem nas marcas que trabalham estava presente o tempo todo. Como disse a Fernanda do Oficina, o Tufi é o nosso Silvio Santos e como tal agradou a massa que o aplaudiu inúmeras vezes, teve troca de elogios entre Marcelo Sommer e Jum Nakao, teve colocações importantes de Reinaldo sobre o momento pós estilista –poeta dos anos 80 assim como Lorenzo falando das dificuldades de uma marca nacional e tentando deixar claro, apesar de não conseguir que as marcas ficam, os estilistas vão. Foi um confronto silencioso e gigantesco!

Em compensação no mesmo debate teve a mediação barulhenta, histriônica e deselegante de José Gayegos. Sem preparo, cometeu gafes ao falar que não conhecia um dos estilistas que participava da mesa. Fez intervenções desnecessárias como se o debate a ele se referisse. Ele era o mediador, deveria conhecer no mínimo os convidados, deveria conhecer no mínimo o seu lugar naquela hora. O fato dele, sim, ser um nome importante para a moda brasileira, cuidar do acervo de Dener, dar aulas de moda, ser estilista, não o dá o direito de desrespeitar nem a platéia nem a mesa de debate.

Ele foi a máxima do que estava ocorrendo durante os dias anteriores, pessoas que se aproveitam da oportunidade de ter a voz durante um debate e ao invés de fazer reflexões e perguntas pertinentes ao que se está discutindo, aproveita para colocar seus problemas pessoais, contar de sua vida. Detesto esse momento psicanálise, sorry, chama o Freud!