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AS QUESTÕES DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO NA MODA E NA SPFW

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Bom, todo mundo fala que a moda é excludente e todo exercício de uma semana de moda é muitas vezes realçar isso. Exclui-se os negros, os étnicos, os gordos da passarela, exclui-se os veículos menos importantes dos desfiles, exclui-se os não convidados de entrar na Bienal, tudo isso tem uma explicação plausível (apenas no caso dos negros e étnicos que o discurso não foi tão convincente, tanto que tivemos cotas esse ano e intervenção do Ministério Público de São Paulo na questão) e pode-se, concordar ou não, mas tudo acaba se tornando uma exclusão “natural”, pois o próprio formato tanto de uma semana de moda como da estética vigente é excludente.
Mesmo assim existe um esforço tanto do evento e até das marcas para que essa exclusão não seja tão brutal assim [até porque ser excludente está na contramão do pensamento contemporâneo desde o final dos anos 90, tanto para o bem como uma nova arquitetura que pensa em rampas para deficientes e nos detalhes dos botões de um elevador para que um anão possa alcançar, como para o mal com toda a hipocrisia do politicamente correto]. Uma prova desse esforço de inclusão foram dois desfiles que aconteceram no domingo, dia 21, em áreas externas ao cubo branco de mistificação que a Bienal tão bem serve tanto para a moda como para as artes plásticas. E tão rico e incluído dentro dessa discussão, aconteceu também um outro desfile dentro da Bienal no mesmo dia, mas com o tema já no terreno do pensamento, aliás, outro elemento [o pensar moda] que muitos fashionistas (tolinhos) adoram excluir de suas análises por acharem pouco fashion.
Antes de tudo é bom ressaltar que era domingo, o dia do descanso operário, o dia de domingo no parque, o dia de procurar algum lazer para milhões de paulistanos e pessoas que moram e constroem essa cidade. E talvez esses dois desfiles, o da Cavalera e da Neon foram o seu lazer da mesma forma que para as duas marcas, o público que não estava habitualmente acostumado a assistir desfile foi a consagração e a coroação das idéias que asfaltaram as duas coleções. A presença desse público legitimou as propostas das marcas em certo sentido.
A Cavalera, vocês que devem acompanhar moda já escutaram milhões de vezes, fez seu desfile no Minhocão. Mas diferente de outras locações externas que eles já escolheram (Interlagos, rio Tietê), ali estava não só o espaço, mas a vida em torno do espaço, nada mais lógico já que a cidade de São Paulo era o tema e a coleção e uma cidade se faz com as pessoas nela.
O mais bacana, além da coleção, foi ver as pessoas na janela com a família. Nina Lemos assistiu com uma família do alto de um dos prédios que ficam rentes ao Minhocão. O mais impactante foi ver que aquelas pessoas que asssitiram pela primeira vez um desfile na vida, tinham opiniões muito semelhantes aos de fashionistas que estão há anos no metier. Veja a matéria que fiz pro Vírgula e a opinião das pessoas que ficaram atrás das grades, mas puderam ver o desfile perfeitamente.
Um parênteses entre os inúmeros que abro: Uma senhora na matéria respondeu que as roupas não eram para ela, mas digamos que ela abre chave para outra discussão sobre a exclusão: como as marcas excluíram também a velhice de sua lógica. E também o homem adulto, sobre isso Alcino escreveu no post “Observações sobre o Fashion Rio e a Moda Masculina” em seu blog e depois eu farei uma reflexão mais longa.
O mesmo aconteceu com a Neon, que fez o mesmo na marquise do Ibirapuera e todo mundo que estava no seu domingo no parque pode assistir. A praia e o parque!
Tenho que lembrar que isso não é novo no SPFW. Karlla Girotto fez uma coleção belíssima apresentada no parque também, mas temos aqui pela primeira vez duas marcas muito sólidas, que não são inseridos num contexto underground como Karlla, saindo da idéia de luxo exclusivo e seleto e abrindo o jogo, pois os tempos são outros. Sobre a Cavalera, durante um tempo, o reinado do luxo, ela deve que adaptar seu streetwear e dizer que era “luxo para todos”, agora ela trabalha em sua chave mesmo!
Por fim, Ronaldo Fraga também fez uma coleção da inclusão, nesse mesmo domingão, suas roupas eram a ponte entre o sonho (a Disney) e os excluídos (os latino-americanos e estrangeiros em geral que tentam participar do sonho americano). Ele criou a inclusão do campo do pensamento (acho que merece um post só sobre ele). Enfim, foi um domingão, tinha muito sol!
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sem essa aranha de me excluir!

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SEMANA LULA RODRIGUES: MODA MASCULINA E O NOVO HOMEM


Antes de mais nada quero deixar claro aqui que quando digo e legitimo um discurso autônomo do streetwear em relação à alfaiataria é porque penso que muitas das amarras da moda masculina passam por essa questão. Não é negar a alfaiataria, de maneira nenhuma, até porque minha crítica não passa por ela enquanto processo de fazer roupa e nem a desautoriza como uma grande contribuição do Ocidente para a vestimenta masculina, mas sim questiono hoje a sua idéia, sua lógica cartesiana. Penso nisso muito dentro de um mergulho da minha memória por um desfile memorável de Karlla Girotto para o verão 2007. A estilista já vinha discutindo o gênero assim como algumas coleções masculinas de Herchcovitch, mas dessa vez ela fez um tratado sobre a moda masculina e feminina.
A moulage faz a mulher flutuar, é pura poesia que enlaça o corpo, já a alfaiataria é mais pesada, medida, mais pé no chão. Será que o streetwear não poderia ser a moulage da moda masculina? Será que não chegou a hora dos homens encontrarem mais poesia em suas roupas?
Por fim, dando uma de Caetano Veloso, é importante ressaltar que a saída também pode estar na alfaiataria, tudo é possível, ou não…

Karlla Girotto, os opostos se atraem
Voltando a questão do gênero, o feminino parece querer sair do armário do homens. Veja uma grife tradicional como a YSL, por exemplo…

ser um homem feminino – YSL verão 2009

Faz algumas temporadas que a Prada tem investido em um homem mais feminino. Nessa temporada aqui e lá fora, esse homem parece dominar as passarelas. O que realmente desse homem pode chegar às ruas, já que os homens são muito conservadores na hora de vestir?

Prada verão 2009

Prada verão 2008

Prada verão 2007

A Miuccia [Prada] e o Raf Simons encabeçam uma lista de criadores que trabalham um laboratório de mudanças fundamentais no closet masculino. Mas, não são loucos a ponto de fazerem roupas que não vendam. A Miu Miu masculina – a mais criativa, segundo Colin Mc Dowell para meu blog – acabou, o foco lab agora é na Prada. Na Jil Sander, Simons está preso a contrato de vendas. Na sua signature line, pode fazer experimentos e leva-los para a grife Jil Sander.

Miu Miu verão 2007
Isso vem acontecendo desde os anos 2000, digamos, sendo generosos. Acredito que tais mudanças, tais laboratórios estejam conectados à procura da nova silhueta do terno executivo contemporâneo. Por um simples motivo: quem EMPLACAR a nova silhueta do terno do homem de negócios, do estadista, do clero sem batinas e e afins, e não apenas nos fashionistas e modernos, entra para o hall of fame da moda contemporânea, ou melhor, em letras garrafais, entra para a HISTÓRIA.
Vale lembrar que tudo começou em Versailles quando os alfaiates de Luiz 14, tiveram a idéia brilhante de fazer as 3 peças num mesmo tecido, estampa e cor, estava criado o terno de 3 peças: calça, paletó e colete, – daí terno. Depois, tudo foi adaptação.
Para encurtarmos a história, nos 60´s Pierre Cardin, criou o terninho curto e justo, sem lapela que foi devidamente copiado, renovado e usado pelos Beatles, via o seu empresário. Foi copiado por modernos e fãs do mundo inteiro. Acabou, saiu de moda. Já não me lembro quantas vezes fiz matéria no Ela [caderno do jornal O Globo], tendo como pauta, o novo terno.

Se você observar, tem no mínimo uns 10 criadores apostando na nova silhueta. Foi tema de pesquisa do WGSN [bureau de tendências] _ a nova alfaiataria. Fazer uns poucos fashionistas usar é simples. Nada fora do normal. Agora, convencer todos os homens de negócios do planeta usarem – de Nova York a Xangai _ ai são outros quinhentos. Quero estar vivo e bem esperto, velhinho, para ver … e adotar, of course, a novidade hehehe.

KARLLA GIROTTO VESTE O ESPAÇO DA SERRINHA

Muito trabalho, e muita preguica pra elaborar o que já está bom e como eu amo o trabalho de Karlla Girotto, coloco esse release abaixo que recebi da NaMídia:

“Fazer roupas para espaços e não somente para corpos é uma das propostas da oficina “Labirinto – experimentações sobre moda” que será realizada pela estilista Karlla Girotto na sétima edição do Festival de Arte Serrinha. De 07 a 13 de julho será possível trabalhar com materiais de desenho, tecidos, aviamentos (tesoura, agulha, linha e materiais diversos) e roupas antigas para serem desfeitas e depois refeitas.

A idéia é construir um pedaço de vida a partir do desejo de diálogo entre roupa-espaço-pessoa. Elaborar desejos e vontades primeiro em cadernos de desenhos e depois partir para construção afim de pensar o vazio como potencial de expressão, fazer roupas para espaços e não somente para corpos. Investigando e vivendo dentro do espaço da Fazenda Serrinha a fim de propor uma relação espaço-roupa-pessoa.”

Roupas para espaços… Adorei esse termo!

Além da Karlla, vai ter oficina de artes da punk rock artista Dora Longo Bahia e palestra com Rafa Vogt Maia Rosa, pra mim o mais brilhante jovem crítico de arte do país apesar de termos posições opostas em relação à arte contemporânea.

INFORMAÇÕES E INSCRIÇÕES:
(0xx11) 4032-8177
De segunda a sexta, das 13h às 18h ou
http://www.festivaldearteserrinha.com.br

KARLA GIROTTO NA SALA DE JANTAR

Acredito na força da criação e do pensamento de Karla Girotto. Então para os interessados, corre por ainda têm vagas.
Pra se inscrever, basta mandar e-mail para mutantes.nasaladejantar@gmail.com
colocar nome, telefone e forma de pagamento que pode ser dividido e feito no primeiro dia de workshop que vai acontecer na terça, dia 13  20 de maio.

WALTER VON BEIRENDONCK VERÃO 2008

Enquanto se discute o masculino na moda feminina, Walter von Bierendonck pega a contramão e recoloca o feminino na moda masculina. Desde Jean Paul Gaultier e suas saias na década de 80 essa discussão sempre esbarra em uma certa timidez nas possibilidades desse diálogo. e não tem sido diferente com o estilista belga mas ele insiste no assunto.

Walter já debate essa questão faz algum tempo e sua coleção de verão 2000 “Gender?” era exatamente sobre isso: os gêneros na moda.Assim como o corset, criado por Mr. Pearl, ou um casaco que se abre em A, a silhueta masculina feminiliza-se, mas o mais interessante é que também nos remete aos avatares do Seconf Life. Será um futuro tão impossível assim?

Não é a primeira vez que o corset entra na sua coleção, mas agora ele ganha uma conotação mais sexual. Bem ao gosto do título da coleção: “Sex Clown”.Nesse momento entra outra linguagem que o estilista adora trabalhar: o fetichismo. A borracha se contrapõe assim como o corset com o lúdico das cores e de algumas estampas. Não tem conversa, o sexo está na cabeça de todos.

Os objetos de cabeça, construídos em papel machê pelo chapeleiro inglês Stephen Jones fazem referências tanto aos animais que povoam o universo do estilista como ao falo, presente também em algumas aplicações nas alfaiatarias.

Aliás, as suas construções em alfaiataria criam certas dimensões mais abertas que eu chamo de asa em alusão a ultima coleção de Karlla Girotto no São Paulo Fashion Week. Nela, ela representava a alfaiataria e a roupa masculina como algo racional, cartesiano e preso ao chão, enquanto a moulage,.mais instintiva, era o arquétipo da roupa feminina e estava solta no ar, moldada pelo vento. Nem preciso comentar que pra mim foi o grande momento daquela temporada.

Voltando ao belga, sua alfaiataria parecem ter asas, mas de máquinas, respeitando ainda o princípio cartesiano da alfaiataria, mas mesmo assim precisando tomar certos e outros ares.

Outro fator interessante é a variedade de corpos escalados para apresentar a coleção que aconteceu no dia 1 de julho, no clube Bataclan em Paris. Desde a estrutura mais slim a mais forte e musculosa, algo pressupõem que não existe um só modelo para aquelas roupas.

Em uma outra escala, continua na sua coleção a forte presença étnica com forte linguagem urbana, fator que pode ser melhor mensurado agora que a moda ”oficial” reverenciou a leitura (excelente) de Nicolas Ghesquiere para a Balenciaga desse étnico urbano que Walter nos apresenta há anos.O étnico urbano é com certeza a possibilidade moderna de incorporar outras culturas na nossa sem uma visão folclórica.

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Pos post: Walter criou avatares da coleção que estão agora no Second Life.

Eu copio mesmo o bordão do velho cineasta: “Minha estética é minha ética”. Mas para aqueles que se preocupam com o mercado, Walter escreve:

“Don’t be afraid, in the end there is always a simple T-shirt telling the same story”.

Crítica e autocrítica!