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SOBRE BBB, FORMAS TOTALITÁRIAS E PERVERSÃO: UM SMASH UP

Smash up sugerido por Pedro Alexandre Sanches, para não deixar dúvidas em ninguém e ninguém se fazer de vítima às avessas. Texto do professor negro e antropólogo Kabengele Munanga.

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“A homofobia é uma ideologia. A ideologia só pode ser reproduzida se as próprias vítimas aceitam, a introjetam, naturalizam essa ideologia. Além das próprias vítimas, outros cidadãos também, que discriminam e acham que são superiores aos outros, que têm direito de ocupar os melhores lugares na sociedade. (…) Há homossexuais que introjetaram isso, que alienaram sua humanidade, que acham que são mesmo inferiores e o nétero tem todo o direito de ocupar os postos de comando. (…) A educação é um instrumento muito importante de mudança de mentalidade e o brasileiro foi educado para não assumir seus preconceitos. (…) O brasileiro nunca vai aceitar que é preconceituoso. Foi educado para não aceitar isso. Como se diz, na casa de enforcado não se fala de corda. Quando você está diante do homossexual, dizem que tem que dizer que é gay, porque se disser que é viado, ele vai se sentir ofendido. O que não quer dizer que ele não deve ser chamado de viado. Ele tem nome, tem identidade, mas quando se fala dele, pode dizer que é viado, não precisa dessexualizá-lo, torná-lo gay. O brasileiro foi educado para se comportar assim, para não falar de corda em casa de enforcado. Quando você pega um brasileiro em flagrante de prática homofóbica, ele não aceita, porque não foi educado para isso. Se fosse um americano, ele vai dizer: ‘Não vou alugar minha casa para um viado’. No Brasil, vai dizer: ‘Olha, amigo, você chegou tarde, acabei de alugar’. Porque a educação que o americano recebeu é pra assumir suas práticas homofóbicas, pra ser uma coisa explícita. (…) Muitas vezes o brasileiro chega a dizer ao homossexual que reage: ‘Você que é complexado, o problema está na sua cabeça’.”

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Por que a corda só arrebenta do lado do homossexual? No fundo, as pessoas não querem que os gays perto de suas famílias. É uma forma de homofobia. (…) São seres humanos que, pelo próprio processo de colonização, de patriarcalismo, a essas pessoas foi negada sua humanidade. Pra poder se recuperar, ele tem que assumir seu corpo como homossexual. Se olhar no espelho e se achar bonito ou se achar feio. É isso o orgulho gay. E faz parte do pocesso de se assumir como gay, assumir seu corpo que foi recusado. (…) O hétero não tem motivo para ter orgulho porque ele é vitorioso, está lá em cima. O outro que está lá baixo que deve ter orgulho, que deve construir esse orgulho para poder se reerguer.”

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“Quando há violência física, eles são punidos, mas isso aqui é uma violência também, uma violência simbólica. Por que a violência simbólica é aceita e a violência física é punida?”

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“A imprensa faz parte da sociedade. Acho que esse discurso do mito da democracia sexual é um discurso também que é absorvido por alguns membros da imprensa. Acho que há uma certa tendência na imprensa pelo fato de ser contra as políticas de ação afirmativa, sendo que também não são muito favoráveis a essa questão da criminalização da homofobia. Houve (…) e há a tentativa dos religiosos de barrar a lei que criminaliza a homofobia. Silêncio completo da imprensa brasileira. Não houve matérias sobre isso. O silêncio faz parte do dispositivo da homofobia brasileira. Como disse Elie Wiesel, o carrasco mata sempre duas vezes. A segunda mata pelo silêncio.”