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IGGY POP E RONALDO FRAGA

planetaterra600
Foto: Thiago Queiroz/AE

Ao ver novamente o público subir no palco, mesmo com as pancadarias e a brutalidade dos seguranças, eu penso como a energia do Iggy Pop transcende a ideia de juventude, apesar de calcada nela. Vi Iggy ainda inteiraço no Festival Claro Que É Rock, em 2005, meio com vergonha dele ser tão definido com mais de 60 anos e eu já uma forma abstrata quase aos 40.
Mas dessa vez no Terra foi diferente, ele estava decrépito, com uma barriga estranha, mancava solenemente e parecia meio torto. Bom, foi diferente mas foi igual. Pois mesmo com o corpo seguindo o rumo que deve seguir, ele não perdeu um milímetro da energia. Gritava, pulava, se jogava e mesmo manco, corria com a mesma calça justíssima – dizem que no show de 2005, ele escolheu uma da Gang. Enfim, foi mais uma vez arrebatador.
No meio do show me veio na cabeça o desfile de Ronaldo Fraga para o inverno 2009 que deu dignidade à chamada terceira idade.
Primeiramente pensei que era porque nos dois casos, a questão da velhice aparece de maneira soberana, imperativa. Mas depois tentando entender porque raios fiz tal conexão, percebi que tanto no show de Iggy como no desfile de Ronaldo o que aconteceu foi uma mudança de percepção da minha parte.
Ao ver, no começo do desfile do estilista mineiro, as modelos sem as formas retilíneas que estamos acostumados, tive a impressão que algo estava errado para depois concluir que o erro estava no meu olhar amortecido e acostumado com um só padrão.
Ao ver, no começo do show, Iggy, sem seus gominhos no abdômen e aparentando um certo cansaço, achei que algo estava errado com ele, para depois, com a energia e empolgação do show perceber que quem estava errado novamente era eu e minha percepção, pois todo espírito punk rock ainda estava presente naquele corpo que manca.
A partir desse momento fiquei maravilhado com a possibildiade que não é a velhice que te tira possibilidades e sim a luta contra ela. Como bom punk, Iggy parece pouco se importar com isso, isso = milhares de intervenções cirúrgicas, plásticas e cremes pro retardamento da velhice, sem falar no medo de perder algo que estamos fadados a perder: a juventude, pelo menos física. Paradoxalmente, ao fazer seu nevermind em relação a esse assunto, Iggy não perdeu sua juventude, porque ele a manteve no contexto espiritual, se assim posso dizer sem ofender os mais ateus. Seu show foi completamente pleno da mesma energia que o que vi há 4 anos atrás. E novamente eu pude perceber que meu olhar provisoriamente me traiu por uma segunda vez.

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OBRA EM PROGRESSO, A VELHICE

loeg-grey

Li na Folha que o baiano do Caetano Veloso estava liberando umas músicas lá no blog dele. Não sou dos que tem desprezo total pela ex-mulher de Paula Lavigne [que ele já declarou em defeja de Michael Jackson que a conheceu biblicamente aos 13, apesar de hoje falarem que foi aos 16] afinal ele deixou Luana Piovani [a eterna ninfeta que tem medo de envelhecer] com cara de tacho durante um tempo e isso na cultura das celebridades tupiniquim não tem preço.
Aliás fui bem fã dele no final dos anos 70 e começo dos 80. “Ele me deu um beijo na boca” foi uma música que na adolescência bem me ajudou na putaria… E confesso que mesmo quando não estou nada interessado, alguém vem e me avisa o que a/o filha/o da Dona Encanô está aprontando. Digamos que Caê foi minha primeira Amy Winehouse, minha primeira Britney, essa que invade sua casa sem pedir licença e isso é uma coisa de vanguarda baiana que a gente deve aprender e respeitar.
Bom, fui lá na curiosidade e também para ter um bom material pra me divertir xoxando nas rodas de amigos, já que fui uma voz dissonante que odiou o “Cê” como “disco” de rock. Caê, você foi mó rata comigo!
Até meu pai que é o rei do tango, do bolero e do quadradinho é mais roqueiro que vo Cê.
Então entrei naquele terreno de letras minúsculas e me senti muito velho, forçando a vista pra ler os textos. Mas no mesmo instante me veio uma iconoclastia tão deliciosa e tão juvenil que tomou conta de meu corpo e desisti de ler qualquer coisa pensando: Baiano! [baiano eu, baiano tu]
Olha, pra achar as músicas novas dele, tem a cafagestada de ter que navegar por aquele pântano do agreste. Insisti, graças a Deus, insisti… Eu insisti pois achei uma passagem maravilhosa que fala de Candé, aquele menino que é/foi namorado da jornalista Erika Palomino e/ou foi/é namorado da cantora Marina Lima, mas que a única certeza que temos é que ele é amigo da amada Camila Kfouri que sempre o defendeu bravamente frente à antipatia que seus barracos com a super Grace Lesada, com jornalistas, o povo da noite [amo esse termo povo da noite, é tão socialismo moreno] e outras pessoas sempre causaram por aqui. Afinal, São Paulo pode ser tudo [de ruim], mas diferentemente do Rio, isso aqui não é uma corte medieval que o fato de conhecer os reis sua segurança está toda garantida. São Paulo é uma reunião helvética de pequenos comerciantes de tudo, hype, pepinos, drogas, esfihas. São Paulo pode ser tudo [de ruim], mas é a terra da classe média inexistente na Cidade Maravilhosa [que pode ser maravilhosa por tudo menos por não ter classe média, essa que concorda, essa que discorda, mas só é massa quando em pesquisa]. Entendam que o tão almejado cosmopolitismo só existe hoje em lugares que a classe média é soberana. Nesse sentido, as cidades que incluiram o progresso no sentido de Augusto Comte (São Paulo) são mais velhas que as que ainda possuem relações aristocráticas (Rio de Janeiro) , e isso sim é um problema de classe.
Depois dessa elegia à classe média e essa explicação de quem é Candé [eu mesmo não o conheço, como bom paulistano só sei de seus barracos na cidade como um Madame Satã du hype, das defesas queridas de Camila e das mais deliciosas perversidades que esses assuntos são tocadas e xoxados por uma multidão que o carimbou como bárbaro assim como o gado do senso comum é carimbado].
Uma coisa boa da velhice é que você pode falar tudo sem muitas amarras!

Posto isso vem a escrita de Caetano:

Contei que conheci Portishead há uns dez anos através de um elenco fascinante que entrou na casa de Milton Nascimento, numa festa. Disse que não foi lá que, através de Marininha, Karola, Candé, Luísa e Natália, tomei contato com o grupo inglês. Foi quando, dias depois, liguei para um deles, que ouvi uma gravação fantástica na secretária eletrônica. Perguntando, me informaram que a banda se chamava Portishead. Bem, todos os envolvidos me dizem que escrevo tão mal que ficou parecendo que conheci Portishead ligando pro Milton Nascimento. Se pareceu isso, corrijo: foi ligando para Candé que ouvi Portishead pela primeira vez. Ele (e as meninas bonitas) adoravam esse grupo. Até apelidei Candé de Portishead, já que muitas vezes era a banda que atendia quando eu ligava para ele. E, além de me dizerem que escrevo mal, Candé chiou por ter passado de protagonista a mero figurante na história.

Que delícia é o vampirismo da velhice! Caetano pra se pretender jovem, roqueiro, antenado vampiriza o que pode [e digo isso sem a conotação negativa que isso possa parecer]. Sim, é um ato comum na velhice Dorian Gray que precisa estar na moda pra não se sentir ultrapassado, então devora o que acredita que é novo, tem essa necessidade tão século 20 de sempre procurar o novo… Hoje pra mim, nada mais velho. [essa é pra você Nucool]
Escrevo isso pois a exigência da juventude na moda e no mundo virou imperativo desde os anos 60. É preciso ser eternamente jovem por isso a conotação não é negativa quando digo que Caê vampiriza Candé e sua banda de jovens da Falsa Leblon. É uma necessidade de Caetano e de todos que envelhecem hoje dentro do sistema que vilanizou a velhice, mas não fez da mocidade algo bom, a tornou tirana.
Amo muito quando Nelson Rodrigues escreve dizendo que um jovem o chamou pra conversar e é claro que ele obedeceu, pois segundo ele não se desrespeita um jovem. Mas amo mais ainda quando ele diz: “Envelheçam depressa, deixem de ser jovens o mais rápido possível.”
Acho estranho essa oposição entre jovem e velho. Ao colocar esses conceitos em confronto, rompe-se o caminho natural da vida, da delícia da vida, injeta-se desconforto no caminhar dessa trilha imprevisível. Acabamos nos atendo mais nas cores do começo do caminho com uma falsa atenção, agoniados por aquilo que virá: Essa grande aventura!
Feliz aniversário, Ricardo Oliveros!

giuliaborges600

A moda não é a precursora da tirania da juventude, é apenas o seu reflexo, mas nesse quadro de Dorian Gray ela apimenta o desejo pelo jovem, o que de nada está desassociado com a tão hoje combatida pedofilia.