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ELEGÂNCIA E ORIGINALIDADE

Minha amiga Sueli quando escrevi sobre elegância me abriu os olhos e me deu uma dica preciosa, ela escreveu:

“Aproveitando a oportunidade aberta pelo tema elegância e individualidade, que eu concordo plenamente, eu gostaria de entender um pouco mais sobre o papel da originalidade na combinação elegância & individualidade. Você acha que seria pertinente considerar a originalidade como um resultado, talvez, de uma atitude individual que foca na elegância? Ou será que seria o contrário?”

Voltando ao pai dos burros, lá encontro:

Originalidade S.f. Qualidade ou caráter de original

Original Adj. 1. Relativo a origem. 2. Que provém da origem; inicial, primordial, primitivo, originário. 3. Que não ocorreu nem existiu antes, inédito, novo. 4. Que foi feito pela primeira vez, em primeiro lugar, sem ser copiado de nenhum modelo. 5. Que tem caráter próprio; que não procura imitar nem seguir ninguém. 6. Que por seus caracteres peculiares, singulares, chega a ponto de tornar-se bizarro, extravagante.

E no Dicionário de latim:

Originale, a palavra na língua mãe para original está relacionado com o verbo orire que siginifica levantar-se, lançar-se para fora de, nascer, tirar sua origem de, originar-se, começar.

A originalidade é produto do levante da individualidade, quando ela se lança pra fora, quando nasce, impõe seu cárater. A verdadeira individualidade sempre carrega um grau de originalidade. Então pensando na pergunta da Sueli, acredito que é do encontro da originalidade com a individualidade que se origina a elegância.


Mona Lisa: uma elegante por seu sorriso original e individual que só a ela pertence

QUESTÕES DA MODA DE RUA

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Marco Sabino, que realiza um papel importantíssimo na moda brasileira de historicizá-la através de seus textos e de seu já clássico Dicionário de Moda, me enviou essas perguntas bem interessantes e argutas sobre a moda de rua e decidi que minhas respostas deveriam ser compartilhadas, até porque estão em formação. Não existe um pensamento muito claro sobre a moda de rua e uma discussão enraizada, pelo menos no Brasil.
Ele também me escreveu dizendo que muita gente acha que o oposto da moda de rua é a alta costura. Superficialmente podemos pensar que sim, pois temos a chamada democracia nas ruas em contraposição à elitização extrema da alta costura – hoje quantas pessoas consomem alta costura? 500, 1000 pessoas no mundo todo? Mas como disse, essa oposição é apenas superficial pois as duas procuram o mesmo caminho: O da individualização – o ponto mais importante da moda e sua contribuição para o mundo! Só que uma – a alta costura – em relação à roupa e a outra – a moda de rua – através do estilo.
Então comecemos! Como disse são respostas cruas e acho que todos poderão ajudar no debate que talvez se forme aqui e/ou em outros blogs.

1- Qual seria o oposto da moda de rua?
A moda de rua ou anti-moda surge nas tribos jovens entre os anos 50 e 60 que criam um estilo pessoal distante do que ditava as passarelas, mas ainda identificados com o segmento que os representavam (teddy boy, beatnik, mod, hippie) Enfim, eles não se preocupam com a chamada moda oficial, não respeitam seus códigos e nem os seguem. Então, por exercício lógico, podemos pensar que a moda de rua estaria em oposição à moda de passarela, mas na verdade o que ela processa e pretende é estar no lugar da moda de passarela, no topo da pirâmide e não mais na base. O seu oposto na verdade é a diluição da moda de passarela nas ruas.
[Talvez isso explique minhas ressalvas ao trabalho do The Sartorialist como moda de rua pois ao fotografar saídas de desfiles e lugares ditos como fashion, estaria ele fotografando mais atento à diluição da moda de passarela, apesar de na diversidade dos tempos de hoje, ele consiga achar sim, às vezes, pessoas com estilo próprio que é a raiz da moda de rua, um de seus objetivos cruciais, na minha opinião e não apenas como a rua está lendo a passarela]

2. A roupa comprada na loja de grife também não vai às ruas e acaba se misturando no olhar? Ou existe uma “moda de salão”?
A moda de rua trabalha numa chave diferente dessa que estamos chamando de “moda de passarela ou oficial ou mesmo de salão”. Sabemos que a “moda de salão ou oficial” só se fecha e ela só acontece quando chega às ruas. Mas a moda de rua independe da passarela, podendo sim ser influenciada – pouco, verdade seja dita, ou enganosamente como o caso dos lenços palestinos que foram chamados por um tempo de lenços Balenciaga -, mas ela apenas dialoga com essa moda de passarela que sim, está muito atenta para o que acontece nas ruas. Aliás o espírito da moda de rua é não olhar pra passarela, já que ela tem caráter subversivo, de anti-moda no sentido de estar invertendo a pirâmide da “moda oficial” [antigamente era dos grandes ateliês para as ruas e a partir dos anos 60, formou um outro movimernto que sai da rua para os grandes ateliês]. A legítima moda de rua influencia as passarelas. Até porque nas passarelas o primeiro foco é a roupa (produto) e imagem dessa roupa ou da marca. E na moda de rua o primeiro foco é o estilo ou imagem da pessoa, do indivíduo. A indivídualidade é muitíssimo sutil na passarela porque o foco tem que ser as roupas,a grife. Não existe uma individualidade Herchcovitch, Calvin Klein ou Marc Jacobs, o que existe é a label, a marca, o produto
Então a moda de rua é anti-moda porque independe da passarela para existir, depende unicamente de personalidade e do indivíduo. Posto isso, pouco importa se a roupa é de grife ou não, porque o que importa no caso da moda de rua é quem a veste e como aquilo que a veste lhe realçou a personalidade. Isso pra mim é claro nos uniformes, pois todos são iguais (e poderia ser todos assinados por Balenciaga) mas são certas pessoas que – no modo de compor, andar, fazer um certo detalhe diferencial – dão mais personalidades a eles, os uniformes, do que outras.
É importante ressaltar que não é porque está na rua é que é moda de rua – pode ser apenas diluição da passarela, a base da pirâmide que tem como topo as grifes -, na moda de rua tem que ter o quesito “desprezo” para as tendências da passarela, ou antecipá-las ou usá-las para além e acima da tendência de passarela.
[Um exemplo é o garçom do Ponto Chic que usa o colete-jaquetão de uniforme antes mesmo da tendência das passarelas masculinas internacionais e possivelmente continuará a usar depois que essa tendência passar].

3. Roupa de rua = Roupa de gueto?
Ela surge assim e permanece assim até hoje. O estilo dos guetos do hip hop e do rock que o digam. E por isso a importância dos uniformes para entendermos melhor a moda de rua. Mas a partir dos anos 1990 e seu já clássico termo “supermercado de estilo”, o menino do hip hop que se destacava por seu estilo dentro do movimento ganha mais liberdade, pois percebe-se que não precisa pertencer a algum grupo específico para ter um estilo. É a entrada da era das individualidades na moda de rua. O gueto ainda conta – veja os looks dos emos hoje -, mas com menos força e mesmo assim mais mixado. Muitos emos podem se passar por indies, por exemplo. Como muito clubbers por ravers. Mas a acentuação individual ganha mais corpo.

4. Na sua opinião, representantes de classes mais baixas, o povão mesmo, se toca com moda?
No Brasil nos falta cultura visual. Com certeza tanto diante de um quadro de Boticelli como em um desfile de Ronaldo Fraga, o observador médio tem muita dificuldade de formar discursos e/ou outras visualidades a partir desses dois exemplos. O ensino de artes no país é uma catástrofe. [Exatamente por isso truques como Galeria Vermelho e outras atrocidades da artes contemporâneas mistificadoras no nosso país caem no gosto suburbano do provinciano].
Sobre a questão das classes populares, essas sem educação visual nenhuma agem como a maioria da população brasileira, incluindo os ricos, no quesito moda: Por instinto. A maioria das vezes copiando o que “está na moda”. E no caso da classe média e baixa copiando não a moda de passarela, mas a de novela o que é um fenômeno interessantíssimo. Toda a educação visual e com isso a de moda [precária, diga-se de passagem] da maioria dos brasileiros é dada pela televisão.
Enfim, a moda como expressão da individualidade é ainda mérito de poucos, de uma elite muito restrita que não necessariamente é a econômica nem a intelectual.

5. Gosto do povão é diferente do da classe média?
Um pouca dessa pergunta está respondida acima, mas como falamos de individualidades, a questão de classe fica mais prejudicada. Usando uma frase antiga de Glauber Rocha que se encaixa para esse exemplo: “No meio da massa tem o indivíduo e o indivíduo é muito mais difícil de dominar”.

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O que você verdadeiramente vê?

SOBRE OS OBJETIVOS DA MODA DE RUA


como reconhecer o indivíduo na massa
Quando fiz a matéria para o Uol sobre moda de rua, uma leitora escreveu:
“Na reportagem ‘Moda de Rua: Transportes Públicos’, todas as legendas são um grande erro.
O tema é realmente interessante e pode render fotos muito boas, mas o fato é que se em geral, neste tipo de divulgação, informa-se a marca da roupa que a pessoa está usando (para o caso de alguém se interessar), quando não há marca para informar, seja por não existir ou por não lembrarem em que loja do Brás a peça foi comprada, é desnecessário informar simplesmente que ela foi comprada no Brás, por exemplo. Não acrescenta grande coisa para ninguém, além de beirar o deboche. Publicar uma legenda que diz “A saia que a Edileuza comprou na lojinha de uma vizinha na Zona Leste já veio com a faixa”, se não é deboche, é pura incompetência”.

Bom, para mim, moda de rua nunca é um serviço como um editorial, até porque ele tem camadas de antropologia, sociologia e história que estão acima da idéia de prestadora de serviço – não que um editorial não tenha, mas de maneira muito, mas muito mais tênue. O que está em jogo, na minha opinião, na moda de rua é como se constrói um estilo, então seria desnescessário dizer a marca ou o local que comprou tal peça porque o que importa é como ela conjugou as peças pra montar um look só seu. Não existe nada mais sem estilo que as fashion victims, o estilo deve procurar refletir a individualidade, então cada um no seu quadrado, cada um com seu estilo. Seria contra meu conceito de moda de rua, se a pessoa ver uma peça e fizer igual a foto – apesar de poder, é claro. Moda de rua é muito mais como um caderno inspiracional, pra nos motivar a nos vestir como um reflexo do que somos ou do que queremos ser. No caso, o fato de colocar a loja da vizinha na legenda foi muito mais uma estratégia pra demonstrar que não precisa comprar na Daslu ou na Oscar Freire pra fazer um bom look, sim foi um deboche, mas não com Edileuza.
O que vocês acham?