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POR UM GLAMOUR RETARDADO

Esse clipe de Nujabes, o apelido do dj japonês Jun Seba, produtor de hip-hop que em geral sintetiza sua rimas faladas com o “cool jazz” de Miles Davis ou de Yusef Lateef, é muito inspirador.
Imagens de pessoas de corpos distintos em momentos bizarros, chegando a uma certa demência parece clarear porque as imagens de moda estão tão cansadas. Não tem ali o tédio conformista ou o deslumbre automático que nos acostumamos ao folhear muitas revistas de moda. Queremos ver quem é o próximo personagem, nos afeiçoamos por uns, seja a criança ou o velhinho, pode ser a menina zarôlha ou o gordo com corpo de lutador de sumô. Eles poderiam nos suscitar o riso e até desprezo, mas essas imagens nos colam a retina ao vídeo, meio encantados, meio observadores. Além disso existe uma certa atitude que poderia ser agressiva, mas nos deixa feliz, quase cômica, mas nunca debochada de nossa parte.
Para bem longe de imagens clichês produzidas ad infinitum no mundo da moda, existe uma liberdade ali, naqueles 4’38”, que transforma o grotesco em sublime como as melhores fotos de Diane Arbus ou quando Helmut Newton trilha terrenos surreais. Traz uma certa candura e inocência, como um ato primeiro.
No fim do clipe, com a japonesa vestindo um maiô da Mizuno, bem que poderia ser uma publicidade da marca, mas não é. É apenas a totalização do grotesco em encantamento!

Os mestres: acima Diane Arbus e abaixo Helmut Newton: o sublime grotesco

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AINDA IMAGEM (BALENCIAGA E BALMAIN)

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Balenciaga verão 2010

Como disse no post anterior, uma imagem forte, quando se forma, é sempre imutável. Pense na Balenciaga que, quando aconteceu sua retomada com o estilista Nicolas Ghesquière, em algumas coleções o francês teve a audácia de literalmente copiar modelos de antigas coleções do próprio Cristóbal (falou-se muito na época nos “arquivos” que estavam sendo pesquisados). Mas também com muito cuidado ele insere sua visão de streetwear (como aconteceu na fantástica coleção de inverno 2007 e agora no verão 2010), mas nunca deixando a imagem que temos de Balenciaga de lado: arquitetura e exclusividade. Mesmo sua streetwear daquele inverno, da qual se mitificou que ele inventou a moda dos lenços palestinos, era caríssima, para muito poucos.

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Balmain verão 2010

Mas e a Balmain? Acho que ela coloca outro ponto importante para pensarmos na imagem. É interessante essa febre de interesse pela marca. Como disse, acho que são roupas de puta de luxo, tanto que visualmente a coleção anterior a essa desfilada em Paris tinha peças muito semelhantes (dadas às devidas proporções) às expostas há anos na Ropahara, famosa loja para meninas de programa na rua Augusta. Pois bem, o que a imagem da Balmain de hoje reflete na Balmain do passado? Temos que lembrar que a Balmain das décadas de 40, 50 e 60 era literalmente uma grife para mulheres sofisticadas, com um certo decoro, o máximo de sexy encontrava-se nos vestidos tomara-que-caia (sempre bem acompanhados, nas grandes festas, de requintados casacos e sua marca registra – a estola – que seriam prontamente retirados na entrada e dariam um certo efeito) mas sem os arroubos quase eróticos como as peças que vemos nas criações de Christophe Decarnin.

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Katherine Hepburn de Balmain

Basta olhar com atenção a foto acima com a atriz Katherine Hepburn para entendermos que o sexy não estava profundamente enraizado na Balmain de ontem como o é na de hoje. Também é clara e lógica a escolha de Oscar de la Renta com seus vestidos de festa para desenhar durante um período os modelos da marca depois da retirada de Pierre Balmain.
Podemos pensar que talvez a Balmain seja uma marca que sua imagem é colar-se à época que vive. No conservadorismo dos anos 50, a marca tinha as estolas para cobrir seus tomara-que-caia, no periguete final dos anos 2000, a marca vende sexo.

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Balmain verão 2010

Mas apesar de imutável, a imagem não é perpétua, ela pode ser esquecida, morrer na memória coletiva que a consolidou ou ainda, depois de um longo período [a questão temporal é importantíssima] ressurgir outra. É mais por esse caminho que acredito que a imagem hoje da Balmain é outra, a Balmain antiga morreu, só restou a carcaça, isto é, o nome.

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à esquerda Balmain e à direita Balenciaga, diferentes imagens

A IMAGEM

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foto de Mara Gama

Fala-se muito em imagem de moda e da construção de uma imagem de moda. Realmente o trabalho de erguer uma imagem sólida de moda não é tarefa fácil e pode levar anos, às vezes décadas se a personalidade não se impor de imediato. No caso das grifes, os franceses usam o termo marca forte, para afirmarem que maisons como Chanel ou Dior, tem uma imagem poderosa, identificável e firme. Elas tem que ter uma imagem clara e para que isso aconteça é necessário depois de alcançada essa imagem um certo grau de imobilidade. Identificamos a Chanel ou a Neon por certo traços característicos que nunca mudam, ou quando mudam é para reafirmar a importância dos traços negados. Chanel sem tailleur de tweed é possível desde que o substituto equivala a mesma imagem que o tweed e o tailleur juntos produzem para a imagem da Chanel: a idéia de uma mulher independente em primeiro lugar, e depois em segundo plano a imagem da mulher que trabalha, mas ao mesmo tempo consegue ser sofisticada. Todos esses elementos: liberação, independência e glamour formam o ícone Chanel.
Posto isso, podemos falar que essa é a essência de uma imagem forte, no geral. Ela é imutável pois se ela muda não pertence mais a esse signo. Aí você pode se perguntar: e quem muda o tempo todo como a Madonna, ela não tem imagem? Sim, a imagem dela é mudar o tempo todo, continua sendo uma imagem imutável. O chamado motor imóvel, é assim que a imagem funciona para conseguir sua fixação no nosso imaginário.
Uma imagem forte, e isso vale também pra imagem de moda, precisa de uma personalidade com seus arquétipos para se tornar em algo realmente identificável, senão ela é tão pueril como um flash, talvez menos.
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O que faz a foto do cartaz do Sonic Youth com crianças ser uma imagem tão representativa da banda assim como o de Marc Jacobs com a Miss Piggy?

SOBRE A EDIÇÃO DAS IMAGENS DOS DESFILES

Penso muito como na moda – e não só nela– caimos em fórmulas preguiçosas e esquemáticas como verdades prontas sem questioná-las. Tentei discorrer sobre isso no post sobre a fotografia de passarela. Para mim não ter detalhes muitas vezes muito importante das roupas e mais – não ter quase fotos das costas das roupas é um exemplo de como fotógrafos e editores se acomodaram em uma fórmula e uma visão de moda engessado. Como disse, muitas vezes a parte importante ou o complemento do que vemos na frente se fecha nas costas, mas os responsáveis pelas escolhas das fotos de moda parecem ignorar esse quesito.
Outro vício e que me dá uma agonia tremenda é ver fotos de desfiles empilhadas de qualquer forma tanto em sites, revistas e jornais. O mesmo acontece quando um editor quer mostrar uma tendência, eles nos abarrota e nos entupe de imagens sem o menor discernimento como que gritassem para nós: Olha quantas marcas fizeram tal silhueta! E isso ocorre sistematicamente em quase todas as publicações nacionais – seja ela virtual ou impressa – como esse essa fosse a regra e a maneira de se fazer.
Fala-se tanto que moda é imagem, ou que todos os fashionistas tem interesse por artes plásticas, mas a mínima relação entre volume, forma, cor não é sequer sugerida quando vemos uma edição de fotos de um desfile ou de uma tendência. Coloca-se uma série de fotos (que para o meu olhar parecem mais jogadas) e pronto, sem o menor cuidado para que elas façam uma composição de uma página ficar visualmente interessante. Pensar uma página, – seja de jornal, revista ou virtual – como um quadro, essa é a dica. Esse é o único momento que deveríamos nos curvar ao conhecimento de milênios das artes plásticas (ficar babando em peformance tosca de arte contemporânea é muito de quinta, quinto plano do que é exatamente ter conhecimento das artes visuais).
Escrevo isso porque mais uma Caras Moda está nas bancas, a de verão 2010, e ela é exatamente a exceção que comprova a regra. E folheando, me veio conversas que tive com Oliveros e Jorge Wakabara sobre o processo de edição de Regina Guerreiro. Lá existe lição de edição e licão de composição – recomendaria a todos os editores e todos que editam fotos de desfile uma olhada atenta. Percebe-se nas lições de Regina que amontoar fotos não conta nada, é preciso contar algo, que os modelos tem que estar em certas posições pois assim compõem a página melhor, tem equilibrio de cores.
Não podemos criticar uma imagem se somos ou aparentamos ser totalmente analfabetos visualmente. Existe um processo de educação do olhar que o leitor poderá captar melhor se bem feita.
Abaixo 3 imagens da Caras de Inverno 2009 [fotos super caseiras que tirei só pra ilustrar e dar uma ideia visual do que comentei acima]. Vejam como a edição cuida da passagem de cores, da tessituras dos tecidos, do jogo de volumes de cada página e da composição das duas páginas abertas e tem até um look de costas [para a minha felicidade]
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POR QUE TANTA SEMANA DE MODA NO MUNDO?

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Depois de conhecer a semana de moda de prêt-à-porter em Paris, voltei muito inquieto por constatar que a Moda – o sistema, a lógica e a realidade – pouco se encaixavam naquilo tudo que via. Temos uma sensação mentirosa – fruto da época que os desfiles de couture difundiam realmente o que deveria ser usado por todo mundo – que o que vemos em uma semana de moda realmente dialoga direto com a realidade de moda e que a influencia. Diálogo existe, mas em outra escala.
Hoje uma semana de moda tem mais um sentido publicitário de divulgar outros assuntos além-moda. E ela entrou no calendário cultural de diversas cidades – como existe semana de moda no mundo! – muito mais pelo caráter marqueteiro do que pela valorização da moda. Mesmo a moda ganhando um certo status cultural no mundo de hoje, ainda é vista como assunto de segundo ou terceiro escalão.
Claro que como disse o crítico literário Alcir Pécora para Alcino Leite: “A moda hoje é o que foi a música nos anos 60”. E pode parecer exagerado mas, no sentido publicitário, faz todo o sentido. O alcance que a moda tem de projeção de algo que está fora dela hoje foi o mesmo que a música pop teve nos anos 60. Então usa-se a moda para difundir objetos que estão em sua órbita como comportamento, design, luxo.
Enfim, o que quero dizer é que numa semana de moda existe muito pouca moda. Pareço cada dia entender melhor o que Mario Mendes um dia me disse que a moda realmente fazia todo o sentido nos desfiles de alta-costura.
Quando algo como a calça skinny ou o lenço palestino realmente ganham as ruas através da passarela – sim, o caso do lenço palestino é polêmico – parece que os estilistas marcaram um gol quase no fim do segundo tempo, mas no fundo foi a indústria que levemente se impôs. Talvez não seja à toa que uma estilista do porte de Clô Orozco diz hoje preferir ir no Premiere Vision – uma das mais importantes feiras de tecido do mundo – a assistir os desfiles da temporada.

PS: Exatamente por algumas dessas razões, a outra é de tentar historicizar minimamente uma marca que ainda durante esse mês e o outro escreverei no blog resenhas de coleções que desfilaram na SPFW. Quero me debruçar com mais prudência, sem o imediatismo do jornalismo e os holofotes de um espetáculo que a moda finge ser a atriz principal como fiz com um texto que muito prazer me deu, pois foi no solo do tempo e do passar do tempo que finalmente entendi a coleção de verão 2009 de Herchcovitch às portas de iniciar o seu inverno.

CASA DE CRIADORES: PROBLEMAS DE NARRATIVA

Tive uma reacão bipolar quando li os depoimentos de André Hidalgo, o criador da Casa dos Criadores, sobre uma nova fase de sua semana de moda que irá ter uma visão mais comercial. Achei interessante ter essa proposta de pensar no produto e na sua comercialização já em desfiles de gente que ainda não tem uma estrutura de vendas muito forte. Em compensação também achei estranho um evento de jovens estilistas já ficar tão mercantilizado, afinal o que se espera de novos criadores é ousadia experimentalismo e novidades. E digamos que uma visão comercial disso pode num primeiro momento podar toda essa energia.
Demorei pra escrever algo sobre a Casa de Criadores, que é um evento que tenho muito carinho, pois fiquei muito decepcionado nessa edição diferentemente da maioria dos fashionistas que salientaram uma certa profissionalização. Não consigo ver essa tal profissionalização por um quesito básico. Muitos estilistas que apresentaram coleções nessa edição erram no be-a-bá. Com raras exceções como as Gêmeas, João Pimenta e Walério Araújo, muitas marcas não conseguiram narrar seus temas e desejos, ficou tudi cofusi!
Mesmo se a proposta é não narrar, a não narração é uma forma de narrativa então tem que ser pensado com muito cuidado a edição de um desfile. Looks desnecessários era o de menos, mas quase nenhuma história se fechava visualmente, bastava ficar atento na fila final das modelos pra perceber de cara o que digo. Quando não se consegue narrar fica quase impossível construir uma imagem, a função maior de um desfile, então muitas vezes parecia que se via extratos de filmes ou colagens dadaístas sem a atitude do movimento.
Prefiro não citar nomes nem colocar imagens, por uma delicadeza às pessoas que estão começando e tem todo o direito de errar, mas espero que esse grande lapso seja corrigido na próxima edição.

CASA DE CRIADORES: QUAL É A SUA IMAGEM?

Um evento como a Semana de Moda Casa dos Criadores é sempre instigante, pois mais do que surgir uma imagem de uma marca ou de uma coleção, é possível ver surgir “A” imagem de um estilista ou o embrião daquilo que será depois chamado pelos fashionistas como o tal do DNA da marca.

Então é fascinante perceber que a Ash, em sua segunda coleção para o evento, já traz sinais que parecem moldar a sua personalidade fashion. O confronto do grafite de cores abertas com a alfaiataria de cores mais fechadas é uma das chaves e podemos prever boas surpresas nesse embate para esta e outras coleções. E nessa coleção, em especial, teve também a bela luta animal entre a luz (xadrezes e fluo) e a sombra (as lavagens nos jeans).

Se Gustavo Silvestre fez uma belíssima performance na edição do hotel Renaissence na Casa de Criadores de 2006, dessa vez, foi a atitude de abandono da passarela que fez os nossos olhares abandonarem suas tão belas construções. Com certeza, um dos trabalhos mais sensíveis de Silvestre, mas que a forma de apresentação prejudicou e muito a apreciação. Aquele rebuscamento e delicadeza das roupas não combinavam com o empurra- empurra que se tornou a entrada da sala e depois a própria visita aos modelos. E esse pode ser um caso fatal para a imagem de uma marca.

Assim como Thiago Marcon que sabe do riscado, faz bem feito e com bom acabamento as suas peças, mas as estampas do Maurício de Souza mesmo em uma escala menor, as infantilizam. Será essa a proposta de Thiago e seu DNA? Cada desfile dele podemos perceber que desenho ele pretende para a sua marca. Todas as suas coleções apresentadas até aqui, a imagem de sua mulher era de alguém muitíssimo jovem, parece que agora ela cresceu um pouco. Como ela lidará com essas estampas nas próximas coleções?

A Diva e a imagem que ficou dela é de uma confusão de sentidos. Não entendi mesmo, até porque não conhecia nada sobre essa marca e mesmo nesse rococó dus infernus, consegui gostar de inúmeras peças. Uma boa limpeza conceitual melhoria muito o desfile. Muitas vezes o excesso significa insegurança.

O que não é o caso de Walério Araújo onde o excesso leva ao palácio da sabedoria e foi nesse exato local que ele nos transportou durante o tempo de seu desfile. Tinha sabedoria ao mixar o carnaval de Veneza com o brasileiro, elegância e sexo, duplas personalidades com seus trompe l’oiel. E mais que todos, o nosso Galliano aguarda sempre o melhor para o final. Ao entrar no ritmo e na cadência de duas escandalosas passistas de escola de samba, Walério novamente leva o público ao delírio. Ele sabe que, assim como o estilista inglês, boa parte da imagem de sua marca, está concentrada nessa entrada final. E nunca nos decepciona.  

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O Oliveros fez uma cobertura luxo do primerio dia. Tipo falou de quem foi no primeiro dia, fez entrevista com o Guil da Ash e com o Walério, e fez crítica dos desfiles das marcas do Gustavo Silvestre, Ash e Walério Araújo.

Já as meninas da Oficina de Estilo falaram de looks usáveis na vida real que apareceram no primeiro dia direto do backstage.

O Luigi fez críticas e comentários sobre cada marca que desfilou no primeiro dia (Ash, Thiago Marcon, Gustavo Silvestre e Walério Araújo) além de comentar a incrível exposição de fotos.

E eu peço a você, coleguinha fashionista que acompanha esse humilde blog, que participe da nossa enquete.