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MODA DE RUA E O LENÇO PALESTINO

A mitificação na moda, ou o que muitos adoram chamar de falta de informação COMPLETA é um problema que todos sofremos na moda – revistas, jornais, sites -, inclusive esse blogueiro. Mas contra isso é importante o estudo, as fontes e o olhar INDEPENDENTE e apurado.

Vendo o GNT Fashion dessa semana, Mariana Weickert faz uma boa matéria sobre os lenços palestinos. Apesar de estarem já pra fora dos esquadros dos fashionistas que os consideram last season – assim como a calça skinny -, o lenço ainda domina as ruas do país, então a pauta tinha muita pertinência. Não só por entrevistar Giselle Nasser que fez um excelente apanhando histórico do acessório, usado na cabeça pelos camponeses da Palestina pra se protegerem do sol e depois como símbolo da luta pela libertação de seu povo, que continua sobre às ordens dos israelenses até hoje. Nem também por escutar Alexandre Herchcovitch que em sua última excelente coleção masculina fez uma releitura desses lenços em forma de bandeiras de países em conflito e o mais fantástico: reinvindicando o uso do lenço pra ele, judeu de formação e religião.

Balenciaga: étnico e street
Mas o x da questão ou a mistificação foi reinvindicar pra Balenciaga na matéria (coisa que muitos fashionistas já cometeram esse mesmo erro) e sua mais importante coleção de todos os tempos – sob o comando de Ghesquière – na minha opinião (a coleção que mixou etnia e cultura de rua legitimando a etnia não como exotismo exatamente por o estilista francês enxergar o streetwear como algo maior que a moda de rua de Londres ou Nova York), o fato dos lenços terem ganhado as ruas.
Quem vai a Europa, principalmente nos países latinos como Espanha, Itália e França, enxerga desde os anos 80 esses lenços nos pescoços dos jovens e não na cabeça exatamente como releu a grife. Primeiro era item básico de todo universitário, estudantes de esquerda e intelectuais, algo que digamos que na Europa tem uma certa representação. E foi artigo dos neo-punks, skatistas e muitas tribos jovens. Nicolas Ghesquière e sua genial styling Marie-Amelié Suavé apenas olharam para as ruas e pegaram um acessório que para o parisiense comum já era um clássico.
Enfim, era um objeto criado nas ruas urbanas de algumas cidades da Europa que ganhou as passarelas e voltou pras ruas. E não um objeto das passarelas que ganhou as ruas. E se pensarmos bem, com a coleção de Alexandre para o verão 2009, ele volta pras passarelas novamente.

Ao colocar um ícone político como item fashion podemos pensar que o seu conteúdo foi esvaziado – até porque a atitude de mitificação por parte do mundo fashion e dos que seguem tendências contribuem para esse esvaziamento – mas porém com certeza nessa operação podemos perceber uma mudança. Tirou-se o mofo desse ícone e o revitalizou em outro status sem perder de todo sua característica simbólica a tornando nova. É algo a se pensar o fato de um judeu querer ter um lenço que antes lhe parecia ofensivo.

Alexandre masculino: lenços da paz

POR UMA CRÍTICA DE MODA

O mundo da moda reclama muito da falta de uma verdadeira crítica de moda ou de um esforço de um pensamento crítico no Brasil. Tendo a pensar que algumas editoras e editores de moda se esforçam nessa construção, mas muitas vezes são impedidos de realizar algo mais profundo por culpa de diversos mecanismos.

Um deles é que os meios que representam (revistas e jornais) têm parte de sua receita vinda da publicidade de inúmeras das possíveis marcas criticadas. Outro ponto que também é um agravante faz parte de uma certa diplomacia que os editores fazem com assessorias e estilistas para a entrada nos desfiles, pois diferentemente das pessoas de fora da moda, sabemos da importância não só de assistir a coleção de uma marca como estar bem posicionada para poder perceber detalhes que podem construir uma certa visão. Essa diplomacia acaba sendo crucial para o acesso ao backstage, outro lugar importante para compreender uma coleção.

Acho engraçado que todo mundo acha compreensível se um crítico de música reclama do áudio de um show ou mesmo da visibilidade da performance do artista caso ele fique sentado em frente a uma pilastra, mas com a moda, parece frescura querermos estar na sala de desfile ou mesmo em um lugar que informações igualmente importantes como acessórios e make up (esse cada vez mais relevante) não possam ser percebidos. Mas isso será assunto para outro post.

Voltando ao povo da moda, crítica não significa falar mal. Não considero Regina Guerreiro uma pessoa que pensa moda porque fala ”mal” dos desfiles, mas sim porque tem um pensamento e uma visão de moda e é fiel a ele. Tão fiel que é capaz de cometer um grave delito para os fashionistas: criticar negativamente uma coleção em público (algo que sabemos é muito praticado a boca miúda). Talvez aí resida sua superioridade e a atenção que os fashionistas, e não só eles, têm para com a editora. Falo isso porque acredito que hoje, nesse momento, os sites e mais ainda os blogs seriam os lugares ideais para se fomentar um pensamento de moda, ou vários. 

Do mundinho

Um outro problema é que todos na moda se conhecem ou sabem mais ou menos que são ou ouviram falar, etc,etc. O primeiro passo é entender que os laços de amizade não devem ser escondidos, mas sim amenizados principalmente se for uma crítica em choque com o que foi visto na passarela ou no editorial.

Existe um paradoxo, os estilistas e criadores de moda sempre reclamam dessa falta de crítica, mas entram em pequenas rusgas com os editores e jornalistas quando a crítica não os favorece. E isso é generalizado, já vi estilista com carreira consolidada chateado (no sentido infantilóide) com a crítica negativa de uma editora. Ao que me parece vivemos um momento que ainda eles enxergam a crítica e os editores como aduladores de seus egos. Isso não é bom nem pra moda nem pra um pensamento crítico.

Exemplifico com algo que está causando polêmica aqui no meu blog: A nova campanha de Giselle Nasser.

Antes de qualquer coisa, adoro muito a Giselle e amei sua coleção e sobre os fotógrafos, por ignorância minha, assumo que não conheço o trabalho da dupla, por isso nenhum pré-julgamento.

Nota: No futuro, com uma crítica mais acentuada e consolidada, não precisaremos mais dos parágrafos acima, pois entenderão, principalmente os leitores, que a questão não é pessoal.

Quando disse que não gostei da campanha e que acredito que erraram no conceito da coleção, foi baseado na minha primeira crítica ao desfile de Giselle, que, aliás, coloquei o link. Lá estava a base do meu pensamento sobre a coleção ao qual não está muito distante do que a própria estilista pensava pois conversamos depois sobre o que escrevi.

Mas o que pra mim não fez sentido: 

1) A experiência religiosa ou o xamanismo visto como iluminação: o que pra mim não caberia fotos tão escuras, mesmo no que barrocamente está iluminado. Penso que talvez se o iluminado estivesse estourado como a luz do transe faria mais sentido pra mim. Era uma coleção iluminada, de cores, era felicidade, a felicidade do absoluto.

2) Não rolou o foco privilegiando o rosto da menina em detrimento à roupa ou estampas que eram de uma psicodelia formal muito rica, ou os debruns como limites. O rosto dela, apesar de bela, me diz muito pouco sobre a imagem da coleção.

3) O esforço de Giselle de mudar sua imagem de estilista correta dos vestidos de festa para algo mais livre e solto como ocorreu no desfile com a sua própria participação, não corresponde aos enquadramentos extremamente corretos, quase caretas de tão acertados formalmente. Uma anarquia formal e de enquadramento aqui seria inesperada e benvinda. 

Não acho incorreto o escuro, a foto privilegiar mais a atitude do que a roupa, fazer enquadramentos que chamei de caretas e corretos, (mas não no sentido pejorativo, por favor), mas acho que vão na contra mão da coleção da estilista. Por isso me desagradou. 

Por outro lado, alguns fashionistas como o Romeu e a Fernanda Resende enxergaram a coleção muito pela imagem da vocalista da banda Bat for Lashes, Natasha Khan. E para eles também não rolou. 

As defesas da campanha me pareceram mais emocionais e com o traquejo do desafio tecnológico tipo na internet, a definição, o papel…Tudo vai melhorar. Mas afinal pergunto para os que gostaram da campanha e para os que discordam de minha visão, o que a campanha tem em relação a coleção e a imagem criada na passarela? Ou isso não tem importância nenhuma, são coisas diferentes? 

O debate é sempre bom para críticos e criadores.  

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Alexandre, que eu considero grande, fez uma das campanhas mais feias que eu já presenciei e um dia eu explico o porquê.

CAMPANHA DE INVERNO DE GISELLE NASSER ERRA CONCEITO

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Graças a Deus eu estudei cinema porque Paulo Emílio via Jean Claude e Maria Rita me descolonizou e não é porque os fotógrafos são bombados de Nova York significa que eles fizeram a coisa certa.

Eu simplesmente não gostei nada das fotos da campanha. É uma coleção luminosa como bem escrevi, cheia de detalhes, debruns, vivos e os fotógrafos Esther Varella e Gil Inoue Sardenberg, que assinam Stella & Inoue fizerma algo dark, escuro que esconde detalhes preciosos da roupa. Dessa vez, ficou devendo. giselle_nasser__campanha_inv_08_2_b.jpg

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SPFW: GISELLE NASSER TRANSCENDE SEU “ROMANTISMO”

Coragem de mudar para permanecer a mesma na essência.

Não é de hoje que o rótulo “romantismo” que muitos imprimem para o DNA da marca da estilista a incomoda. Não que ela o negue, muito pelo contrário, mas já me confidenciou que a limita, a deixa prisioneira. Uma mulher doce e frágil é tudo que os editores de moda esperam dela. E nada mais.

Mostrar que pode ir para outros caminhos foi o grande passo de Giselle nessa temporada. E ela o fez de maneira sensível e nada programática.

A estilista vasculhou no xamanismo, rituais que freqüenta, uma outra posição para ela e por conseqüência para as suas criações.

No xamanismo, a busca da essência, através dos psicotrópicos, é feita através de uma orientação guiada, pois se pode entrar num terreno nebuloso (de loucura e desespero), uma espécie de precipício mental se não acontecer tal orientação, tamanho o poder das alucinações e do transe.

Nessa viagem, seus debruns e seus rolotês são seus guias, sua orientação. São eles que avisam o limite da roupa, até onde ela pode ir, onde não deve passar. Eles dão o limite certo da sensualidade e da força dessa mulher que também existe em Giselle. Com a liberdade dos hippies, no seu caso, super chiques, e suas estampas de cashemire, ela constrói uma imagem além da psicodélica.

Sua roupa então desprende-se do corpo cem estado de transe. E assim revela-se a mesma alma de Giselle, agora nova para quem não a conhecia.

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SPFW: DUAS FOTOS, UMA IMAGEM (GISELLE NASSER)

Cabeça de alce, pança (?) magra de estilista, espírito transcendente!

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