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A ORGANICIDADE NA CRIAÇÃO BRASILEIRA

Alguns teóricos gostam de apontar uma certa dificuldade da forma na arte feita no Brasil, seja nas artes plásticas, seja no cinema, ou na moda. Essa dificuldade muito advinda de uma situação de colonialismo cultural (ainda se usa esse termo?) e como conseqüência a expansão da cópia.

Em cinema, essa discussão, acredito, esteve muito avançada a ponto de Paulo Emílio Salles Gomes, já na década de 1960, admitir que a nossa dificuldade e nosso erro na hora de copiar é que nos dava uma certa identidade.

Mas o que me chama muito atenção ao meu olhar é uma certa dificuldade do rigor em função daquilo que chamo de organicidade da forma.

Em artes plásticas o exemplo é claro, o esforço da arte concreta ao exercício de uma forma rígida não conseguiu aqui o rigor que em outros lugares, logo vieram os neo-concretistas pedindo um certo relaxamento dos dogmas. O mesmo são as curvas de Niemeyer em relação a escola modernista européia de arquitetura.

Esse embate entre a lição do Ocidente, o racionalismo e uma certa organicidade na forma deixando até ela perto da imperfeição faz para mim um grande traço da criação brasileira em todas as áreas.

Acredito que não precisamos aval do estrangeiro, mas nesse caso, a Vogue Japão olhou para a criação no país da mesma maneira como eu acredito que ela é mais contundente e verdadeira.

Basta lembrar da quebra paradoxal da bossa nova , ou sua organicidade em relação tanto à cadência do jazz como do samba. E para falarmos do presente: Gisele com seu nariz e curvas é uma das provas vivas do que escrevo. 

PRADA: SOU FEIA, MAS TÔ NA MODA!

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Já é lugar comum dizer que a Prada é feia, que a roupa é estranha e que ela sempre aponta para o novo.

Mas uma chave para entender a Prada e seu afeto com o novo é exatamente a leitura da marca de dois elementos contemporâneos: mixagem e antítese.

Suas coleções sempre partem do princípio que os opostos pode conviver (antítese) num mesmo terreno (mixagem).

Essa ideologia já foi trabalhada por diversos movimentos como o agora tão falado tropicalismo ao unir eletrônico e acústico, experimentalismo e comercialismo assim como a bossa-nova que fundiu o jazz com o samba. Enfim, é um fenômeno bem contemporâneo, que muitos identificam com a chegada da pós-modernidade que em arquitetura trouxe diferentes estilos para uma mesma construção.

Mas voltando a dona Miuccia, o que é mesmo certeiro é que seus opostos são fundidos em uma imagem síntese que coloca contrários em harmonia por uma técnica de edição e mixagem. A imgem da Prada é sempre da antítese e da mixagem.

Então temos uma coleção de verão 2008 que continua por esse mesmo trabalho e que paradoxalmente é sempre visto como novo.

Ela cria formas geométricas (toda a gama de xadrezes) mas também formas orgânicas (o art nouveau em estampas), a modelagem molenga de seus “pijamas” contrapõem-se às armações de seus “quase new looks” de cintura marcada, o fosco de algumas estampas despertam com o brilho de algumas saias quase lisas, o Oriente (nas peças que remetem a quimonos) dialoga com o Ocidente (nos looks que lembram os anos 60-70 no quesito masculino-feminino). E a leveza e docilidade das peças recebem o peso da maquiagem profunda e marcada nos olhos.

orgânicos X geométricos

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forma ajustada e confortável X forma armada e com cintura marcada

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estampa fosca X brilho dourado

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look que remete ao quimono e á pnitura oriental x masculino-feminino ocidental da décadas de 60 e 70

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a suavidade do vestido X a maquiagem carregada nos olhos

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Por fim, essa ideologia da mixagem e da antítese está no cerne da criação da Prada, tanto que o feio sempre vai nos parecer belo depois de descortinado pela marca.

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a mais bela Isabeli consegue ficar feia no backstage da Prada