Arquivo da categoria: gêneros na moda

ARMISTÍCIO ENTRE OS GÊNEROS

Depois de tanta guerra dos sexos, nada como pular comemorando a paz…

foto: Philippe Halsman

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SPFW – GUERREANDO COM A MODA MASCULINA

Em tempos que o Exército prende soldados homossexuais e precisa a todo custo provar sua virilidade, nada como o vento dessa bandeira que Alexandre Herchcovitch levanta em sua coleção masculina para o verão 2009.
Ao entrar seu primeiro look, um simulado de camuflagem, torci o nariz e pensei: “Ai não, um militarismo equivocado assim como seu caubói pós novela de dois anos atrás sobre esse universo que nem vintage dá pra chamar”.

Mas as bombas de seu universo me atingiram em cheio. Ao olhar para a roupa de povos em conflitos e muito mais, roupas que trazem um certo orientalismo, ele dá um tiro certeiro na moda masculina, que logicamente é filha do ocidente macho branco e por isso está munida de todos os preconceitos e todos os entraves para realmente colocar os homens na roda da moda.

fotos Charles Naseh – site Chic
O fato de aparecer os saiotes pregueados, uma faixa acinturada, estampas muito coloridas e vivas (referências orientais) trazem à tona o que muitos perguntaram ao estilista sobre seu homem estar mais feminino. Focado em sua inspiração, os povos em conflitos, Alexandre negou essa possibilidade como palestinos e israelenses negam agredir-se mutuamente e acabou não percebendo que a moda masculina é sua verdadeira zona de conflito, e em certo sentido seu batalhão está na avant-garde desse problema crucial aos homens: ter uma identidade.
A discussão de gênero é antiga no pensamento de moda de Herchcovitch, mas estava adormecida faz algumas temporadas. E fazê-la ressurgir de maneira tão ideologizada e em um momento tão cruccial como o que vivemos hoje, faz com que declaremos guerra contra a caretice da moda masculina e seu pensamento obtuso.

WALTER VON BEIRENDONCK VERÃO 2008

Enquanto se discute o masculino na moda feminina, Walter von Bierendonck pega a contramão e recoloca o feminino na moda masculina. Desde Jean Paul Gaultier e suas saias na década de 80 essa discussão sempre esbarra em uma certa timidez nas possibilidades desse diálogo. e não tem sido diferente com o estilista belga mas ele insiste no assunto.

Walter já debate essa questão faz algum tempo e sua coleção de verão 2000 “Gender?” era exatamente sobre isso: os gêneros na moda.Assim como o corset, criado por Mr. Pearl, ou um casaco que se abre em A, a silhueta masculina feminiliza-se, mas o mais interessante é que também nos remete aos avatares do Seconf Life. Será um futuro tão impossível assim?

Não é a primeira vez que o corset entra na sua coleção, mas agora ele ganha uma conotação mais sexual. Bem ao gosto do título da coleção: “Sex Clown”.Nesse momento entra outra linguagem que o estilista adora trabalhar: o fetichismo. A borracha se contrapõe assim como o corset com o lúdico das cores e de algumas estampas. Não tem conversa, o sexo está na cabeça de todos.

Os objetos de cabeça, construídos em papel machê pelo chapeleiro inglês Stephen Jones fazem referências tanto aos animais que povoam o universo do estilista como ao falo, presente também em algumas aplicações nas alfaiatarias.

Aliás, as suas construções em alfaiataria criam certas dimensões mais abertas que eu chamo de asa em alusão a ultima coleção de Karlla Girotto no São Paulo Fashion Week. Nela, ela representava a alfaiataria e a roupa masculina como algo racional, cartesiano e preso ao chão, enquanto a moulage,.mais instintiva, era o arquétipo da roupa feminina e estava solta no ar, moldada pelo vento. Nem preciso comentar que pra mim foi o grande momento daquela temporada.

Voltando ao belga, sua alfaiataria parecem ter asas, mas de máquinas, respeitando ainda o princípio cartesiano da alfaiataria, mas mesmo assim precisando tomar certos e outros ares.

Outro fator interessante é a variedade de corpos escalados para apresentar a coleção que aconteceu no dia 1 de julho, no clube Bataclan em Paris. Desde a estrutura mais slim a mais forte e musculosa, algo pressupõem que não existe um só modelo para aquelas roupas.

Em uma outra escala, continua na sua coleção a forte presença étnica com forte linguagem urbana, fator que pode ser melhor mensurado agora que a moda ”oficial” reverenciou a leitura (excelente) de Nicolas Ghesquiere para a Balenciaga desse étnico urbano que Walter nos apresenta há anos.O étnico urbano é com certeza a possibilidade moderna de incorporar outras culturas na nossa sem uma visão folclórica.

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Pos post: Walter criou avatares da coleção que estão agora no Second Life.

Eu copio mesmo o bordão do velho cineasta: “Minha estética é minha ética”. Mas para aqueles que se preocupam com o mercado, Walter escreve:

“Don’t be afraid, in the end there is always a simple T-shirt telling the same story”.

Crítica e autocrítica!