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CASA DE CRIADORES – GÊMEAS


Com certeza não existe data nem lugar mais apropriado para a coleção de inverno 2010 das Gêmeas: no meio do Parque da Luz, em São Paulo, nesse domingo, 22. Até porque não existe nada mais lúdico no imaginário popular do que um domingo no parque.
E lúdico é a chave central para entender o encantador desfile da marca. Entre os jogos e o sonho podemos abrir uma porta para a infância da grife e perceber o quanto elas dialogam –faz tempo – com a estética dos anos 1920 e como os anos loucos e toda liberação que a mulher ganhou naquele período é fundamental na construção da marca dessas duas jovens estilistas.
As formas soltas, com a silhueta mais fluida e a cintura na altura do quadril – estilo anos 1920 – dominaram os looks da coleção assim como os belos acessórios (brincos) criados por Christopher que lembram lustres inspirados no art nouveau – movimento estético que durou do final do século 19 até as duas primeiras décadas do século 20.
Também de caráter retrô são os bordados aplicados nos primeiros looks em sarja, lamê, tule, lã e lã canelada, nas cores preto, off –white, azul, creme e doce de leite. Mas engana-se quem acreditou que, com os bordados de coelhinhos, casinhas, gatinhos e até um body todo de ursinhos, o desfile rumava para um lado adocicado. A marca Gêmeas sempre construiu roupas para mulheres femininas porém fortes.
Por isso, na segunda parte do desfile ressalta-se a parte geométrica que até então aparecia apenas como pano de fundo para essa certa docilidade infantil dos bordados. Nela, um elemento importante domina a cena, a camurça, exatamente o material que é feito polindo a pele interna de porcos, cabras e bezerros. Enfim, a camurça que apenas surge quando polido o interior da pele animal ajuda a trazer para primeiro plano as formas geométricas que estavam interiorizadas pela força dos bordados. E com elas, as formas geométricas, ficam mais claro o trabalho das estilistas na composição de ombros mais amplos, fortes, porém sem a agressividade do power dressing.
Para também dar mais força a essa imagem, o stylist David Pollack escolheu a maquiagem como foco: ressaltou tanto a boca como os olhos, o que a princípio é considerado um erro, mas acabou funcionando, pois estamos na terreno do lúdico.
Mas nesse jogo não tem vencedor. No último look, um vestido azul esverdeado, pequenos bordados e forma geométrica quase se transformando em orgânica convivem no mesmo plano de igualdade assim como o masculino e feminino da grife. Aliás foi um sonho dos anos 20, as mulheres se igualarem com os homens e hoje, em 2009, as Gêmeas fazem exatamente o contrário nessa coleção, igualam os homens às mulheres num belo domingo no parque.

o lúdico

o geométrico

a síntese
Detalhe: Isadora Krieger, uma das estilistas da marca, na entrada final estava com uma versão atualizada da clássica camisa de marinheiro tão difundida por Chanel nos anos 1920.


Texto escrito especialmente para o Uol Estilo. Para ver as fotos, o vídeo e ler no site, clique aqui, aqui e aqui.

CASA DE CRIADORES VERÃO 2010

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Gêmeas

Há um ano atrás escrevi de problemas de narrativa na Casa de Criadores, também não estava claro o que André Hidalgo, o criador do evento, pretendia quando disse na época sobre tentar que os estilistas fizessem uma moda mais comercial. Na realidade, ele queria dizer uma moda com produto e hoje ficou muito claro nessa edição que parece que o evento segue esse feliz caminho: melhorou as narrativas [edição] de seus desfiles (raros os que se perderam) e apresentam hoje mais produto que nos anos anteriores. Existem mais peças com possibilidades de serem comercializadas no varejo e mesmo assim ainda mantém o seu espírito underground e experimental.
Já comentei da excelente surpresa do LAB, com certeza o melhor que já vi em todos esses anos, isso faz a gente sair um pouco do clichê de sempre apontar os mesmos como melhores apesar de os mesmos, as Gêmeas e Walério serem realmente os destaques do terceiro dia.
A personalidade das Gêmeas já está tão amadurecida que elas podem pegar um tema que milhares de estilistas já trabalharam, o México, e transformar em algo totalmente seu.
E Walério dispensou Claudia Leite e fez o que realmente sabe: mixar o popular com o glamour, referências que traz de seus trabalhos na 25 de Março e na São Caetano, a rua das noivas.
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Walério [e Vivi Orth na campanha por mais sorrisos na moda]

CASA DE CRIADORES: A POESIA DAS GÊMEAS

Era para ser no heliponto, a chuva e o frio impediram que a locação do desfile fosse sobre os tetos da cidade. Era para ser às 20h30, a mudança para a passarela fez com que os fashionistas esperassem além da conta. Tudo isso poderia ter ajudado a detonar o humor do público mas quando vimos a poesia injetada nas roupas já nos primeiros looks esquecemos toda e qualquer adversidade, como aqueles percursos selvagens e inóspitos que nos levam à cachoeira, como ler com certa dificuldade aqueles poetas como Rilke ou T. S. Elliot que quando compreendemos tudo na vida ganha um outro sentido.
Mas a coleção das Gêmeas para o verão 2009 não apresentou nada de inóspito, foi pura poesia como Fernando Pessoa ou Carlos Drummond, ou melhor, como Hilda Hilst e Cora Coralina. Exemplos de mulheres com imensa personalidade, fortes, escrevendo em uma época que o sexo feminino ainda estava alojado dentro dos afazeres domésticos. Assim como a Gêmeas que de certa forma sempre renegaram a moda para “mulherzinha”, leia-se o romantismo radical fashion que é um dos símbolos da moda nos anos 2000 e que agora parece finalmente entrar lentamente em declínio.

O contraste entre o babador (simbolo doméstico e feminino) e a calça (símbolo do trabalho fora de casa e masculino)

A imagem da criação da marca nunca foi para mulherzinhas, ela questiona gêneros sem perder a feminilidade jamais. Feminilidade não significa ingenuidade nem romantismo como alguns arquétipos podem indicar. Ao liberar-se a mulher ganha outro status. Ela se transforma em alguém independente, capaz de ler seus próprios livros e se impor intelectualmente, não precisando do sexo como arma na guerra dos sexos.

homem feminino!
Apesar do chamado masculino-feminino, um dos DNA das Gêmeas, estar presente mais claramente nos looks masculinos, ele também se impõe no feminino mas de outra forma. O masculino-femnino sai de maneira mais óbvia das roupas e parte para atitude intelectual do desfile, ganhanho caráter transcendental, assim como deve ser sempre uma boa poesia.

Poéticos abotoamentos!!!

CASA DE CRIADORES: PROBLEMAS DE NARRATIVA

Tive uma reacão bipolar quando li os depoimentos de André Hidalgo, o criador da Casa dos Criadores, sobre uma nova fase de sua semana de moda que irá ter uma visão mais comercial. Achei interessante ter essa proposta de pensar no produto e na sua comercialização já em desfiles de gente que ainda não tem uma estrutura de vendas muito forte. Em compensação também achei estranho um evento de jovens estilistas já ficar tão mercantilizado, afinal o que se espera de novos criadores é ousadia experimentalismo e novidades. E digamos que uma visão comercial disso pode num primeiro momento podar toda essa energia.
Demorei pra escrever algo sobre a Casa de Criadores, que é um evento que tenho muito carinho, pois fiquei muito decepcionado nessa edição diferentemente da maioria dos fashionistas que salientaram uma certa profissionalização. Não consigo ver essa tal profissionalização por um quesito básico. Muitos estilistas que apresentaram coleções nessa edição erram no be-a-bá. Com raras exceções como as Gêmeas, João Pimenta e Walério Araújo, muitas marcas não conseguiram narrar seus temas e desejos, ficou tudi cofusi!
Mesmo se a proposta é não narrar, a não narração é uma forma de narrativa então tem que ser pensado com muito cuidado a edição de um desfile. Looks desnecessários era o de menos, mas quase nenhuma história se fechava visualmente, bastava ficar atento na fila final das modelos pra perceber de cara o que digo. Quando não se consegue narrar fica quase impossível construir uma imagem, a função maior de um desfile, então muitas vezes parecia que se via extratos de filmes ou colagens dadaístas sem a atitude do movimento.
Prefiro não citar nomes nem colocar imagens, por uma delicadeza às pessoas que estão começando e tem todo o direito de errar, mas espero que esse grande lapso seja corrigido na próxima edição.

CASA DE CRIADORES: AS GÊMEAS

Um dos momentos mais aguardados por mim durante a Casa dos Criadores é o desfile das Gêmeas. São duas estilistas que acompanho faz muito tempo e gosto de saber como elas resolvem certas questões importantes para elas na hora de construir uma coleção.

Escrevi perguntando pra elas qual era a inspiração para o verão 2009 da marca e Isadora me respondeu no fotolog:

“isadorakrieger disse…

Oi!
A coleção é inspirada em poetisas e escritoras e também na década de 70
Esperamos você sexta, o nosso desfile é o primeiro da noite e vai ser no heliponto do shopping.

beijos!”

E vasculhando o fotolog dela, achei mais pistas (de pouso):

“isadorakrieger disse…

.

É triste explicar um poema. É inútil também. Um poema não se explica. É como um soco. E, se for perfeito, te alimenta para toda vida. Um soco certamente te acorda e, se for em cheio, faz cair tua máscara, essa frívola, repugnante, empolada máscara que tentamos manter para atrair ou assustar. Se pelo menos um amante da poesia foi atingido e levantou de cara limpa depois de ler minhas esbraseadas evidências líricas, escreva apenas isso: fui atingido.

Hilda Hilst

Cascos & Carícias & Outras Crônicas”

GÊMEAS: O ÉTNICO E O ROCK A FAVOR DA PERSONALIDADE DE UMA MARCA

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foto Marcelo Elídio

É, eu disse que ia… E até me programei para ir… E até fui na Casa das Rosas mas cheguei tarde. Você sabe, Dus*****Infernus from Hell’s ultimamente não tem feito coisas certas ou feitos as coisas certas ao avesso.

Bom, mas mesmo assim fiquei encantado com as fotos e acho que as gêmeas Carolina e Isadora Fóes Krieger chegaram a um ponto formal que a identidade que elas sempre imprimiram com tanta força na marca, que fazia que vida e roupa serem um uníssono de guitarra (quantas vezes inúmeros críticos de moda comentaram que as roupas que elas criavam eram as mesmas que elas vestiam) sobe mais um patamar (ou seria uma escala musical?). É autoral e comercial sob medida, como se a harmonia e a melodia encontrassem sua batida perfeita. O desprezo pelas tendências é um ponto alto das meninas, sempre foi… O que qualificava e qualifica a personalidade das estilistas aplicadas às suas roupas.

Dessa vez foi o étnico, a Rússia dizem.(não vou mais polemizar sobre esse assunto)… Mas através daquilo que é olhar para o estranho, o estrangeiro, o lugar distante, foi um ponto de partida para reafirmar o sólido caminho que elas tem trilhado, o seu interior, o DNA da marca.

A questão do masculino-feminino da marca, assunto tão caro às duas que sempre apostam em uma mulher que trafega entre os gêneros se dá na combinação de uma silhueta rock (as calças skinnies que elas tanto adoram e trazem um ar urbano e mais agressivo) com uma outra bem solta (os ponchos, com atenção para os sheeps, uma espécie de buclê que deixa a roupa com cara de “fofinha”).

Em uma imagem forte e poderosa de mulher sempre decidida, elas imprimem feminilidade nas aplicações das rosas em calças e tops.

E para minha surpresa, os 4 looks masculinos são incríveis pois tem essa mistura contemporânea entre os opostos: masculino (o rock) e feminino (aplicações de rosas e passamanarias).

Em um certo sentido as Gêmeas chegam a Libra arquetipicamente falando, isso é, alcançam com persoinalidade própria o equilíbro entre os opostos.

1262175.jpg foto Charles Naseh

GÊMEAS NA CASA DAS ROSAS E FRAGA NO DESIGN MUSEUM

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Domingo, dia 10 de fevereiro, tem a nova coleção da marca Gêmeas, na Casa das Rosas, em São Paulo. De maneira muito autoral, Isadora e Carolina conseguem se manter com uma loja que é um ponto de referência fashion e de comportamento na Galeria Ouro Fino. Lá, marcas jovens e que dialogam com a maneira delas enxergarem o mundo convivem em suas araras.

Dus*****Infernus vai estar no desfile e depois conta como foi. 

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E na quarta, dia 13 de fevereiro, abre a exposição “Brit Insurance Designs of the Year”, no Desgin Museum.em Londres com premiação para sete categorias: arquitetura, gráfica, moda, produto, móveis, transporte e interatividade. E a moda brasileira estará representada pelo mineiro Ronaldo Fraga que apresenta a coleção de inverno 2007, “A China de Ronaldo Fraga”. Concorrerá com ele, os estilistas  Dai Fujiwara (Issey Miyake) e John Galliano (Dior) entre outros.

Dus*****Infernus não vai estar lá, mas quando souber de alguma coisa, promete contar aqui.