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MISOGENIA GAY FASHION

Na ignorância e no anseio por imagens aparentemente fortes ou que causem impacto, algumas grifes denuncuam seu íntimo. Veja a Dolce & Gabbana:

Da cena acima de uma imagem estilizada de estupro – que acabou censurada -, eles levam um ícone da mulher independente pra cozinha:

E na mesma campanha, mostra “gays” fazendo a corte:

Longe do politicamente correto, – que reafirmo minha abominação -, o que encontramos nas leituras das imagens acima é o caráter de uma marca, sua visão de mulher e sua visão de si e do mundo. Não duvido em nada que em um bom divã, a dupla de estilistas italianos possam revelar seu pavor pelo sexo feminino em todos os sentidos.

COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO 23/08/2009

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Sempre pensei que os gays poderiam dar uma resposta diferente a toda opressão que temos enfrentado ao longo dos séculos e que ela seria positiva para toda a sociedade, não só aos homossexuais. Penso nas réplicas pacifistas de Gandhi e Martin Luther King e como resultaram em algo muito maior que apenas a conquista da independência da Índia ou dos direitos civis dos negros respectivamente, o que em si já representa muito. Eles demonstram que um ato de violência não precisa ser respondido com outro ato da mesma natureza para obter o resultado desejado.
Apesar desses exemplos, contra a intolerância, as “bees” preferem responder de maneira intolerante. Desde o politicamente correto e sua cartilha de palavras que devem ser eliminadas do vocabulário e do pensamento para um bem maior – acabar com a homofobia – mas que não difere em nada, no sentido simbólico, das chamadas limpezas étnicas. Ou o tom imperativo (e o uso desse tempo verbal) de certas campanhas contra a Aids que acaba gerando um mecanismo de rejeição, talvez uma das causas da crescente onda bareback (transar sem camisinha).
Mas diferentemente dos politicamente corretos, não peço pra que eliminem o tempo imperativo, mas que pensem melhor no seu uso. O autoritarismo está em toda a vida gay, seja no corpo perfeito e na juventude que você tem que simular até um certo alto padrão de vida que precisa ostentar. Vejo a cada dia os homossexuais – ao acreditar que tantos dogmas sem questioná-los – se enjaulando cada vez mais fundo em suas próprias armadilhas.

A MARCADA DE MARC

Recentemente saíram as fotos das camisetas militantes que o estilista Marc Jacobs fez em defesa do casamento gay e seus desdobramentos como a adoção de crianças. Ela diz: “Pago meus impostos, quero meus direitos”…
O que parece uma boa causa, esconde uma ideia perversa como bem salientou Antonio Farinaci no blog Sélavy.
Só os gays que pagam impostos tem direitos? É uma total inversão de valores pois não precisa pagar para se ter direitos – em tese. O direito no Ocidente – com a Declaração dos Direitos do Homem – se adquire desde o nascimento dos homens e está acima dessa lógica capitalista.
Aliás, eu não pagaria nada por essas camisetas, elas são horrorosas,- nem de graça – prontofalei.
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BRÜNO É OU NÃO É UM FILME DE MODA?

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No meio do filme “Brüno”, uma amiga virou pra mim e disse meio indignada: “Isso não é um filme de moda!” Como o fato de um filme ser de moda ou não nunca foi fator imperativo para eu gostar ou não de uma película, não me preocupei muito com a observação. Mas depois do fim da sessão parecia ser fator imperativo pra boa parte dos fashionistas presentes na sessão de pré-estréia do filme aqui em São Paulo: Brüno não era um filme de moda e isso contribuia pro valor qualitativo da película. Já dessa primeira premissa discordo, mas resolvi ensar sobre se le é ou não um filme de moda.
Parei pra pensar um pouco sobre e logo percebi que primeiro era importante entender o que é um filme de moda.
Em geral considera-se um filme de moda aquele que transita pelo mundo da moda, com personagens envolvidos e referentes à esse universo. Se pensarmos nesse sentido, “Brüno” é um filme de moda pois transita nesse universo e tem no principal personagem, um fashionista.

Mas muitos alegarão que o filme não se passa só no mundo da moda, e que toca em outros assuntos como a homossexualidade e o preconceito que são centrais no filme. Visto dessa maneira Brüno não é um filme de moda. Caminhando nesse mesmo terreno podemos arriscar dizer também que um filme como “O Diabo Veste Prada” também não é um filme de moda, pois a questão principal do filme não é a moda e sim as relações humanas dentro de um mercado altamente competitivo e autoritário ou o equilíbrio, os efeitos e a impossibilidade de tentar separar relações privadas (a secretária Andy com seus amigos e namorado) com as relações públicas ( a secretária Andy com sua chefe). Essas questões estão acima da moda apresentada no filme, que assim como em “Brüno” tem um papel mais figurativo.
Mas se pensarmos um pouco mais a fundo nessa pergunta, percebemos que muito em “Brüno”, assim como também em “Prêt-à-Porter”, de Robert Altman [e quem sabe no “Diabo”], as questões importantes ao mundo da moda são evidenciadas, pois na moda tratamos daquilo que é visível e elas estão presentes de maneira forte e até pertuboradora.
Começamos com o mundo das aparências, fundamental para os jogos de fantasia e identidade na moda. Ele se demonstra em sua totalidade quando Brüno quer se tornar um heterossexual, suas mudanças são sentidas através da roupa. No iníco, seus looks únicos beiram o absurdo, uma histeria de fashionista. E é um desses absurdos de fashion victim – a roupa de velcro – que o leva a ruína no começo do filme, sem falar que dizem muito de como a moda entende a individualidade. E que deliciosa a observação indignada de Brüno: “D&G hello” quando um militar, já nas sequências de “conversão a hétero”, pergunta que cinto é esse [atire a primeira pedra o fashionista que nunca fez isso]. O filme é todo sobre aparência e esse é um tema central da moda, um tema quase seu por excelência.
O sistema moda está explícito em sua vontade de ser o que é de mais atual, o que é hoje e agora. Essa atitude é uma das forças da moda. E é assim que a moda se comporta para o bem e para o mal. No filme, assim como muitos fashionistas, Brüno leva essa máxima em suas últimas consequências, quase em desvario, não importa o que seja: ajudar crianças famintas na África ou selar a paz entre israelenses e palestinos. O importante é ser up-to-date, mesmo sem a menor consistência do que está fazendo. A onda do desvario histérico das eco-bags aqui no Brasil me ressoou na hora, assim como adoções de crianças carentes e sua exposição mediática. Voltamos ao mundo das aparências!
Isso tudo tem muito do mundo da moda e muito das pessoas que nos cercam e até de nós mesmos, então como Brüno não é um filme de moda? Ele é um filme profundo sobre a moda também. Cruel muitas vezes, irônico, com alguns momentos pretensamente chocantes, ele é um retrato, um espelho no qual parecemos bem mais gordo do que queríamos.
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BRÜNO, PRADA E OS HETEROSSEXUAIS

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Tem um comediante hoje que eu tiro o chapéu, se chapéu usasse: Sacha Baron Cohen. Personagens criados por ele como Ali G, Borat e Brüno, o repórter austríaco gay, são hillarys. As situações inusitadas, como essa com um grupo de rapazes soletrando “party” como cheeleaders punks para um Brüno cheio de segundas intenções, são a chave de seu humor requintado.

No blog do Marco Sabino fiquei sabendo que o filme que até então era só chamado de “Brüno” tem um nome vasto igual ao de Borat: “Bruno: Delicious Journeys Through America for the Purpose of Making Heterosexual Males Visibly Uncomfortable in the Presence of a Gay Foreigner in a Mesh T-Shirt” (ou como traduziu Sabino: “Bruno: Deliciosas Jornadas pela América Com o Propósito de Deixar Machos Heterossexuais Visivelmente Desconfortáveis Na Presença de um Gay Estrangeiro Vestindo Uma Camiseta de Malha”).
No trailer, que já está circulando na internet, podemos ver em imagem e som o bafón que Cohen, incorporado como Brüno, fez durante a semana de moda de Milão. Na época, setembro de 2008, foi muito noticiado como ele causou durante o desfile de Ágatha Ruiz de la Prada. E dá pra perceber que o babado não foi pouco. A cara da hair stylist Odile Gilbert no backstage pedindo para ele sair denuncia que talvez tenha muito pouca ficção nesse novo filme de Sacha Cohen!

O CANTHO DE MARC JACOBS

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Festa de Marc Jacobs é underground, pelo menos é o que nós aqui tupiniquins que somos pensamos quando vemos as fotos da movimentação toda de seus rega-bofes em Nova York. Então, uma festa aqui tem que seguir as mesmas normas, correto?
E escolheram a Cantho, a boate – “trash” para muito fashonista que adora frequentar ou dar uma passadinha por lá na calada da noite – é de meu primo que é hétero, mas acredita no pink money.
Tinha go go boys, tinha djs inusitados e animados, tinha Costanza dançando com Christian Pior – pra mim o melhor momento da festa. Costanza arrasou nos passinhos! Tinha uma fila na entrada que lembrava um show de Julio Iglesias no Macksoud Plaza. Tinha gente montada linda, – desculpe, mas todos meus amigos ciganos arrasaram – e tinha gente que veio a negócios – desculpe, mas tinha gente de camisa e gravata que eu não sabia se era garçom ou empresário!
Mas tinha segurança demais, isso acaba com qualquer proposta underground.
Agora, foi bonito ver Marc e seu namorado Lorenzo mega apaixonados em uma cena digna de gay pride. E a moda brasileira que até pouco tempo era mega homofóbica e toda espremida dentro de um armário, por mais paradoxal que isso possa paracer, se rendeu ao casal, ou fingiu… sei lá.
Os relatos da festa que mais me encantaram vieram de 3 fontes distintas: a anarquia de Jana, a iconoclastia de Mario e o profissionalismo de Fernanda.
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Marc que cachorrada é essa?

SEMANA LULA RODRIGUES: A MODA MASCULINA, SUA HISTÓRIA, SEU RITMO E A IDENTIDADE SEXUAL


Quando se fala em moda masculina, Lula Rodrigues é referência, sabe muito! Sempre que o encontro nas semanas de moda, quero saber suas opiniões antenadas sobre o que está acontecendo na esfera da moda para os homens. Nessa última SPFW, depois do incrível desfile da Reserva, falei que queria muito conversar com ele, com mais tempo sobre questões que me inquietam. Combinamos que eu escreveria para ele e travaríamos uma conversa por e-mail – Lula escreve no O Globo, é um dos blogueiros de moda mais antigos do país, tem uma revista de streetwear e cultura de rua – a Street Magazine -, sabe também muito sobre HQ e mora ainda no Rio (digo ainda porque São Paulo vai ganhar esse carioca de presente em pouco tempo). Ueba, como ele mesmo diz.
Bom, o Lula é tão querido e generoso que fez um tratado sobre minhas perguntas e como tem muita informação valiosa resolvi fazer uma semana Lula Rodrigues aqui no blog para que todos tenham tempo de digerir a quantidade de boa informação que ele traz.
Antes disso quero dizer que mais do que os criadores, acredito que os críticos da moda masculina realizam uma profissão de fé, (além do Lula, hoje Sylvain com seu blog e Oliveros na Playboy são boas indicações para entender melhor a moda para os homens) pois investem em um assunto que aparentemente parece menor na moda, já que todos ficamos mesmo atento ao que acontece na moda para mulheres, mas o amor deles com as roupas para os homens parece que começa a surtir efeito e a se espalhar.
Bom meu papo com Lula começa assim:

Na sua opinião, um dos entraves da moda masculina passa pela questão da identidade sexual ou não?

Com certeza, queiramos ou não, a identidade sexual é sinalizada pela moda masculina. Deixando de lado os arquétipos primitivos, este é um comportamento que rola desde o século 18, com o advento da Revolução Francesa. Foi logo depois deste evento, que o estilo da aristocracia inglesa, ligada no campo e numa vida menos cortesã, passou a ser referência na moda para homens.
É uma história longuinha, mas temos uma boa nova: estamos no pico de uma era de mudanças, de mudanças nas identidades homem X mulher, mas para fruir todos os movimentos, precisamos entender o papel do homem no seu tempo histórico.
Flash back: com Luis 14_o período barroco_ou século francês – ou ainda 17, o pavão atinge o seu ápice. A moda masculina de Versailles dava o tom e era copiada por toda a Europa e, conseqüentemente, por todas as colônias espalhadas nos outros continentes.

Luis 14
A moda da aristocracia era suntuosa e o Rei Sol controlava tudo. Depois, no período do rococó, o homem super luxuoso, delicado e super vaidoso virou um acinte, gerou mudanças sociais. Com a Queda da Bastilha, em 1789,onde ficavam presos os inimigos do rei Luis 16, a burguesia ascendente tomou conta da cena. Ser confundido com aristocratas, com suas roupas bordadas a ouro e prata, poderia resultar em guilhotina.

os ingleses ditam a moda masculina
A austeridade_ou melhor_ a simplicidade e praticidade do estilo dos aristocratas ingleses virou a refêrencia, que se adaptou aos novos tempos, e que dura até hoje. Por incrível que pareça, foi daí que começou um comportamento que travou a fantasia na roupa masculina e que chega aos nosso dias, revelado na pérola machista que questiona os mais audaciosos perguntando: “onde você comprou essa roupa, tem para homem ?”
No século 18, o dândi Beau Brummell – ao contrário do que muita gente pensa _ foi o responsável por um estilo “less is more” [menos é mais], que reforçou a discrição na moda masculina. Em termos de simplicidade no estilo, ele batia de frente com o príncipe regente e futuro rei George 4, que o bancava, pagava suas dívidas no jogo. Brummell “ajudou” aos homens a trocarem os culotes pelas calças. A data? Foi a partir de 1830. Foi ele também o responsável por instigar no inglês a paixão pela alfaiataria de Saville Row, que começou a ser construída entre 1731/35, no coração de Londres. Mais tarde se tornaria – até hoje – a meca dos adeptos da elegância discreta. O alfaiate inglês, é uma espécie de couturier para homens.

Beau e chic
A moda se torna mais austera no período vitoriano e a Revolução Industrial, no século 19, editou um burguês rico e discretíssimo, a sua mulher, ou amantes, vestidas com roupas ricas, criadas pelo pai da couture, Worth, usando muitas jóias, tais como parures de diamantes, por exemplo, eram o seu cartão de visitas. Davam o seu aval de poderoso, mas discretíssimo em sues trajes pessoais.
Isso rolou no auge do Império Britânico e foi replicado por todo o planeta_inclusive no Brasil. Vivemos um momento em que os ricos tem que se disfarçar, se esconder em carros blindados. Alguma semelhança ??? É preciso que reflitamos.
Aí entramos no século 20_ o século que tentou_eu disse tentou_editar um homem moderno, colorido, alegre e nada discreto. Foram muitas as tentativas_com força nos anos 1920 e depois a partir dos anos 1960, começou uma saga. A moda se propôs a mudar o homem, tentou reeditar o pavão do século 17.

Duque de Windsor, referência de elegância masculina
As tentativas resultaram em mudanças encabeçadas por homens de estilo. Do Duque de Windsor a Gianni Agnelli, por exemplo, chegando aos dândis modernos.

O dandismo passou a significar um homem afetado, colorido, extravagante, contrariando tudo o que pregava o Beau Brummell, pasmem, que era hetero convicto, e morreu de sífilis no exílio, na França, por ter caído em desgraça, ao, inadvertidamente, chamar o rei de gordo. No cenário masculino, dândi passou significar gay.
A partir dos anos 1960, o segmento gay começou a “sair do armário” e, a partir dos anos 1970, a mostrar o seu poder de consumo, de voto etc. e ganhar a simpatia da platéia em peça e depois filme Gaiola das Loucas, de 1973, e filmes tais como Priscila, a Rainha do Deserto, de 1995. Na entrada dos anos 2000, passou a interferir no visual do hetero. Com a edição do nosso último pavão_o metrossexual_ rolou um começo de uma nova era masculina. Eu disse o começo.


David Beckham, símbolo do metrossexual
O homem brasuca ficou com medo de dormir metrossexual e acordar gay. O susto passou. O metro e seus similares acabaram em 2005. O homem nunca _ eu disse nunquinha_esteve tão no foco da mídia com está agora. Nem mesmo Luiz 14, que tinha o seu estilo e elegância, difundido pelos journals de modes da época. Hoje, vivemos a era do homem mais bem informado de toda a história da humanidade. Começamos um novo ciclo masculino.