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POR MAIS FELICIDADE NA FILA A

No primeiro dia da Casa de Criadores recebi esse twitter do boutiquein O @vitorangelo é o mais feliz da primeira fila. POvo mais cara fechada viu . No primeiro segundo pensei: ih, de novo dei gafe. Lembrei de Lilian Pacce me ensinando – com a maior das boas intenções – que as pessoas na fila A são super observadas, que um comportamento neutro é sempre bom também para que ninguém decodifique o que você está pensando ou achando. E ela está certa nesse quesito tanto que durante a síncope geral que fez os fashionistas mais treinados perderem a compostura e rirem durante a performance da coleção de Jefferson de Assis com pianos de madeira que entravam se movendo como que sozinhos com modelos em cima, Lilian se manteve impávida.
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A imagem era tão surreal, que quase tive um surto e fiquei segurando a gargalhada, mas confesso que meus olhos se encheram de lágrimas de sorriso.
Agora, da minha parte, eu não ri como uma atitude de desmerecer a coleção que aliás lembro que gostei na época. Ri porque achei engraçado, mas muita gente viu e veio comentar comigo como se eu tivesse detestado e estivesse xoxando a coleção do Jefferson.
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Essa é uma razão da recusa das meninas do Oficina de Estilo não ficarem em alguns desfiles, mesmo com convite, na fila A, preferem a B, pois lá podem ser elas mesmas, dar palpite, comentar…
No segundo dia da Casa de Criadores, Luigi Torres comentou para mim e Simone Esmanhotto que a viu rindo da coleção da Purpure. E ela de pronto respondeu: “Ri porque achei divertido, mas eu não estava tirando sarro, tinha looks muito bacanas e eles fizeram o que prometeram, fugiram do clichê da moda praia”. Isso é, ela não desgostou só achou engraçado, mas isso se torna um fato que vai além da graça, confunde os códigos da fila A com sua neutralidade e impessoalidade. Por isso as pessoas ficam de cara fechada, por isso, quando era moda, usava-se tanto ólculos escuros, por isso se tem o hábito de observar a fila A exatamente pra ver quem não está dentro dessa ‘SOCILA”. Mas será que não é hora de mudar esses códigos?
Como as meninas do Boutequein sugeriram e eu estou com elas: sou a favor de uma ação pró sorriso na fila A!
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BETH TEM DITTADO MODA

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Beth com o papai coruja da estilista Stella McCartney na primeira fila

Sou gorda, mas estou na moda parece nos dizer a todo instante a cantora Beth Ditto. Sua figura rotunda nas primiras filas dos desfiles de Paris é muito inspiradora contra uma certa ditadura da magreza que reina principalmente entre as mulheres.
Claro que o problema não é ser magra ou gorda, mas viver em plena insatisfação com o seu corpo o que no caso das mulheres é uma triste constante – talvez aí uma das chaves venenosas da Moda para criar desejos, já que o desejo é um sentimento que só existe pela ausência de algo.
Dentro do padrão certo e errado normativo de hoje, Beth estaria o errado, então é muito bom ver o erro nas primeiras filas super glamourosa, na capa da revista hype Love que acabou de ser lançada sendo proclamada como “ícone da nossa geração”.
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Ela emite sinais evidentes que a beleza, a moda e o mundo não estão voltados apenas para quem tem um corpo magro. Sem fazer oposição a essa imagem, ela parece gritar que a beleza está no que hoje chamamos de atitude muito mais no que no manequim 36.

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Com os amigos indo ver o desfile da Chanel

P.S.: Marco Sabino comprou a Love e conta aqui o que achou

AVAFANDO=ABRAVANANDO COM AS ARTES PLÁSTICAS E COM A MODA

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Fábio Gurjão realizou sua performance-ação-desfile-ação comercial na última terça, dia 2 de dezembro, abrindo os trabalhos da a.v.a.f. [assume vivid astro focus] que desta vez vem com o nome Axé Vatapá Alegria Feijão e encerra em clima de grande festa com direito a trio elétrico sua intervenção na Bienal do Pixo no sábado, dia 6 de dezembro.
A princípio, o evento aconteceria no andar do vazio, mas acredito que por problemas técnicos + ideológicos, eles preferiram deixar o segundo andar para o autoritarismo da arte contemporânea de vassalagem. Pois bem, foi tudo no térreo mesmo e o clima era de galpão de Escola de Samba.
Enquanto sua ação era realizada ao passar do tempo (das 19 às 22 horas) – não se esqueça que além do desfile tem a ação dos fotógrafos, trilha e araras para a compra das roupas ali mesmo -, um carro alegórico era preparado por Eli Sudbrack, Silvia e equipe, a cantora Cibele Cavalli que virou Kivelle Bastos, a persona abravanada estava realizando ali uma mandiga-instalação e o talentoso Ed Inagaki, que montou seu Ateliê Abstração na paralela da ação de Fábio e sua FKawallys, mostrou uma camiseta com capuz que ele chamou de fantasmando e que também nos remete ao uniforme dos presidiários e/ou guerrilheiros – muito oportuno para esse momento portas fechadas da arte contemporânea de vassalagem ou aos fantasmas que rondam o andar do vazio.
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Buuuu Bienal
Já na entrada, um clima diferente daquilo que Denis Rodriguez também desenhou e era tão verdadeiro durante os dias de Bienal que antecederam a chegada dos avafanados=abravanados: a opressão dos seguranças [acredito que para combinar com o andar vazio e o autoritarismo de seus curadores].
O ar estava mais leve entre os seguranças e alguns até queriam se enturmar com os abravanados. Eles nem revistaram minha mochila…
Ao chegar, muita gente tirando fotos, e Fábio já nos mostrou a cadeira Fila A e cadeira de Imprensa pra gente sentar na passarela. Quer iconoclastia melhor que essa?
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Nossa, essa roupa é uó! Pena que esqueci meu bloquinho…
As coisas corriam soltas, algumas pessoas compravam as roupas na arara, outras cantavam as músicas do rádio, outras ficavam paisageando, Bianca Exótica fazia amizade com os bombeiros…
E foi assim, sem nenhum alvoroço, numa relax, numa tranquila e numa boa que Fábio Gurjão anarquizou com o mundo das artes plásticas e da moda.
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Ao vender as suas camisetas dentro de um espaço de arte, ele evidencia o jogo do comércio disfarçado em simulacros de “arte” feito pelas galerias, museus e bienais. A questão grife é tão mais importante na arte contemporânea de vassalagem que na moda. Afinal um Jeff Koons vale mais que um Marc Jacobs, não?
Existe um valor para aquilo que não tem valor – o espiritual da arte? Por isso seu preço será sempre alto conforme não o seu valor artístico mas seu valor de mercado – em contraposição a isso, as camisetas de artista de FKawallys eram baratíssimas, tudo 30 reais.
Sem falar da ocupação de um lugar sagrado das artes com um desfile de moda – considerado até pelos próprios críticos de moda (?) algo menor que a suprema arte.
Para a moda, ele trouxe orgulho e auto-estima. Não existe terreno mais almejado por jornalistas de moda, estilistas, stylists que o terreno das artes plásticas. Muito pelo valor [falso] e o status [de novo-richismo]que hoje as artes plásticas ganharam. Talvez porque lá o valor da grife [no caso o nome do artista] foi criada de maneira tão escondida e dissimulada que consegue iludir que estamos no terreno do espiritual e não do mercado.
FKawallys está fora dessa etiqueta e dessa lógica canhestra. Em nenhum momento ela se acredita menor que as artes plásticas, não procura como a maioria dos fashionistas aliar-se às artes para ganhar status, esse ISO de ignorância.
Se trabalha dialogando com as artes plásticas é em pé de igualdade. Ele não se acha inferior por fazer moda e muito menos por realizar camisetas [infelizmente considerada carne de segunda na moda].
Ao porpor um desfile em plena Bienal, ele sabe que aquele pode ser um de seus espaços, não o único. E ao vender seu produto que é o mesmo que está sendo desfilado tudo ao mesmo tempo agora ele critica a lógica da chamada imagem de moda tão difundida entre os fashionistas. Essa lógica: a grande parte das vezes o que se desfila não é o que se produz. Cria-se uma imagem falsa da marca, pois na loja temos, em geral, aquilo que é do mais comercial [de alguma forma ele dialoga com o excelente desfile Do Estilista para o verão 2009].
Agora o mais importante, ao fazer essa performance-ação-desfile-ação comercial que outros “artistas” também se acoplam, onde todos, público, visitantes, compradores, funcionários da bienal podem participar [ atentando ao detalhe que a Bienal é de graça], enfim, ali se realiza uma ação de inserção e inclusão. Ao final ele obtém uma obra verdadeiramente duchampiana onde todos que participam são artistas e estilistas ou melhor, vivem a arte como o mestre da roda de bicicleta sempre almejou!
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PS1: E o melhor, disse Fábio Gurjão o tempo todo como autor [não que ele não tenha participação decisiva] no texto por conformismo da linguagem que precisa nominar, mas sinceramente as fronteiras se romperam pois eu não sei se foi a a.v.a.f. , os abravanados, quem apareceu por lá para criar isso tudo que aconteceu no dia 2 de dezembro. Enfim, na realidade foi uma confluência de idéias e desejos!

FILA A, CONVITES E AS REGRAS DO MUNDO DA MODA

Para quem não é do mundo da moda, ao ouvir falar da disputa por convites para os desfiles ou mesmo para sentar na fila A sempre acha um absurdo e acredita que esses fatos são a comprovação total que o sistema de moda é a maior futilidade da face da Terra. Ledo engano. Isso só demonstra preconceito e falta de conhecimento dos procedimentos que um jornalista ou editor de moda precisa para se escrever sobre, fazer editoriais, entender os rumos ou mesmo – muito mais simples – ter acesso à informação.
Sim, existe informaçnao em moda e é, como em inúmeras outras áreas, fator fundamental , só que uma certa ascensão elitista – isso sim podem acusar a moda de ser – faz dos que trabalham com moda acabarem tendo uma missão um pouco mais difícil.
Reclamar de não ter convite para um desfile é o mesmo que um crítico de cinema não ser chamado para uma sessão cabine. Exigir sentar em um bom lugar, em especial a fila A é o mesmo que uma câmera de tv ser impossibilitada por exemplo de ser colocada num ângulo próximo ao gol em uma partida de futebol. Poder ir ao backstage do desfile é o mesmo que poder ir ao ateliê de um artista antes de sua exposição. Tudo gera informações, só que o mundanismo da moda e o proconceito dos que estão de fora dela faz tudo parecer um espetáculo bizarro. Sim, eu sei que as fashionistas são dramáticas, mas faz parte da tentativa de obter a melhor informação possível. Claro que tem gente que quer sentar na fila A por status, mas isso existe em todos os lugares e não invalida meus argumentos.
Nessa luta para obter a informação, o jornalismo de moda trava uma relacão muito estreita e nem sempre salutar com as assessorias de imprensa que podem como em quase nenhuma outra área, proibir um jornalista de assistir um desfile ou sentá-lo em lugar que sua análise com certeza será prejudicada. E eu não estou falando que isso ocorre apenas no Brasil, Cathy Horyn do New York Times foi proibida de entrar na sala de desfiles de uma das grifes do Armani há tempos atrás porque numa outra temporada ela fez uma crítica não muito positiva sobre a grife.
Enfim, antes de nos chamarmos de jabazeiros ou fúteis tentem fazer paralelos com outras profissões e entender que, como qualquer área, o mundo da moda também têm suas regras. Cabe aos fashionistas querer mudá-las. Ou não!

Tem um texto incrível de Jorge Wakabara sobre a fila A. Vale leitura!