Arquivo da categoria: esportes coletivos

JONTE’ E OS STYLISTS

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Jonte’ é um dançarino fantástico e pra mim o mais interessante coreógrafo hoje, desde que minha paixão pela dança se tranferiu para a chamada dança de rua pois acho muito mais espontânea e menos programática. Vejo na parte da street dance que ainda não foi absorvida como um valor positivo para a Dança pelo seu caráter pop – apesar dos esforços de alguns acadêmicos e bailarinos – a verdadeira vontade por uma dança mais expansiva e experimental – muito mais que muitos dos laboratórios que vemos nos teatros e nos grupos de dança, mesmo aqueles que como o excelente Wim Vanderkeybus tem na sua melhor parte o diálogo com esses movimentos e momentos da dança de rua, na minha opinião.
Posto isso, acho Jonte’ genial por ele recriar de maneira muito especial as coreografias em grupo, que desde o ballet clássico são parte fundamental… para abrir os solos, herança que vemos até hoje no jazz e no pop [pra lembrar novamente Michael e seus bailarinos que abriam as coreôs para seus solos espetaculares].

Jonte’ traz a questão do grupo muito forte, pois todos são parte integrante da dança e a questão coletiva é preponderante. Isso não é novo em dança, é bom lembrar, mas em geral está quase sempre em um segundo plano, em sua parte mais introdutória [as coreôs de tirar o fôlego de Busby Berkeley para os filmes de Hollywood na década de 30 e 40 sempre criaram esse clima de coletividade surreal de maneira a introduzir ou acompanhar o mote principal]. Também na dança, grupos como o Momix e Débora Colker exploram o coletivo em suas coreografias. A ligação e o estudo dos movimentos dos esportes em Colker não é em vão, pois na maioria deles – os esportes – reina o senso de coletividade, mas no caso de ambos o grupos de dança esses movimentos estão ainda muito ligados à uma mímese e não apresentam o grau de organicidade e pulsação que as coreografias coletivas de Jonte apresentam.
As coreôs que ele cria para a Beyoncé tem um sentido forte de grupo que nunca abre para o solo de dança de uma estrela, apesar de ainda ter uma hierarquia, ela é muito menos pela dança e sim pela luz e pelo canto.
Além de causar na cena novaiorquina, se montar de maneira abravanada, Jonte’ é especial pra mim por essa questão do grupo, do coletivo em suas coreôs, que sim, são uma tradição na dança, na dança americana e na streetdance, mas revista de maneira diferente.
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Mas o que isso tudo se refere aos stylists e à moda? Em um paralelo entre o trabalho de Jonte’ principalmente pra Beyoncé, mais do que imprimir uma marca (a cantora texana sabe o quanto o que ela dança tem relação com o estilo de Jonte’) é fazer a marca e o dono da marca nunca esquecer o senso de coletividade [para além do chavão que a moda é indústria], por mais difícil que às vezes isso possa parecer, pois egos inflamam, mas acredito cada vez mais que esse é o papel dos stylists.

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ORIENTE-SE NO OCIDENTE DE ALEXANDRE HERCHCOVITCH

Era futebol americano o que dizia o release, esportes coletivos que sempre nos trazem ideia de violência, de competividade e dos arquétipos ligados à testosterona. Então se esperava uma mulher forte, competitiva como manda as regras do capitalismo ocidental. Mas o que se via era pura delicadeza, pois como o próprio Alexandre sempre diz, “minha mulher é sempre a mesma”, pois mesmo perversa, com chifres, com roupas tecnológicas que acendem, com perucas que lembram o orixá Omulu, ela continua feminina e doce.
Ao longo do desfile não conseguia ver o tal futebol americano, apesar de algumas referências explícitas como a bolsa em forma de bola. O que via de fundo era o Oriente [Herchcovitch tem uma loja no Japão]. Passavam na minha frente as Hello Kittys, os mangás, a princesa Safira vestida de menina, os Tomodachis, as bonecas orientais que vejo nas feiras da Liberdade e era nessa chave que entendi a suavidade, a feminilidade da coleção. Onde era pra ser cheeleaders, eu vi lolitas e lolipops.
E os crepes georgetes de seda só indicavam leveza, assim como o cetim de seda me indicava o Oriente.
O futebol americano era a couraça para tal doçura, os ombros eram o suporte para delicadas armações, mas no look final está a clara visão que Ocidente e Oriente não são tão distantes assim da mesma forma que doçura e força bruta.

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não vejo torcidas, vejo o Oriente[tenho certeza que Tsumori Chisato iria amar esse look]

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o látex mais leve do mundo

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ombros que flutuam

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lolitas e colleges de Tóquio

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princesa Safira vestida de menina

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o look final que une forças aparentemente opostas