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E DO ESTILISTA?

Muita gente deve estar se perguntando o que aconteceu com o desfile da marca Do Estilista que aparecia no line up no primeiro dia do SPFW para o verão 2010 e depois sumiu. Mas ficou um burburinho que iria rolar alguma coisa e tal. Pois bem, notícia quente, porque dizer que isso é furo é grande bobagem é a seguinte:
Do Estilista se apresenta no domingo, às 15 horas, em um contêiner. Vai ser uma micro coleção apresentada pela banda Stop Play Moon dos mais que fashion Paulo Bega, Ricardo Athayde e Geanine Marques com um plus da musa de Marcelo Sommer, Luciana Curtis, que aparecerá também cantando com eles duas músicas. Todos vestidos de Do Estilista , é lógico!
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A NAU DE MARCELO SOMMER

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Se na temporada passada, a grife Do Estilista nos levou para os limites da moda, em suas fronteiras, dessa vez mergulhamos em sua essência, sua células, sua origem: o design.
Marcelo Sommer viajou até a Holanda para nos trazer em estampas, a lembrança afetiva dos azulejos portugueses. Essa questão afetiva é primordial no desfile pois é primordial nas criações de Sommer. Por mais que tudo indique para a criação holandesa, é nessa ponte entre os grandes navegantes do século 16 que nossa mente embarca.
Em um exercício sagaz, Sommer traz, ou melhor, evidencia o chamado Decorativismo, uma tendência de design contemporâneo que brinca com o kitsch (é preciso informar que o folk – dos xadrezes por exemplo – elemento presente em quase todas as criações de Sommer é mercadoria direta do kitsch) e a ironia, algo que percebemos no marear do andar das modelos em suas plataformas-tamancos-holandeses e nas cores azul e branco tão referentes a Delft, uma cidadela perto de Amsterdã conhecida pela porcelana feita exatamente dessas cores. E é na viagem dessas cores que aportamos imediamente aos azulejos portugueses, pois navegar é preciso! Avançar para além-mar, para além dos azulejos.
Diz a Wikipedia: “A palavra em si, azulejo, tem origem no árabe azzelij (ou al zuleycha, al zuléija, al zulaiju, al zulaco) que significa pequena pedra polida e era usada para designar o mosaico bizantino do Oriente Próximo. É comum, no entanto, relacionar-se o termo com a palavra azul (termo persaلاژورد : lazhward, lápis-lazúli) dado grande parte da produção portuguesa de azulejo se caracterizar pelo emprego maioritário desta cor.”
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E é no azul das roupas como no vestido de tricô que existe uma vontade de tridimensionalização dos azulejos, como se ele quissese sair do seu espaço mas não conseguisse. Como se o marinheiro o tempo todo nos dissesse: é impossível ir além da essência. Navegamos por terra firme pois tanto os azulejos como o imaginário e a criação de Marcelo Sommer nos remetem que podemos mudar, viajar por todos os lugares, mas nunca mudar a nossa essência.
E isso estava em imagem quando os modelos em suas esteiras e bicicletas ergométricas pedalavam, corriam e nunca saiam do lugar. Do lugar que é só seu, como no caso de Sommer, onde todos os seus elementos primordiais (símbolos, melancolia, folk-pop) ancoram e nos mostram a essência da moda (design – como também fez brilhantemente Reinaldo Lourenço na temporada passada) e a do próprio Marcelo Sommer.

AVAFANDO=ABRAVANANDO COM AS ARTES PLÁSTICAS E COM A MODA

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Fábio Gurjão realizou sua performance-ação-desfile-ação comercial na última terça, dia 2 de dezembro, abrindo os trabalhos da a.v.a.f. [assume vivid astro focus] que desta vez vem com o nome Axé Vatapá Alegria Feijão e encerra em clima de grande festa com direito a trio elétrico sua intervenção na Bienal do Pixo no sábado, dia 6 de dezembro.
A princípio, o evento aconteceria no andar do vazio, mas acredito que por problemas técnicos + ideológicos, eles preferiram deixar o segundo andar para o autoritarismo da arte contemporânea de vassalagem. Pois bem, foi tudo no térreo mesmo e o clima era de galpão de Escola de Samba.
Enquanto sua ação era realizada ao passar do tempo (das 19 às 22 horas) – não se esqueça que além do desfile tem a ação dos fotógrafos, trilha e araras para a compra das roupas ali mesmo -, um carro alegórico era preparado por Eli Sudbrack, Silvia e equipe, a cantora Cibele Cavalli que virou Kivelle Bastos, a persona abravanada estava realizando ali uma mandiga-instalação e o talentoso Ed Inagaki, que montou seu Ateliê Abstração na paralela da ação de Fábio e sua FKawallys, mostrou uma camiseta com capuz que ele chamou de fantasmando e que também nos remete ao uniforme dos presidiários e/ou guerrilheiros – muito oportuno para esse momento portas fechadas da arte contemporânea de vassalagem ou aos fantasmas que rondam o andar do vazio.
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Buuuu Bienal
Já na entrada, um clima diferente daquilo que Denis Rodriguez também desenhou e era tão verdadeiro durante os dias de Bienal que antecederam a chegada dos avafanados=abravanados: a opressão dos seguranças [acredito que para combinar com o andar vazio e o autoritarismo de seus curadores].
O ar estava mais leve entre os seguranças e alguns até queriam se enturmar com os abravanados. Eles nem revistaram minha mochila…
Ao chegar, muita gente tirando fotos, e Fábio já nos mostrou a cadeira Fila A e cadeira de Imprensa pra gente sentar na passarela. Quer iconoclastia melhor que essa?
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Nossa, essa roupa é uó! Pena que esqueci meu bloquinho…
As coisas corriam soltas, algumas pessoas compravam as roupas na arara, outras cantavam as músicas do rádio, outras ficavam paisageando, Bianca Exótica fazia amizade com os bombeiros…
E foi assim, sem nenhum alvoroço, numa relax, numa tranquila e numa boa que Fábio Gurjão anarquizou com o mundo das artes plásticas e da moda.
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Ao vender as suas camisetas dentro de um espaço de arte, ele evidencia o jogo do comércio disfarçado em simulacros de “arte” feito pelas galerias, museus e bienais. A questão grife é tão mais importante na arte contemporânea de vassalagem que na moda. Afinal um Jeff Koons vale mais que um Marc Jacobs, não?
Existe um valor para aquilo que não tem valor – o espiritual da arte? Por isso seu preço será sempre alto conforme não o seu valor artístico mas seu valor de mercado – em contraposição a isso, as camisetas de artista de FKawallys eram baratíssimas, tudo 30 reais.
Sem falar da ocupação de um lugar sagrado das artes com um desfile de moda – considerado até pelos próprios críticos de moda (?) algo menor que a suprema arte.
Para a moda, ele trouxe orgulho e auto-estima. Não existe terreno mais almejado por jornalistas de moda, estilistas, stylists que o terreno das artes plásticas. Muito pelo valor [falso] e o status [de novo-richismo]que hoje as artes plásticas ganharam. Talvez porque lá o valor da grife [no caso o nome do artista] foi criada de maneira tão escondida e dissimulada que consegue iludir que estamos no terreno do espiritual e não do mercado.
FKawallys está fora dessa etiqueta e dessa lógica canhestra. Em nenhum momento ela se acredita menor que as artes plásticas, não procura como a maioria dos fashionistas aliar-se às artes para ganhar status, esse ISO de ignorância.
Se trabalha dialogando com as artes plásticas é em pé de igualdade. Ele não se acha inferior por fazer moda e muito menos por realizar camisetas [infelizmente considerada carne de segunda na moda].
Ao porpor um desfile em plena Bienal, ele sabe que aquele pode ser um de seus espaços, não o único. E ao vender seu produto que é o mesmo que está sendo desfilado tudo ao mesmo tempo agora ele critica a lógica da chamada imagem de moda tão difundida entre os fashionistas. Essa lógica: a grande parte das vezes o que se desfila não é o que se produz. Cria-se uma imagem falsa da marca, pois na loja temos, em geral, aquilo que é do mais comercial [de alguma forma ele dialoga com o excelente desfile Do Estilista para o verão 2009].
Agora o mais importante, ao fazer essa performance-ação-desfile-ação comercial que outros “artistas” também se acoplam, onde todos, público, visitantes, compradores, funcionários da bienal podem participar [ atentando ao detalhe que a Bienal é de graça], enfim, ali se realiza uma ação de inserção e inclusão. Ao final ele obtém uma obra verdadeiramente duchampiana onde todos que participam são artistas e estilistas ou melhor, vivem a arte como o mestre da roda de bicicleta sempre almejou!
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PS1: E o melhor, disse Fábio Gurjão o tempo todo como autor [não que ele não tenha participação decisiva] no texto por conformismo da linguagem que precisa nominar, mas sinceramente as fronteiras se romperam pois eu não sei se foi a a.v.a.f. , os abravanados, quem apareceu por lá para criar isso tudo que aconteceu no dia 2 de dezembro. Enfim, na realidade foi uma confluência de idéias e desejos!

O SOL BRASILEIRO DO VERÃO 2009

Estava conversando recentemente com Fernanda da Oficina de Estilo sobre o que mais nos encantou no verão 2009. Os 5 tops, as listas de Nick Horby…
Ela fez a dela da Oficina , a minha é simples e curta:
Marcelo Sommer e Reinaldo Lourenço colocaram questões pertinentes à moda e à imagem de maneiras diferentes e complementares.
O estilista Reinaldo Lourenço focou numa visão microscópica da moda, entrou na arquitetura e principalmente no design trazendo as questões de desenho à frente – no caso, a porcelana e a roupa – para fazer relações da essência da moda, do que a moda é feita. Fez uma verdadeira maiêutica.

Reinaldo Lourenço verão 2009

Sommer para a sua marca Do Estilista fez a operação inversa, macroscópica e foi até o limite do conceito de moda, discutindo fantasia e figurino. De maneira corajosa ele foi até as fronteiras dessa discussão. Fez novas duanas.

Do Estilista verão 2009
Maria Bonita
fez o equilíbrio perfeito entre uma moda nacional e uma vontade internacional. Pescou do universo dos ribeirinhas o desenho minimalista, e pôs na mesma rede tudo o que é cool das passarelas daqui e de lá. Fez Cinema Novo.

Maria Bonita verão 2009
Lenny ventilou frescor novamente. A busca de novas formas, novas proporções, os plissados, tudo simbolizando a vida. Uma elegia à mulher e a uma moda que sempre é vista como menor. Fez arquitetura da vida.

Lenny verão 2009
Gloria Coelho sempre busca na história e na história da moda, uma nova história. Dessa vez – novamente – , toda a moda masculina se fez feminina. E deu pano pra manga. Fez voar.

Gloria Coelho verão 2009

SPFW – A MODA ESTÁ NUA: O MARAVILHOSO FIGURINO FAKE DE MARCELO SOMMER


Nada é banal em Marcelo Sommer e sua grife Do Estilista, não fantasiem errado. Mesmo quando declara fazer um desfile com seus desejos de imagem e não de produto ele está indo fundo no conceito de moda e na função dos desfiles. Ele, dentro de um sistema econômico que a cada dia privilegia muito mais os resultados e lucros (empobrecendo a imaginação na moda), lucra muito mais procurando os resultantes, os resultantes que fazem com que quando Marcelo cria uma peça, não tenhamos dúvidas que só a ele pertence e só por ele poderia ter sido construído.
Fantasia e figurino. O quanto a moda vive com medo desses extremos, como os antigos navegadores tinham medo que o mar acabasse. Quebrar, romper com o medo da teatralidade, do fantasiar-se, do figurino faz parte de uma atitude avançada em moda, ainda mais nos tempos de hoje.
O linguista inglês J.R.R. Tolkien afirmava que “fantasiar é ser bem sucedido em fazer ou vislumbrar outros mundos. Não mundos possíveis, mas mundos desejáveis.
Já na definição rápida do Wikipedia diz que “figurino é o traje usado por um personagem de uma produção artística (cinema, teatro ou vídeo)”.

Bailando sobre esses dois conceitos, a marca faz surgir toda a força de seu imaginário. Não é figurino de enfermeira, nem fantasia de enfermeira, é exatamente a sua versão fake, a versão moda que trafega sobre esses mundos desejáveis. Não à toa muitos fashionistas ficaram fascinados pelo look que eu chamo de burka mulçumana (terá algo freudiano nisso?).

Para provar o que eu escrevi e a radicalidade desse trabalho Do Estilista, por desorganização pessoal minha, assisti o desfile da janela de fora do museu com muitos fotógrafos e fashionistas. Foi uma experiência divertida e inusitada, porque eles identificavam os looks com pessoas de moda, do imaginário daquelas pessoas. Muitas gritavam:”Olha a Graça Borges! Olha o filho da Erika!” e não olha a noiva, a bruxa, o palhaço, a mulçumana.
Marcelo Sommer fez todos fantasiarem por poucos minutos um mundo muito melhor e mais divertido!

OLHA O ALTO JARDINS AÍ GENTE!

Projeto de Aninha Strumf, o recanto Alto Jardins são várias lojas em casinhas fofas. Tem Fabia Bercsek, Do Estilista, Garimpo+Fuxique, D’Arouche, Há Uma Santa e Le Sacs.

Inaugura sábado, dia 08/12, das 14h às 20h. Na r. Bela Cintra esquina com a al. Franca!

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