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O EGITO DE SUZY MENKES E O EGITO DE FABIA BERCSEK

Através do blog de Marianna Valente fiquei sabendo que recentemente a crítica de moda Suzy Menkes escreveu que existia um momento Egito no ar.

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figurino de Zandra Rhodes para a ópera “Aida”

O seu olhar super apurado detecta que, além da abertura da exposição em Londres sobre o jovem rei egípcio Tutankhamun, a nova montagem da “Aida” de Verdi que se passa no antigo Egito com figurino criado por Zandra Rhodes ou mesmo as jóias de Azza Fahmy para Julien Macdonald, o país dos faraós está imprimindo sua presença pelo destaque de duas cores que o simbolizou aparecerem em muitas coleções importantes: o azul turquesa e o dourado.

De certa maneira é um Egito glamouroso, dos nobres e faraós, é uma inspiração recorrente como já aconteceu na fabulosa coleção de alta costura da Dior verão 2004, que John Galliano.soltou a imaginação e teve modelos na passarela com cabeça de Anúbis e outros deuses, um verdadeiro e delicioso delírio fashion!

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Carol Trentini faz a egípcia em desfile incrível de Galiano para a Dior couture

Mas dona Menkes percebe esse momento agora no mundo. Aqui no Brasil, Fábia Bercsek fez um desfile inspirado em Cleópatra que dividiu opiniões. Uns adoraram outros detestaram, eu sou do primeiro time, pois fui conquistado pelo texto afiado de Jorge Wakabara sobre o desfile da estilista, já que não pude comparecer e só “assisti” a coleção por fotos.

fb-oliveros.jpg foto de Oliveros

Diferentemente das grandes marcas internacionais, Fábia tem uma grife bem pequena e uma questão pela frente: como poderia desenhar uma imagem de opulência e ostentação que tanto o Egito de Suzy Menkes pede?

A sacada da estilista foi não enveredar por esse caminho e descobrir o seu próprio Egito. Um Egito das marchinhas de carnaval, das chanchadas da Atlântica, um Egito brejeiro como Camila Pitanga, a nossa rainha maior na época assim como a mais admirada prostituta. È uma visão muito particular, de uma mulher forte sem perder a sensualidade feminina, por isso a seção de alfaiataria, mas sempre vermelha como se o desejo nunca saísse do corpo.

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Tem até dourado, mas a bossa é outra no Egito de Fabia

Ela organicamente leu o Egito pelo Brasil sem folclorizar pois essa mulher forte e sensual ao mesmo tempo está na construção do DNA de sua marca.

E o tema Egito vai estar na inauguração de sua loja de rua, lá no Alto Jardins (Alameda Franca, 1357) no projeto capitaneado por Aninha Strumpf. A abertura está prometida para final desse mês.

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Egito, Egito, ê… Faraó óóó

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LER COSTANZA PASCOLATO (SEMPRE)

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Agosto já está acabando, mas a edição da Vogue brasileira tem como sempre pelo menos um texto obrigatório: o da coluna da empresária Costanza Pascolato.

Desde que eu me lembro, mesmo quando a revista não tinha muito que se ler por possuir um conteúdo muito fraco – isso já faz parte do passado -, Costanza sempre arrasava na sua coluna.

Sempre que posso, converso com ela sobre o que escreveu, falo o que achei, em geral como um tiete deslumbrado. Em compensação, ela nunca deixa de ter uma visão crítica sobre seu próprio texto. Alguns ela não fica satisfeita, outros ela reescreve por dias e alguns saem bem rápidos. Lembro uma vez que a entrevistei e no final ela estava preocupada com a coluna que tinha que escrever mas, se não me engano, entregar só na próxima semana.  

É sempre de lá, de suas entrelinhas que tiro pautas para possíveis matérias. Em poucas linhas, o material é vasto e como o de sua última coluna nessa edição “verde” da Vogue de agosto.

O título já é desafiador. “Galliano X Ghesquière”. O que eles teriam de oposto ou que oposição eles estariam fazendo?

O olho da matéria também não nos dá uma pista dessa possível oposição:

“Enquanto um dá aula de branding ao celebrar luxo e riqueza nos 60 anos da Dior, o outro contesta a vocação casual da moda de rua e faz o mundo mais chic com suas roupas para Balenciaga”

O texto super elogioso a Galliano e à sua coleção de alta-costura destaca um ponto forte:

“O desfile foi um exercício espetacular de marketing e branding para tornar a marca ainda mais forte{…} no que ela pode representar-lucrar com venda de produtos mais acessíveis: prêt-à-porter, os acessórios, os cosméticos, os perfumes.”

Muito já se falou sobre o papel da alta-costura e que esse talvez fosse seu grande mérito e sua razão de existir hoje: fazer aumentar as vendas de perfumes, mas o que Costanza diz é que, para esse caso, Galiano faz essa operação com muita perfeição cirúrgica.

Uma indicação da oposição entre Galliano e Ghesquière é o começo do parágrafo (detalhe para a preposição adversativa) que Costanza escreve sobre o estilista da Balenciaga.

“Mas é a entrevista  de Nicolas Ghesquière[…] a Cathy Horin[…] que não em sai da cabeça[…] (Ele) considera que a alta-costura não tem mais tanta importância porque, sem os consumidores bacanas de ontem, é coisa artificial e não se encaixa mais nos nossos tempos. Moderno, segundo ele, é fazer um estilo luxuoso para a rua.”

O texto prossegue:“(Ghesquière acredita que) o desfio hoje é o branding – a construção da marca – pois só assim ela será reconhecida pelos consumidores.[…] (e sugere que) a moda está novamente na moda porque nunca houve tantas empresas vendendo cópias. A cópia não pode existir sem o original.”

Em seu pequeno texto, Costanza tocou em alguns assuntos centrais da moda como o papel da alta-costura, a força da moda de rua, a importância fundamental do branding, as cópias e a imagem de moda, colocando e observandos duas coleções díspares mas de grande influência na chamada moda oficial.

Não é apenas Galliano versus Ghesquière que a colunista está querendo apontar, mas sim duas visões diferentes de alta-costura, moda de rua, branding e cópia. Uma que ainda enxerga a alta-costura como branding, a outra que acredita que o branding de uma marca está em transformar a moda de rua, uma que através da alta costura tenta impossibilitar ou minimizar o impacto das cópias, a outra que vê nas cópias o mecanismo que comprova que está acontecendo realmente algo criativo no mundo da moda.

Por uma certa construção textual, podemos enxergar que Costanza se posiciona sim, a favor do projeto e das idéias do estilista da Balenciaga, sem menosprezar o trabalho de Galliano na Dior que elegantemente enaltece o trabalho em sua coluna.

Sempre as entrelinhas de seus textos são espaços imensos de reflexão.

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Ghesquière

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Galliano