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O SONHO E O LÚDICO ACABARAM?

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Alexander McQueen

Nunca se viu tanta realidade nas passarelas como nessa temporada 2010. Não, na realidade nunca se viu tanta falta de sonho na moda. O lúdico, materia essencial na construção fashion, talvez mais do que em outras manifestações culturais, fazia muito tempo que não ficava adormecido no imaginário dos estilistas e das grifes que fazem a chamada temporada internacional.
Sim, o sonho muitas vezes conduzido e muitas vezes condutor da alienação que a moda é sempre acusada, faz parte da realidade fashion. Aliás o lúdico é vital em qualquer manifestação cultural, ele é que faz o vínculo e a mediação com essa tal realidade podendo ter o caráter naturalista ou não. Pense numa forma radical de se atrelar com a realidade: os documentários. Seja os de Michael Moore, Eduardo Coutinho ou os do cinema verité, todos eles, seja pelo enquadramento, pela montagem ou pelo discurso, apresentam traços lúdicos, pensando que na atividade lúdica [palavra que também significa jogo] não importa somente o resultado, mas a ação, o movimento vivenciado.
Pois bem, o que se viu nessa temporada foi um freio de mão em relação ao lúdico e ao sonho, a moda entrou em um estado de vigília preocupada com os números da economia. Em nome da chamada crise, economizou-se imaginação, marcas que sempre se mostraram ousadas parecem aflitas pra ter um pé mais comercial na passarela (que não é bem o melhor lugar pra esse tipo de proposta). Não existe nada de ruim em fazer uma coleção comercial, mas que o desfile se mostre longe dessa realidade. Parece que ao olharem pros bolsos, esqueceram de fantasiar as roupas como um todo, afinal moda tem esse quê de fantasia essencial.
Em um cenário que muitas vezes parecia um pesadelo, McQueen e Viktor & Rolf se destacaram indo contra o tsunami de bom senso econômico das marcas e apresentaram as loucuras e delírios que tanto amamos.
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Viktor & Rolf

Enquanto isso no Brasil, a Mafuá Jeans promete alçar vôo, Johnny Luxo e seus deliciosos delírios mostram que ainda é possível ser lúdico na moda, mesmo sem grana.

A RELAÇÃO ESTILISTA E MODELO: O CASO MARINA DIAS – LINO VILLAVENTURA

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foto – Fabio Porcelli.

Meio felina, meio silenciosa, angulosa como um dodecaedro que de muitos lados são bons pra pose e de cada ângulo uma nova faceta, foi assim que vi Marina Dias no meio da fumaça do Hell‘s Club quando ainda era dentro do Columbia. Ela me chamou muito a atenção assim como as Gêmeas. Aliás os personagens silenciosos sempre fazem barulho na minha cabeça.
Depois a vi em uma imagem de sonho, de dramaticidade no desfile do verão 1997 de Lino Villaventura. Com certeza uma das grandes imagens produzidas pela moda brasileira.
Clique aqui para assistir
Essa imagem poderosa de uma ninfa, meio vampira de lentes brancas é cheia de dramaticidade, mas não era o drama carregado de teatralidade e sim de peso cinematográfico. Parece ela, Marina, chamar a nossa atenção mental para o zoom, para o close em seu rosto, seus seios e depois se afastar em um plano americano, mais aberto.
Lino e sua equipe muitas vezes comentaram desse desfile como um marco, pois muitos críticos ficaram chocados e alegaram que talvez a apresentação estivesse mais para o teatro do que para um desfile de moda.
Flashback!
É importante lembrar que também na mesma época, 1996, Ronaldo Fraga faz a sua estréia com o desfile “Eu Amo Coração de Galinhas”. A carga teatral do desfile de Ronaldo leva a editora de moda Lilian Pacce a escrever na época sobre a coleção de Fraga que “moda não é teatro”. Com esse parênteses quero dizer que a idéia de teatralização ou melhor a busca de formas diferenciadas de apresentação de uma coleção estava no espírito de alguns criadores brasileiros na época.
Se para Fraga seus desfiles tinha algo de circense e portanto de teatral, já que a origem e, mais ainda, o desenvolvimento do teatro brasileiro tem certas ligações com o circo, a dramaticidade de Lino, mais barroca na época, tinha, muito por causa de fotogenia de Marina Dias, uma ligação com o cinema e porque não, em última instância com o cinema de Glauber Rocha, autor igualmente barroco [tenho essa tese faz algum tempo e gostaria de desenvolvê-la com mais precisão mas ainda me faltam dados e tempo].
Fast foward!
Penso que durante o período que Marina Dias participou com ênfase dos desfiles de Lino, ela foi sua melhor tradução. O último que me recordo de sua presença magnânima foi o do verão 2006, que na minha opinião [balizado pela mestre Regina Guerreiro] foi o grande momento do criador paraense nessa década. Em imbricadas, complicadas e perfeccionistas construções em patchwork, Lino apresentou uma mulher atemporal. Mesmo Marina não abrindo o desfile, foi ela que alcançou com maior êxito a imagem daquela coleção. Enquanto algumas exibiam uma teatralidade que à essa altura era mais do que esperada numa coleção de Villaventura, ela apenas mexe uma das mãos enquanto anda. Deposita todo o drama apenas nessa mão. E nos faz delirar nas muitas mãos que confeccionaram todo aquele sonho [Lino me contou que sonhou com toda a coleção], faz querer que nossa mão toque naquela roupa. Enfim, com o mínimo, um dos apredizados do cinema, nos diz o máximo.
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Sinto muita falta dela nos desfiles de Lino hoje. Nenhuma modelo entendeu tão bem o imaginário do estilista, ou melhor, nenhuma modelo filmou tão bem para essa mente única da moda brasileira.

Pós post – Cesar Fasina, o stylist do desfile de verão 1997 de Lino Villaventura, me escreveu e fez uma espécie de memorabilia:
Foi feito à seis mãos ( Lino, Jackson [Araújo] e eu) . As lentes de contato brancas tiravam a alma das modelos, um olhar frio, “ bailarinas congeladas”… Amo este desfie. Fiquei muito emocionado quando terminou, foi um árduo e apaixonante trabalho… Lembro da Berriel trocar todo um look branco pra um totalmente preto….com 5 pessoas ajudando na troca, fechando as dezenas de botões minúsculos….feitos a mão….nas costas….Lino é um grande estilista. Foi uma honra estar junto.

POSSIBILIDADES DE ENXERGAR UM DESFILE

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O desfile hoje é o ponto central da crítica de moda ou pelo menos aquilo que lhe dá mais Ibope. Sempre penso qual a melhor maneira de focá-lo? Existem mil direções, mas essa que Marco Sabino vislumbrou em seu blog é a pra mim a que mais funciona:

“Quando eu vejo uma coleção pela primeira vez, eu não me preocupo em ver os detalhes, reparar quantos bolsos a roupa tem, se vai ser usável ou não, nada disso. Aliás, eu não olho uma coleção e penso como uma mulher que terá a possibilidade de decidir se vestirá ou não aquilo ou algo do tipo que venha a aparecer mais no comércio.
Eu gosto mesmo é de sentir o IMPACTO visual da coleção que abrange as formas, a cartela de cores, enfim ter idéia geral do que desfilou. Após esta primeira impressão, investigo com cuidado, comparo e analiso. Escrevo o que penso. Depois até consulto outros editores de moda internacionais para ver qual a opinião que eles tiveram que, aliás, quase nunca é unânime.”

E o que vocês tentam enxergar primeiro em um desfile?

AVAFANDO=ABRAVANANDO COM AS ARTES PLÁSTICAS E COM A MODA

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Fábio Gurjão realizou sua performance-ação-desfile-ação comercial na última terça, dia 2 de dezembro, abrindo os trabalhos da a.v.a.f. [assume vivid astro focus] que desta vez vem com o nome Axé Vatapá Alegria Feijão e encerra em clima de grande festa com direito a trio elétrico sua intervenção na Bienal do Pixo no sábado, dia 6 de dezembro.
A princípio, o evento aconteceria no andar do vazio, mas acredito que por problemas técnicos + ideológicos, eles preferiram deixar o segundo andar para o autoritarismo da arte contemporânea de vassalagem. Pois bem, foi tudo no térreo mesmo e o clima era de galpão de Escola de Samba.
Enquanto sua ação era realizada ao passar do tempo (das 19 às 22 horas) – não se esqueça que além do desfile tem a ação dos fotógrafos, trilha e araras para a compra das roupas ali mesmo -, um carro alegórico era preparado por Eli Sudbrack, Silvia e equipe, a cantora Cibele Cavalli que virou Kivelle Bastos, a persona abravanada estava realizando ali uma mandiga-instalação e o talentoso Ed Inagaki, que montou seu Ateliê Abstração na paralela da ação de Fábio e sua FKawallys, mostrou uma camiseta com capuz que ele chamou de fantasmando e que também nos remete ao uniforme dos presidiários e/ou guerrilheiros – muito oportuno para esse momento portas fechadas da arte contemporânea de vassalagem ou aos fantasmas que rondam o andar do vazio.
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Buuuu Bienal
Já na entrada, um clima diferente daquilo que Denis Rodriguez também desenhou e era tão verdadeiro durante os dias de Bienal que antecederam a chegada dos avafanados=abravanados: a opressão dos seguranças [acredito que para combinar com o andar vazio e o autoritarismo de seus curadores].
O ar estava mais leve entre os seguranças e alguns até queriam se enturmar com os abravanados. Eles nem revistaram minha mochila…
Ao chegar, muita gente tirando fotos, e Fábio já nos mostrou a cadeira Fila A e cadeira de Imprensa pra gente sentar na passarela. Quer iconoclastia melhor que essa?
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Nossa, essa roupa é uó! Pena que esqueci meu bloquinho…
As coisas corriam soltas, algumas pessoas compravam as roupas na arara, outras cantavam as músicas do rádio, outras ficavam paisageando, Bianca Exótica fazia amizade com os bombeiros…
E foi assim, sem nenhum alvoroço, numa relax, numa tranquila e numa boa que Fábio Gurjão anarquizou com o mundo das artes plásticas e da moda.
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Ao vender as suas camisetas dentro de um espaço de arte, ele evidencia o jogo do comércio disfarçado em simulacros de “arte” feito pelas galerias, museus e bienais. A questão grife é tão mais importante na arte contemporânea de vassalagem que na moda. Afinal um Jeff Koons vale mais que um Marc Jacobs, não?
Existe um valor para aquilo que não tem valor – o espiritual da arte? Por isso seu preço será sempre alto conforme não o seu valor artístico mas seu valor de mercado – em contraposição a isso, as camisetas de artista de FKawallys eram baratíssimas, tudo 30 reais.
Sem falar da ocupação de um lugar sagrado das artes com um desfile de moda – considerado até pelos próprios críticos de moda (?) algo menor que a suprema arte.
Para a moda, ele trouxe orgulho e auto-estima. Não existe terreno mais almejado por jornalistas de moda, estilistas, stylists que o terreno das artes plásticas. Muito pelo valor [falso] e o status [de novo-richismo]que hoje as artes plásticas ganharam. Talvez porque lá o valor da grife [no caso o nome do artista] foi criada de maneira tão escondida e dissimulada que consegue iludir que estamos no terreno do espiritual e não do mercado.
FKawallys está fora dessa etiqueta e dessa lógica canhestra. Em nenhum momento ela se acredita menor que as artes plásticas, não procura como a maioria dos fashionistas aliar-se às artes para ganhar status, esse ISO de ignorância.
Se trabalha dialogando com as artes plásticas é em pé de igualdade. Ele não se acha inferior por fazer moda e muito menos por realizar camisetas [infelizmente considerada carne de segunda na moda].
Ao porpor um desfile em plena Bienal, ele sabe que aquele pode ser um de seus espaços, não o único. E ao vender seu produto que é o mesmo que está sendo desfilado tudo ao mesmo tempo agora ele critica a lógica da chamada imagem de moda tão difundida entre os fashionistas. Essa lógica: a grande parte das vezes o que se desfila não é o que se produz. Cria-se uma imagem falsa da marca, pois na loja temos, em geral, aquilo que é do mais comercial [de alguma forma ele dialoga com o excelente desfile Do Estilista para o verão 2009].
Agora o mais importante, ao fazer essa performance-ação-desfile-ação comercial que outros “artistas” também se acoplam, onde todos, público, visitantes, compradores, funcionários da bienal podem participar [ atentando ao detalhe que a Bienal é de graça], enfim, ali se realiza uma ação de inserção e inclusão. Ao final ele obtém uma obra verdadeiramente duchampiana onde todos que participam são artistas e estilistas ou melhor, vivem a arte como o mestre da roda de bicicleta sempre almejou!
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PS1: E o melhor, disse Fábio Gurjão o tempo todo como autor [não que ele não tenha participação decisiva] no texto por conformismo da linguagem que precisa nominar, mas sinceramente as fronteiras se romperam pois eu não sei se foi a a.v.a.f. , os abravanados, quem apareceu por lá para criar isso tudo que aconteceu no dia 2 de dezembro. Enfim, na realidade foi uma confluência de idéias e desejos!

CASA DE CRIADORES: O INFERNO SÃO OS OUTROS

Tudo começou no primeiro dia, logo no início. A intervenção/performance do Tudi Confusi não conseguiu se apresentar na abertura por problemas técnicos. André Hidalgo, o idealizador da Casa de Criadores, não se fez de rogado e no microfone falou que: “o problema era da mesa de som… DELES”, isto é, da marca.

Estava dada a largada para o “esse não é problema meu” que ganhou corpo e modelagem no 2º dia.

Começando pelo projeto L.A.B. que os fashionistas podem dizer que o problema é a falta de cuidado com o acabamento e os próprios designers reclamarem que a falta está na péssima educação de moda no país. Valêncio que é uma mulher fez um excelente exercício de exploração das possibilidades da alfaiataria, que para alguns é experimental demais e comercial de menos, um problema para esses alguns.

Tem também o Weider Silveiro que também acertou em cheio na alfaiataria das calças e bermudas, mas para muitos, as Brazil’s Next Top Model na passarela foi problema e algo dispensável, para outros foi uma solução para desviar atenção e apagar alguns looks mais fracos.

Já o talento de Rober Dognani foi muito criticado pelos especialistas de beleza por ter um make muito colado ao da última coleção da Dior. E muitos criticaram que por causa disso os críticos dessa área enxergaram que o desfile era completamente John Galliano para a marca forte. Um problema de detalhe que ganha inadvertidamente o todo.

A fofa estréia da Prints I Like teve o problema de faltar prints e deles serem um pouco mais ousados, ou seria porque faltou grana mesmo? Cada um fez sua aposta.

João Pimenta apresentou uma coleção coesa, inteira e seu crescimento cada vez aponta para uma possível saída do evento, para alçar viagens mais longes que a Nova Zelândia, um problema para o evento que tem como alegria e desgraça o papel materno de criar e jogar no mundo.

No fim, os problemas são de todos, de todos mesmo, fashionistas, críticos, editores, maquiadores, modelos, fotógrafos, estilistas, stylist, assessores, etc. Não adianta mais esse discurso que o inferno são os outros. E eu sou Dus Infernus!

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Ronalda, eu nunca te vi no Hell’s”

Luigi escreveu sobre o L.A.B. e os desfiles do segundo dia assim como as meninas do Oficina que com um olhar super generoso resolvem muitos problemas para o dia a dia da mulher que quer ser minimamente bem vestida a partir de peças de todos os estilistas que se apresentaram no segundo dia. Além disso, elas falam da presença das Brazil’s no evento.

Oliveros faz uma crítica pertinente ao evento e uma crítica amorosa a coleção de João Pimenta.

E eu peço e ninguém participa, a enquete fashion ainda está rolando!

CHALAYAN SE UNE A NICK KNIGHT PARA AVANÇAR SUA VISÃO DO FUTURO E DA MULHER

chalayan1.jpg  Hussein Chalayan verão 2008

Não é desta nem da histórica temporada de verão 2007 que sou um aficionado pelo anglo cipriota Hussein Chalayan. Seu fascínio pelo design e sua posição no debate das novas idéias da moda e por conseqüência das artes em geral faz do estilista uma personagem impar no mundo da moda e no mundo das idéias.A construção de seus excelentes vestidos, a importância do acessório como fator vital na composição do look e a integração tecido+roupa+tecnologia estão ali para não só construir uma imagem, mas sim criar um debate sobre ela.Seu projeto renascentista reatualizado em unir arte e ciência, no caso tecnologia, não é algo frio e programático e sim orgânico e visceral!Para o verão 2008, ele apresentou sua coleção de em uma galeria de arte em Paris, só que de vez passarela, Chalayan mostrou filme que fez com o fotógrafo Nick Knight e seu genial SHOWSTUDIO.

Dessa vez ele debate a feminilidade vista pelo signo da fluidez que ganha caráter etéreo e o mais importante, o estilista indica ao colocar laser nos vestidos que a fluidez não está no tecido e sim na alma das mulheres.

assista o vídeo Readings aka a coleção de verão 2008 de Chalayan

PARIS BERTHOLINOU!

A cidade luz sempre foi chegada em um pretinho básico e isso não mudou nessa temporada. Os tons terrosos, o preto e o branco continuam, mas faz muito tempo que não se via um verão tão colorido.

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Balenciaga verão 2008

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Comme des Garçons verão 2008

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Junya Watanabe verão 2008

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Undercover verão 2008

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Vivienne Westwood verão 2008

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Yohji Yamamoto verão 2008