Arquivo da categoria: cópia

AINDA SOBRE ORIGINALIDADE: COPIAR OU NÃO COPIAR, EIS A QUESTÃO

Acima é a campanha mundial que Ryan Mcginley – fotógrafo querido desse blog – fez para a Levi´s mundial “Go Forth”.

E abaixo a adaptação nacional da campanha.

Uma amigo ao ver as fotos me escreveu: “Sim, foi uma ‘adaptação’, que é o que as agências às vezes fazem, assim como a Dove, que fez a campanha com as mulheres reais nos EUA, e aí executaram o mesmo briefing aqui de um jeito cu! Com filmes p&b. cu, e fotos cu, e casting cu, essas coisas, que toca numa outra parte de algo que venho notando e vendo como verdade: o mercado publicitário brasileiro, que se acha tanta coisa (por todos os leões que ganha em Cannes) não preza pela estética das coisas e não tem tradição na parte imagética da coisa. Tanto que eu aposto que a grande maioria dos prêmios brasileiros são relacionados a “copy” (texto), e suas idéias, e nunca a direção de arte, que tende a ser genérica e pobre”.

Isso prova que a síndrome da cópia faz parte de um certo teor da nossa nacionalidade (não como algo no tempo, que se perpetua, mas sim no espaço, como uma ação que ocorre em todos os segmentos da sociedade brasileira), até os mais prepotentes da casta de brasileiros – os publicitários – e digo isso por ser assim que eles constroem as suas imagens, se equivocam. Ao afastar a ideia de copia, por prepotência manifesta e preferir a tal da adaptação, eles ainda se confinam no sentimento final da cópia e dos que copiam, a afirmação de inferioridade e incapacidade.

O correto seria testar algo totalmente inverso, quem sabe com as letras das pichações das nossas cidades, quem sabe apenas com o jogo de luzes de Ryan em diálogo com a luz chapada de Vidas Secas ou outro filme – apenas uma relação hipotética. Ou quem sabe copiando mesmo, como os jovens estudantes de artes copiam os clássicos para no futuro poderem se libertar deles.

O SAMPLER E A CÓPIA

É, eu sei, você vai dizer, lá vem esse assunto dus infernus de novo… Mas dê uma olhada nesses dois clipes.

Você acha que Madonna copiou o ABBA?
Estudando o hip hop para uns roteiros que estou terminando, me deparo com a questão do sampler e toda a discussão que “Planet Rock” gerou por samplear uma música importante e conhecida dos alemães do Kraftwerk, a “Trans Europe Express”.

A discussão é antiga na música e já foi resolvida – nada como o dinheiro. Hoje ninguém acha ou aponta um sampler como algo menor ou cópia. Até aliás tem seu charme samplear algo obscuro ou que na época era alternativo e só poucos conheciam.
Mas e o que a moda tem com isso? A questão da cópia é central na moda, apenas isso. E o que seria samplear em moda? Coloco essas questões para pensarmos juntos.

afrikaa-bambaataa
Afrika Bambaataa, o cara que deu um sentido nobre para a palavra cópia.

RUFOS, CÓPIAS, COLONIALISMO E PREPOTÊNCIA

download-2
Como disse um amigo: “Os rufos de jornal vêm com tudo”…
Na foto acima tem Beth Ditto para a “Dazed & Confused” de maio. Fizeram um rufo de jornal igual ao que Antonio Farinaci construiu para Lovefoxxx usar no show do Festival da Ilha de Wight, no Reino Unido no dia 06 de setembro de 2008. Infelizmente, na única foto da vocalista do CSS, com o rufo no palco, a produção já está meio se desmontando…
download-1
download
Sim, é cópia, está claro. O curto espaço de tempo entre as duas ações garantem o sentido de cópia hoje. E se “os rufos de jornal vêm com tudo”, as cópias continuam em alta.
Tenho sentido uma vontade da imprensa nacional de levantar a lebre que marcas estrangeiras estão nos copiando – exatamente dentro desse contexto de enxergar a cópia como algo que acontece em curto espaço de tempo, senão já vira referência, homenagem, citação, etc.
Marco Sabino em seu blog deu um alerta, devagar com o andor, pois uma coisa é numa mesma temporada surgirem desejos semelhantes, afinal todos meio que seguem os mesmos bureaus de tendências, com exceção dos legítimos criadores como a Prada que fazem seu próprio caminho – enfim, no fim o que existe é a cópia do que é dito como tendência. A outra é copiar coleções que se consagraram nas temporadas passadas recentes, e esse festival tem dominado as semanas de moda, apesar de todos falarem o contrário.
Sofremos de um colonialismo atroz, mas é importante saber o que é cópia e o que é sensacionalismo ou ufanismo.
Todos copiam, me parece, mas poucos assumem. Até porque copiam de referências claras e conhecidas. O bom copaidor, se é que isso existe, procura o underground para copiar como aconteceu no famoso caso do Nicolas Ghesquière, da Balenciaga. Mas teve a “ética” de assumir para a New York Times que realmente colou e plagiou um vestido do estilista Kaisik Wong, conhecido apenas das rodas fechadas na Califórnia dos anos 70. Agora você me pergunta, mas não poderia ser referência, citação? Não, pelo motivo das peças serem idênticas e não apenas um pouco semelhantes.
Ao assumir a cópia, o estilista da Belenciaga demonstra, mais do que tudo, prepotência. Acredito que Ghesquière pensava que nunca ninguém iria perceber a “referência”. Assim como de certa forma os rufos de Lovefoxxx foram vistos por poucos, em apenas um festival. Os stylists da revista deixaram se enganar pela “nova falsa modéstia”.

O ato de copiar tem sido uma discussão constante no blog. Mas já não a vejo de maneira plenamente negativa, aliás acho cada vez mais revelador ver a cópia e quem a copiou.

LINO VILLAVENTURA: AME-O OU DEIXE-O


Conheci Lino ainda em Fortaleza, lá pelo final dos anos 80. Ele já era um estilista super respeitado, Cristina Franco – a entidade mor da moda naqueles tempos e ainda referência absoluta pra minha geração – o adorava, mas sinceramente não tinha a menor idéia de como era a sua roupa e quão importante ele era. Sem esse aval, foi fácil e sem barreiras dar risadas, conversar e tirar umas fotos absurdas com ele e a Ines – sua mulher na época – na casa de um amigo em comum. [Ainda digitalizo essas fotos]
Já em São Paulo, nos anos 90, seus primeiros desfiles causaram sensação e comoção pela carga de brasilidade. Uns amavam outros odiavam, mas eram sempre um acontecimento muito especial um desfile do Lino. Lembro que na época, teve até uma rixa silenciosa entre ele e Alexandre Herchcovitch. Não sei bem se isso era claro entre eles, mas tinha uma disputa de torcidas tipo Marlene e Emilinha Borba pra saber qual era o maior estilista brasileiro. Memórias provincianas!
O que é inegável é que seu barroquismo, seu trabalho feito à mão e principalmente seu estilo único, sem seguir quaisquer tendências o fazem uma figura ímpar na moda brasileira.

No ano passado, ele comemorou 30 anos, fiquei de escrever algo, fazer uma relação mais séria do barroco no Brasil, Glauber Rocha,etc mas minha ambição me afundou.
Do mesmo jeito que nunca consegui ir muito além em escrever sobre sua coleção de verão 2006 que acho genial (mas Regina Guerreiro fez isso pro mim)
717198
Uma vez em conversa num bar, o diretor de desfiles Zee Nunes, um cara que admiro a inteligência e a visão de moda e além dela disse que pode-se gostar ou não de Lino Villaventura, mas é inegável que ele é um criador. E isso no mundo da moda abarrotado de cópias e mais cópias não é pouca coisa não.
Salve Lino!
dsc00170

CRISE?

De repente parece que sou um ser alienado, que não acredito em crise. Numa inversão nefasta do jogo, a alienação da cópia de idéias de textos de Menkes e senhorinhas importadas virou a minha alienação, nesse momento que a moda parece acordar.
Sim, novamente a crise existe, mas o que existe de mais revelador é a nossa dependência textual, o nosso colonialismo. Se queremos resenhar moda e nas resenhas acusamos a torto e à direita a cópia dos estilistas nacionais que direito temos nós de copiarmos os resenhistas internacionais. Usar a crise pra explicar o mundo hoje é banal e diz muito pouco. Mudanças de comportamento já estavam sendo sentidas antes mesmo da anunciada crise.
Não que a palavra crise seja banida dos textos, longe disso, mas tentar refletir com mais parcimônia e menos histrionismo esse momento que vivemos hoje.
Foi só isso que quis escrever naquele post, pois no fim o que eu quero é mais poesia pessoal, mais buscas que façamos dentro nós mesmos, não nos sites de buscas procurando o tempo todo ver o que o “povo lá de fora” está pensando. Não que isso tenha que ser banido também, pelo contrário, que esteja a serviço do nosso pensamento. Chega de reproduzirmos como papagaios algo que veio com o aval de “internacional”.
Assim como utilizo esse trecho de “Aula” de Roland Barthes:
Que uma língua, qualquer que seja, não reprima outra: que o sujeito futuro conheça, sem remorso, sem recalque, o gozo de ter a sua disposição duas instâncias de linguagem, que ele fale isto ou aquilo segundo suas perversões, não segundo a Lei

PS: Tem um texto excelente de Marcia Mesquita que levanta pontos interessantes e desdobramentos do que escrevi aqui.

O TEMPO FECHOU NO CLARO RIO SUMMER

Se acreditamos que se uma semana de moda não necessariamente precisa trazer grandes novidades – papel que só as mais importantes devem realmente ter como foco principal – mas se trouxer, excelente! -, pelo menos que ela sirva para bons negócios, ou no mínimo para agitar o calendário de eventos culturais de uma cidade. Com muito esforço e boa vontade, talvez apenas o último ítem foi parcialmente alcançado pelo Claro Rio Summer.
Sobre o primeiro tópico, a inovação em moda ficou difícil porque nem moda eles apresentaram. O comentário geral era exatamente esse como bem escreveu Jorge Wakabara. Sobre o segundo ítem, os negócios, eles não aconteceram como bem relatou Milene Chaves. Sobre o terceiro e último ítem, considerando que festas nababescas podem ser consideradas eventos culturais, já que os desfiles de tão fechados estavam vazios, podemos dizer que talvez o CRS cumpriu o velho ditado: “Comeu mortadela e arrotou peru”.
Como um evento com os grandes nomes da moda-praia brasileira foi um verdadeiro fiasco? Acredito que eles perderam o foco com tanta champagne e esqueceram de tomar anti-ácido, enfim, mal começou e em todo fashionista com um mínimo de neurônio, o CRS se mostrou uma grande ressaca. Salvo algumas exceções como bem reportou Alcino Leite referindo-se à falta de foco.
Talvez a atenção dada ao evento foi feito “pela força da grana que ergue e destrói coisas belas” porque realmente, de fundo, ele se equivale a um Capital Fashion Week ou um Dragão do Mar Fashion, semanas de moda que ocorrem respectivamente em Brasília e Fortaleza. Mas trouxe os convidados internacionais e nós como verdadeiros tupiniquins nos curvamos a esse fato com algo realmente importante.
claro
Se moda é imagem, o mais lamentável do CRS não foi não apresentar moda, mas sim fazer um retrocesso da imagem do país pra inglês ver, confirmando a farseta para todos eles a ponto de todos estrangeiros declararem que era isso mesmo que esperavam do Brasil.
Samba, caipirinha e felicidade são elementos forjados na era getulista – década de 1930 – para nos dar uma identidade nacional, é um projeto altamente elaborado e ideologizado que as décadas seguintes tentaram ou combatê-las ou reatualizá-las.
Todo esse aparato da imagem e identidade nacional evoluiu muito desde então e mesmo na moda, até então insipiente no Brasil, teve seus movimentos que, ou contestaram essa imagem getulista como as coleções “de protesto” de Zuzu Angel ou a reatualizaram com novos elementos como a Forum na década de 90 e sua famosa procura da brasilidade no Cinema Novo e na arquitetura de Niemeyer.
Nesse pensamento que acredita que esse é o modo de vida do brasileiro, grandes estilistas estarão sempre de fora porque já transcenderam esse estágio, aliás como toda a sociedade brasileira. Não há espaço para a genialidade de Gloria Coelho, Reinaldo Lourenço e Alexandre Herchcovitch no CRS por enquanto. Só há espaço para o ufanismo com bem espetou Carol Vasone. Brassssssssssiiiiiiiiillllllllllllll!
Por fim, refaço o pensamento de Sarah da Colette que comentou que é melhor apresentar clichês do que copiar a moda americana. Mas Sarah, o que você viu foi uma cópia do clichê!

AINDA SOBRE AS CÓPIAS NO PÉRGAMO


não é Veneza!

O problema da cópia é algo crucial não só na moda, mas em diversas manifestações no Brasil. É histórico o nosso sentimento de inferioridade, mas também em questões individuais, elas podem revelar aquilo que hoje chamam de “angústia da influência”. Já refleti sobre essa angústia e também sobre a questão da réplica e da cópia – que entra no terreno da pirataria, ou complexos e complexidades
Ao visitar o Pérgamo e sua fantástica coleção de arte grega em Berlim, tem uma parte muito interessante, uma ala só de cópias romanas da arte grega. Eles copiaram tudo que podiam pra poder ter algo original ou que fosse reconhecida como arte romana, mesmo que filiada aos gregos. Foi assim também com a moda americana, ela cansou de copiar a européia até achar algo que a identificasse: no caso o casualwear e o sportwear. Talvez o copiar a exaustão possa também ser um dos caminhos para uma criação autônoma.


qual é original e qual é cópia?

VENEZA E AS CÓPIAS


ocidente-oriente

Do mesmo jeito que todo muçulmano deve ir um dia na vida para Meca, acho que os ocidentais deveriam ir pelo menos uma vez a Veneza. Essa foi minha segunda vez e acho que adoraria voltar mais.

Veneza, a Meca do Ocidente
Além de toda a beleza cenográfica, além de todos os tons de terrosos que tanto nos encantam quando vemos um quadro de Tiziano, além de todas as ruas e vielas e canais, existe uma cidade. Uma incrível cidade que não à toa é sede de uma importante Bienal de Arquitetura.
A cidade de certo modo está construída, a eterna Sereníssima República ninguém mexe – pelo menos nas fachadas -, até por isso, como observou Eduardo Rosa, meu grande amigo e arquiteto, as construções mais contemporâneas sejam túmulos e capelas no famoso cemitério da cidade. Mas o diálogo com o espaço faz de Veneza uma grande esfinge arquitetônica, pronta pra te devorar ou devorar-se em meio a tantos turistas.
Uma das instalações – se assim posso chamar – mais interessantes da Bienal de Arquitetura é um espaço que foram colocados uns bancos entre duas telas que representavam uma gôndola. Elas projetavam ora imagens de Veneza ora imagens de lugares como Las Vegas, Tóquio, etc que construiram uma cenografia-cópia da cidade de Venetto.
De alguma forma Veneza foi uma matriz desejada e copiada e entendi melhor a questão da cópia além da visão extremamente negativa que tinha sobre o ato de copiar.
Primeiro pra mim copiar era se apropriar de uma idéia original, tentar roubá-la, massificá-la, mas penso hoje que além disso ela é também difundir essa primeira idéia.
Depois, cópia pra mim representava e ainda representa um senso de inferioridade tremendo. A cópia escancara o complexo de inferioridade latente de quem copia. Vendo as réplicas de Veneza, penso que sim, existe inferioridade, mas também existe a sinceridade de quem copia, algo como a sussurrar pra nós: “Eu gostaria de ser assim e pelo menos eu tentei mesmo tendo fracassado”. Até porque Veneza não é apensa essa cenografia que imprime tão forte nos cartões-postais, existe a cidade dentro dela.
De muitas formas, existe muitas verdades originais em uma cópia!

apesar dos clichês, Veneza é uma cidade…

… com as contradições – espaciais e simbólicas- típicas de uma cidade

ORIENTE-SE RAPAZ!

A ORGANICIDADE NA CRIAÇÃO BRASILEIRA

Alguns teóricos gostam de apontar uma certa dificuldade da forma na arte feita no Brasil, seja nas artes plásticas, seja no cinema, ou na moda. Essa dificuldade muito advinda de uma situação de colonialismo cultural (ainda se usa esse termo?) e como conseqüência a expansão da cópia.

Em cinema, essa discussão, acredito, esteve muito avançada a ponto de Paulo Emílio Salles Gomes, já na década de 1960, admitir que a nossa dificuldade e nosso erro na hora de copiar é que nos dava uma certa identidade.

Mas o que me chama muito atenção ao meu olhar é uma certa dificuldade do rigor em função daquilo que chamo de organicidade da forma.

Em artes plásticas o exemplo é claro, o esforço da arte concreta ao exercício de uma forma rígida não conseguiu aqui o rigor que em outros lugares, logo vieram os neo-concretistas pedindo um certo relaxamento dos dogmas. O mesmo são as curvas de Niemeyer em relação a escola modernista européia de arquitetura.

Esse embate entre a lição do Ocidente, o racionalismo e uma certa organicidade na forma deixando até ela perto da imperfeição faz para mim um grande traço da criação brasileira em todas as áreas.

Acredito que não precisamos aval do estrangeiro, mas nesse caso, a Vogue Japão olhou para a criação no país da mesma maneira como eu acredito que ela é mais contundente e verdadeira.

Basta lembrar da quebra paradoxal da bossa nova , ou sua organicidade em relação tanto à cadência do jazz como do samba. E para falarmos do presente: Gisele com seu nariz e curvas é uma das provas vivas do que escrevo. 

O BRASIL NÃO REALIZA MAIS CÓPIAS EM NENHUMA ÁREA CULTURAL

1º de abril!!!!!!!!!!!!!!!!!